JURIS POIESIS REVISTA DO CURSO DE DIREITO DA UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ. Rio de Janeiro, ano 16, n. 16, jan-dez.

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1 JURIS POIESIS REVISTA DO CURSO DE DIREITO DA UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ Rio de Janeiro, ano 16, n. 16, jan-dez.

2 Solicita-se permuta Exchange requested On demande l`échange Se solicita caje FICHA CATALOGRÁFICA E SOLICITAÇÃO DE TROCA Juris Poiesis ano 16, n.16, jan-dez Rio de Janeiro: Universidade Estácio de Sá, Mestrado e Doutorado em Direito, Revista do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá Descrição baseada em: ano 1, n ISSN Direito Periódicos I. Mestrado e Doutorado em Direito II. Universidade Estácio de Sá Juris Poiesis: Revista do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá. Mestrado e Doutorado em Direito. Rua São José, 35 15º andar. CEP Centro - Rio de Janeiro Brasil. Tel: (21) ou (21) FAX: (21)

3 Juris Poiesis Revista do Curso de Direito da Universidade Estácio de Sá Rio de Janeiro, ano 16, n. 16, jan-dez ISSN

4 Reitoria Paula Caleffi Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Luciano Medeiros Editor Científico Fábio Corrêa Souza de Oliveira Editor Executivo Rafael Mario Iorio Filho Conselho Editorial Ángel Oquendo University of Connecticut/Estados Unidos da América. Antônio Carlos Wolkmer UFSC. Carlos Alberto Bolonha UFRJ. Carlos Emilio Gaviria Diaz - Universidad de Antioquia / Corte Constitucional da Colômbia. Daniela Mesquita Leutchuk UNISINOS. Fabio Corrêa Souza de Oliveira UNESA Fernando Antonio de Carvalho Dantas PUC/PR Humberto Dalla Bernardina de Pinho UNESA. Lenio Luiz Streck UNESA. Leonardo Greco UFRJ/UERJ. Luciana Aboim Machado Gonçalves da Silva UFSE. Maria Clara Dias UFRJ (IFCS). Miguel Angel Linera Presno - Universidad de Oviedo / Espanha. Miguel Azpitarte Sánchez - Universidad de Granada / Espanha. Nilton Cesar Flores UNESA. Raiza Méndez - Universidad de Los Andes / Venezuela. Sergio Cademartori UFSC. Vanice Lírio do Valle UNESA. Vicente Barretto UNESA.

5 Avaliadores Ad Hoc André Luiz Nicolitt IBMEC. Bárbara Gomes Lupetti Baptista PPGD/UCP. Carlos Eduardo Adriano Japiassú PPGD/UNESA. Cipriana Nicolitt Cordeiro UNESA. Delton Ricardo Soares Meirelles PPGSD/UFF. Edna Raquel Rodrigues Santos Hogemann PPGD/UNESA. Eduardo Manuel Val PPGD/UNESA. Fabiano Soares Gomes UFRJ. Fernanda Duarte Lopes Lucas da Silva PPGD/UNESA. Fernanda Luiza Fontoura de Medeiros PUCRS. Marcello Raposo Ciotola - PPGD/UNESA.

6 Corpo Docente Coordenador: Fábio Corrêa Souza de Oliveira Doutor Universidade do Estado do Rio de Janeiro Coordenador adjunto: Carlos Eduardo Adriano Japiassú Doutor Universidade do Estado do Rio de Janeiro Aluísio Gonçalves de Castro Mendes Doutor Universidade Federal do Paraná Edna Raquel Rodrigues Santos Hogemann Doutora Universidade Gama Filho Eduardo Manuel Val Doutor Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Fernanda Duarte Lopes Lucas da Silva Doutora Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Humberto Dalla Bernardina de Pinho Doutor Universidade do Estado do Rio de Janeiro Lenio Luiz Streck Doutor Universidade Federal de Santa Catarina Marcello Raposo Ciotola Doutor Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Nilton César Flores Doutor Universidade Federal de Santa Catarina / Universidad de Valencia Rafael Mario Iorio Filho Doutor Universidade Gama Filho Doutor Universidade Federal do Rio de Janeiro Rogério José Bento Soares do Nascimento Doutor Universidade do Estado do Rio de Janeiro

