A INFLUÊNCIA DA BOLSA AMERICANA NA ECONOMIA DOS PAÍSES EMERGENTES

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1 A INFLUÊNCIA DA BOLSA AMERICANA NA ECONOMIA DOS PAÍSES EMERGENTES JOÃO RICARDO SANTOS TORRES DA MOTTA Consultor Legislativo da Área IX Política e Planejamento Econômicos, Desenvolvimento Econômico, Economia Internacional, Finanças em Geral MAIO/2000

2 Câmara dos Deputados. Todos os direitos reservados. Este trabalho poderá ser reproduzido ou transmitido na íntegra, desde que citados o(s) autor(es) e a Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. São vedadas a venda, a reprodução parcial e a tradução, sem autorização prévia por escrito da Câmara dos Deputados. Câmara dos Deputados Praça dos 3 Poderes Consultoria Legislativa Anexo III - Térreo Brasília - DF 2

3 3 1. INTRODUÇÃO O funcionamento dos mercados de capitais, sujeitos a flutuações bruscas nos preços dos ativos, que provocam instabilidade no lado real da economia, tem-se tornado objeto de preocupação das autoridades econômicas em todo o mundo. O processo de globalização e a crescente interligação dos mercados financeiros a nível mundial ampliam a possibilidade de propagação das crises, em função de comportamentos sincronizados de investidores que atuam em escala mundial. Além disso, torna-se mais difícil a ação das autoridades financeiras domésticas no sentido de refrear estes movimentos, dado o enorme volume de recursos envolvidos e as estratégias globalizadas de alocação de capital que regem as decisões dos investidores. A evidência recente indica que, de fato, a instabilidade dos mercados financeiros de alguns países, mesmo aqueles com pouco peso na economia mundial, desencadeou movimentos de reação que afetaram outros mercados, ainda que maiores e situados em nações mais desenvolvidas. Outra evidência foi a de que as economias emergentes sofreram maior impacto doméstico da crise financeira internacional, especialmente quando esta se origina nos países mais desenvolvidos, como nos Estados Unidos. Tal é a situação da recente instabilidade nas Bolsas de Valores americanas, em especial a que negocia ações de empresas ligadas ao campo da alta tecnologia a NASDAQ, cuja queda expressiva provocou retração generalizada das bolsas em todo o mundo, aumento da percepção de risco por parte dos investidores e receios de que haja impactos negativos na economia mundial, especialmente nas economias de países emergentes como o Brasil. 3

4 4 De fato, apesar de vir-se inserindo em um processo de recuperação econômica apoiada na melhora de seus fundamentos fiscais, o País vem enfrentando dificuldades a partir da deflagração da crise na bolsa americana, em especial no que se refere à redução das taxas de juros (processo temporariamente interrompido) e à administração da taxa de câmbio, despertando receios sobre um possível recrudescimento da inflação ou quanto à redução das expectativas de crescimento da economia brasileira. Para melhor compreender como se dá este processo, de maneira esquemática, optamos por dividir os impactos sobre as variáveis macroeconômicas dos países emergentes, advindos de flutuações nas bolsas americanas, em dois tipos: i) Impactos Diretos: efeitos de curto prazo decorrentes de uma realocação de ativos financeiros, tanto a nível doméstico norte-americano quanto a nível internacional. Tal realocação provoca flutuações em diversos mercados, incluindo os de renda fixa e títulos públicos, e afeta variáveis de curto prazo, como as taxas de juros e as taxas cambiais de vários países; ii) Impactos Indiretos: efeitos de médio e longo prazo nas economias reais das nações afetadas, que alteram perspectivas de crescimento, balanças de comércio, taxas de investimento e nível de poupança. Analisaremos a seguir, de maneira mais detalhada, cada um desses efeitos. 2. IMPACTOS DIRETOS DA QUEDA NAS BOLSAS AMERICANAS O canal direto de transmissão das flutuações do mercado de capitais para as demais variáveis da economia resulta das reações de curto prazo dos investidores a tais flutuações. A realocação de ativos financeiros a partir da mudança na percepção de riscos provoca um brusco movimento de capitais, que migram das bolsas para investimentos considerados menos arriscados, impactando diretamente os seus preços. Valem as seguintes considerações: i) aumento da volatilidade das bolsas: o preço das ações reflete, de maneira geral, a expectativa de retorno das empresas, conceito que se firma a partir de variáveis objetivas, como desempenho passado, contratos firmados, etc, e variáveis subjetivas, como possibilidade de lançamento de novos produtos, valorização da marca, evolução gerencial, etc. Qualquer alteração nestas expectativas altera os preços das ações. Quando uma bolsa sofre queda generalizada a partir da revisão das expectativas, como foi o caso da NASDAQ, o mercado perde a referência da situação que dava base para os preços. Os investidores, então, tendem a um comportamento errático, buscando uma nova referência confiável, movidos pelo espírito especulativo, gerando grandes flutuações tanto de alta, como de baixa, até que o consenso se estabeleça, gerando um novo patamar de preços para as ações. A esta característica dá-se o nome de volatilidade. A volatilidade aumenta a percepção de risco do mercado, afastando investidores com menor propensão ao risco para outros investimentos, considerados menos arriscados; ii) migração de ativos das economias emergentes: a migração de investidores das grandes bolsas internacionais para ativos menos arriscados provoca, imediatamente, queda das bolsas dos países emergentes, seja pela generalização do sentimento de aversão ao risco, seja por transferências 4

