The Procedure Registral of Railways.

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1 O Procedimento Registral das Linhas Férreas The Procedure Registral of Railways. André Luis Fontanela 1 Resumo O presente artigo tem como objetivo fixar entendimento acerca do procedimento registral correto a ser aplicado às linhas férreas, embora sendo um tema escasso em materiais e subsídios para sua realização, foi possível identificar que ao aplicar qualquer princípio registrário específico, deve o Oficial Registrador ou outro profissional do direito sempre zelar pela segurança jurídica, que pode ser considerada o alicerce do Registro de Imóveis, pois sem ela, os atos por ele praticados não serão revestidos da certeza e presunção de veracidade necessárias. Os princípios registrários e a formalidade foram criados em benefício dos cidadãos e somente devem se sobrepor ao direito de propriedade, garantido pela Constituição Federal, quando a segurança jurídica estiver ameaçada. A redação do atual Código Civil, por meio de seu artigo 1.502, veio reafirmar o antigo preceito do Código de 1916, ou seja, as hipotecas sobre as estradas de ferro serão registradas no Município da estação inicial da respectiva linha. Mas o que vem a ser uma estrada de ferro? Haveria alguma diferença entre estrada de ferro e via férrea? Estrada de ferro ou via férrea seria apenas os trilhos por onde trafegam as locomotivas, ou também seriam constituídas por todo o patrimônio daquelas? Recentemente, ao promulgar a Lei /07, o executivo vetou os artigos 16 a 19 da referida lei, a qual regulamentaria o processo de venda dos imóveis da antiga Rede Ferroviária Federal. Palavras- Chave: Vias Férreas, Registro, Procedimento. 1 André Luis Fontanela, Professor no Curso de Direito da FACDO, Mestrando em Direito Notarial e Processual Civil e Advogado. 173

2 André Luis Fontanela Abstrat The present study aims to establish understanding of the procedure registration right to apply to railway lines, while being a theme in materials and allowances for its performance, it was possible to identify that there would apply any particular principle, should the Registrar or other Official legal practitioner always ensure the legal security that can be considered the foundation of the Registration of Real Estate, because without it the acts he committed are not clothed in the presumption of certainty and accuracy required. The principles and formality there would have been created for citizens only and should not override the property rights guaranteed by the Constitution when the legal security is threatened. The wording of the current Civil Code, by Article 1502, the area came to sign the old precept of the Code of 1916, the mortgages on the railroad will be recorded in the county of the initial station of the line. But what comes to be a railroad? Was there any difference between the railroad and rail? Railroad or railroad would only track that travels the locomotives, or they would be constituted by all the assets of those? Recently, when promulgating the Law /07, the executive vetoed sections 16 to 19 of the Act, which would regulate the process of selling real estate of the former Federal Railway. Key-words: Railways, Registration, Procedure. Introdução O presente artigo tem como objetivo lançar ao debate jurídico linhas essenciais acerca do procedimento registral correto a ser aplicado às linhas férreas. Dada a existência de regulamentação legal desatualizada atinente à matéria específica, e sua cumulação com o direito administrativo, no que se refere à desapropriação por utilidade pública, temos como fito investigar por qual procedimento se dará, vislumbrando a forma mais célere e segura quanto ao ato jurídico praticado, a fim de proporcionar publicidade a existência registral das linhas férreas. 174

3 O Procedimento Registral das Linhas Férreas Trata-se de um tema escasso, por isso a necessidade de conhecimento da matéria embora de forma superficial, embasando-se nos fatores determinantes no âmbito do direito administrativo e registral. Relevâncias afetas ao tema em comento florescem no estudo da Lei nº 6.015/73, tendo em vista que esta necessita ser atualizada com urgência, no seu todo, e em particular no tocante ao artigo 171, objeto deste estudo, para prevalecer adequar-se às disposições do Código Civil, ou seja, somente as hipotecas são registradas, exclusivamente, no Município da estação inicial da linha. Todos os demais atos deverão também respeitar as disposições do princípio da circunscrição. 1.1 Direito Notarial e Registral Sabedores de que, segundo o processo de registro, enunciado pela Lei dos Registros Públicos em seu art. 182 e seguintes, deverá ser levado aos livros da serventia imobiliária um título, ou seja, um documento jurídico, que em seu bojo contenha uma determinação registral. Nesta mesma linha de raciocínio se faz essencial explicitarmos, em limites eminentemente superficiais, as regras a que deverão se submeter tais documentos. No presente estudo, arraigado ao direito administrativo, mais especialmente à desapropriação por utilidade pública, entendemos por bem, pautarmos aos vetores do direito notarial. Este, por sua vez, pode ser conceituado conforme Larraud sendo o conjunto sistemático de normas que estabelecem o regime jurídico do notariado 2. Para Néri, o direito notarial pode definir-se como o conjunto de normas positivas e genéricas que governam e disciplinam as declarações humanas formuladas sob o signo da autenticidade pública 3. Leonardo Brandelli define o direito notarial como o aglomerado de normas jurídicas destinadas a regular a função notarial e o 2 LARRAUD, Rufino. Curso de derecho notarial. Buenos Aires:Depalma, 1996, p.83 3 NERI, Argentino I. Tratado Teórico y prático de Derecho Notarial. Buenos Aires: Depalma, V. 1, p

