Liberalização da escolha «medida inevitável» para uns, «ratoeira» para outros

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1 Liberalização da escolha «medida inevitável» para uns, «ratoeira» para outros Médicos debatem situação actual do sector da Saúde A liberalização da escolha do doente e as medidas a adotar nesse sentido, e ainda a reforma dos cuidados de saúde primários (CSP) foram temas em evidência no debate «A situação actual da Saúde», evento que assinalou o arranque do Congresso SNS: Património para Todos. O debate decorreu na sede da Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos, no Porto. «Acho que estamos todos de acordo nas questões de fundo da saúde, incluindo a liberalização da escolha». 1/6

2 Foi com este comentário que Eurico Castro Alves, ex presidente do Infarmed, abriu o debate «A situação atual da Saúde», que decorreu à volta da liberalização da escolha do doente, tema que foi abordado por Miguel Guimarães, presidente do Conselho Regional do Norte (CRN) da Ordem dos Médicos, Manuel Pizarro, antigo ex secretário de Estado Adjunto e da Saúde, agora vereador da Câmara do Porto, e Silvério Cordeiro, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia Espinho, entre outros. Moderado por Paula Rebelo, jornalista da RTP, o debate que marcou o arranque do II Congresso SNS: Património de Todos, que teve lugar a 18 e 19 de março no Teatro Rivoli, no Porto retomou um velho tema, aliás por todos reportado à consagrada «lei geral da economia», segundo a qual o consumidor «pode escolher o serviço que consome». Todos sabemos que «isso traz eficiência ao serviço, porque se eu quero ter clientes tenho que fazer bem», admitiria ainda Castro Alves, para depois acrescentar: «É uma medida inevitável em que acredito desde que me conheço e desde que penso nas questões da saúde». Para Miguel Guimarães, a livre escolha é também «uma medida positiva», mas para isso os hospitais «têm que começar a publicar os resultados das avaliações de eficácia», sendo que só assim o doente poderá escolher de forma consciente. «Obviamente ter se á que colocar o cidadão no centro do sistema, dando lhe informação e responsabilidade», defende o presidente do CRN, acrescentando: «Se a concorrência dentro do SNS funcionar de forma plena, os serviços que estiverem menos bem terão que adaptar se, e podem até ter que pedalar um pouco nalgumas áreas para serem mais competitivos». Poderá a liberdade de escolha afetar a referenciação? Mas poderá a liberdade de escolha vir a afetar a referenciação a nível de CSP? À pergunta de Paula Rebelo o ex presidente da Associação USF AN, Bernardo Vilas Boas, também convidado do debate, respondeu: «O que é preciso é dar poder aos cuidados de saúde primários, porque aqui a grande missão é evitar que as pessoas cheguem aos hospitais». Aliás, para este médico de família, a liberdade de escolha pode ser até uma «ratoeira»: «Tem vantagens e riscos, mas o que é preciso é que os cuidados de saúde primários tenham um maior investimento e que seja possível uma referenciação responsável». Para Miguel Guimarães, a livre escolha é «uma medida positiva», mas para isso os hospitais «têm que começar a publicar os resultados das avaliações de eficácia» Eurico Castro Alves: A liberalização da escolha «é uma medida inevitável em que acredito desde que 2/6

3 me conheço e desde que penso nas questões da saúde» «Obviamente ter se á que colocar o cidadão no centro do sistema, dando lhe informação e responsabilidade», defende o presidente do CRN Miguel Guimarães: «Se a concorrência dentro do SNS funcionar de forma plena, os serviços que estiverem menos bem terão que adaptar se, e podem até ter que pedalar um pouco nalgumas áreas» Bernardo Vilas Boas: «O que é preciso é dar poder aos cuidados de saúde primários, porque aqui a grande missão é evitar que as pessoas cheguem aos hospitais» A escolha «tem vantagens e riscos, mas o que é preciso é que os cuidados de saúde primários tenham um maior investimento e que seja possível uma referenciação responsável», afirmou Bernardo Vilas Boas E com o direito à opção do doente não será de temer o encerramento de alguns serviços? Na opinião de Manuel Pizarro, no setor da saúde «não há um mercado» porque «os consumidores não são capazes de escolher», sendo os prestadores que induzem a escolha. Ainda assim, lembra o actual vereador da Câmara do Porto, «a lei portuguesa disse sempre isso», ou seja, «o doente tem que ser tratado onde é mais cómodo para ele, e o Estado tem que se adaptar». «Estamos perante um subfinanciamento claro» E os hospitais terão «pedais» que cheguem para conseguir fazer face à liberdade de escolha? Silvério Cordeiro responde expondo a situação financeira da unidade que dirige: «Estamos perante um subfinanciamento claro, em que as receitas não cobrem os custos operacionais». Com um financiamento autónomo para garantir a sustentabilidade através do Programa 20 20, e com uma «melhor distribuição de fundos» no setor, Silvério Cordeiro acredita que «isso possa conduzir a uma melhor organização da produção» e à redução dos custos. Caixa USF modelo B «puxaram toda a rede de CSP para cima» De acordo com o médico de família e ex presidente da USF AN, Bernardo Vilas Boas, os resultados atingidos na satisfação global dos utentes não dizem apenas respeito às USF. Ou seja, a satisfação global, que era de 49% em 2001 segundo um estudo da Universidade de Coimbra, subiu, em 2015, no modelo tradicional, para 70%, sendo que «a satisfação com a organização tem um salto semelhante». 3/6

