ESTUDO SOBRE A AGREGAÇÃO DE VALOR À APP URBANA ATRAVÉS DA GESTÃO AMBIENTAL INTEGRADA. Poliana Risso da Silva 1. Nemésio Neves Batista Salvador 2

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1 ESTUDO SOBRE A AGREGAÇÃO DE VALOR À APP URBANA ATRAVÉS DA GESTÃO AMBIENTAL INTEGRADA Poliana Risso da Silva 1 Nemésio Neves Batista Salvador 2 Guilherme Shoiti Ueda 3 RESUMO: Como reflexo do processo de êxodo rural e da conseqüente urbanização, ambos acelerados, ocorridos durante o século XX, o meio urbano vivenciou uma sobrecarga na infra-estrutura urbana e a ocorrência de ocupações e uso do solo irregular sobre áreas de preservação permanente (APP) urbanas, responsáveis por problemas sócio-ambientais presentes ainda na atualidade. A hipótese levantada para a ocupação desordenada em APP foi a de que estas áreas não apresentam valor ambiental agregado a elas. O artigo objetivou discutir sobre o valor dado às APP urbanas, como incidiram as transformações de valor, a inter-relação do valor agregado à forma de gestão urbana e como a Gestão Ambiental Integrada pode contribuir para a valorização das APP no meio urbano. Como método adotou-se um estudo teórico a partir de uma revisão bibliográfica sobre o processo de transformação de valor das APP urbanas e como a forma de Gestão Ambiental Integrada influencia na agregação de valor. Foram, ainda, realizadas discussões e análise crítica com profissionais envolvidos com a gestão do ambiente urbano. Os resultados obtidos apresentaram uma transformação do valor agregado às APP, de ambiental para de mercado, em paralelo aos processos de urbanização e ocupação ocorridos. O estudo ainda possibilitou a verificação da responsabilidade do modo de gestão urbana sobre a agregação de valor ambiental às APP urbanas e destacou a Gestão Ambiental Integrada como alternativa em favor das APP como áreas de preservação. Palavras-chave: APP urbana, agregação de valor, gestão ambiental integrada. 1 Mestranda Poliana Risso da Silva, Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Programa de Pósgraduação em Engenharia Urbana - PPGEU, 2 Prof. Dr. Némésio Neves Batista Salvador, Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Departamento de Engenharia Civil-DECiv, 3 Especialista Guilherme Shoiti Ueda, SENAI, MBA em Gestão de Obras,

2 1. INTRODUÇÃO: O Brasil foi palco, durante a segunda metade do século XX, de um desenvolvimento industrial acelerado, de um êxodo rural motivado pela elevada demanda por mão de obra operária nos principais centros urbanos, pela constituição de mercados fornecedores e consumidores, e principalmente, pela esperança de melhoria da qualidade de vida, vinculada a estes fatores. Para as pessoas daquela época, assim como para as de hoje, a mudança para a cidade representava a possibilidade de viver uma realidade caracterizada pela eliminação ou minimização das dificuldades do seu dia-a-dia (FERNANDES, 2000 apud FELÍCIO, 2007). Neste período, de 1950 a 2000, a população urbana passou de 18,8 milhões (36% da população total), para 138 milhões de habitantes (81% da população total), havendo um crescimento em torno de sete vezes em relação ao valor inicial. Este crescimento, segundo Menegat e Almeida (2004), transformou cidades de pequeno em médio porte e de médio em grande. A Pesquisa de Informações Municipais realizada pelo IBGE em 2001 afirma que, em 1950, apenas três cidades possuíam mais de 500 mil habitantes (Rio de Janeiro, São Paulo e Recife) e oito tinham entre 100 e 500 mil. Já em 1991, havia 25 cidades com mais de 500 mil e 162 entre 100 e 500 mil habitantes (IBGE, 2001). Dessa maneira, distingue-se um crescimento direcionado para as regiões periféricas às metrópoles e, principalmente, para as cidades de médio porte. Conforme Tucci (2002), as estatísticas demonstram que as cidades acima de um milhão de habitantes estão crescendo a uma taxa anual média de 0,9%. Em contrapartida, as cidades entre 100 e 500 mil crescem 4,8% (TUCCI, 2002). Com esta expressiva expansão urbana, a