4 André Luis Fontanela notariado 4 A função notarial, na atualidade, tem demonstrado sua importância, principalmente como forma acautelatória de litígios, atuando preventivamente na busca da tutela dos direitos subjetivos. A utilização do ato notarial para a consecução da desapropriação materializa a supracitada função, vezes que o Estado, na figura de Expropriante, pactua com o particular, ora Expropriando, as peculiaridades do ato, tal como a indenização, dentre outros adjetivos. E este, por sua vez, servirá de instrumento translatício do domínio. O documento notarial é revestido de fé pública, ou seja, tem presunção relativa quanto a veracidade de seus conteúdos. Neste contexto, salvo alguma nulidade ou anulabilidade, não poderá ser revisto pelo Poder Judiciário quanto ao conteúdo fático-jurídico nele contido. A busca por uma justiça alternativa, que gere segurança nas relações jurídicas, encontra na instituição notarial um meio ágil e eficaz de perfectibilização do direito no âmbito da vontade das partes. 5 No caso em tela, o direito notarial tem íntima ligação com a instrumentalização jurídica e a situação fática que criará a linha férrea, ou seja, o documento que será levado a registro para tornar plena a transferência do domínio das áreas que constituirão a faixa de domínio. Este documento poderá ser representado por um ato notarial, que em seu bojo materializará o negócio jurídico, seja este uma compra e venda, desapropriação amigável ou mesmo apenas um instrumento que consolide o pagamento da indenização, sem outra razão, o instrumento notarial é agente certo, válido e eficaz para concretização de qualquer ato jurídico, desde que respeitados os limites legais. O Direito Registral, em que pese o caso em comento, ou seja, registro de imóveis tem quando do lançamento no fólio real a transferência efetiva do domínio de uma propriedade ou para outros direitos reais lançados, a oponibilidade. 4 BRANDELLI, Leonardo. Teoria Geral do Direito Notarial. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998, p BRASIL. Lei nº 8.935, de 18 de novembro de Lei dos Serviços Notariais e de Registro. Disponível em: 176

5 O Procedimento Registral das Linhas Férreas A norma que rege os registros públicos é a Lei nº 6.015/73, que orienta todo o processo de registro. Cumpre salientar que o registro é o meio hábil à comprovação do direito de propriedade, e também a forma pela qual é feita a transferência dos bens imóveis. 6 O Código Civil de 2002, em seu art menciona o registro como a forma de transferência dos bens imóveis: Art Transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do título translativo no Registro de Imóveis. 1º Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel. 2º Enquanto não se promover, por meio de ação própria, a decretação de invalidade do registro, e o respectivo cancelamento, o adquirente continua a ser havido como dono do imóvel. O registro tem presunção de veracidade, não sendo, contudo, uma presunção absoluta (iuri et de iuri), mas relativa (iuris tantum) pois admite prova em contrário. Dessa forma, caberá àquele que deseja retificar ou anular determinado registro, provar suas alegações. Nesse sentido é claro o art do CC: Art Se o teor do registro não exprimir a verdade, poderá o interessado reclamar que se retifique ou anule. Parágrafo único. Cancelado o registro, poderá o proprietário reivindicar o imóvel, independentemente da boa-fé ou do título do terceiro adquirente. 1.2 Do Processo de Registro das Linhas Férreas O Código de 1916, em seu artigo nº 852, dispunha que As hipotecas sobre as estradas de ferro serão inscritas no município da estação inicial da respectiva linha. A Lei nº 6.015/73, por meio de seu artigo nº 171, interpretou extensivamente o preceito contido no antigo Código Civil, para dispor que Os atos relativos a vias férreas serão registrados no cartório correspondente à estação inicial da respectiva 6 CARVALHO, Afrânio de. Registro de Imóveis. Rio de Janeiro, Forense, 1976, p

