ANÁPOLIS: UM MOSAICO DE REMINISCÊNCIAS. Daniela Garcia Lemes 1 e Euda Fátima Castro 2

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1 ANÁPOLIS: UM MOSAICO DE REMINISCÊNCIAS Daniela Garcia Lemes 1 e Euda Fátima Castro 2 1 Graduanda em Letras, Bolsista PBIC-UEG 2 Mestre em Literatura Brasileira, Professora do Curso de Letras, Orientadora RESUMO - Esta pesquisa tem como objetivo compor uma coletânea de histórias e causos sobre a cidade de Anápolis, colhidos na fonte oral, contados por personagens que vivenciaram ou testemunharam alguma história ou fatos relacionados à cidade que comporão o repertório de Anápolis; história viva, em homenagem ao centenário de Anápolis. Palavras Chave: Anápolis. História. Oral.. Reminiscências 1. Introdução: O projeto proposto visa coletar histórias e causos advindos da oralidade, com intuito não apenas de documentá-los, mas também de analisá-los sob uma perspectiva literária. O tema que propomos aos participantes foi: O Centenário de Anápolis. Tal proposta foi bem acolhida por todos os colaboradores que se dispuseram a narrar reminiscências de fatos que estiveram ligados ao passado da cidade. Para tanto, antes de partirmos para o trabalho de campo, buscamos selecionar subsídios teóricos para a sustentação de nossa pesquisa enquanto produção científica e cultural. Desta forma, uma importante área de estudo se destacou: a História Oral. Embora nosso trabalho tenha como foco a análise literária, em História Oral pudemos encontrar importantes questões que nos auxiliaram grandemente em nossa pesquisa. De modo que, em nossos estudos, se destacaram os seguintes autores: (HALBWACHS; 1990), (BOSI; 2004), (CALDAS; 1999), (THOMPSON; 1992), (THOMSOM; 1981), (DUBY; 1989). Percorremos as linhas de THOMPSON (1992) que aponta para a evidência oral como mais rica, mais comovente e mais verdadeira. Foi o que pudemos perceber em nossos convidados

2 2 que, no auge dos oitenta anos, fizeram um resgate do passado vivido na cidade de Anápolis, ora emocionados, ora apelativos, ora saudosistas. A história de Anápolis é construída, então, a partir da memória individual, através de entrevistas contextualizadas, de acordo com o conhecimento sócio-cultural e ideológico de cada um dos entrevistados. Vale ressaltar que diferentes colaboradores abordaram temas em comum, tais como: a construção da estrada de ferro, a vinda de atrizes norte-americanas e de imigrantes estrangeiros para Anápolis, o apogeu vivido por volta dos anos 40, que rendeu à cidade o título de Manchester Goiana, entre outros. Nesta perspectiva, pudemos constatar o que afirma HALBWACHS (1990, p. 51): (...) cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva e o que diz também CALDAS (1999, p. 70): (...) em História Oral não há um objeto de estudo, mas sujeitos em diálogo. Esse diálogo foi percebido ao longo da realização deste trabalho pois, ainda segundo Caldas, esse diálogo não é apenas entre pessoas, mas entre tempos, imaginários, idéias, experiências, vozes e imagens diferentes. Sabemos que o trabalho de investigação do profissional da História Oral é lidar com essas diferenças do diálogo. No entanto, a nossa tarefa como pesquisadoras da área de Literatura será apenas a de apresentar esse diálogo, sem nos preocupar com as convergências e divergências, ou com as diferenças. Dessa forma, nosso foco será a apresentação dos aspectos que sobressaíram nessa rede de discurso intertextual como: o lirismo, o telurismo, o pitoresco, o humor, o saudosismo, o deslumbramento, a devoção pelo passado, entre outros. 2. Material e Métodos: Aplicamos como metodologia de nosso trabalho, o que CALDAS (1999, p. 69) afirma no seguinte trecho: O método não é lógico, dogmático, funcional ou aplicável geral ou universalmente como sistema mecânico, técnico ou científico, mas perspectiva polifônica de diálogo, apreensão, compreensão, reconstrução, imaginação, criação e destruição de realidades, políticas, experiências, falas e vidas. Partindo desta visão, buscamos não um objeto de estudo, mas sim o resgate de reminiscências que tiveram a oportunidade, neste projeto, de voltarem novamente ao plano da existência. E para trabalhar com reminiscências, o caminho mais apropriado é o usado pelos pesquisadores da História Oral. Procuramos, então cumprir as etapas básicas que esse tipo de

