Palavras-Chave: Crime, Ressocialização, Estado, Políticas Públicas, Sistema Carcerário.

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1 Aspectos Sociológicos Do Crime - Fatores Do Crime E A Punição Autores: Marcus Vinicius Afonso Pereira Diogo Henrique Da Silva Paiva RESUMO O crime é algo que permeia a sociedade desde os mais remotos tempos. Portanto, o estudo efusivo a respeito do assunto se desenvolveu inevitavelmente e as mais variadas explicações para sua ocorrência surgiram. Desta feita, tem-se como objetivo a demonstração de causas e efeitos proporcionados pela prática de crime em meio social. O estudo detalhado de obras que sejam atinentes ao caso são de grande valia para o deslinde do trabalho e a instrução pertinente do feito. A pesquisa foi capaz de fornecer parâmetros para que pudessem ser destacados pontos importantes do cometimento de crimes, tais como a ineficiência estatal, a degradação da relação interpessoal, problemas de ordem psiquiátrica, a ocupação irregular dos espaços urbanos, falta de políticas públicas e outros mais. Buscou-se dados por meio de referencia bibliográfica que abraça trabalhos científicos, literatura sobre o assunto, internet, pesquisa de campo em instituições que estão diretamente envolvidas no combate à criminalidade e doutrinas que deram supedâneo ao estudo em apreço. O foco foi analisar as mais variadas causas do envolvimento com o crime e alem disse mostrar o reflexo do mesmo dentro do convívio social. Ficou constatado que um Estado inerte possui maior possibilidade de desenvolver um rede criminosa mais forte e ampla, acometendo o convívio social, o que reflete uma ausência de políticas públicas especifica e eficiente para combater essa chaga. Foi ainda visto que a ineficácia da legislação e ainda dos métodos e suportes para sua aplicação, contribuem acentuadamente para um quadro caótico de desenvolvimento da criminalidade. Para haver uma exclusão do crime da sociedade, farto desenvolvimento social deve ser engendrado, um remodelamento do sistema carcerário é importante, fortalecimento de políticas públicas moldadas em justiça social e o tratamento das pessoas que delinquem é primordial para que se tenha com esses mecanismos uma taxa de ressocialização e consequentemente uma prevenção e diminuição do crime. Palavras-Chave: Crime, Ressocialização, Estado, Políticas Públicas, Sistema Carcerário.

2 2 1 INTRODUÇÃO O crime é algo que trás desconforto a uma sociedade, visto que está intimamente ligado ao descontrole social. É aquele que conduz a insegurança e assim inunda de apreensão a vida das pessoas em um meio social. Trata-se de problema de ordem social e moral que altera os costumes de um local e mais, proporciona a derrubada de uma ordem social corriqueira, que é esperada em qualquer ambiente onde exista uma comunidade. Suas causas e consequências são alvo de estudo e causam interesse na ciência, em especial nas humanas. De acordo com Wilson Vilalba Xavier, o crime é a conduta humana típica e antijurídica. 1 Crime e delito são sinônimos. No caso do Brasil, dizemos que o problema se estende desde as épocas mais remotas da criação do Estado Brasileiro, sendo a demanda já ligada à forma de colonização local. Iniciamos nossa trajetória já por meio de injustiças. Usou-se mão de obra escrava o que já denota o desapego ao cuidado com o próximo e espiritualmente aos princípios cristãos, que hipocritamente eram usados naquela época, mas de forma indevida. O tempo passou e as injustiças na esfera social também se agravaram. Tratamos por aqui das propriedades como moeda de troca para habitação e exploração da terra, quando a coroa portuguesa doava extensões territoriais para abastados, forjando assim um clientelismo e patrimonialismo que se tornou problema endêmico no Brasil. Desta feita transformamos nossa cultura em um modelo exclusivista e preconceituoso, começando então a enraizar modelos de dominação e preconceito no meio da população. Visto isto, sabemos que a exclusão da maioria em favor de uma minoria rica vem de longa data e também sabemos que a pobreza, falta de oportunidades, precariedade de serviços público mínimos para essa população, a falta de emprego, lazer, cultura e esportes, marginaliza e pode conduzir ao crime. Com um país pobre, vêm os problemas sociais e o crime é um deles. Há uma construção da legislação penal e com isso a punição conjuntamente. O Brasil dispõe de um modelo punitivo arcaico (sistema carcerário) onde não meramente uma punição e sim um açoite a qualquer lampejo de humanidade é realizado. O intento da prisão não é somente punir, mas muito além disto, tem-se o fito de ressocializar. Não dispomos de pena perpétua em nosso ordenamento jurídico e por isso com certeza os marginalizados retornarão ao seio da sociedade e com seu comportamento criminal preservado, ou até piorado, fatalmente reincidirá e novamente será preso, não sendo esse o único problema, sendo que podemos dizer que ele novamente perturbará a tranquilidade alheia com a prática de delitos. Sendo assim, o vislumbramos que o problema é histórico e poderia ser resolvido com vontade política, mas não acontece. A preservação da pobreza e a defasagem na aplicação de recursos que visam o desenvolvimento do país ajudam na manutenção do crime, sem nos esquecermos logicamente da corrupção sistêmica. Esses quadros são responsáveis pela destruição das relações intersubjetivas, comunitárias e reproduzem a violência. Os atos lesivos se tornam comuns e por isso são difundidos e praticado normalmente. Criados os problemas pelos gestores de um país, falta de atitude para resolução dos mesmos e assim a negação e os métodos paliativos começam a aparecer, mas a violência não é combatida e sim preservada. Sofrem os mais expostos. Os entraves são muitos e aliados a um Estado burocratizado e com ferramentas arcaicas e sem investimentos, podendo nesse ato citar uma polícia mal preparada e sem 1 XAVIER, Wilson Vilalba. Orientador de prática penal e processual penal, 1ª Ed. Campo Grande, Editora Contemplar, p. 65.