7 Sumário Editorial A competência da Justiça Federal para processar e julgar crimes tipificados na lei nº 9.605/98 The jurisdiction of the Federal Court to adjudicate crimes described in Law nº. 9605/ Rúbia Chassot de Almeida, Luiz Eduardo Cleto Righetto A internação compulsória dos viciados em crack a partir da ponderação entre liberdade e dignidade humana Compulsory hospitalization of crack addicts from the balance balance between freedom and human dignity Jessica Hind Ribeiro Costa A subjetividade dos direitos sociais prestacionais: um diálogo com a Corte Sul-Africana The subjectivity of the social rights: a dialogue with the South African Court Fabiana de Almeida Maia Santos A união poliafetiva à luz do princípio da dignidade da pessoa humana Polyaffetive marriage in view of the principle of human dignity Marcelo Santoro Pires de Carvalho Almeida Edna Raquel Hogemann Audiências públicas na Suprema Corte Brasileira: novas tendências para o diálogo social Public Hearings at Brazilian Supreme Court: new tendences about social dialogue Igor Ajouz, Cecilia de Almeida Silva Cidadania Global Global Civics Hakan Altiney Da obsolescência programada face ao desenvolvimento econômico e jurídico sob a ótica do código de defesa do consumidor Obsolescence of scheduled to face legal and economic development the perspective of the code of consumer protection Victor da Silva Mauro Direito fundamental à propriedade aos quilombolas: efetividade do artigo 68 do ADCT da Constituição Federal The fundamental right of property to quilombolas: effectiveness of the clause 68 of the ADCT of the Brazilian Constitution Virginia Junqueira Rugani Brandão

8 Discriminações lícitas e igualdade: uma relação necessária Positive discriminations and equality: a necessary relation Denny Mendes Santiago, Fabiana Figueiredo Felício dos Santos Heróis da natureza, inimigos dos animais Heroes of nature, enemies of animals Daniel Braga Lourenço, Fábio Corrêa Souza de Oliveira Michael Walzer e as duas formas da argumentação moral Michael Walzer and the two forms of moral argument Marcello Ciotola O governo brasileiro quase unificado e o Executivo own-bounded The brazilian almost-unified government and the executive own-bounded Henrique Rangel, Marina Rezende, Carlos Bolonha O princípio da afetividade e a família constitucionalizada Principle of family and affectivity constitutionalized Eloisa de Souza Hobus Linhares, Cláudia Regina Althoff Figueiredo O princípio da dignidade para além da vida humana The principle of the dignity beyond human life Fernanda Luiza Fontoura de Medeiros O Uso da Epistemologia Pragmática de John Dewey para ensinar a disciplina Análise e Comunicação Jurídicas Using John Dewey s Pragmatist Epistemology to teach Legal Analysis and Communication David T. Ritchie Os Direitos Humanos entre o universalismo e o relativismo: uma possível contribuição da História para o Direito Human rights between universalism and relativism: a possible contribution of History to the Law studies Cecilia Perlingeiro, Vinicius Scarpi Os novos direitos e as medidas alternativas pré-delitivas The new rights and the pre-delict alternative measures Thaís Aline Mazetto Corazza Poder Judiciário brasileiro e tratamento igualitário a homossexuais: uma análise do caso histórico - Ação Civil Pública no Brazilian judicial branch and equal protection to homosexuals: an analysis of historical case - Ação Civil Pública no Fernanda Duarte, Rafael Mario Iorio Filho

9 Reflexões sobre a judicialização do direito fundamental à saúde a partir do ativismo judicial Reflections on judicialization of the fundamental right to health from judicial activism Heletícia Leão de Oliveira Sustentabilidade nas relações de trabalho e o elementar direito à resposta pelo Tribunal Superior do Trabalho Sustainability in labor relations and the basic right to the response by the Tribunal Superior do Trabalho Nilton Cesar Flores, Daniele Regina Terribile NORMAS GERAIS PARA PUBLICAÇÃO DE TRABALHOS

