BAILLY, Danielle. Elements de didactique des langues. Paris: Les langues Modernes, BESSE, Henri & PORQUIER, Remy. Grammaires et didactique des

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1 ABSTRACT: The objective of this paper is to discuss the way linguistic knowledge should be transmitted to language teachers, pointing to the necessary modifications and to the difficulties found in this process of communication. Um aspecto importante a ser abordado, na intersec~ao de dominios que envolvem 0 ensino de linguas, e como 0 conteudo lingiiistico a ser trabalhado com os professores deve ser formulado, de modo que haja aceita~ao por parte desses profissionais e repercussao em suas atividades de sala de aula. Em primeiro lugar, deve-se considerar a forma~ao de base do professor de linguas, ou seja, sua maior ou menor familiaridade com as teorias lingiiisticas, fruto dos estudos que desenvolveu no curso de licenciatura. Tambem, deve-se levar em conta 0 ambiente cultural do professor e sua disponibilidade para participar desse processo de reflexao sobre lingiiistica e ensino de linguas. Nesse ponto, e relevante 0 incentivo dado pela institui~ao e 0 espa~o para estudo que the e oferecido em sua grade honiria. Uma decisao de engajamento depende de algumas condi~oes: 0 professor precisa encontrar uma utilidade pnitica para este saber que Ihe esta sendo transmitido, motivando-se a adotar mudan~as em sua tarefa de ensinar; a utilidade dessas informa~oes deve funcionar como um arejamento para que 0 professor possa transformar a rotina de sua pratica quotidiana. Qualquer interven~ao extema sera improdutiva se nao houver, da parte do professor, vontade de melhorar a aprendizagem, o ensino, a compreensao de uma lingua e de uma cultura com que ele esta envolvido. Para alguns professores, de um lado, 0 contato com novas informa~oes, apoiadas na lingiiistica representa uma posi~ao de privilegio e de responsabilidade dentro de seu ambiente de trabalho. Por outro lado, eles tem que se sentir participantes do processo, com experiencias a partilhar. A reflexao que aqui fazemos e baseada em autores que tratam desse processo de comunica~ao (conforme referencias bibliognificas), bem como em nossos contatos com professores da Rede Publica Estadual de Sao Paulo, nos diversos momentos em que, enquanto docente da universidade publica, discutimos conteudos de lingua (materna e estrangeira) com professores do ensino fundamental e medio. Apontados os fatores intelectuais e psicologicos acima, podemos retornar a questao inicial, isto e, a forma pela qual um aspecto lingiiistico deve ser apresentado ao professor de linguas para que ele 0 compreenda e 0 julgue util para 0 ensino. Bailly (1984: 284) enfatiza a elimina~ao de quase toda formaliza~ao, num primeiro momento,

2 assim como a reformula.;:aotranscodificada dos conceitos, num meio termo entre aquilo que e formulado pelos lingiiistas e 0 saber cultivado e transmitido pelos compendios mais correntes no ensino de linguas. Para a autora, pois, urn conteudo mais formalizado podera ser passado aos professores, num segundo ou terceiro momento, caso haja perseveran~a e forte motiva~ao por parte deles. Nao se trata, portanto, de um discurso cientifico. 0 mediador entre 0 saber lingiiistico e 0 professor de linguas precisa criar uma especie de saber intermedilirio, articulado entre a teoria e a pratica e permeado de simplifica~oes, sistematiza~oes - um discurso adaptado. Vives (1988) ve essa articula~ao do mediador como uma especie de recondicionamento, com dois aspectos a serem apontados: De um lado, as modifiea~oes que sao (ou nao sad)introduzidas pelos produtos lingiiistieos a fim de torna-ios aptos a cireularem numa rede de distribui~ao didatiea, e, de outro lado, os modos de emprego que os aeompanham em fun~ao de sua utiliza~ao na sala de aula (Vives, 1988:26, tradu.;:aonossa). Nesse sentido, e recomendavel que se busque uma fundamenta.;:aolingiiistica que em seu proprio bojo ja articule a teoria e a pratica. A esse respeito, fizemos uma reflexao sobre lingiiistica e didatica de linguas (Dota, 1994 e 1999), apresentando a teoria das opera.;:oes enunciativas do lingiiista frances Antoine Culioli como uma lingiiistica implicada que leva em considera.;:aoteoria e pratica. Caso contrlirio, corre-se o risco de se inclinar para uma fundamenta.;:ao atraente mas inocua, em termos de abertura de possibilidades para 0 ensino de linguas. Na escolha das no~oes lingiiisticas que seleciona para serem transmitidas aos professores de linguas, 0 mediador nao pode perder de vista a questao da utilidade e da praticidade dos conceitos, conforme apontamos acima. Por outro lado, na ansia de praticidade por parte do publico-alvo, e preciso que se evite 0 enfoque unico e exclusivo na pratica, desarticulada de uma teoria que possa the servir de embasamento. Observamos que, na premencia do tempo e tentando fugir do estereotipo de que mediadores ligados as universidades sao "muito teoricos" e nao conhecem a realidade da rede publica de ensino fundamental e medio, podemos, enquanto intermediarios, cair numa mera justaposi.;:ao de atividades que em nada vao desenvolver a capacidade metalingiiistica daqueles envolvidos com 0 ensino de linguas. Na comunica.;:aodo saber lingiiistico, e preciso ficar claro que 0 conhecimento e 0 dominio das regras gramaticais de uma lingua nao sao suficientes para assegurar urn desempenho real da produ.;:aoe do reconhecimento de textos. Para Widdowson (1991), deve-se relacionar a utiliza.;:ao da forma (gramatical) e 0 uso (comunicativo), num contexto especifico. As considera.;:oessobre os conceitos lingiiisticos e sobre a lingua em si, conseqiientemente, devem ser mostradas como uma maneira de ligar a forma a seu valor. Alem do mais, Combettes (1988:64) observa que: pareee neeessario nao se limitar, dentro das novas abordagens textuais e enunciativas, aos trabalhos que dao eonta da estrutura e funcionamento do texto, mas de tirar proveito, tamhem, das pesquisas sobre os proeessos textuais, dominio essencial- mais importante que 0 preeedente - para aqueles que se preoeupam eom a didatiea de linguas (tradu.;:aonossa).