relação de oferta e procura por trabalho nas cidades sofreu um desequilíbrio. Houve elevada demanda social em oposição a uma baixa absorção de mão de obra. Segundo Santos (1978), a economia capitalista urbana não estava em condições de acolher a grande quantidade de migrantes (SANTOS, 1978). Atrelada a esta situação, a ausência de planificação política colaborou para a ocorrência de uma ocupação e uso do solo desordenados, com sobrecarga na infra-estrutura existente e segregação sócio-espacial caracterizada por desemprego crescente, falta de acesso à terra e à renda, e principalmente, pelo surgimento de periferias pobres e ilegais, com carência de infra-estrutura urbana e serviços públicos. As chamadas cidades informais são, hoje, uma realidade em quase todas as cidades brasileiras. Estimuladas por latifundiários censuráveis, as ocupações irregulares, segundo a pesquisa realizada pelo IBGE em 2001, estão presentes em 97% das cidades com mais de 500 mil habitantes, em 80% das cidades médias entre 100 e 500 mil, em 45% daquelas entre 20 e 100 mil e até mesmo em 20% das cidades com menos de 20 mil habitantes. Dessa maneira, problemas antes concentrados nas grandes metrópoles foram sendo ampliados para as demais cidades, de médio e pequeno porte. O agravante da situação é a localização destas ocupações, pois muitas são em áreas de mangues, em topos de morros e em margens de corpos d água, ou seja, em áreas ambientalmente frágeis, consideradas Áreas de Preservação Permanente (APP), expondo uma proporção substancial da população a riscos naturais e perigos ambientais induzidos por suas ações antrópicas. E ainda, por serem destituídas de regulamentos urbanísticos apropriados para ocupação, estas áreas de preservação não seguem padrões mínimos de habitabilidade. Problemas de saúde pública, mortes por desmoronamento, ausência de luz, de água e esgoto tratado, são fatos que comprovam essa deficiência. A partir destes dados foi levantada a hipótese de que a APP, se comparada às áreas urbanas com outras titulações, possui elevado número de ocupações irregulares, devido à ausência de valor ambiental agregado a ela. As margens de cursos de água, por exemplo, apresentam grande importância para o meio ambiente. Nelas se encontram as matas ciliares - agentes estabilizadores - responsáveis pela interface entre os ecossistemas aquático e terrestre, e ainda pela filtragem natural da poluição difusa, que contribui para a diminuição de erosões de ribanceiras e de assoreamentos de rios; para a conservação da qualidade e do volume das águas e, conseqüentemente, para o equilíbrio 2

3 da bacia (UIEDA, 2004). Todavia, dentre as áreas de APP, esta é a mais afetada pelas ações antrópicas, principalmente sob o aspecto de extensão de área impactada. Por isso, acredita-se na justificativa de que seu valor ambiental é insuficiente para barrar o processo de ocupação desordenada em sua direção. Assim, o objetivo deste artigo foi discutir, com base em revisão bibliográfica, sobre o valor atribuído às APP, como incidiram as transformações de valor, a inter-relação do valor agregado às formas de gestão urbana e, por fim, como a Gestão Ambiental Integrada pode contribuir para a valorização das APP no meio urbano. 2. DESENVOLVIMENTO: 2.1. Metodologia: O trabalho foi desenvolvido através de um estudo teórico, o qual contou com uma revisão bibliográfica sobre o processo de transformação de valor das Áreas de Preservação Permanente (APP) no meio urbano, e sobre como a forma de gestão urbana, incluindo a Gestão Ambiental Integrada, defendida por Menegat e Almeida (2004), influenciam na agregação de valor. Além da revisão bibliográfica, para o artigo, foi realizada uma análise crítica sobre os temas expostos, em parceria com o orientador, engenheiro civil doutor, envolvido com a gestão do ambiente urbano. A pesquisa teve início com o levantamento, em literatura relacionada à APP, de referências às formas de agregação de valor. Os dados obtidos nesta primeira etapa, junto às discussões