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11 Editorial O número 16 da Juris Poiesis, ano de 2013, deve ser o último no formato impresso. A partir de 2014 a Revista do PPGD/UNESA passará ao modelo eletrônico e, com isso, possivelmente ganhará mais de uma edição por ano. Este é o terceiro número seguido em que a Juris Poiesis adota os critérios exigidos para o qualis B1 (CAPES). Contamos para esta edição com um expressivo elenco de avaliadores ad hoc, nomeados anteriormente, que vêm a emprestar as suas autoridades à publicação, a quem muito agradecemos. Registramos um obrigado especial ao mestrando Ricardo Granja, que trabalhou dedicadamente neste número da Revista. A Juris Poiesis de número 16 encerra mais uma trienal, conforme o período de avaliação da Pós-Graduação Stricto Sensu pela CAPES ( ). O resultado desta trienal, que consolidou o Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade Estácio de Sá com a nota 5, denotando o progresso alcançado pelo Programa, faz com que a presente edição tenha um sabor de regozijo e de trabalho cumprido. Os novos caminhos a serem trilhados pela Juris Poiesis, a partir da forma eletrônica, somam-se aos desafios que o PPGD/UNESA tem de enfrentar em conformidade com a responsabilidade advinda da avaliação da CAPES e de novas conquistas. O sucesso obtido é partilhado entre os docentes do Programa, bem como os alunos, e se encontra parcialmente retratado na Juris Poiesis. A Revista continua sendo disponibilizada em PDF na página do PPGD/UNESA. Fábio Corrêa Souza de Oliveira Coordenador do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade Estácio de Sá

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13 A competência da Justiça Federal para processar e julgar crimes tipificados na lei nº 9.605/98 The jurisdiction of the Federal Court to adjudicate crimes described in Law nº. 9605/98 Rúbia Chassot de Almeida 1 Luiz Eduardo Cleto Righetto 2 RESUMO O presente estudo tem como objetivo sintetizar as regras que definem a competência da Justiça Federal na tutela penal ambiental, trazendo o entendimento mais atual, tanto doutrinário quanto jurisprudencial, no que diz respeito aos conflitos de jurisdição quanto aos principais crimes tipificados na lei nº 9.605/98. A lei de crimes ambientais não definiu competência para apreciação dos tipos penais que instituiu, o que acarreta na prática uma série de dúvidas de atribuição, principalmente no momento do ajuizamento das ações penais ambientais. Por isso, se faz necessário um estudo atual, obedecendo as regras de competência estabelecidas na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e colacionando as mais recentes decisões dos tribunais brasileiros. PALAVRAS-CHAVE Crimes Ambientais. Justiça Federal. Competência. Conflitos. ABSTRACT The present study aims to summarize the rules which define the jurisdiction of the Federal Court in criminal oversight environmental bringing understanding most current, both doctrinal as jurisprudence, with respect to conflicts of jurisdiction as to the principal crimes described in Law nº. 9605/98. The environmental crimes law did not define competence for consideration of criminal types who instituted, resulting in a number of practical questions of attribution, especially at the time of the filing of criminal environmental actions. Therefore, it is necessary to study current, 1 Bacharel em Direito pela Universidade Vale do Itajaí - Univali no Campus de Balneário Camboriú/SC e servidora da Justiça Federal do estado de Santa Catarina. e 2 Advogado Criminalista; Especialista em Direito Público pela Escola Superior da Magistratura Federal do Estado de Santa Catarina; Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI; Professor de Direito Penal e Processo Penal da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI; Professor de Deontologia Jurídica e Prática Processual Penal do Morgado Concursos (Curso Preparatório para Concursos) e Professor de Tópicos Especiais de Direito Processual Penal no Curso de Pós-Graduação da Universidade do Oeste Catarinense - UNOESC.