3 Nesse sentido, a apresenta~ao de categorias mais amplas, como por exemplo a deixis, englobando as marcas de pessoa, lugar e tempo, pode converter-se em urn caminho favonivel para a reflexao sobre os processos constitutivos do enunciado e, dessa forma, para a viabilidade de exercicios que trabalhem com aspectos lingiiisticos em situa~ao de utiliza~ao, visando aos empregos e usos efetivos da lingua. Cabe ao mediador fazer urn discurso sobre 0 idioma em questao, com uma dimensao metalingiiistica que aborde as formas diversas em situa~ao de uso. Com essa pnitica, 0 mediador entre 0 saber lingiiistico e 0 professor de linguas pode oferecer it lingiiistica urn terreno de investiga~ao para as pesquisas em lingiiistica, uma vez que 0 progresso na compreensao do discurso da sala de aula e urn progresso na teoria lingiiistica. Cicurel (1988:20) enfatiza que "na constitui~ao de uma teoria da linguagem, em sentido amplo, a c1assee urn lugar privilegiado de estudo, porque ela e a expressao das normas, cren~as e valores de urna comunidade" (tradu~ao nossa). Nesse processo de retorno it lingiiistica, com subsidios dados por aqueles que estao em contato com 0 ensino da lingua, e possivel nao so transmitir, mas compor urn saber de duas maos - da teoria a pratica e vice-versa -, capaz de dar conta do processo de comunica~ao, da produ~ao dos enunciados e de embasamentos para a produ~ao de materiais pedagogicos. Vale observar que nao e facil para 0 mediador, a partir de certo grau de complexidade da formaliza~ao lingiiistica, reconstituir a totalidade da teoria e articula-ia com a pnitica. E preciso que se fa~a urn balan~o entre 0 repertorio e as expectativas do publico-alvo - os professores de linguas - e 0 nivel de simplifica~ao dos aspectos lingiiisticos a serem discutidos, de forma a nao reduzir 0 alcance dos conceitos apresentados. Segundo Vives (1988:28), deve-se evitar que a transmissao parcial dos elementos de uma teoria, destacados do conjunto conceitual do qual eles se originaram, percam, em parte, senao na totalidade, 0 sentido que tinham anteriormente. Uma vez que os estudos lingiiisticos iniciam-se com 0 lingiiista e, nesse processo cuja fmalidade e 0 ensino, vao desembocar no aluno, deve-se ter consciencia das perdas que podem ocorrer no percurso da comunica~ao, envolvendo, ainda, 0 mediador e 0 professor de linguas. Cabe, em ultima analise, ao mediador, escolher, consciente e voluntariamente, a partir do saber lingiiistico incorporado em seu conhecimento, aquilo que deva ser transmitido aos responsaveis pela pnitica em sala de aula. Urn ponto importante a ser considerado e a propria postura do mediador que nao pode se colocar numa posi~ao de superioridade, como 0 detentor do saber, pronto para oferecer urn "treinamento" aos professores que trabalham com 0 ensino de linguas. o mediador precisa incorporar, nas discussoes desse encontro, a experiencia que os professores possuem e recuperar suas proprias dificuldades, ao transmitirem os aspectos lingiiisticos de forma efetivamente comunicativa. A partir desses dados, ele podera estabelecer elos com estudos da lingiiistica e apresentli-ios de forma que vao ao encontro das inquieta~oes e necessidades dos envolvidos. E necessario que se construa urn clima de intera~ao entre mediador e professores participantes, entre a lingiiistica e a pratica pedagogica.

