ENTREVISTA "Não se ganha com. a caça ao dividendo"

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1 ENTREVISTA "Não se ganha com a caça ao dividendo"

2 JORGE BENTO FARINHA, VICE-PRESIDENTE DA PORTO BUSINESS SCHOOL Em Portugal não se ganha dinheiro com a caça ao dividendo

3 Co-autor do livro "Dividendos e Recompra de Acções" defende a importância da remuneração accionista e diz que ela incentiva a boa gestão. É contra a tributação dos dividendos e defende as empresas que, perante o agravamento da fiscalidade, antecipam o pagamento PAULO MOUTINHO Porquê lançar um livro sobre dividendos numa altura em que mdtas empresas portuguesas deixaram de os pagai? No contexto actual, talvez os dividendos não sejam o assunto mais premente para a generalidade das empresas. Mas com algum pensamento optimista sobre o desenvolvimento da nossa economia, penso que os dividendos deveriam preocupar todas as empresas. Infelizmente, em Portugal, a política de dividendos tem sido muito maltratada. Preocupar as empresas? Porquê? Tenho uma pesquisa em andamento que diz uma coisa tão interessante quanto isto: as empresas que pagam dividendos de forma consistente, são empresas que têm muito menor probabilidade de ter lucros manipulados contabilisticamente. Ou seja, funcionam quase como um carimbo de qualidade. As que têm resultados menos manipulados têm maior probabilidade de pagar dividendos, e mais elevados. Em Lisboa, os dividendos Não são muito generosas. são elevados? As empresas têm vindo a pagar dividendos que estão abaixo da média europeia Só 25% dos resultados são distribuídos, em média, o que é fraco. Além de serem babios,sáo tributados^ Quando uma empresa paga dividendos há uma tributação elevada Isso não faz sentido, por um motivo simples: quando o dividendo é pago a cotação baixa no montante idêntico ao do dividendo, o que quer dizer que um accionista não fica nem mais rico nem mais pobre. O que recebe de dividendo é exactamente o montante que acotação cai. Em Lisboa isso é assim tão linear? Podemos pensar se numa bolsa como a portuguesa isso acontece. Fiz um estudo sobre este tema em que analisei muitos anos com muitos regimes fiscais diferentes para muitas categorias de investidores, tentando perceber se era possível ganhar dinheiro comprando as acções antes e vendendo depois do dia do pagamento do dividendo... Deu resultado? Testei isso durante um período muito extenso e a conclusão foi uma só: não há maneira nenhuma de ganhar dinheiro de forma extraordinária fazendo essa estratégia de modo sistemático. Em Portugal, apesar do que se pensa, o ajustamento das cotações aos dividendos é praticamente quase perfeito. Quase perfeito? Ninguém consegue ganhar dinheiro. Isto reforça a ideia de que o pagamento de dividendo leva, de facto, a um abaixamento da cotação. Se somos tributados pelo dividendo pode acontecer uma coisa absurda como, por exemplo, alguém que investiu numa acção e ela caiu o ano todo. Se teve o azar de receber um dividendo, o investidor que está mais pobre, fica ainda mais pobre porque é tributado independentemente do comportamento das acções. Não faz sentido tributar só o dividendo. Faz sentido tributá-lo em conjugação com as mais-valias, mas isso não é efectuado em Portugal porque a lógica é uma lógica de receita fiscal. É contra o aumento da tributação? Eu sou contra. Se quiséssemos fazer uma tributação seria dos dividendos teríamos de conjugar os dividendos com os ganhos de capital e não dissociar, como é feito, uma coisa da outra Ao penalizar os dividendos estamos a esquecer a função que eles têm que é, além de caracterizar a qualidade contabilística, de resolução de problemas de conflitos de interesses entre accionistas e gestores. Eem Portugal identifica muitos conflitos de interesses? Identifico. Temos empresas que tendo um capital muito concentrado têm, entre outro tipo de problemas, o dos accionistas maioritários e minoritários. A investigação que existe sobre dividendos mostra que estes são um factor importante de supervisão. Porquê? Uma empresa que pague dividendos tem de pensar muito mais cuidadosamente os seus investimentos. Só vai investir quando tem a certeza de que o investimento é mais rentável. Assim, evitam-se os gastos de dinheiro de forma irresponsável. Há empresas em que os accionistas forçam o pagamento de dividendos? Sobretudo a nível fiscal, a questão pode colocar-se porque ao fazer o pagamento de dividendos o grande sacrifício que existe é - que é um benefício para ao Estado - de um pagamento de impostos que muitas vezesé despropositado. Mas de uma maneira geral sabemos que os investidores, mesmo os minoritários, apreciam que os dividendos sejam pagos porque significa dar, de alguma maneira, poder que não existe quando os lucros são retidos. Aí o controle de um accionista minoritário é nulo. Com o pagamento de dividendos, força-se que haja uma auto-disciplina que tem relevância para o desempenho futuro da organização. O aumento da tributação levou algumas empresas a fazer estas antecipações de dividendos. Faz sentido? A principal responsabilidade de um gestor é assegurar a continuidade da sua empresa e assegurar a satisfação dos seus accionistas. Seria muito estranho que um gestor pu- lugar os interes- sesse em primeiro ses de terceiros, do Estado. Percebo a responsabilidade desses gestores perante um cenário em que a fiscalidade vai aumentar em antecipar dividendos. Não acho imoral. É um acto de gestão responsável.