3 condições de trabalho, a baixa apuração dos delitos, um judiciário moroso e inerte muitas vezes, um programa de desenvolvimento social pífio também só ajuda a alimentar a continuidade das práticas delituosas. Ausente o Estado, fortalecem-se as forças paralelas e um Estado ilegítimo é criado pelo crime. As facções criminosas tomam conta dos seus redutos e apresentam-se até mesmo como solução para os problemas sociais. O Estado paralelo toma forma e passa inclusive a compor partes dos poderes, visto que é notório o envolvimento de figuras públicas nesses meios. É de suma importância o desenvolvimento social, ainda mais em um país como o Brasil que mantém seu status quo muito abaixo do necessário para que sua população tenha uma qualidade de vida satisfatória para começar por esse ponto o combate ao crime. As explanações sobreditas demonstram que há muito a ser caminhado para que o problema em lide seja repelido do meio da sociedade. Estratégias devem ser criadas e os modos para tanto são alvo de estudo longo e importante, mas ficam algumas indagações, tais como quais os meios a serem usados, de que forma tomar as atitudes interessantes para que um país cumpra seu papel de fornecer justiça social e consequentemente segurança aos seus habitantes, como praticar políticas públicas pautadas no interesse coletivo e como remodelar o arcaico sistema prisional brasileiro? Assuntos tratados que levam a curiosidade e mais que isto remetem a um pensamento do quão importante seria prevenir a ocorrência do crime. Ditado popular e um tanto simplório quanto o é melhor prevenir que remediar é bastante cabível para o caso. Além da prevenção e combate ao crime, temos o papel primordial de entender que temos o dever ser benevolentes uns com os outros. Nesse sentido, Norberto Bobbio com maestria defendeu em suas ideias que a democracia para ser insculpida em terreno sólido, deveria ser feita pelos cidadãos com compromisso ao combate de todos os tipos de preconceito e também com a prática permanente da tolerância. Portanto, o combate ao crime não é meramente prevenção, ação governamental e também coerção. É uma mescla de medidas do Estado com o comprometimento das pessoas componentes de um povo, visto que ambos sofrem com a ação espúria da criminalidade, devendo também ser feito uma autoavaliação por parte dos supra citados para entender se são meras vítimas ou também colaboradores desse quadro com a falta de ação por eles tomadas para sanar tal entrevero social. 3

4 4 2 FATORES HISTÓRICOS E DE CONDUÇÃO AO CRIME Os episódios onde o crime está presente tem se incrustado no meio social desde os primórdios da sociedade. Não poderia, portanto deixar de ser estudado ao longo do desenvolvimento da humanidade, buscando sempre, para tanto, soluções que pudessem atenuá-lo ou extingui-lo, esse último fator um tanto quanto mais difícil. A violência trazida com o crime torna a sociedade e a ética combalidas. No centro desse assunto, historicamente, há a tentativa de criar padrões onde sejam levados em conta meios de conter o comportamento violento e consequentemente o crime. Nesse tocante, Marilena Chauí discorre que: Quando acompanhamos a história das ideias éticas, desde a Antiguidade clássica (grego-romana) até nossos dias, podemos perceber que, em seu centro, encontra-se o problema da violência e dos meios para evitá-la, diminuí-la, controlá-la. Diferentes formações sociais e culturais instituíram conjuntos de valores éticos como padrões de conduta, relações intersubjetivas e interpessoais, de comportamentos sociais que pudessem garantir a segurança física e psíquica de seus membros e a conservação do grupo social. 2 Fatores históricos são firmes em demonstrar que o Estado como ente responsável pela viabilização de uma qualidade de vida satisfatória para o desenvolvimento humano, ao falhar, cria sim mecanismos de ajeitamento do crime, como é descrito abaixo: Todo mundo já ouviu falar no Comando Vermelho. Engraçado, de tanto se falar nele, até deixou de ser notícia, virou pano de fundo, um dos fatos da vida no dia-adia do Rio de Janeiro. Terrível engano. A reportagem de Carlos Amorim revela o que realmente é o Comando Vermelho: um filhote da ditadura militar. Criado na cadeia onde a repressão jogou, juntos, presos políticos e comuns, cresceu no vazio político e social ao qual o capitalismo selvagem relegou a grande massa, o povo das favelas, da periferia. 3 (AMORIM, 2010) Em relação ao Brasil, podemos nos remontar aos períodos coloniais para darmos início às explicações quanto à violência que acoima a sociedade. Trata-se de um país inicialmente colônia portuguesa que visava abastecer quem lhe dominava. Baseava-se na cultura da exploração escravagista, na economia sustentada pela agricultura e mais detalhadamente a monocultura do açúcar, além da forte divisão social em estamentos, onde havia nítido privilégio a brancos e herdeiros de portugueses em detrimento de negros escravos e outros. Este estilo de vida influenciou diretamente no modo de vida, na parte social do Brasil, onde os interesses particulares começaram a se fundir com os interesses públicos dado à ligação direta dos que detinham poder econômico com os que estavam na vida política. O poder público instalou em seu seio o apreço pelo patrimonialismo, ou seja, se relacionou firmemente com aqueles que detinham o poder econômico em troca de favores políticos. Com o fim do colonialismo, o acesso à monarquia, até chegar à república, o Brasil passou por transformações que deram início a profundas mudanças, como o fim da escravidão, força de trabalho paga e composta por imigrantes, o deslocamento do eixo econômico da Região Nordeste para Sudeste até a instalação de indústrias. 2 (CHAUÍ, 2005, p ) 3 (AMORIM, 2010)