com o orientador, advertiram sobre a necessidade de se também pesquisar sobre as formas de gestão urbana. Dessa maneira, as revisões bibliográficas foram feitas sobre os dois temas, recolhendo dados, por meio de pesquisas na biblioteca comunitária da Universidade Federal de São Carlos UFSCar e em bibliotecas digitais: SciELO e periódicos CAPES. Durante a análise crítica dos temas, observou-se a inter-relação entre a transformação do valor agregado às APP urbanas e a forma de gestão vigente. A gestão ambiental integrada foi assim incluída, também como objeto de estudo, por apresentar alternativas para a transformação do valor, hoje agregado às APP urbanas, de maneira a contribuir para a sustentabilidade sócio-ambiental no meio urbano Revisão Bibliográfica e Análise dos dados: Com base nos dados obtidos através da revisão bibliográfica sobre o material teórico reunido, foi identificado um elevado reconhecimento da importância do ambiente natural para o homem, durante longo período de sua história evolutiva. Na pré-história, do paleolítico ao neolítico, os recursos naturais eram tidos como fundamentais para a sobrevivência da espécie humana: todos os métodos utilizados para este fim estavam diretamente relacionados ao ambiente natural. A dependência da espécie humana em relação à Natureza e sua importância para o equilíbrio dos ecossistemas eram situações esclarecidas para o Homem. Ontem, o homem escolhia em torno, naquele seu quinhão de Natureza, o que lhe podia ser útil para a renovação de sua vida: espécies animais, árvores, florestas, rios, feições geológicas. Esse pedaço de mundo é, da Natureza toda, o que ele pode dispor, seu subsistema útil, seu quadro vital (SANTOS e CARVALHO, 2007). Seguindo o processo evolutivo, observou-se que, a partir do neolítico, o homem passou a interferir nos ciclos ambientais com maior freqüência e, mais tarde, com o início das transações comerciais e a instauração do capitalismo a relação homem-natureza se alterou por completo. Outro 3

4 contexto se fez presente, tudo se transformou em mercadoria. Sob esta condição, a Natureza passou a ser utilizada de forma indiscriminada como objeto das ações humanas. O desenvolvimento industrial aliado à urbanização acelerada, ambos ocorridos, principalmente, a partir da segunda metade do século XIX, foram apontados como agravantes à interferência humana sobre o meio ambiente. Tal julgamento baliza-se nas referências que confirmam que na época, intervenções no meio natural eram vistas como progresso e desenvolvimento (MELLO, 2005), de modo que os processos espaciais de ocupação humana se davam sempre atrelados à presença da natureza, em especial dos corpos d água, quer sejam rios, lagos, lagoas ou mares. Mello (2005) reconhece várias justificativas para essa ligação. A proximidade à água diz respeito desde ao atendimento de necessidades básicas do homem, como o abastecimento e higiene pessoal, a funções de transporte, pesca, recreação, bem como à valorização dos aspectos estéticos e de beleza cênica. Relaciona-se também a fatores simbólicos, ritualísticos, a água é um elemento universal de conexão do homem com a natureza (MELLO, 2005). Todavia, como exposto por Bittar (2003), o espírito colonizador humano confundiu empreendedorismo com destruição, exploração com exaustão, tornando o urbano antônimo do que é natural e não do que é rural, e isto porque o urbano converteu-se no símbolo do artificialismo que expropria toda e qualquer manifestação natural (BITTAR, 2003). Assim, surgiram tensões e conflitos quanto ao uso e o valor do espaço urbano, de tal modo que, durante este período, não foram previstos os danos que as ações antrópicas poderiam gerar no futuro. De um conjunto de forças sobre as quais o homem não tinha domínio, a natureza passou a ser objeto passível de manipulação nas práticas profissionais de intervenção no espaço, em atendimento aos anseios funcionais e estéticos da sociedade (ALVES, 2007). Em um segundo momento, a natureza, especialmente a