4 Essa obrigação é bem entendida pelos restantes contribuintes? Quando se pagam os dividendos, já se pagam impostos suficientes para que o resto dasociedade não fique preocupada por uma diferença pequena. Pequena para a sociedade como um todo, mas importante para os accionistas em questão. Mas pode ter impactos numa marca? Pode. Mas seria bem pior se a empresa decidisse não distribuir dividendos. Aí não haveria qualquer receita para o Estado. Se a empresa já está a pagar impostos ao Estado já é socialmente responsável, até porque os resultados que deram origem a esses dividendos já foram também tributados. Há uma dupla tributação fortíssima. Por isso, não me parece que seja de criticar quando uma empresa como a Jerónimo Martins, ou outras, resolvem fazer uma antecipação de dividendos. Uma forma de evitar este peso da antecipação de dividendos seria o pagamento intercalar dessa remuneração? Noutros países existe antecipação de dividendos. Em Inglaterra, é normal pagar dividendos de três em três meses. Há uma antecipação de dividendos por conta dos resultados que se antecipam. Em Portugal, não étão habitual. Fariasentidoadistribuição regular de dividendos, que introduziria um outro tipo de disciplina e deixava de haver um ónus tão grande no pagamento brutal que acontece uma vez por ano. Faz com que a empresa sej a mais disciplinada na sua gestão financeira Dadaacarçi fiscal sobre os dividendos, arecompra de acções pode ser uma al- pagamentos dos dividendos. Ou seja, se eu tenho uma mais-valia, vou ser tributado à mesma taxa do pagamento de dividendos. O que quer dizer que quando há uma recompra de acções, se isso configurar uma mais-valia, será tributada de igual forma aos dividendos. Livro escrito por Jorge Bento Farinha e Miguel Soro é editado pela editora Vida Económica. Existe também em versão eßook, em ternativa vantajosa? Em Portugal, existe uma neutralidade fiscal nos ganhos de capital e

5 "Há tendência para as empresas nacionais pagarem poucos dividendos" Autor defende que é vital as cotadas terem políticas sustentáveis 0 livro que lançou contém um algoritmo que desenvolveu para analisar os dividendos. 0 que se pode fazer com essa ferramenta? Tivemos a ideia, e penso que é única, de desenvolver um algoritmo que consegue condensar todas as teorias existentes sobre dividendos, teorias que têm a ver com expectativas, com conflitos de interesse, com o nível de investimento. Quem comprar o livro tem acesso a um "site" onde pode testar, de acordo com os números da sua empresa, uma política de dividendos que seja sugerida em função das teorias existentes. Ou seja, apessoa vai colocar os números da sua empresa No final esse algoritmo vai devolver uma recomendação de remuneração. Testou esse algoritmo com algumas empresas portuguesas? Bateu certo? Os desvios não foram muito significativos. Há umacerta tendência para as empresas portuguesas pagarem menos do que o nosso algoritmo iria sugerir. Issotemaver comofactodeabasededadospor detrás do algoritmo assentar nos dividendos que são distribuídos a nível internacional. Sabemos "a priori" que as empresas portuguesas pagam menos dividendos do que as suas congéneres europeias, pelo que é natural que o algoritmo sugira dividendos superiores. Há casos de empresas em dividendos que pagavam mais do que os lucros, como a Brisa e a Zon. Faz sentido? Isso é possível. São empresas que têmpago, de facto, dividendos elevados. Às vezes temavercoma sua estrutura accionista Essa remuneração bate certo com o algoritmo? Aí provavelmente não. Não recomendamos pagamentos que excedam 100% porque a nossa ideia é umapolíticadedividendossustentávelapalavrasustentabilidadeé, hojeem dia, extremamente importanteemfinanças.quandoqueremos definir uma política de dividendos, ou outras políticas financeiras.elastêmdesersustentáveis. Oqueé um "payout sustentável? É um "pay out" que permita manter uma estrutura de capitais equilibrada, que permita que os investimentos mais interessantes sejam realizados, nem mais nem menos. Em que não haja excesso de investimento, mas também não haja sub-investimento e permita que os accionistas tenham acesso a liquidez. MaslOO%nâoésustentável.Bo%já é? quanto 100% não é. A resposta depende do sector, porque diferentes sectores têm diferentes taxas de crescimento. Se estou num sector que está a crescer fortemente e as oportunidades de investimento abundam, obviamente não quero pagar muitos dividendos. Devia pagar, ainda assim, alguns, mas não quero pagar tantos dividendos pagaria, por exemplo, umaempresa com uma "utility" que tem os seus investimentos mais estabilizados. Infelizmente muitos grupos têm a tendência para que quando ganham dinheiro acumulam-no e depois utilizam, infelizmente, da forrnamaiserrada,atravésdeurna diversificação pura e simples, criando aglomerados onde não há verdadeiro valor acrescentado.

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