5 5 Esse quadro faz com que a economia se ligue ainda de maneira ainda mais voraz à política. Os estamentos dão lugar às classes sociais e estas se enrijecem na concentração de renda que fomenta a desigualdade social. Começa a existir distúrbios sociais como revoltas no campo e greves na zona urbana. A modernização urbana, o sonho de um emprego e vida melhor desloca grandes volumes de pessoas do campo para cidades. Esse crescimento urbano tornou a população mais densa e com isso o entreveros começaram a surgir. Dificuldades nos relacionamentos intersubjetivos, as lutas sociais por reconhecimento e por direitos, demonstrou inconformismo com a situação em que se encontravam, inclusive com a violência que se instalava rapidamente. Com o adensamento da população e a concentração de renda, os conflitos sociais foram se agravando e aumentando. Os crimes dos mais diversos tipos crescem em grande escala chegando à situações onde há morte, tudo corroborado pelo crime que se denomina organizado. Ainda nesse mesmo sentido, viola-se os direitos humanos por inércia estatal e as relações pessoais começam a definhar e rumar para explosões de conflito. Quanto ao crime organizado, não como deixar de lado a questão do narcotráfico, que tem sido um divisor de águas na questão segurança/violência, sendo um dos grandes causadores dos distúrbios sociais existentes. Açoita as classes mais baixas por estar ali instalado, muitas vezes a mando de pessoas que de fato tem poder, e difunde medo no restante da população. O poder público se enfraquece e perde força para aplicar a lei e manter a ordem, a paz social, mas sem deixar de mencionar sua culpa nesse cenário dado a sua responsabilidade de gerir de bom modo o Estado, culminando em uma situação de insegurança coletiva. A partir do fim do regime autoritário do militarismo, a sociedade brasileira tem sido acometida por quadros de crescimento abundante da delinquência urbana, não podendo deixar de fazer menção aos crimes contra o patrimônio (Roubos, furtos, extorsão e etc) e dos homicídios dolosos. Há ainda a emergência da delinquência organizada, que gira especialmente em torno do tráfico de drogas. Com esse quadro, novas tendências criminosas surgem, assolam o meio social e criam problemas para o direito penal e bom andamento da justiça criminal. A insegurança, medo e temor com a violência vem tomando conta dos brasileiros e esse fator se acentua da década de 1970 em diante, quando se vê o crescimento das modalidades delituosas, tais com roubos, homicídios, estupros e sequestros. Os adolescentes e jovem adultos das camadas populares mais pobres são os maiores prejudicados. Tem sido alvo dos crimes que resultam em morte violenta. Esses cidadãos geralmente estão em áreas de grande degradação social, juntados ao quadro dos conflitos que envolvem as pessoas retro mencionadas. 4 As mais diversas modalidades criminosas vem permeando a sociedade brasileira e com isso transformando o convívio social. O tráfico de drogas e armas se torna intenso, fortalecido ainda pelo crime organizado e como o Brasil é rota para ambas as modalidades delituosas, o descontrole aumentou significativamente nas últimas décadas. Com isso a mortalidade por causas violentas também teve um significativo aumento, haja visto o crescimento dos mais diversos crimes e estes culminam em disputas que consequentemente geram mortes. Há de ser ressaltado que a mortalidade decorrente de causas violentas não está ligada somente ao crime organizado, existindo também aquelas causadas por ação policial, por justiceiros e grupos de extermínio, linchamentos, relações entre os diversos tipos de pessoas, etc. Devemos mencionar que a criminalidade tende a diminuir com o desenvolvimento econômico, pois, alia redução do desemprego, aumento do consumo pela população e com 4 Trabalho do professor Sergio Adorno do NEV/USP, artigo Crime e violência na Sociedade Contemporânea.

6 6 isso a sensação de bem estar, mas isso deve estar diretamente ligado a políticas públicas inclusive na área de segurança. Há também que se falar da violência entre pessoas que tem a relação intersubjetiva afetada por tensão entre as partes, mas nesse quesito pouco existe relação com o crime, podendo as mais inúmeras situações influenciar, como desentendimento entre vizinhos, traição entre companheiros, disputas no mercado de trabalho, dentre outros vários Exposição histórica do Tratamento dado ao Crime no Brasil A exposição histórica do crime, agora voltando a aspectos mais antigos, vemos que no Brasil houve uma recepção dos estudos Criminológicos no Século XIX. Dentre os historiadores do Direito Penal, podemos citar João Vieira de Araújo ( ), que era professor da Faculdade de Direito do Recife, sendo que ele expunha em suas aulas na citada Faculdade conceitos atinentes a Césare Lombroso, difundindo-os também em outras localidades, como Rio de Janeiro através de artigos para revistas jurídicas. Lombroso foi um estudioso da Criminologia na Itália no século XIX e tal acreditava que os aspectos antropométricos eram definidores do caráter criminoso ou não. O criminoso seria um ser atávico, reprodutor de características físicas e mentais de homens primitivos. Seu famoso livro L Uomo Delinquente, teve repercussão quando de seu lançamento e espalhou-se no continente Europeu. Com seus conceitos difundidos com amplitude naquela época, houve inclusive a organização de congressos sobre Criminologia, sendo que no primeiro congresso ocorrido em 1885, Lombroso alcança o ápice de sua carreira. 6 Contudo, com o decorrer dos estudos que versavam sobre a Criminologia, Lombroso começou a ser questionado e suas teses rebatidas na Europa. Em 1889, novo congresso ocorreu e as teses de Lombroso começaram ser questionadas. A exemplo de questionadores, podemos falar da Escola Sociológica de Lyon, na França, na figura de Alexandre Lacassagne, que trazia com firmeza que o meio social era o ingrediente mais poderoso do crime. Ainda, com a mesma voracidade, pode ser citado um magistrado francês de nome Gabriel Tarde ( ), que atacou Lombroso, dizendo que o criminoso descrito por ele, se assemelhava mais a um profissional e não a alguém que apresentava expressões biológicas inatas. Houve ainda ferrenhas tentativas por parte de Lombroso para tentar manter suas teorias em voga, mas sem sucesso, sendo que após sua morte em 1909, os congressos retro mencionados tiveram fim. Com a derrocada das teorias básicas da antropologia criminal na Europa, surpreendentemente houve boa aceitação na América Latina e daí a repercussão nos ensinamentos dos professores brasileiros, dentre eles João Vieira de Araújo. Sabidamente o crime é mais amplo, extenso, complexo que meras colocações atávicas, antropométricas. Difundi-se das mais diversas formas, ajeita-se ao meio e se aprimora para poder sobreviver e dominar quer auferir lucro. As colocações de Lombroso soam de forma dissonante do real, geram repulsa por tipos de seres humanos rotulados e permeia o preconceito. Imaginando as colocações dele em prática até os presentes dias, maximizaria-se o desrespeito ao próximo pelo simples fato de se enquadrarem a um tipo de grupo presente na sociedade. Para exemplificar, criminosos julgados no Rio de Janeiro entre 1890 e 1930, tinham suas punições asseveradas em 5 Para Marcos César Alvarez, em seu artigo Controle Social notas em torno de uma noção polêmica, deve ser buscado um mecanismo que transcenda a conotação de ordem social apenas instrumentalista e funcional, sendo buscado meio multidimensional para tanto. 6 Em seu artigo A criminologia no Brasil ou como Tratar Desigualmente os Desiguais, Marco César Alvarez faz uma apanhado de como a Criminologia brasileira foi influenciada por Lombroso e ainda seu desenvolvimento.