14 14 Rúbia Chassot De Almeida, Luiz Eduardo Cleto Righetto obeying the rules of jurisdiction laid down in the Constitution of the Federative Republic of Brazil 1988 and the most recent decisions of the courts of Brazil. KEYWORDS Environmental Crimes. Federal Court. Competence. Conflicts. INTRODUÇÃO O artigo em questão aborda o tema sobre a competência da Justiça Federal para processar e julgar crimes tipificados na lei nº 9.605/98 e tem por objetivo esclarecer quais os delitos descritos na lei de crimes ambientais devem ser julgados por juízes federais. Atualmente, a problemática da degradação e da destruição do meio ambiente atinge o mundo inteiro, afetando de alguma forma toda a humanidade. Os estragos muitas vezes são irremediáveis, e a fauna, flora e os recursos minerais que, embora abundantes, são passíveis de extinção, de exaurimento. Ademais, o meio Ambiente não se restringe ao ambiente físico e biológico, mas inclui também as relações sociais, econômicas e culturais. Nessa esfera, a questão da preservação do meio ambiente tem atraído a atenção dos legisladores, e com o objetivo de regulamentar o art. 225 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CRFB/88), foi criada lei nº 9.605/98. Devido à criação da referida lei, condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente passaram a ser punidas civil, administrativa e criminalmente. Assim, constatada a degradação ambiental, seja o poluidor, seja o destruidor, além de ser obrigado a promover a sua recuperação, responde com o pagamento de multas pecuniárias e com processos criminais. O tema reveste-se da maior importância haja vista a necessidade de que seja esclarecida a competência para processar e julgar os crimes tipificados na lei supracitada. A hipótese levantada no presente estudo é a de que a lei que versa sobre crimes ambientais não definiu competência para apreciação dos tipos penais que instituiu, restando necessária a consulta à doutrina e à jurisprudência quando do ajuizamento de ações desta natureza. A CRFB/88 imbuída do desejo de proteção integral e universal atribuiu à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios a competência comum para proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas formas, bem como preservar as florestas, a fauna e a flora (art. 23, VI e VII). Além disso, atribuiu competência concorrente à União, aos Estados e ao Distrito Federal para legislar sobre temas relacionados às florestas, caça e pesca, fauna, conservação da natureza, defesa do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição (art. 24, VI). Essa autonomia dada aos entes da federação quanto à proteção ambiental acarreta dúvida em definir de quem é a competência para julgar crimes ambientais.

15 A competência da Justiça Federal para processar e julgar crimes tipificados na lei nº 9.605/98 15 A competência da Justiça Federal, fincada direta e expressamente na CRFB/88, é de natureza absoluta, e está direcionada no sentido de julgar causas em que há interesses, serviços ou bens da União envolvidos. Esse modelo é um tanto complexo, gerando, na prática, uma série de conflitos de competência, suscitados muitas vezes pelos próprios magistrados frente à incerteza de ter ou não jurisdição sobre a matéria. A pesquisa utilizou-se do método indutivo, sendo possível a partida de um ponto maior da Ciência Penal para chegar a uma gama de conhecimento específico sobre o referido tema. Este estudo abordará a competência da Justiça Federal segundo a CRFB/88, breves comentários à lei nº 9.605/98 e a competência da Justiça Federal nos crimes tipificados na lei nº 9.605/98. O presente artigo se encerra com as considerações finais, nas quais são apresentados pontos conclusivos sobre o tema abordado. 1. DA COMPETÊNCIA CRIMINAL DA JUSTIÇA FEDERAL SEGUNDO A CRFB/88 Este primeiro capítulo tem como objetivo descrever, à luz da CRFB/88, a competência da Justiça Federal na esfera criminal. Na definição de CAPEZ, competência é a delimitação do poder jurisdicional. Aponta quais os casos que podem ser julgados pelo órgão do Poder Judiciário, sendo, portanto, uma verdadeira medida da extensão do poder de julgar. 3 Para Mirabete, é a medida e o limite da jurisdição, é a delimitação do poder jurisdicional. 4 Seguindo esse raciocínio, Tourinho Filho 5 e Mirabete 6 entendem que a limitação do exercício jurisdicional é feita com base na natureza da lide (ratione materiae), no território e nas funções que os órgãos podem exercer dentro dos processos. Na CRFB/88, a distribuição de competência encontra-se expressamente prevista segundo a estrutura do Poder Judiciário nacional. A competência da Justiça Federal é expressamente descrita em seu art Aquilo que não couber a ela, e nem às outras Justiças Especializadas, caberá, por exclusão, à Justiça Estadual. 7 Seguem os incisos do art , que tratam de matéria criminal afeta à Justiça Federal: Art Aos juízes federais compete processar e julgar: [...] IV - os crimes políticos e as infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, excluídas as contravenções e ressalvada a competência da Justiça Militar e da Justiça Eleitoral; 3 CAPEZ, Fernando. Curso de Processo penal. 9. ed. São Paulo: Saraiva, p MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal. 10 ed. São Paulo: Atlas, p TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo penal. Vol 2. São Paulo: Saraiva, 25. ed., p MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal. p COSTA E NETO, Nicolao Dino de Castro; BELLO FILHO, Ney Barros; CASTRO E COSTA, Flávio Dino de. Crimes e infrações administrativas ambientais Comentários à Lei 9.605/ ed. Brasília: Brasília Jurídica, p BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988.