Área de Preservação Permanente, passou a ser ocupada por população de baixa renda que, por meio da autoconstrução, consolidou suas moradias, tendo como regra a desconsideração da paisagem e de seus valores estéticos, simbólicos e ecológicos (ALVES, 2007). Dessa maneira, a partir de Mello (2005), foram identificadas no Brasil, duas diretivas estruturadoras do aproveitamento das APP na organização urbana. A primeira relaciona-se à intervenção paisagística (parques, praças e áreas de lazer em geral) e a segunda à desconsideração do curso d água em virtude da consolidação de assentamentos sobre APP, cujas ocupações lindeiras viram as costas para a água, acarretando a degradação das margens, a recepção de resíduos e a implantação de edificações precárias, muitas vezes desprovidas de instalações hidráulicosanitárias (ALVES, 2003). Observa-se assim, que ambas diretivas basearam-se na descaracterização do uso das APP, pois a APP, como área legalmente intocável passou a ser encarada como um empecilho ao desenvolvimento urbano. Sob esta condição, o valor ambiental agregado às APP foi transformado rapidamente em outro tipo de valor, o valor de mercado. Dessa maneira, as APP foram inseridas no conceito de terra urbana e passaram a conter valor somente se passível de urbanização (artificialidade), logo que o valor predominante era o de compra e venda. Desse modo acredita-se que a realidade atual das APP urbanas, de degradação e abandono, é decorrente dessa transformação de valor, que prioriza o valor de mercado. No entanto, não é só este valor que está agregado a elas. Ao estabelecer um comparativo entre uma praça e uma APP urbana, sendo ambas de responsabilidade cidadã, reconhece-se uma sobreposição de valor da praça em relação à APP. Isto porque, o consciente comum não a considera parte do meio urbano e, portanto, de responsabilidade de todos. Esta comparação não objetiva reduzir o valor das praças públicas, pois estas apresentam elevado valor social, sendo locais de encontro, de convívio e de relacionamentos. No entanto, o valor ambiental da APP, elemento fundamental ao equilíbrio do ecossistema natural, não pode ser preterido. 4

5 As APP foram criadas por lei em 1965, pelo Código Florestal, como forma de proteger o meio ambiente e os cursos de água. Este reconheceu que as áreas, então utilizadas para atender à função de moradia humana, cumpriam, principalmente, Função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora e, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações estando cobertas ou não, por vegetação (BRASIL, 1965). O esquecimento da importância ambiental das APP pode ser atribuído ao maior distanciamento das APP em relação ao cotidiano urbano, se comparadas às praças públicas; ao fato de as APP não fazerem parte das áreas de projeto dos loteamentos urbanos na maioria dos casos; ou, ainda, à ineficiência da legislação e do cumprimento desta sobre a preservação ecológica de áreas ambientalmente frágeis. Contudo, está claro que esta situação contribuiu para o surgimento dos principais problemas relacionados aos cursos d água na cidade: a intensificação das enchentes, a transmissão de doenças e a escassez de água para o abastecimento. Isso porque, as APP, geralmente públicas e ociosas, e ainda, sem valor ambiental agregado, tornaram-se suscetíveis à abertura de avenidas, à ocupação ilegal e à favelização, sendo estes os maiores responsáveis pela degradação ambiental urbana. Todavia, ao invés da sociedade assimilar a importância destas áreas, ela desenvolveu uma imagem negativa e equivocada dos rios urbanos, de modo que estes são atualmente lembrados somente em épocas de chuvas, como causadores de enchentes, sendo, portanto, uma ameaça ao cidadão urbano. Em geral, o poder público só dá atenção à existência dos fundos de vale, tratando-o como um mal a ser suprimido, quando o curso d água é alcançado pela deterioração urbana e atingido por enchentes, exala mau cheiro ou é foco de epidemias (SILVA, 1999). Assim, não raro, medidas