7 7 decorrência do preconceito enraizado, como no caso de Negros e Mulatos 7. Trata-se de injustiça tal pensamento, pois bem sabemos que o meio social colabora sim para a colocação do indivíduo na delinquência e reforçando ainda a ausência de políticas públicas eficientes e justas. Denota-se que não há interesse em comparar a realidade existente no Brasil naquele tempo às ideias difundidas por meio do pensamento da Escola Positiva, da qual Lombroso e outros faziam parte, praticando-se a justa aplicação da lei não com base em determinismos, mas sim com análise critica e responsável do contexto geral que leva ao crime. Salientando ainda, quando da incorporação das ideias antropométricas de Lombroso, vislumbrou-se um ideal de afago às elites dominantes da época, inclusive a Judiciária nacional. Há de ser ressaltado que mesmo com o incremento das ideias sobreditas, os teóricos criminalistas da época não abandonaram as discussões quanto ao conhecimento trazido de fora e quanto à realidade brasileira. Isto torna possível que a criminologia nacional acompanhe as ideias mais modernas que vinham sendo traçadas. O tratamento que surge quando as ideias atávicas de Lombroso são colocadas como verdades, é de desrespeito e preconceito, pois, foca-se em grupos determinados como se fossem o grave problema social, esquecendo-se dos arredores que sabidamente fomentam o crime. É temerário tratar o problema apenas com posicionamentos criminológicos supérfluos, pois, restringiríamos a apenas quadros genéricos para o crime, como aspectos biológicos e físicos, além de preconceituosos, como por exemplo trouxe Lombroso em seus estudos criminológicos. Tratar indivíduos como criminosos somente pelo seu posicionamento social, pelos seus traços físicos, inferindo deturpação psicológica, é arcaico e preconceituoso, segundo, por exemplo, o positivismo criminológico. Na teoria positivista de Cesare Lombroso 8, vemos mero meio de individualizar as classes e perpetuar elementos segregantes. Zaffaroni discorre a respeito in verbis: O chamado positivismo criminológico (que, como já dissemos, não é mais do que o resultado da aliança do discurso biologista médico com o poder policial urbano europeu) foi sendo armado em todo o hemisfério norte e estendeu-se ao sul do planeta, como parte e uma ideologia racista generalizada da segunda metade do século XIX e que terminou, catastroficamente, na II Guerra Mundial. 9 Outros estudos demasiadamente frívolos não são cabíveis para assunto com espectro tão amplo, conforme abaixo coligido Benedict Augustin Morel expôs, em 1857, sua teoria da degeneração, segundo a qual, em razão da mescla de raças humanas combinar fios genéticos muito distantes, tinha por resultado seres inteligentes, mas moralmente degenerados, desequilibrados,incômodos. (ZAFFARONI, 2013, p. 82) O histórico do crime a partir da estigmatização da pessoa Estigmatizar a pessoa, como se fosse uma infecção no meio social, só o extirpa da sociedade, não o recoloca como cidadão no meio que também é seu. Aqueles excluídos e estigmatizados pela sociedade, e por que não pelo Estado, começam a sofrer com tal açoite desde idades mais baixas, ou seja, ainda quando crianças. Aparenta que o sinal existente é 7 Carlos Antônio Costa Ribeiro descreveu em seu livro Cor e Criminalidade: Estudo e Análise da Justiça no Rio de Janeiro ( ) que as concepções da Escola Positiva estavam presentes na Justiça, o que corroborava para julgamentos discriminatórios para determinados casos e indivíduos. 8 Para Lombroso os elementos estéticos eram definidores do caráter delinquente. Os chamava de criminoso nato, uma espécie impar de seres humanos, sendo estes reconhecidos pelos caracteres físicos. 9 (ZAFFARONI, 2013, p. 82)

8 8 uma chaga que o exclui, como em tempos antigos quando escravos, criminosos e outros, eram marcados até mesmo com fogo para identificá-los 10. Esse desamparo promovido por uma família desestruturada e sobremaneira pela ineficiência do poder público deixam estes jovens em idade ainda de desfrutarem sua infância, a mercê da sorte e assim por muitas vezes se veem envolvidos por uma teia complexa que os conduzem até uma marginalização social 11. Os fatores que descrevem o marginalização social são amplos e várias vertentes são usadas para dizer o que leva uma pessoa a se embrenhar nesse nefasto mundo. Pode ser dito que os fatos sociais 12, conforme Émile Durkheim narrou, permeiam a vida do ser e o leva a demonstrar como age e o porque se age de determinada forma. Desta feita, se em um local há um modo de se viver que leve ao crime e seja comum, esses fatos são preponderantes para influenciar a pessoa a cometer crimes, pois, o está contaminado com aquele tipo de comportamento que são vistos nos locais onde está situado, sendo uma pressão externa que afeta a expressão individual. Contudo, pode-se defini-lo também pela difusão que apresenta no interior do grupo, contando que, conforme as observações precedentes, tenha-se o cuidado de acrescentar como segunda e essencial característica que ele existe independentemente das formas individuais que assume ao difundir-se. 13 Assim, o meio determina uma maneira de ser e essa se expressa no agir. Não se reconhece alguém meramente por análises geográficas e sim pela inserção em meio social que tenha determinados fatos sociais que se arraigaram e determinaram o comportamento. Neste quesito é de elevada e cristalina oportunidade ressaltar a estigmatização 14 da pessoa por um todo, que o exclui, causa transtornos, denigre e pode culminar em condução ao mundo do crime. Ponto que deve ser também trazido à exposição com mais