6 André Luis Fontanela linha. O Código Civil de 1916 previa o registro apenas e tão-somente das hipotecas sobre as estradas de ferro, e não os atos relativos a vias férreas, tal como prevê a Lei 6.015/73. ( ARAÚJO, 2010) A redação do Novo Código Civil, por meio de seu artigo nº 1.502, veio a reafirmar o antigo preceito do Código de 1916, ou seja, as hipotecas sobre as estradas de ferro serão registradas no Município da estação inicial da respectiva linha. Mas o que vem a ser uma estrada de ferro? Haveria alguma diferença entre estrada de ferro e via férrea? Estrada de ferro ou via férrea seria apenas os trilhos por onde trafegam as locomotivas, ou também seriam constituídas por todo o patrimônio daquelas? Recentemente, ao promulgar a Lei nº /07, o executivo vetou os artigos nºs 16 a 19 7 da referida lei, a qual regulamentaria 7 Art. 16. Aos ocupantes de baixa renda dos imóveis não-operacionais residenciais da Rede Ferroviária Federal S.A. - em liquidação cuja ocupação seja comprovadamente anterior a 6 de abril de 2005 é assegurado o direito à aquisição por venda direta do imóvel, nas condições estabelecidas nos arts. 26 e 27 da Lei n 9.636, de 15 de maio de º Para a avaliação dos imóveis referidos no caput deste artigo, aplicar-se-á o método involutivo, deduzindo-se, para tanto, o valor correspondente às benfeitorias realizadas pelo ocupante. 2º Os ocupantes referidos no caput deste artigo deverão manifestar seu interesse pela compra direta no prazo de até 30 (trinta) dias a contar da notificação a ser realizada pelo órgão competente. 3º Para os fins do disposto neste artigo, considera-se ocupante de baixa renda aquele com renda familiar igual ou inferior ao valor estabelecido no 2º do art. 1o do Decreto-Lei nº 1.876, de 15 de julho de 1981 Art. 17. Aos ocupantes dos imóveis não-operacionais residenciais da Rede Ferroviária Federal S.A. - em liquidação não alcançados pelo art. 16 desta Lei e cuja ocupação seja comprovadamente anterior a 6 de abril de 2005 é assegurado o direito de preferência na compra do imóvel, que será realizada na modalidade de leilão. Parágrafo único. Os ocupantes referidos no caput deste artigo poderão adquirir o imóvel pelo valor da proposta vencedora, deduzido o valor correspondente às benfeitorias comprovadamente por eles realizadas, desde que manifestem seu interesse no ato do leilão ou no prazo de até 15 (quinze) dias, contado da publicação do resultado do certame. Art. 18. Os imóveis não-operacionais da Rede Ferroviária Federal S.A. - em liquidação poderão ser alienados diretamente: I - desde que destinados a programas de regularização fundiária e provisão habitacional de interesse social, a programas de reabilitação de áreas urbanas centrais ou a sistemas de circulação e transporte: 178