16 16 Rúbia Chassot De Almeida, Luiz Eduardo Cleto Righetto V - os crimes previstos em tratado ou convenção internacional, quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente; V-A as causas relativas a direitos humanos a que se refere o 5º deste artigo; VI - os crimes contra a organização do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o sistema financeiro e a ordem econômico-financeira; VII - os habeas-corpus, em matéria criminal de sua competência ou quando o constrangimento provier de autoridade cujos atos não estejam diretamente sujeitos a outra jurisdição; [...] IX - os crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves, ressalvada a competência da Justiça Militar; X - os crimes de ingresso ou permanência irregular de estrangeiro, a execução de carta rogatória, após o exequatur, e de sentença estrangeira, após a homologação, as causas referentes à nacionalidade, inclusive a respectiva opção, e à naturalização; XI - a disputa sobre direitos indígenas. Os crimes ambientais não são da competência da Justiça Federal, necessariamente, pois não há nos incisos do art. 109 da CRFB/88 previsão a respeito. Além disso, segundo o art. 225, caput, da Carta Magna 9, o meio ambiente é considerado bem de uso comum do povo 10. José Afonso da Silva 11 leciona que a Constituição define o meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito de todos e lhe dá a natureza de bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida. Entretanto, é possível que uma infração penal tenha mais de um titular do direito lesado 12. Isto pode ocorrer também nos crimes ambientais, podendo a União e suas autarquias ou empresas públicas estarem ao lado do sujeito passivo coletividade. Assim, atrai-se a competência para a Justiça Federal (CRFB/88, art. 109, IV) 13. A Súmula 122, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), diz que compete à Justiça Federal o processo e julgamento unificado dos crimes conexos de competência federal e estadual, não se aplicando a regra do art. 78, II, a, do Código de Processo Penal 14. Assim, a competência especial fixada na Constituição para a Justiça Federal dá-lhe a condição especial sobre a competência geral no julgamento de crimes conexos, ou seja, infração penal em detrimento de bens, serviços ou interesse da União e crime comum de competência da Justiça Estadual. 9 Art Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações. 10 FREITAS, Vladimir Passos de; FREITAS, Gilberto Passos de. Crimes contra a natureza. 8. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, p SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 27. ed. São Paulo: Malheiros, p MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de direito penal, v. III, 24. ed. São Paulo: Atlas, p FREITAS, Vladimir Passos de; FREITAS, Gilberto Passos de. Crimes contra a natureza. p Art. 78. Na determinação da competência por conexão ou continência, serão observadas as seguintes regras: [...] Il - no concurso de jurisdições da mesma categoria: a) preponderará a do lugar da infração, à qual for cominada a pena mais grave.