afinco é o fato da divisão da sociedade pela condição abastada ou não. Essa divisão, além de gerar preconceito, denota o quão abandonadas as pessoas das classes menos favorecidas se encontram. No que diz respeito a um meio social, as relações interpessoais se mostram tranquilas dado ao fato dos que ali coabitam estarem em ambiente já estabelecido, o que permite uma relação solidificada por um padrão social. A inserção de novo indivíduo gera uma atenção especial, um tipo de reflexão mais intima, conforme esposado Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos, a sua identidade social 15. Vemos nesse diapasão a existência de algo denominado status social, que leva a quem está inserido em uma casta, a interpretar que o 10 Erving Goffman diz que Gregos criaram o termo estigma quando faziam menção a sinais corporais que expunham algo diverso ou mesmo mau no que diz respeito ao status moral de quem os possuía. Atualmente é aplicado com sentido literal original, mas com a ressalva de que seu uso é mais direcionado a uma desgraça que ao sinal corporal em si. 11 Refere-se nesse caso o marginal, que bem se sabe é quem está à margem da sociedade, ao termo chulo Criminoso. 12 Seriam reconhecido como algo que exerce poder de coerção externa sobre alguém, o fazendo ter comportamento idêntico ao do grupo e ainda determinando, mesmo que sem expressão, o que independe do individual. 13 (DURKHEIM, 1999, p.10) 14 Para E. Goffman, em Estigma, notas sobre a manipulação da identidade deteriorada, descreve-se estigma, do modo clássico, como referencia a sinais corporais que visavam evidenciar algo notável ou mal sobre o status moral de que os apresentava. Atualmente, deixa-se de considerar alguém como um ser comum e total, reduzindo-o a alguém estragado, diminuído e menos desejado. É, portanto, estigmatizado. 15 (GOFFMAN, 1988, p. 12)

9 9 outro possui padrões de honestidade e outras positividades pelos simples fato de estar naquele contexto inserido. As pré concepções trazem expectativas que se tornam normas de acentuado rigor para quem está ou entra naquele ambiente. É ponto crucial na aceitação do indivíduo. Divisões em classes como vemos, isolam os indivíduos, obrigam os que tentam adentrar naquele meio a se posicionarem da mesma forma, ou seja, devem ser como os que já compõem aquela classe social. Mas há nesse meio, identidades subentendidas, sinais, símbolos, expressões que distinguem um dos outros e que corroboram para acentuar a estigmatização do indivíduo e consequente supressão do mesmo daquele ambiente. Nesse contexto, expõe Erving Goffman: 16 A informação social transmitida por qualquer símbolo particular pode simplesmente confirmar aquilo que outros signos nos dizem sobre o indivíduo, completando a imagem que temos dele de forma redundante e segura. Exemplos disso são os distintivos na lapela que atesta participação em clube social e, em alguns contextos, a aliança que um homem tem em sua mão. Entretanto, a informação social transmitida por um símbolo pode estabelecer uma pretensão especial a prestígio, honra ou posição de classe desejável uma pretensão que não poderia ter sido apresentada de outra maneira ou, caso o fosse, não poderia ser logo aceita. Tal signo é popularmente chamado de símbolo de status, embora a expressão símbolo de prestigio possa ser mais exata, já que no primeiro termo é empregado de modo mais adequado quando o referente é uma determinada posição social bem organizada. Símbolos de prestígio podem ser contrapostos a símbolos de estigma, ou seja, signos que são especialmente efetivos para despertar a atenção sobre uma degradante discrepância de identidade que quebra o que poderia, de outra forma, ser um retrato global coerente, com redução consequente em nossa valorização do indivíduo. (GOFFMAN, 1988, p.53) Tais estigmas deslocam os seres componentes da sociedade e os lançam a margem de tal. Gera assim um prejuízo social, ascende-se o crime. Subsume um indivíduo como ruim pelos signos 17 que ele apresenta perante a sociedade. Trata-o como descartável, desnecessário, inferioriza-o, causa revolta e destrói o seu estado emocional. Esta situação coloca a pessoa crendo que de fato possui um defeito 18, pois, mesmo incorporando modelos sociais pré estabelecidos por um conjunto de pessoas, fica muito exposto ao que esses indivíduos veem dele e sobre seus defeitos. Passa então a crer que é de fato inferior. A presença dos ditos normais ao seu redor, tonifica sua auto revisão, sendo que a partir daí será mais exigente e dará ênfase ao seu ego. Já quando sozinho se depreciará, chegando até mesmo a odiar a si próprio. Novamente seu estado psicológico é abalado, gera revolta consigo mesmo e tenta se enquadrar. Os desvios psicológicos podem corroborar para que se destine ao crime para conseguir se mostrar dentro dos padrões que desejaria possuir. Temos suficiente preconceito para rotular e mesmo que haja alguma imperfeição no tocante ao comportamento do indivíduo, ou até mesmo físico, fazemos um levante daquela característica, novamente ampliando o estigma visualizado naquela pessoa e até mesmo imputando outros. Quando há interesse, vê-se o contrário. Aquele que desperta alguma atração no grupo ou pessoa esparsa, pode ter até mesmo seus atributos elevados, mesmo que não tenha sido requerido. 16 (GOFFMAN, 1988, p.53) 17 Erving Goffman explana que os signos são sinais que o indivíduo carrega que servem de amparo para o estigma, sinais que denotam algo pouco moral ou habitualmente imoral. 18 Entende-se defeito como uma crença por parte do indivíduo de que está abaixo do que deveria de fato ser perante a sociedade.