7 O Procedimento Registral das Linhas Férreas o processo de venda dos imóveis da antiga Rede Ferroviária Federal. (ARAÚJO, 2010) O texto do artigo nº 19 da mencionada lei, aprovado pelo Congresso Nacional, previa que na alienação dos imóveis pertencentes à Rede Ferroviária Federal, o registro seria efetuado no cartório da localidade mais próxima de onde se situa o imóvel, não se aplicando o disposto no art. nº 171 da Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, ou seja, o cartório situado no Município da estação inicial da linha não teria competência para registrar atos relativos a todos os imóveis pertencentes à estrada de ferro. Não ocorresse o veto presidencial, teríamos que somente a via férrea (trilhos) seria registrada e/ou hipotecada no Município da estação inicial da linha, passando para o foro da situação do imóvel a competência para o registro dos demais atos, o que vai de encontro ao princípio da continuidade registral. (ARAÚJO, 2010) Tendo em vista o supra, percebemos que não é vontade do legislador inovar quanto às regras de registro aplicadas às linhas férreas, respeitando a unidade registral das linhas férreas, inteligência do art. nº 171 da Lei de Registros Públicos. a) aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios; b) a entidades públicas que tenha por objeto regularização fundiária e provisão habitacional, nos termos da Lei no , de 16 de junho de 2005; c) a Fundos de Investimentos Imobiliários, previstos na Lei no 8.668, de 25 de junho de 1993; II - aos beneficiários de programas de regularização fundiária e provisão habitacional de interesse social. Parágrafo único. Para a avaliação dos imóveis referidos no caput deste artigo, aplicar-se-á o método involutivo. Art. 19. Na alienação dos imóveis referidos nos arts. 16, 17 e 18 desta Lei, observar-se-á o seguinte: I - os contratos celebrados mediante instrumento particular terão força de escritura pública; II - quando não for possível comprovar a dominialidade de imóvel da Rede Ferroviária Federal S.A. - em liquidação, será permitida a cessão ou transferência da posse deste ao adquirente, para posterior regularização perante o cartório de registro de imóveis; III - o registro será efetuado no cartório da localidade mais próxima de onde se situa o imóvel, não se aplicando o disposto no art. 171 da Lei no 6.015, de 31 de dezembro de Parágrafo único. Os imóveis situados na faixa de domínio das ferrovias cuja ocupação coloque em risco a vida de pessoas ou comprometa a segurança e eficiência da operação ferroviária não poderão ser alienados. 179

8 André Luis Fontanela Aplicando de sobremaneira o Princípio da Territorialidade, o acesso às matrículas dos bens imóveis pertencentes à linha férrea seria temeroso, pois, considerando que para sua formação foram necessárias as fusões de diversos imóveis, instrumentalizadas por desapropriações ou outras aquisições de modo geral, o inventário da linha férrea seria um procedimento moroso com a busca de certidões imobiliárias em todas as Serventias Extrajudiciais Imobiliárias que tiveram suas circunscrições interceptadas pela ferrovia. Esta linha de entendimento, para efeitos práticos, viabilizaria uma melhor mobilidade comercial quanto aos pátios multimodais das ferrovias, visto que, estes, por sua vez, são objeto de concessão autônoma, diversa da concessão de uso aplicada para a linha férrea. O registro dos pátios em separado à linha férrea, nos quais o setor privado materializa seus empreendimentos e opera o transporte das cargas, desburocratizaria as transações comerciais, pois locariam apenas na circunscrição em que o mesmo está adstrito toda a documentação registral do mesmo. Todavia, ressalte-se que o procedimento legal neste caso não seria violado, pois os pátios multimodais, estações, etc., não fazem parte da linha férrea, pelo contrário são acessórios, que tem relação imediata com a mesma, mas também independência funcional. A Lei nº 6.015/73 necessita ser atualizada com urgência, no seu todo, e em particular no tocante ao artigo nº 171, e somar as disposições do Código Civil, ou seja, as linhas férreas e também hipotecas são registradas na Serventia Imobiliária do Município da estação inicial da linha. Não deixando de obedecer ao princípio da circunscrição através das remissões recíprocas, ou seja, os lançamentos feitos nas matrículas das Serventias imobiliárias que tiveram imóveis interceptados pela linha férrea deverão ser comunicadas à matrícula da linha férrea, a qual localizar-se-á na estação inicial da mesma; e vice-versa. Não faz nenhum sentido que um imóvel pertencente à Rede Ferroviária Federal, e localizado em Uberlândia, venha a ser registrado em Belo Horizonte, estação inicial da linha, sem qualquer espécie de informação à matrícula do imóvel interceptada por aquela. Sendo o Código Civil trinta anos mais recente que a Lei 180