4 Sabe-se, tambem, que professores do ensino fundamental e medio, principalmente da rede publica, ministram urn grande nlimero de aulas, tendo pouco tempo para prepara~ao destas. Isto explica, em parte, sua ansia por atividades pniticas dentro dos pr6prios cursos a eles oferecidos, uma vez que nao lhes sobra muito tempo para a reformula~ao de seu material didatico. A reflexao lingoistica, portanto, precisa ser apresentada de forma a incitar e motivar esses professores a buscarem alternativas em sua pnitica pedag6gica, mesmo que isto va requerer urna boa parte de seu tempo fora da sala de aula. Para tanto, essa reflexao nao pode vir desvineulada dos problemas encontrados em aulas de linguas e, por outro lado, nas palavras de Culioli et ai. (apud Besse & Porquier, 1984:45), ''nio se pode colocar 0 problema dos observaveis sem se oferecer uma teoria da observa~ao". A obra de Besse & Porquier e relevante no contexto da comunica~ao do saber lingoistico, uma vez que propoe uma articula~ao metodo16gica entre as teorias e as pniticas gramaticais em aula de lingua. Urn outro aspecto que tambem interfere na comunica~ao do saber lingiiistico e o fato de os professores da rede publica serem "convocados" para participar de tais encontros. Essa decisao faz com que alguns ja cheguem aos cursos com urna certa resistencia em rela~ao aquilo que vai ser proposto, 0 que dificulta, grandemente, a aceita~ao das pondera~oes feitas e a disposi~ao para contribuir com sua valiosa experiencia. Procuramos analisar, neste trabalho, aspectos relativos a comunica~ao do saber lingoisticoa professores envolvidos com 0 ensino de linguas. Chamamos a aten~ao para dois pontos: 1) a reformula~ao dos conceitos lingoisticos, de forma a se apresentarem acessiveis ao repert6rio do publico-alvo e a articularem questoes te6ricas e pniticas; 2) tratamos, tambem, das dificuldades de ordem pessoal e institucional que se apresentam ao mediador e aos professores e que podem interferir na rela~ao que se estabelece entre eles. Para que esse processo de comunica~ao se realize a contento, e importante que o mediador domine muito bem os conceitos lingoisticos em que vai se fundamentar e que conhe~a, tambem, a realidade do professor de linguas em sala de aula, tanto no que diz respeito ao idioma propriamente dito, quanto em rela~ao as suas condi~oes de trabalho dentro da(s) escola(s). Entendemos que se trata de uma tarefa desafiadora, principalmente para 0 mediador, que precisa motivar profissionais sobrecarregados por suas jomadas de trabalho a refletirem sobre teorias lingoisticas com que estao pouco familiarizados e a que raramente tern acesso e, a partir delas, contribuir com mudan~as na pnitica pedag6gica. RESUMO: 0 objetivo deste trabalho e discutir a forma como 0 saber lingiiistico deve ser transmitido aos professores de linguas, apontando as modifica~oes necessarias e as dificuldades que se colocam nesse processo de comunica~ao.

5 BAILLY, Danielle. Elements de didactique des langues. Paris: Les langues Modernes, BESSE, Henri & PORQUIER, Remy. Grammaires et didactique des langues. Paris: Hatier, CICUREL, Francine. Didactique des langues et linguistique: propos sur une circularite. Etudes de Linguistique Appliquee, Paris, n. 72, p , COMBETTES, Bernard. Linguistique et enseignement du fran~ais langue maternelle: tendances nouvelles. Etudes de Linguistique Appliquee, Paris, n. 72, p , DOT A, Maria Inez Mateus. Das esttategias de leitura as opera{:oes enunciativas: a modalidade. Tese de Doutorado, Faculdade de Filosofia, Ciencias e LetraslUNESP, Araraquara, Linguistica e didlitica de linguas. Esstudos LingUisticos XXVIII, Sli.o Paulo, n. 28,p ,1999. VIvEs, Robert. Quand la didactique fait ses emplettes chez les linguistes. Etudes de Linguistique Appliquee, Paris, n. 72, p , WIDDOWSON, H. G. 0 ensino de linguas para a comunica{:iio. Trad. de Jose Carlos P. de Almeida Filho. Campinas: Pontes, 1991.

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