10 10 A colocação em um grupo faz com que a pessoa tenha certas crenças comportamentais, mesmo que ela não siga a risca aquele tipo de atitudes. Assim, discorremos: Parece, em geral, verdade que os membros de uma categoria social podem dar muito apoio a um padrão de julgamento que, eles e outros concordam, não se aplica diretamente a eles. Assim, um homem de negócios pode exigir das mulheres um comportamento feminino ou um procedimento ascético por parte dos monges, e não conceber a si próprio como pessoa que devesse seguir qualquer um desses estilos de conduta. 19 Até mesmo o inconsciente é afetado e gera a repulsa sem que nos policiemos por isso. Quando um grupo existe, características de similitude uniram aquelas pessoas. Quando o novo surge, o psicológico do indivíduo, mesmo que sem se atentar, julga e analisa à primeira vista. Caso não haja a satisfação com aquela pessoa, no que tange a identidade social (podemos também falar status social) não será incluso. Nesse sentido, Erving Goffman discorre assim: As rotinas de relação social em ambientes estabelecidos nos permitem um relacionamento com outras pessoas previstas sem atenção ou reflexão particular. Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos,m a sua identidade social para usar um termo melhor do que status social, já que nele se incluem atributos como honestidade, da mesma forma que atributos estruturais, como ocupação 20 Assim, vemos que esse preconceito inconsciente colabora para dilapidarmos o relacionamento entre seres humanos, novamente colocando a margem da sociedade quem não se enquadra em parâmetros pré determinados por uma determinada classe. Preconceito esse que gera mágoa e revolta e incute na mente desprezada a necessidade de se equiparar e desta feita, a forma mais rápida de auferir se recurso para tanto é o crime. Falta por muitas vezes compreensão, compaixão, respeito e outros tantos adjetivos que deveriam ser a base da relação humana. As pessoas não enxergam a necessidade de uma boa relação com quesito principal o respeito, o que auxiliaria a diminuir as diferenças, mesmo que apenas na esfera psicológica. Os representantes políticos também agem dessa forma sendo grandes responsáveis pelas disparidades entre as classes e caso enxergassem a necessidade de um bom trabalho desempenhado, talvez estivéssemos inseridos em uma sociedade mais justa. Esses equívocos são históricos e infelizmente aqueles que tem preconceito ou nem mesmo conseguem ver que estão imersos em erros, são colaboradores dessa dissonância social. Faltando a interação saudável entre as pessoas de classes diferentes, o isolamento praticado por um lado se torna mecanismo de defesa. Com isso sentimentos negativos podem surgir e com isso o indivíduo se torna desconfiado, deprimido, confuso e segue para hostilidade e assim pode chegar ao crime. A exemplo, podemos dizer: Isso levaria imediatamente a se pensar que já muitos acontecimentos que podem diminuir a satisfação de viver de maneira muito mais efetiva do que a cegueira. Esse pensamento é inteiramente saudável. Desse ponto de vista, podemos perceber, por exemplo, que um defeito como a incapacidade de aceitar amor humano, que pode diminuir o prazer de viver até quase esgota-lo, é muito mais trágico do que a 19 (GOFFMAN, 1988, p. 16) 20 (GOFFMAM, 1988, p.12)

11 11 cegueira. Mas é pouco comum que o homem com tal doença chegue a aperceber-se dela e, portanto, a te pena de si mesmo. 21 O isolamento das classes mais baixas é uma demonstração também de preconceito e novamente deve ser evidenciado que o crime entra no âmago daquele meio. Há inclusive tentativas de correção dessa distorção por meio legiferante, como por exemplo na ampliação do Art. 140 do Código Penal Brasileiro, quando a lei /03 inseriu o parágrafo 3º que diz respeito a injúria praticada em virtude de raça, cor, etnia, religião e etc, mas isso também demonstra a tentativa por meio legislativo de sanar o que ainda falta por meio social. Quando não se há tamanhas discrepâncias, existe um amparo estatal mínimo, educação principalmente, pode ser diminuída essa situação aviltante e talvez a lei não precise ser remendada para se ter justiça entre as pessoas. 2.3 Fatores do crime sob a ótica da criminologia Estudiosos da criminologia declinam que três fatores são estudados para explicitar os motivos que corroboram para inclusão de jovens em um mundo voltado para o crime, a partir de histórico estudo na área. Dá-se então a causa aos fatores biológicos, sociológicos e psicológicos. Quanto a primeira vertente de pensamento, descreve-se que há o cuidado de se analisar o indivíduo desviado para o crime de forma criteriosa, imbuídos da vontade de se localizar e identificar partes de seu corpo ou atividade dos sistemas que compõem sua estrutura física, como sendo o diferencial que evidencia a conduta delituosa que é compreendida como motivada por enfermidade, mau funcionamento ou alguma espécie de transtorno orgânico. Já no que tange as orientações psicológicas, podemos justificar a procura da explicação do comportamento distorcido no seguinte texto: As orientações psicológicas entendida esta expressão em sua acepção mais ampla buscam a explicação do comportamento delitivo no mundo anímico do homem, nos processos psíquicos anormais (psicopatologias) ou nas vivências subconscientes que têm sua origem no passado remoto do indivíduo e que só podem ser captadas por meio da introspecção (psicanálise); ou ademais, creem que o comportamento delitivo, em sua gênese (aprendizagem), estrutura e dinâmica, tem idênticas características e se rege pelas mesmas pautas que o comportamento não delitivo (teorias psicológicas de aprendizagem). 