17 A competência da Justiça Federal para processar e julgar crimes tipificados na lei nº 9.605/ BREVES COMENTÁRIOS À LEI Nº 9.605/98 Com o objetivo de regulamentar o referido art. 225 da CRFB/88, entrou em vigor, nos seus aspectos penais, a partir de 30/03/1998, a Lei nº 9.605/98, conhecida como a Lei de Crimes Ambientais. O citado diploma legal é decorrente da imperativa necessidade de normatização das condutas que afetavam e afetam o meio ambiente nacional. Com patrimônio natural inestimável, buscou-se não somente para o país o controle e punição das ações perniciosas à natureza, mas a própria garantia de que tal patrimônio se perpetue no tempo. 15 A lei não é apenas penal, pois contém dispositivos de ordem administrativa. Consoante Freitas 16, esses dispositivos, de todo oportunos, foram elaborados por outra comissão, possibilitando ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) atuar com maior eficácia. Segundo Fiorillo 17, as disposições gerais da lei nº 9.605/98 procuraram atender não só os regramentos que fundamentam o direito criminal e penal constitucional, como as especificidades criadas pelo direito criminal ambiental constitucional e pelo direito penal ambiental constitucional. A citada lei, além de apontar a possibilidade de aplicação de sanções penais para as pessoas físicas, possibilitou a responsabilização penal das pessoas jurídicas, sejam elas de direito público ou de direito privado, inclusive com a aplicação do instituto da desconsideração da pessoa jurídica 18. O capítulo V da Lei 9.605/98 traz como objeto jurídico geral tutelado o ambiente, e está dividido em cinco seções, a saber: (seção I) crimes contra a fauna; (seção II) crimes contra a flora; (seção III) crimes de poluição e outros crimes ambientais; (seção IV) crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural; e (seção V) crimes contra a administração ambiental. Os crimes capitulados apresentam-se quase sempre como delitos pluriofensivos, isto é, descrevem várias condutas ou vários objetos jurídicos. Freitas 19 leciona, ainda, que a lei nº 9.605/98 alterou profundamente a tipificação de condutas, pois antes dela, a matéria relativa ao Direito Ambiental Penal estava dispersa em várias leis, as quais eram pouco conhecidas e desrespeitadas. Cita algumas condutas reprováveis que se tornaram crimes: maus-tratos contra animal doméstico (art ), pesca de espécies com aparelhos não permitidos (art. 34, parágrafo único, II 21 ), poluição do mar por óleo, incluída a forma culposa (art. 54, 15 LOURES, Sérgio Lopes; MIRANDA, Marcos Paulo de Souza; OLIVEIRA, Ana Raquel Cardoso de. Considerações acerca da nova Lei de Crimes Ambientais. Jus Navegandi. Acesso em 25/07/ FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição federal e a efetividade das normas ambientais. 2. ed. rev. São Paulo: Revista dos Tribunais, p FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 4. ed. ampl. São Paulo: Saraiva, p FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. p FREITAS, Vladimir Passos de.. A Constituição federal e a efetividade das normas ambientais. p Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa. 21 Art. 34. [...] Parágrafo único. Incorre nas mesmas penas quem: II - pesca quantidades superiores às permitidas, ou mediante a utilização de aparelhos, petrechos, técnicas e métodos não permitidos.