9 O Procedimento Registral das Linhas Férreas 6.015/73, entendemos que, se encontra inadequado a aplicação pura do art. nº 171 da Lei Registral, todavia, entendemos que o mesmo não está ab-rogado e sim desatualizado quanto ao seu procedimento de aplicação, tendo em vista a promulgação da Lei nº /07, que teve seus artigos nºs 16 a 19 vetados, os quais se subordinavam ao princípio da circunscrição de forma pura. 2 - Da Existência Registral das Linhas Férreas e Suas Aplicações No Direito Administrativo Do Direito Registral A atuação registral visa garantir a publicidade, autenticidade, segurança e eficácia dos atos jurídicos, trazendo segurança jurídica e procedimentalizando situações fáticas lançadas em fólio real, e por assim ilidindo o apelo ao Poder Judiciário em enésimas demandas judiciais buscando restabelecer a ordem jurídica, atuando, portanto, como instrumento de pacificação social. Na concepção de Néri: o direito registral pode definir-se como o conjunto de normas positivas e genéricas que governam e disciplinam as declarações humanas formuladas sob o signo da autenticidade pública. O direito registral imobiliário, segundo Maria Helena Diniz, consiste num complexo de normas jurídico-positivas e de princípios atinentes ao registro de imóveis que regulam a organização e o funcionamento das serventias imobiliárias 8. Para o direito de forma geral é a divulgação oficial do ato para o conhecimento público que gera o início de seus efeitos. Todavia, vale ressaltar que a publicidade não é elemento formativo do ato, é requisito de eficácia, por isso mesmo, se convalidam com a publicação, nem os regulares a dispensam para sua exeqüibilidade, quando a lei ou regulamento exige procedimentos especiais, tal como o registro. Quanto aos atos advindos do direito público, o princípio da publicidade dos atos e contratos administrativos, além de assegurar 8 DINIZ, Maria Helena. Sistemas de Registros de Imóveis. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, p

10 André Luis Fontanela seus efeitos externos, visa propiciar seu conhecimento e controle pelos interessados diretos e pelo povo em geral; abrange toda a atuação estatal, não só sob o aspecto de divulgação oficial de seus atos como, também, de propiciação de conhecimento da conduta interna de seus agentes. Conforme explicitado o lançamento em fólio real de um instrumento prescinde a publicidade do ato, atribuindo apenas oponibilidade em face de terceiros. No entanto, segundo a inteligência do art. 1º da Lei de Registros Públicos, caso o instrumento levado a registro não tenha em seu bojo os efeitos da publicidade, tais como: ter sido lavrado em Serventia Extrajudicial, ter sido publicado nos veículos competentes ou ter sido emanado pelo judiciário; também alcançará os efeitos da publicidade através do registro. Segundo Ceneviva, o princípio da oponibilidade é característica típica de um direito real. A oponibilidade somente existe quando houver previsão legal, inclusive pela natureza do negócio jurídico. Muitos registros existem como elemento probatório, sem o condão de ser oponível. 9 Desta forma, deve-se buscar na summa divisio qual o negócio que é oponível, e qual o pressuposto para torná-lo eficaz contra terceiros (art. nº 1.228, do CC). No caso, a publicidade eficácia declarativa impõe-se para assegurar a continuidade do registro de transmissão e, assim, manter sempre atualizada a genealogia jurídica dos bens imóveis para oponibilidade frente a terceiros e, de modo especial, para permitir a disponibilidade desses bens, entendida esta como a faculdade de registrar alienações ou onerações futuras. 2.2 Do Direito Administrativo O direito administrativo tem ligação imediata com o detentor da delegação do serviço público de registros, ou seja, o registrador, 9 CENEVIVA, Walter. Lei dos Notários e dos Registradores Comentada. 4. ed. rev. ampl. e atual. até 10 de julho de São Paulo: Saraiva,

11 O Procedimento Registral das Linhas Férreas que recebe do Poder Executivo a delegação de presentar o Estado, compondo, administrando e zelando, em seu nome, os livros de registro da respectiva Serventia Extrajudicial. É entendimento jurisprudencial que os delegatários das Serventias Extrajudiciais são agentes públicos, vinculados ao Poder Executivo, exercendo função tipicamente administrativa, conforme preleciona o Ministro Celso de Melo: As Serventias Extrajudiciais constituem órgãos públicos titularizados por agente que se qualificam, na perspectiva das relações que mantém com o Estado, como típicos servidores públicos. (ADI n Rel. Celso Melo-J RTJ168/95) Da desapropriação Considerando que o Estado é detentor do monopólio quanto a construção e operação de ferrovias no Brasil, através da Lei nº /2008, e o lançamento no fólio real é ato primário para a constituição ou regularização fático-jurídica das mesmas, é de suma importância estudar o instrumento que o Estado se utiliza para adquirir o domínio das áreas nas quais subsistem os equipamento férreos. A desapropriação é prevista ao longo de vários dispositivos, quais sejam, arts. 5º, XXIV, 22, II, 182, 3º e 4º, e III, e 184, na legislação infraconstitucional temos o Decreto-Lei nº 3.365, de , que dispõe sobre desapropriação por utilidade pública; Sendo a questão principal da desapropriação, obter o equilíbrio entre a autoridade do Estado e liberdade individual, vem à colação o item LIV do Art. 5º da Constituição Federal. Não há grandes divergências sobre o conceito de desapropriação, a qual, diga-se desde logo, pode incidir sobre bens móveis e imóveis, todavia, o presente estudo, para efeitos didáticos, delimitar-se-á aos imóveis. Pontes de Miranda(p.43) nos dá excelente conceituação do que seja a desapropriação: ato de direito público mediante o qual o Estado transfere direito ou subtrai o direito de outrem, a favor de si mesmo, ou de outrem, por necessidade, ou utilidade pública, ou por interesse social, ou simplesmente o extingue. Carlos Ari Sundfeld(1990, p. 30), por sua vez, a define como: 183