22 Por último, a criminologia declina que a direção descrita pela sociologia, em relação ao crime, é de que se trata de um fenômeno social, onde diversos marcos teóricos, tais quais o ecológico, estrutural funcionalista, subcultural, conflitual, interacionista, dentre outros, são pontos marcantes para devida análise. Juntamente a outras ciências, a criminologia tem se destinado a explicar os aspectos do crime e com elaboração de modelos teóricos que possam demonstrar a gênese deste árduo problema social a ser enfrentado. No que tange os pensamentos clássicos, os estudiosos eram arraigados em conclusões que diziam que os infratores praticavam seus atos conduzidos apenas por seu livre arbítrio. Não se admitia outra hipótese a não ser esta. Não era concebida a ideia de que o marginalizado poderia estar sendo conduzido por fatores que levassem às causas do crime. Nega-se, portanto a etiologia da delinquência. 21 (Chevigny apud Goffman, 1988, p. 21) 22 (GARCIA, et al, 2006, p.163)

12 12 Em um segundo momento, a ciência em exposição, em sua corrente positivista narra que o aspecto etiológico do delito deve sim ser levado em plena consideração, conforme descrito Sua conhecida análise causal-explicativa atribui o comportamento criminal a certos fatores biológicos, psicológicos ou sociais que determinam o mesmo. 23. Ampliando-se os estudos, essas ideias, outrora simplistas, foram se aperfeiçoando e se recheando da complexidade atinente ao tema. Ainda segundo Antônio Garcia, et al, (2006), existe outro marco usado pela sociologia criminologista que diz respeito a reação social ou do etiquetamento. Esse paradigma vem nortear novos entendimentos a respeito do assunto trazido à baila, sendo auspicioso para substituição das teorias clássicas da criminalidade. Não há que se falar em causas do delito, desvios primários e sim dos fatores e variáveis que são conclusivos para o curso dos processos de criminalização. Trata-se de um processo seletivo e discriminatório. Desta feita, sai do processo apenas abstrato do conceito etiológico e vão ao concreto dos processos de criminalização, estes que regem centros de controle social de forma preconceituosa, discriminatória, tendo em vista que essa vertente enxerga que o que é notório para estas não é a prática em si, mas sim os elementos de condição que levam a condição do autor, denominado natureza definidora do delito. Em um modelo econômico pautado pelo livre mercado e o intento penalista, vemos que os mais desfavorecidos, são atingidos pelo crime e o Estado retribui com a sanção criminal. O tratamento criminal é o amparo que se dá ao Estado Mínimo, que não atinge os mais abastados, somente os flagelados pelo sistema neoliberal dado ao incomensurável índice de diferença social. No Brasil, durante toda sua história, não é diferente. Nessa ideia, entendemos o seguinte: Em primeiro lugar, por um conjunto de razões ligadas à sua história e sua posição subordinada na estrutura das relações econômicas internacionais (estrutura de dominação que mascara a categoria falsamente ecumênica de globalização ), e a despeito do enriquecimento coletivo das décadas de industrialização, a sociedade brasileira continua caracterizada pelas disparidades sociais vertiginosas e pela pobreza de massa que, ao se combinarem, alimentam o crescimento inexorável da violência criminal, transformada em principal flagelo das grandes cidades. 24 Nesse diapasão, olhamos o crescimento da circulação de armas de fogo, o desenvolvimento organizado do tráfico de drogas e ainda a mistura que envolve criminoso e polícia, expõe o quanto o crime é bruto em uma sociedade, deixando assim evidente que há pavor nos meios urbanos. Isso, colimado a uma rede de proteção social de pequenina proporção, forma uma equação com resultado negativo, sendo, como já dito, o crime toma conta do meio. Desemprego, subempregos (famosos bicos ) e falta de desenvolvimento social, fará com que a juventude dos bairros mais esmagados por esse injusto sistema, busque meio de sobreviver através do capitalismo de pilhagem 25, vez que se vê sem alternativa para fuga da miséria constante. Deslocando para questões criminais, no que tange sua área de abrangência, estas são tratadas como problemas locais, quando na realidade são de magnitude mundial. São fenômenos que não tem pequena abrangência, regionalismos, sendo apresentados de forma ampla, extensão mundial. Historicamente a violência é meio de dominação e discriminação. Os meios de domínio tornaram o mundo divido em inferiores e superiores e podemos muito bem ver isso desde tempos mais remotos, tais como nas épocas de colonização. A 23 (GARCIA, et al, 2006, p. 164) 24 (WACQUANT, 2001, p. 08) 25 É mencionado como sendo um modelo que devido a não assistência para desenvolvimento do indivíduo, o leva ao banditismo.