18 18 Rúbia Chassot De Almeida, Luiz Eduardo Cleto Righetto 2º, inciso V, e 3º 22 ), construção de obras sem estudo de impacto ambiental (art ) e impedimento ou embaraço à ação fiscalizadora do Poder Público no trato de questões ambientais (art ). Para Freitas, nobre desembargador federal aposentado, a maior parte das infrações penais ambientais sujeita-se à lei dos Juizados Especiais Criminais, pois nenhuma delas tem pena mínima superior a um ano. Sendo assim, ou são passíveis de transação, por ser a sanção máxima de um ano, ou admitem suspensão do processo, por ser a pena mínima de um ano. O citado professor salienta: é importante que as condições para gozar das regalias da lei especial só sejam concedidas se o infrator procurar reparar o mal. Se o infrator polui um rio, a suspensão do processo terá como condição alguma atividade relacionada diretamente com a ação reprovável 25. Não obstante aos avanços trazidos pela lei de crimes ambientais, Milaré e Costa Júnior fazem expressa crítica à lei no que tange a presença de um excessivo número de normas penais em branco. Afirmam que o comportamento proibido não deve ser enunciado de forma vaga, ou complementado por dispositivos legais, ou atos normativos extravagantes. Trazem como exemplo o disposto no art. 29, 4º, incisos I e VI 26, no qual não se acham discriminadas as espécies raras ou ameaçadas de extinção, nem estão definidos os métodos ou instrumentos capazes de provocar destruição em massa 27. Mesmo contendo erros grosseiros, como utilizar a expressão exportar para o exterior no caput do art. 30, e outros tantos equívocos que ferem a boa técnica legislativa, a lei de crimes ambientais já regula as atuais relações do homem com o meio ambiente. 3. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL NOS CRIMES TIPIFICADOS NA LEI Nº 9.605/98 A lei n.º 9.605/98 não determinou a competência para julgamento de seus crimes. Assim, torna-se necessário um estudo detalhado da matéria, levando-se em conta 22 Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa. [...] 2º Se o crime: [...] V - ocorrer por lançamento de resíduos sólidos, líquidos ou gasosos, ou detritos, óleos ou substâncias oleosas, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou regulamentos: Pena - reclusão, de um a cinco anos. 23 Art. 60. Construir, reformar, ampliar, instalar ou fazer funcionar, em qualquer parte do território nacional, estabelecimentos, obras ou serviços potencialmente poluidores, sem licença ou autorização dos órgãos ambientais competentes, ou contrariando as normas legais e regulamentares pertinentes: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa, ou ambas as penas cumulativamente. 24 Art. 69. Obstar ou dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público no trato de questões ambientais: Pena - detenção, de um a três anos, e multa. 25 FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição federal e a efetividade das normas ambientais. 2. ed. rev. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 218 e Art. 29. Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida: Pena - detenção de seis meses a um ano, e multa. [...] 4º A pena é aumentada de metade, se o crime é praticado: I - contra espécie rara ou considerada ameaçada de extinção, ainda que somente no local da infração;[...] VI - com emprego de métodos ou instrumentos capazes de provocar destruição em massa. 27 MILARÉ, Édis; COSTA JUNIOR, Paulo José da. Direito penal ambiental Comentários à lei 9.605/98. Campinas: Millenium, p

19 A competência da Justiça Federal para processar e julgar crimes tipificados na lei nº 9.605/98 19 a particularidade do caso concreto, para que se possa definir a competência da Justiça Federal ou da Justiça Estadual nos delitos praticados contra o meio ambiente. Para a incidência da norma constitucional (art. 109, IV), basta a ofensa direta a bens, serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, não sendo necessária a ocorrência de efetivo prejuízo CRIMES CONTRA A FAUNA Antes da edição da lei nº 9605/98, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça havia consagrado, por meio da súmula 91, a competência da Justiça Federal para o conhecimento dos crimes contra a fauna 29. A mencionada súmula foi cancelada, e segundo Freitas, o raciocínio desenvolvido para concluir pela competência da Justiça Estadual foi o de que a lei nº 9.605/98 não dispôs sobre competência, cabendo, a partir da CRFB/88, à União, Estados e Municípios zelar pelo meio ambiente 30. Segue o posicionamento atualmente pacificado do STJ 31 a respeito: PENAL E PROCESSO PENAL. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. CRIME CONTRA A FAUNA. AUSÊNCIA DE OFENSA A BENS, SERVIÇOS OU INTERESSES DA UNIÃO, SUAS AUTARQUIAS, OU EMPRESAS PÚBLICAS. COMPETÊNCIA DO JUÍZO ESTADUAL. 1. Não havendo prejuízo à União, Autarquias Federais ou Empresas Públicas Federais, o processamento e julgamento de crime contra a fauna compete à Justiça Estadual. 2. Conflito conhecido e provido para declarar competente o Juízo do Primeiro Juizado Especial Criminal da Comarca de Nova Iguaçu/RJ, Suscitado. Assim, a competência para processar e julgar crimes contra a fauna é da Justiça Estadual e, excepcionalmente da Justiça Federal nos casos em que os crimes forem praticados em detrimento de bens, serviços ou interesses da União, suas autarquias ou empresas públicas. Como exemplo, crimes contra espécies protegidas em áreas da União como parques nacional e reservas indígenas. Segundo Freitas, serão também da competência da Justiça Federal os casos de tráfico de animais para o exterior, haja vista o Brasil ter se comprometido a reprimir tal conduta através da Convenção sobre o Comércio Internacional de espécies da Flora e Fauna Selvagem em Perigo de Extinção (CITES), aprovada no Brasil pelo decreto legislativo 54, de 26/06/ CRIMES CONTRA A FLORA Consoante se infere das decisões dos tribunais superiores, nada há que justifique a competência federal para processar e julgar os crimes contra a flora, a não ser 28 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. RHC 40, Relator. Min. Costa Leite, DJ Súmula 91 STJ (cancelada). Compete à Justiça Federal processar e julgar os crimes praticados contra a fauna. 30 FREITAS, Vladimir Passos de; FREITAS, Gilberto Passos de. Crimes contra a natureza. p BRASIL, STJ, CC / RJ. Relatora Min. Maria Thereza de Assis Moura. DJE 21/03/ FREITAS, Vladimir Passos de; FREITAS, Gilberto Passos de. Crimes contra a natureza. 8. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 56.