paliativas, como canalização e tamponamento de rios, são tomadas com o único intuito de esconder - e não resolver - os reais problemas como dejetos, mau cheiro e doenças presentes nos fundos de vale. Constata-se, portanto, que no geral, os rios têm apresentado mais valor por seu papel utilitário (abastecimento, geração de energia, processos produtivos, carreamento de esgotos e transporte), reduzindo-se a máquinas hidráulicas e suas margens a corredores de circulação, como definido por Bartalini (2006), do que por seu valor paisagístico e de equilíbrio do ecossistema. No imaginário popular, os rios são considerados locais próprios para ocorrências de usos não socialmente aceitos e para depósito de lixos e entulhos, onde se procria animais peçonhentos e vetores de doenças (FELÍCIO, 2007). Como consequência, mesmo nas raras cidades cujas implantações vislumbram os rios como elementos da composição da paisagem urbana, de um parque, de uma área de lazer ou como locais de convivência e integração social, normalmente apenas um dos rios é integrado ao desenho urbano, enquanto os outros são dispostos na parte dos "fundos" da cidade. Quando o rio é valorizado e inserido no meio urbano, ele pode trazer inúmeros benefícios para a qualidade sócio-ambiental da cidade, estimulando a identidade da população com o local, tornando-se referência espacial e simbólica, e um espaço multifuncional de recreação, lazer, ponto de encontro e interação social (ALVES, 2003). No entanto, o êxito em valorizar e considerar a condição ambiental, no processo de planejamento urbano, dependerá de uma ação conjunta da administração pública e da participação popular, pois neste cenário, de descaso e alienação sócio-ambiental por parte da sociedade civil, os instrumentos legais não são capazes, de promover e assegurar um uso mais coerente e harmônico dessas áreas, tanto relacionado ao desempenho hídrico quanto ao social (FELÍCIO, 2007). 5

6 Dessa maneira, para que seja possível uma participação popular consciente, integrada e efetiva nas tomadas de decisão e implementação de programas, devem ser modificadas a forma de governo e a gestão pública atual. Através de pesquisa em bibliografia relacionada ao tema, foi destacada a Gestão Ambiental Integrada como alternativa a uma nova forma de gestão, por apresentar um gerenciamento urbano-social-ambiental vinculado à condição de sustentabilidade. O processo de Gestão Ambiental Integrada é baseado na articulação de quatro esferas: a esfera de conhecimento ambiental, de educação e cultura, de gestão social-ambiental pública e de participação popular, sendo todas, parte de um trabalho conjunto. Cada esfera deve considerar, na realização de seus programas e atividades, os pressupostos das demais, de sorte a reorganizar suas próprias funções e capacitar-se progressivamente para construir relações necessárias e orgânicas entre elas (MENEGAT e ALMEIDA, 2004). A esfera do conhecimento ambiental atua no sentido de entender e diagnosticar o sistema urbano-social-ambiental e suas relações locais e globais com o sistema natural. Para sua composição, inclui-se o conhecimento existente nas instituições em que os cidadãos vivem e trabalham, como: escolas, associações de moradores, paróquias, sindicatos, empresas locais. Dessa maneira, o conhecimento ambiental é complementado e, ao mesmo tempo, torna-se mais próximo da sociedade. A esfera de educação e informação assume, também, um papel importante no processo de gestão ambiental integrada por ser capaz de agregar aos cidadãos a capacidade de reconhecimento, desde cedo, de sua territorialidade local, de sua importância regional e sistêmica, assim como a competência de desenvolver o pensamento e a inteligência necessários à compreensão dos programas de gestão ambiental e da condição da vida urbana. A esfera de gestão urbana-social-ambiental pública se volta à capacitação técnica de órgãos necessários à gestão ambiental, de maneira que estes sejam aptos a desenvolver programas estratégicos e