4 E, segundo o médico de família, essa subida teve a ver um caso determinante «as USF, em particular as modelo B, puxaram todas as unidades de cuidados de saúde primários para cima, e não só em termos quantitativos». Vilas Boas lembra que hoje os indicadores abrangem «acesso», «desempenho», «qualidade», «eficiência» e «satisfação» e que, por exemplo na área da diabetes, «um dos objectivos de hoje é a diabetes com hemoglobina a 1C abaixo de 8% e tensão arterial abaixo dos ». «Já há resultados e não estamos a falar só de número de consultas», considerou. Aliás, recordou, «em 2003, no tempo do ministro Luís Filipe Pereira, pretendia se medir a nossa atividade por número de consultas, mas hoje estamos a anos luz [dessa prática] e fomos nós que o fizemos». Ainda segundo este médico de família, com as USF conseguiu se diminuir o número de internamentos evitáveis, aliás, «o estudo da ERS refere que há uma associação entre o número de internamentos evitados e as USF, em particular o modelo B», lembrou ainda. De resto, o facto de a Região Norte fazer melhor com menos dinheiro «certamente tem relação com a cobertura da população por USF», que atinge 70% em toda a região. «São demasiados fatores a coincidir na mesma direcção para que isto não seja verdade», disse o médico de família, admitindo que «nunca houve em Portugal uma reforma tão avaliada» como a dos CSP. Vilas Boas refutou ainda uma afirmação de Eurico Castro Alves, que havia referido que não se pode dispor de mais dinheiro para manter o SNS sustentável, contrapondo que o Estado «não pode é retirar dinheiro do sistema» e, sobretudo, «não o pode desviar». É que, na opinião deste médico de família, nos últimos quatro anos «crescerem os lucros e as receitas do setor privado». Caixa CSP «fizerem e estão a fazer grande parte da reforma do SNS» «Saltamos com esta mudança 30 pontos percentuais», admitiu Bernardo Vilas Boas referindo se aos resultados dos estudos sobre a taxa de satisfação dos doentes dos CSP. «Foi com isto que contribuímos para a reforma do SNS», e por isso os CSP «já fizeram e estão a fazer grande parte da reforma». Para comprovar este facto, o ex presidente da USF AN lembra que, em 2001, a taxa de satisfação global nos centros de saúde era de 49,3% e, em 2005, de 42, 8%. Porém, segundo estudos efetuados, em 2015 «temos agoira uma satisfação global de 89,5%», acrescenta Bernardo Vilas Boas. 4/6

5 Caixa Com a liberalização da escolha «os prestadores têm que saber o que estão a fazer» Para Eurico Castro Alves, a liberalização da escolha do doente é «uma «medida inevitável» que implica a participação de todos incluindo os cidadãos e sentido de responsabilidade. «Os prestadores têm que saber o que estão a fazer», afirmou. Mostrando se grande defensor do serviço público, Castro Alves admite contudo que esta medida deve ser acompanhada de «ferramentas que a façam ter eficácia» e funcionar bem. Considerou todavia que, para isso, os serviços devem estar devidamente organizados: «Os doentes devem poder escolher serviços, mas os serviços devem estar bem apetrechados, os seus profissionais devem dar o seu melhor e têm que existir sistemas de avaliação que façam que os profissionais tenham vontade de fazer as coisas bem feitas». Caixa «É impossível resolver os problemas sem mais investimento» Quanto a medidas já tomadas no âmbito da liberalização da escolha do doente, o presidente do CRN, Miguel Guimarães considerou que o ministro «tem sido rápido na tomada de decisões», complementando: «Quando existe alguma situação de denúncia [o ministro da Saúde] tem analisado situações e tomado decisões pois não chega ter planos e projetos». No entanto, o presidente do CRN admite que é «impossível» resolver os grandes problemas do sector sem um investimento maior, o que não está a acontecer porque «o orçamento alocado vai ser pouco mais ou menos semelhante ao último orçamento», sobretudo, como referiu, «se tivermos em conta que muito deste dinheiro se destina a reposições salariais». Seja como for, Miguel Guimarães admite que uma das grandes deficiências do SNS é a falta de médicos, assistentes operacionais e assistentes técnicos, e isso «não irá ser conseguido sem um maior investimento». 16MM12A 23 de Março de Ant4f16MM12A ANTECIPAÇÃO TM ONLINE 5/6

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