3 3 pesquisa requer: entrevista, transcrição e autorização para publicação. As entrevistas obtidas foram realizadas após um convite, por escrito, contendo explicações sobre o projeto. A adesão à pesquisa foi total. Todos os convidados demonstraram satisfação e empenho, ressaltando a importância deste tipo de trabalho. Após prévio agendamento, as histórias e os causos foram gravados, com som e imagem, para facilitar a compreensão das falas no processo de transcrição. Todo material produzido destina-se a ser arquivado no Centro de Documentação da UnUCSEH / Anápolis-GO, para eventuais consultas, ou pesquisas. No trato da transcrição, entendemos que esta, como declara Barthes (1995 apud CALDAS, 1999, p. 102), configura-se no embalsamamento da fala, ou seja, esta se torna como uma múmia, eterniza-se. Portanto, trata-se de uma etapa extremamente rigorosa que, ainda segundo CALDAS (1999, p.103) constitui-se na: (...) interpretação viva das sociabilidades humanas. Pudemos entender com esta pesquisa que trabalhar com a oralidade algo é muito melindroso no que diz respeito ao trato da linguagem, pois ao apresentarmos as entrevistas para liberação para publicação, alguns entrevistados não reconheceram seus discursos na forma ipses-literis, o que nos obrigou a apagar as marcas da oralidade presentes no discurso durante o desenvolvimento das transcrições. Quanto ao tratamento das informações das entrevistas, optamos pela linha de Caldas que associa sempre ficção e realidade, história e literatura. Para ele, a ficcionalidade não é o oposto da realidade, mas sua forma de existência. O trabalho realizado pela memória proporciona relatos que se constituem, segundo CALDAS (1999, p. 61) : (...) um desdobramento contínuo e singular que garante vários tipos de identidade. Ao mesmo tempo, sua forma de expressão para chegar a esse texto é o mesmo de um tipo de criação literária. Ora, nossos colaboradores estão inseridos em seus relatos, o mundo interior de cada um deles se faz presente em seus textos, como uma rede viva de ficções e ficcionalidades pessoais e coletivas. Percebemos na polifonia das falas a percepção lírica do passado. Nosso projeto é formado, então, por essa mistura de ficção e realidade, entrelaçadas.

4 4 3. Resultados e Discussão: Pudemos através desta pesquisa presenciar a história de Anápolis sendo vivificada, graças às pessoas que gentilmente se dispuseram a resgatar a história da cidade como testemunhas, estudiosos ou narradores de suas próprias experiências e vivências. Assim como no estudo sobre memória, partindo de Lembranças de Velhos, realizado por Ecléa Bosi, utilizado como embasamento teórico para este projeto, nós coletamos histórias, também de pessoas idosas e o resultado conseguido assemelha-se ao que BOSI (2004) extraiu dos relatos que colheu: poesia, poesia da vida. Sentimentos como: lirismo, saudosismo, telurismo, entre outros, estiveram presentes e nos levaram a concluir que o passado pôde ser atualizado pelo trabalho da memória e, mais uma vez, em BOSI (2004, p. 84), encontramos a seguinte declaração: o narrador vence distâncias no espaço e no tempo para contar suas aventuras num cantinho do mundo onde suas peripécias têm significação. Acreditamos que esta significação vem de encontro ao objetivo de nossa pesquisa, pois ao proporcionamos VOZES aos nossos colaboradores, estamos também buscando o reconhecimento público das reminiscências, alcançando, assim, todo o significado que esta deve ter, não somente para aqueles que nos honraram ao narrarem suas histórias ou ao contarem seus causos, mas também para aqueles que terão o privilégio de conhecer um pouco mais sobre Anápolis por meio deste mosaico de reminiscências. 5. Conclusão: Ao término de nosso projeto, nos identificamos com o que Ecléa Bosi (2004) declara: Essas violetas, veja, são de anilina roxa, mas esses tons diferentes consegui segurando a ponta das pétalas com a mão para que não mergulhassem no roxo. Dentre as muitas possibilidades de leitura existentes neste trecho, podemos dizer que nós também conseguimos tons diferentes sobre a história de Anápolis, os quais, ao terem sido registrados, não correrão o risco de caírem no esquecimento. 6. Referências Bibliográficas:

5 5 BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade. Lembrança de Velhos. São Paulo: Companhia Das Letras, CALDAS, Alberto Lins. Oralidade texto e história (para entender a história oral). São Paulo: Edições Loyola, DUBY, Georges, & LARDREAU, Guy. Diálogos sobre a nova História. Lisboa: Dom Quixote, HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, THOMSON, Alistair. Recompondo a memória: questões sobre a relação entre a História Oral.In: -Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História da PUC - São Paulo. São Paulo, SP, Brasil, THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução: Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

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