5 5 de recursos aplicados nas bolsas domésticas para cobrir perdas em outras bolsas. Vale enfatizar que tal processo, de cunho profundamente psicológico, acaba por estender a aversão ao risco até mesmo aos investimentos em títulos de renda fixa de mercados emergentes, o que implica exigência de maior prêmio de risco para aplicações em tais mercados; iii) tendência à elevação das taxas de juros nos países emergentes: isto se dá em decorrência do fenômeno detalhado no item anterior. No caso brasileiro, por exemplo, os investidores especialmente os internacionais - passam a exigir maior prêmio de risco para manter suas aplicações em renda fixa, o que significa, na prática, a necessidade de interrupção, pelas autoridades monetárias, da trajetória de redução nas taxas de juros, mesmo com a queda da inflação. Caso isso não ocorresse, a atratividade dos títulos brasileiros se reduziria ainda mais, com impactos negativos no ingresso de capitais externos e, conseqüentemente, no financiamento do desequilíbrio do balanço de pagamentos; iv) tendência à desvalorização cambial nas economias emergentes: a pressão sobre o câmbio das economias emergentes é imediata, a partir da fuga de capitais aplicados internamente para mercados mais seguros. Isto aumenta a demanda por moeda estrangeira, pressionando as taxas de câmbio, como vem ocorrendo no Brasil. Na realidade, o aumento da saída de capitais, como vimos, pressiona o câmbio e só pode ser atenuada ou neutralizada via elevação (ou não redução, no caso brasileiro) das taxas de juros. A compatibilização dessas duas taxas a de câmbio e a de juros de modo a, de um lado, impedir o desequilíbrio no balanço de pagamentos e, de outro, conter uma explosão inflacionária, é o grande desafio das autoridades econômicas internas, no curto prazo. 3. EFEITOS INDIRETOS DAS QUEDAS NAS BOLSAS AMERICANAS O canal indireto que impacta as economias emergentes a partir da queda nas bolsas americanas se dá, pela alteração, a médio e longo prazos, do comportamento das variáveis reais da economia. A rigor, os efeitos reais que as flutuações do mercado acionário americano terão naquela economia acabarão por determinar os impactos nas demais nações do mundo, em particular, nas economias emergentes. Valem as seguintes considerações: i) as ações são um ativo importante na composição do patrimônio das famílias e das empresas americanas: a maior preocupação quanto à queda das bolsas americanas reside no fato de que, por tradição cultural e pelo ótimo desempenho desses mercados na última década, as ações passaram a ser parte importante da riqueza da sociedade americana. Isto significa que as bolsas impactam de maneira significativa a economia real nos EUA, tanto para melhor, quando as bolsas crescem, como para pior, quando se retraem de maneira permanente. Se a queda das bolsas americanas for realmente entendida como uma aterrissagem da exuberância irracional, nas palavras de Alan Greenspan, presidente do Banco Central americano (Federal Reserve), a médio prazo diminuirá de maneira expressiva a capacidade de consumo e de investimento daquela economia, o que impactará toda a economia mundial; ii) as exportações dos países emergentes para os EUA serão prejudicadas: na hipótese de redução da demanda nos EUA, pelo efeito descrito acima, reduzir-se-ão as importações daquele país, o que afeta diretamente o Brasil, pelo fato de os EUA serem o maior importador dos produtos brasileiros. A perspectiva colide com as intenções e a necessidade de expansão das exportações brasileiras, para redução do déficit no balanço de pagamentos. A rigor, ficaria prejudicada a estratégia de superação da crise e retomada do desenvolvimento econômico, apesar da melhora nos fundamentos internos da economia brasileira; 5

6 6 iii) as expectativas negativas realimentam a percepção de risco das economias emergentes: um efeito de médio e longo prazo que prejudica as economias emergentes é a consolidação, por parte do investidor externo, da percepção de risco dessas economias, em função das expectativas negativas derivadas das causas de curto e longo prazos citadas anteriormente. Neste caso, entra-se em um círculo vicioso, já que as variações de curto prazo aumentam o risco real dos emergentes, o qual, por sua vez, realimenta a noção de risco, por parte do investidor externo, agudizando e perpetuando um processo de saída de capitais e de recusa a investir nessas economias. Este processo acaba por exigir maiores sacrifícios de superação por parte das economias emergentes; iv) a superação da crise exigiria mais sacrifícios dos países emergentes: como mencionado no item anterior, com uma restrição externa forte sobre o financiamento das economias emergentes, fica prejudicada sua capacidade de recuperação. Os esforços de ajuste fiscal interno, de aumento de produtividade, de elevação das exportações e de controle inflacionário têm que ser ainda maiores para a obtenção de um resultado de crescimento econômico idêntico ao que poderia ser obtido com menor sacrifício em uma situação onde a conjuntura internacional fosse mais favorável. Qualquer deslize, nesses momentos, terá o efeito de piorar ainda mais a situação externa. Enfim, mais trabalho e menos retorno para todos

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