integrados com a sociedade e a economia, tendo como premissa as demais esferas de integração. A relevância dessa esfera está no fato de poder realizar programas mais completos e de âmbito e duração maiores, deixando de serem somente campanhas setoriais, como definido por Menegat e Almeida, (2004). A quarta esfera, responsável pela conformação do modelo de gestão ambiental integrada, é a de participação popular. Esta esfera assume grande importância para o bom funcionamento do processo, pois somente com uma participação ativa da comunidade na gestão do sistema urbanosocial-ambiental há visibilidade de um sistema de governo democrático, humanista e culturalmente mais tolerante (MENEGAT E ALMEIDA, 2004). Isto porque, o conhecimento técnico dos órgãos administrativos não é suficiente para o entendimento de cidade, suas relações, implicações e necessidades. Assim, a visão plena de cidade só é efetivada através de uma atitude social participativa, na qual atuem o cidadão, os grupos sociais, as instituições e o governo. A gestão ambiental integrada age com o pressuposto de que para estabelecer uma harmonia entre o meio urbano e o natural, há necessidade de uma visão sistêmica por parte de toda a sociedade, pois ao entender a relação de dependência entre esses meios e reconhecer o homem como parte do ecossistema natural, surge a possibilidade de uma mudança de paradigmas e de uma ação mais participativa. A visão não sistêmica ou fragmentada de cidade, presente no modo de gestão urbana atual, promove o isolamento dos cidadãos e dos grupos sociais e gera, ainda, uma distorção sobre as reais causas dos impactos ambientais no meio urbano. Por este motivo a gestão ambiental integrada defende a participação popular como uma das esferas fundamentais, pois entende a consciência ambiental cidadã como um fator imperativo à sustentabilidade ambiental e urbana. A participação democrática da sociedade no aproveitamento e manejo dos recursos naturais, assim como no processo de decisão para a escolha de novos estilos de vida e construção de futuros possíveis, sob os princípios da sustentabilidade ecológica, equidade social, diversidade étnica, autonomia política e cultural, fariam parte desta consciência 6

7 ambiental cidadã. Esta visão ambiental do meio urbano suscita a constituição de uma cidadania para os desiguais, com ênfase nos direitos sociais, e no impacto da degradação das condições de vida decorrentes da degradação socioambiental, notadamente nos grandes centros urbanos (SANCHES, 2000). No entanto, não basta somente a participação popular nas tomadas de decisão para que a gestão ambiental urbana funcione, e as APP urbanas voltem a agregar valor ambiental perante a sociedade. A educação, a informação e o conhecimento ambiental são essenciais para impedir que a gestão ambiental integrada assuma um caráter assistencialista, de causas particulares. O conhecimento é assim, fundamental para promover a realização de ações embasadas em um entendimento completo de cidade e meio ambiente. 3. CONCLUSÃO: O desenvolvimento industrial e urbano no Brasil do século XIX contribuiu para o intenso êxodo rural que, por sua vez, tem sido apontado como principal responsável pela sobrecarga na infra-estrutura urbana e pela fragmentação social, levando ao processo de favelização e à ocorrência de ocupações irregulares em áreas de preservação permanente. Há, no entanto, o entendimento de que esta irregularidade ocorreu, principalmente, pelo fato de as áreas de preservação não possuírem valor ambiental agregado para a sociedade civil e órgãos públicos relacionados. Isto ocorre porque o valor da terra, no atual contexto, está associado ao mercado e às possibilidades de uso para atendimento das necessidades urbanas, sendo a APP, como área legalmente intocável, considerada entrave ao modo de vida urbana. O estudo teórico realizado permitiu a visualização de como o modelo de gestão urbana capitalista tradicional contribui para a inconsciência ambiental e alienação política da