12 André Luis Fontanela procedimento estatal destinado a substituir compulsoriamente um direito de propriedade pelo equivalente econômico, de modo a permitir sua afetação a um interesse público ou social. Surge quando a administração pública defronta situações de emergência que para serem resolvidas satisfatoriamente exigem a transferência urgente de bens de terceiros para o seu domínio e uso imediato. O ato jurídico-administrativo de desapropriação para que se torne perfeito, alcançando os efeitos de existência, validade e eficácia, no âmbito do direito administrativo e da legislação específica o Decreto-Lei nº 3.365/1941, dois fatores são de suma importância, a regularidade do Decreto Expropriatório com suas publicações de práxis e o pagamento da justa indenização pelas áreas expropriadas. Os efeitos da existência e da validade do ato administrativo são preenchidos com o Decreto, não sendo plausíveis questionamentos referentes utilidade pública da área objeto da expropriação (art. 9º do Decreto-Lei nº 3365/41), e com a regular publicação no Diário Oficial da União não mais é possível alegar o desconhecimento da desapropriação, ou seja, conforme pormenorizadamente descrito no Decreto de Utilidade Público já se faz sabido quais áreas estão desapropriadas. Para o ato jurídico-administrativo desapropriação tornar-se eficaz, resta apenas o pagamento da justa indenização, por conseguinte a desapropriação está perfeita e acabada, mesmo sem lançamento na matrícula do imóvel interceptado. Dos Efeitos Objetivados 3.1 Do Lançamento do Instrumento no Fólio Real Estabelece o art. nº 172, da Lei de Registros Públicos que no Registro Imobiliário serão feitos registros e averbações de títulos ou atos constitutivos, declaratórios, translativos e extintivos de direitos reais sobre imóveis, reconhecidos em Lei, uma vez que não podem ser criados pelas partes, inter vivos ou causa mortis, quer para sua constituição, transferência ou extinção, quer para sua validade em relação a terceiros, quer para sua disponibilidade. 184

13 O Procedimento Registral das Linhas Férreas A tendência da jurisprudência é de que a relação que se vê o artigo nº 167, tem caráter exaustivo e não exemplificativo, não se permitindo, desta forma, a extensão do que ali se vê. Assim, apresentado título para registro ou averbação sem que se amolde ao que temos no referido artigo e em seus respectivos incisos I e II, não deve ter ele acesso ao sistema registrário. Em nosso direito, tem o registro efeito juris tantun, acompanhando a eficácia atribuída ao modelo francês, ao contrário do germânico, que o tem como juris et de jure Do Registro (Da Segurança Jurídica e Razoabilidade) O direito imobiliário é um complexo de normas reguladoras do registro de imóveis e dos atos jurídicos a ele pertinentes. Ocupa papel de relevância no direito civil moderno, na medida em que sustenta condições de segurança e estabilidade ao mercado imobiliário, propiciando segurança jurídica e, consequentemente, desenvolvimento econômico. A regularização registral é de grande utilidade como nos afirma Raimundo Viana( 1980, p. 19): a finalidade desse registro é muito mais para documentar a saída do bem do domínio privado, do que a testificação da aquisição ou o momento da consumação desta. (...) apenas para evitar negócios irregulares envolvendo o bem, com possibilidade de sérios prejuízos para terceiros de boa-fé. Inquestionável a norma estabelecida pelo art. nº 171 da Lei Federal nº 6015/73. Que o registro imobiliário da linha férrea seja efetuado na estação inicial da respectiva linha. Esta determinação vem anterior ao Decreto-Lei nº 1000 de , referendado na Lei Federal nº 6.015/73 e observado no Código Civil de 2002, pois este dispõe no art. nº 1502 que a hipoteca 10 BUSSO, Sérgio. Qualificação registrária, procedimentos recursais e outros aspectos de interesse dos serviços de notas e de registro de imóveis. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 249, 13 mar Disponível em: <http://jus.uol.com.br/revista/texto/4918>. Acesso em: 10 dez