20 20 Rúbia Chassot De Almeida, Luiz Eduardo Cleto Righetto que o delito tenha sido praticado contra bens da União, incidindo a regra geral do art. 109, inciso IV da CRFB/ Assim, se o crime for praticado em área de conservação federal, a competência será da Justiça Federal. Em contrapartida, se o mesmo crime for perpetrado contra árvores ou florestas de particulares, a competência será da justiça Estadual. O STJ 34 possui inúmeras decisões nesse sentido: CONFLITO POSITIVO DE COMPETÊNCIA. CRIME CONTRA O MEIO AMBIENTE. ART.39 DA LEI 9.605/98. CORTE DE ÁRVORES EM ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL SITUADA NO ENTORNO DO PARQUE NACIONAL DO ITATIAIA. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA FEDERAL. 1. A competência da Justiça Federal, expressa no art. 109, IV, da Carta Magna, restringe-se às hipóteses em que os crimes ambientais são perpetrados em detrimento de bens, serviços ou interesses da União, suas autarquias ou empresas públicas. 2. Delito em tese cometido no interior de área de proteção ambiental localizada no Entorno do Parque Nacional do Itatiaia, criado pelo Decreto 1.713/37, floresta contígua à aludida unidade de conservação, o que faz incidir na espécie o disposto no art. 9º da Lei nº 4.771/65 (Código Florestal), verbis: as florestas de propriedade particular, enquanto indivisas com outras, sujeitas a regime especial, ficam subordinadas às disposições que vigorarem para estas. 3. Logo, tendo em vista que a área na qual houve o prejuízo ambiental é vizinha a outra submetida a regime especial (bem da União), compete à Justiça Federal processar e julgar o feito, nos termos do art. 109, inciso IV, da Carta Magna (grifo nosso). É importante salientar que não há se confundir patrimônio nacional com bem da União. Aquela locução revela proclamação de defesa de interesses do Brasil diante de eventuais ingerências estrangeiras 35. Apesar de o art. 225, 4º da CRFB/88 atribuir caráter de patrimônio nacional à Floresta Amazônica, à Serra do Mar, à Mata Atlântica, ao Pantanal e à Zona Costeira, não significa que são bens da União. Entretanto, é evidente que há um interesse nacional na preservação de tais ecossistemas, porquanto é um patrimônio que diz respeito a todos os brasileiros, e não apenas aos habitantes da região 36. O Tribunal Regional da 4ª Região entende que se houver extração de bens oriundos de áreas consideradas patrimônio nacional, a competência é da Justiça Federal, conforme segue 37 : 33 Art Aos juízes federais compete processar e julgar: [...] IV - os crimes políticos e as infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, excluídas as contravenções e ressalvada a competência da Justiça Militar e da Justiça Eleitoral. 34 BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. CC / RJ. Relator Min. Jorge Mussi. DJE 19/04/ BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. CC / RO. Relator Min. Maria Thereza de Assis Moura. DJE 21/08/ COSTA E NETO, Nicolao Dino de Castro; BELLO FILHO, Ney Barros; CASTRO E COSTA, Flávio Dino de. Crimes e infrações administrativas ambientais Comentários à Lei 9.605/98. p BRASIL, Tribunal Regional Federal da 4ª REGIÃO, Acórdão Relator Néfi Cordeiro, DE 28/10/2010.

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