sociedade. Foram identificadas falhas na forma de planejamento urbano, decorrentes, sobretudo, do atributo exclusivamente técnico, realizado a partir de um centralismo excessivo em sua gestão. Dessa maneira, a gestão ambiental integrada foi apontada como alternativa ao modo de gestão tradicional, pois seu modelo defende, principalmente, a participação popular nas tomadas de decisão. O centralismo verificado na forma de gestão atual promove o distanciamento da sociedade em relação ao conhecimento da problemática ambiental e urbana e às decisões de políticas públicas, justificando o perfil de alienação da população. O artigo, portanto, defende que para a dissolução dos problemas sócio-ambientais relacionados à APP urbana há necessidade de implementação de uma gestão baseada na articulação de quatro esferas fundamentais: a esfera do conhecimento ambiental, a da gestão urbana-socialambiental pública, a da educação e informação e a da participação popular. A adoção deste modelo de gestão promoveria o gerenciamento das cidades através de uma visão sistêmica, acompanhada de uma consciência social e ambiental advinda das esferas do conhecimento e educação, com participação de toda a sociedade. Este posicionamento em favor da gestão ambiental integrada nas cidades ocorre, sobretudo, pelo entendimento de que somente num ambiente efetivamente democrático e participativo, amparado por amplo conhecimento social e ambiental, há possibilidade de se produzir o bem comum, valorizando o todo que engloba o meio urbano e consolidando assim, um modelo de gestão urbana sustentável. 4. AGRADECIMENTOS: A CAPES, pela bolsa concedida à mestranda do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Urbana - PPGEU da Universidade Federal de São Carlos- UFSCar, Poliana Risso da Silva. 7

8 5. REFERÊNCIAS: ALVES, A. Regularização Fundiária ou Manutenção das Áreas de Preservação Permanente: a experiência do Programa Habitar Brasil Bid. UnB PPG/FAU, Dissertação de Mestrado, Planejamento Urbano, ALVES, M. P.. A recuperação de rios degradados e sua reinserção na paisagem urbana: a experiência do rio Emscher na Alemanha. São Paulo, BARTALINI, V. A trama capilar das águas na visão cotidiana da paisagem. São Paulo, BITTAR, E. C. B. Filosofia e Meio Ambiente. Publicado em: 19/11/2003. Acesso em: 20/01/2009. BRASIL. Código Florestal. Lei nº. 4771, 15 de Agosto de FELÍCIO, B.C., Ocupação Antrópica nas Áreas de Preservação Permanente APPs Urbanas: estudo das áreas lindeiras aos córregos dos Bagres, Cubatão e Espraiado em Franca/SP, UFSCar, São Carlos, SP, FERNANDES, A. C. Desenvolvimento Urbano e Regional. Notas de Aula. Departamento de Engenharia Civil. Universidade Federal de São Carlos, IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de Informações Municipais. IBGE. Rio de Janeiro, Disponível em: Acesso 15/09/2008. MELLO, S. S. Ocupações Urbanas em Margens de Cursos Dágua articulação entre os enfoques ambiental e urbanístico. Artigo apresentado no International Congresso n Environmental Planning and Management Environmental Challenges of Urbanization. Brasília, setembro de MENEGAT, R.; ALMEIDA, G. Sustentabilidade, democracia e gestão ambiental e urbana. Porto Alegre: edufrgs, 2004, v., p SANCHES, S. S. S. - Cidadania ambiental: novos direitos no Brasil São Paulo: Humanitas, SANTOS, C. R.; CARVALHO, C.S. Proposta Para A Gestão Integrada Das Áreas De Preservação Permanente Em Margens De Rios Inseridos Em Áreas Urbanas. APPURBANA, Seminário Nacional sobre o Tratamento de Áreas de Preservação Permanente em Meio Urbano e Restrições ao Parcelamento do Solo, FAU USP, SP, SANTOS, M. Pobreza Urbana. São Paulo, Hucitec, SILVA, G. H. P. O que fazer com os fundos de vale. Dicas: desenvolvimento urbano, nº 127. São Paulo: Instituto Pólis SP TUCCI, C. E. M. Gerenciamento da Drenagem Urbana. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, volume 7, nº UIEDA, W. Flora e Fauna: Um Dossiê Ambiental. Editora: UNESP, SP,

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