14 André Luis Fontanela sobre estrada de ferro deverá ser registrada na Serventia Extrajudicial do Município da estação inicial da respectiva linha. Sendo que ao aplicar qualquer princípio registrário específico, deve o Oficial Registrador ou outro profissional do direito, que fizer as vezes, sempre zelar pela segurança jurídica, que deve ser considerada o alicerce do Registro de Imóveis, pois sem ela os atos por ele praticados não serão revestidos da certeza e presunção de veracidade necessários. Os princípios registrários e a formalidade foram criados em benefício dos cidadãos e somente devem se sobrepor ao direito de propriedade garantido pela Constituição Federal quando a segurança jurídica estiver ameaçada. Respeitados os princípios supra enunciados, é necessário considerar que para atribuir maior segurança jurídica às linhas férreas, além do lançamento no fólio real da Serventia Extrajudicial Imobiliária da estação inicial, é prudente, em observância ao princípio da territorialidade, que se façam remissões recíprocas às matrículas que são interceptadas pelo eixo da mesma. Estas remissões se dariam através de averbações, constando a informação de que naquela propriedade atravessa a linha férrea e em quais dimensões isso ocorre. Conclusão Concluímos com este estudo que o direito registral subordina- -se às normas aplicáveis do direito administrativo e os principais efeitos produzidos são os da segurança jurídica e oponibilidade, certas vezes travestido de publicidade. Quanto ao suporte registral das linhas férreas, vislumbramos que tem ligação imediata com as normas do direito administrativo, sejam nas desapropriações da faixa de domínio para sua instalação, que em sua maioria se dão por utilidade pública; seja na obrigatoriedade do registro a fim se atribuir oponibilidade erga omnes. Defendemos, ainda, a aplicabilidade do art. nº 171 da Lei nº 6.015/73, pois os atos relativos às vias férreas devem ser registrados no cartório correspondente à estação inicial da respectiva linha, to- 186

15 O Procedimento Registral das Linhas Férreas davia, a fim de respeitar o vetor de conhecimento da territorialidade, este dispositivo legal deveria ser paragrafado lançando a obrigatoriedade de remissões recíprocas nas matrículas interceptadas pelo eixo da linha férrea nas respectivas Serventias Extrajudiciais Imobiliárias. Referências Bibliográficas BRANDELLI, Leonardo. Teoria Geral do Direito Notarial. Porto Alegre: Livraria do Advogado, BRASIL. Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de Lei de Registros Públicos. Disponível em: <http://www.senado.gov.br>. BRASIL. Lei nº , de 10 de janeiro de Código Civil Brasileiro. Disponível em: BRASIL. Lei nº 8.935, de 18 de novembro de Lei dos Serviços Notariais e de Registro. Disponível em: BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: BRASIL. Lei nº 3.071, de 5 de janeiro de Código Civil Brasileiro. Disponível em: (revogada). BRASIL. Lei nº , de 31 de maio de Disponível em: CRETELLA JÚNIOR, José, Curso de Direito Administrativo, 4. ed. Rio de Janeiro: Forense,1975. DINIZ, Maria Helena. Sistemas de Registros de Imóveis. 4ª ed. São Paulo: Saraiva, GASPARINI, Diógenes, Direito Administrativo. 18.ed. São Paulo: Saraiva,

16 André Luis Fontanela LARRAUD, Rufino. Curso de derecho notarial. Buenos Aires: Depalma, MARQUES, S. A.; Robles L.T. Reestruturação Financeira e Institucional do Subsetor Ferroviário. IPEA, MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Curso de Direito Administrativo. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. São Paulo: Barros Fischer & Associação Ltda, NERI, Argentino I. Tratado Teórico y prático de Derecho Notarial. Buenos Aires: Depalma, V. 1. SILVA, Antonio de Moraes, Diccionario da Língua Portugueza. 7. ed., 2. v. SUNDFELD Carlos Ari. Desapropriação. São Paulo: Revista dos Tribunais, SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de Direito Público, 3. ed., São Paulo, Malheiros,

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