13 13 criminologia não poderia ser colocada como anacrônica naquele tempo, sendo que seguiu os pensamentos da época. Assim, destaca-se que: O domínio mundial sempre hierarquizou os seres humanos e considerou inferiores os colonizados. Isso aconteceu do colonialismo do século XV em diante e, depois, com o neocolonialismo, desde o século XVIII. O que expusemos foi a ideologia racista dominante no neocolonialismo, da qual fazia parte a criminologia positivista biologista, porém marco em que esta se inseria vinha de muito longe. 26 O poder chegou a ser creditado a questões celestiais, quando se julgou que colonizados eram inferiores, pois, haviam sido esquecidos por serem hereges, isso ligado ao fato se o apóstolo Thomas havia ou não chegado à América após andar sobre as águas. Forjou-se o racismo naquela época colonial, se tornando um dos disparates que perduram até hoje. Criouse uma receita indigesta com o racismo proporcionado pelos colonizadores e ainda pelos criminologistas biologistas, tais como Lombroso. Difundido os pensamentos negativos, temos uma sociedade maculada pelo sentimento de divisão. Foi sendo solidificado o argumento de que o domínio colonialista era o que deveria de fato ter ocorrido e acertadamente. Esse tipo de comportamento inclusive transcendeu as barreiras colonialistas e pode-se ver um argumento idêntico com o nazismo na Alemanha, quando Adolf Hitler disse que a raça Ariana era superior. Essas ideias verticalizam a sociedade de tal forma que o racismo passa a ser visto como algo normal. É embutido um sentimento de superioridade dentro da sociedade ao ponto de uns se julgarem superiores aos outros e alegarem que os que estão na base, ali estão por culpa dos mesmos. Chegou-se ao descalabro de julgar que o extermínio de certas pessoas era algo normal e necessário, como o nazismo o fez. Ainda vemos que o homem criou meios de extirpar, os que são julgados inferiores, do convívio social, como vemos nos casos de favelas, manicômios e asilos. Dessa maneira, se preservam os ditos superiores por meio de descalabros. Esses pensamentos históricos vem do racismo positivista. A segunda guerra veio a quebrar uma parte desse pensamento, quando...ninguém podia mais ignorar o eu os povos longínquos ou os subalternos muito distantes de seu bairros sofriam, porque acabava de acontecer na casa do vizinho ou mesmo na sua própria, o paradigma mudou rapidamente. 27 As sociedades latino americanas eram regadas a conceitos raivosos, discriminatórios, fundamentado em parâmetros existentes em ditaduras. Usava-se técnicas de desqualificação do opositor, do marginalizado e demais nesse sentido, fazendo com houvesse vigilância e até mesmo extermínio, sendo mais direto, era um processo excluídor. Nos vimos obrigados a tentar começar a corrigir essas distorções e para tanto, paradigmas em escala mundial tiveram que ser solapados. A doutrina jurídico penal não possui apenas caráter punitivo, mas também socialmente conformador, o que não é visto em nossos sistemas penais. Tem a ideia de tratar (e porque não atacar) o criminoso. Mas por que não se tem a ideia de corrigir o erro em se falando do Crime amplo? Existe a ideia de que o controle social é meramente punir e encarcerar, sendo que o Brasil tem seguido esse caminho há longo tempo. O controle social que visa inibir o crime vai muito além de mera punição e cerceamento de liberdade. Tange a integração social. Não se deve ter como exemplo de correção dos distúrbios sociais apenas as forças de coerção, tais 26 (ZAFFARONI, 2013, p.95) 27 (ZAFFARONI, 2013, p. 96)

14 14 como polícia, prisão, Justiça Criminal ou até mesmo asilos, hospitais, manicômios e sim um conjunto de pensamentos que levem a sociedade a um denominador comum que beneficie e colha resultados plausíveis para de fato um controle social. Mesmo desta maneira, o crime é dinâmico e se amolda ao sistema para continuar sua existência. Deve ser assim trabalhada uma maneira multidimensional de analisar o problema capazes de dar conta dos complexos mecanismos que não propriamente controlam mas sobretudo produzem comportamentos considerado adequados ou inadequados com relação a determinadas normas e instituições sociais. 28 Ainda nessa vertente, não podemos de deixar de falar em uma perspectiva ainda mais ampla e complexa, onde o controle social não pode ser pensado apenas como uma prática de poder que tem como escopo produzir certo comportamento, linhas de saber e até mesmo análise supérflua subjetiva do problema. Ampliando essa ótica, há que ser ressaltado também a disciplina inserida como forma de demonstrar que o indivíduo é útil e pode ser abarcado pela sociedade, é interessante forma de controle a ser analisada e considerada. Michel Foucault descreveu em seus estudos teoria nesse sentido, acreditando ser elemento considerável para socialização do indivíduo. Quanto a Émile Durkheim, demonstrou em sua época, que as instituições não são mera ferramenta de controle e sim de integração social. Sabendo desse contexto, deve ainda ser ressaltado que não somente o Estado tem o poder de gerenciar esse controle, cabendo também às pessoas que compõe a população trabalhar por esse contingenciamento social, focar na coesão social. Pertinente lembrar que essa coesão em nada se assemelha à dominação de uma classe sobre outras, como a história tem se mostrado, tratando-se sim de benevolência e sentido de união popular. Entrando na seara de sistemas econômicos, que devem ser levados em conta, o capitalismo, que é um sistema que defende o privado, também deve ser revisto, uma vez que historicamente e atualmente gere as relações interpessoais e cada dia mais trabalha com o intento de lucros exorbitantes a troco de migalhas, exemplificando a dominação de uma classe sobre outras com a falácia de que todos tem chance de crescer se trabalharem duro. Com isso, coloca-se a margem da sociedade quem não dispõe de oportunidades similares e a pobreza se estende e com isso a falta de chances, culminando em uma tendência de se usar o crime como meio de sobrevivência. No que denota o pensamento de integração humana, a declaração dos direitos humanos de 1948 é uma grande vitória que marcou a história. Vem tentar corrigir os erros praticados contra os homens, tentando acabar, por exemplo, com o racismo, discriminação, submissão da mulher como ser de segunda categoria, erradicação da fome e outros tantos pontos cruciais e positivos para a espécie humana. Somos iguais como seres, mas desiguais como indivíduos em um meio social e devemos ser respeitados na medida da nossa desigualdade, nesse baluarte. A declaração em voga impediu o progresso das discrepâncias existentes e os preconceitos, limitando o crescimento dessa sujeira e tornando as pessoas mais conscientes com o passar do tempo. O humano chegou ao disparate de julgar etnias superiores umas as outras por mera cor da pele. Chegou-se a reprimir os indivíduos como forma de controle social. O positivismo criminológico trouxe esse pensamento simplista atinente ao biologismo criminal. Os fenômenos sociais são amplos em larga escala para serem tratados pelo reducionismo praticado pelo positivismo criminológico. Não há que se falar em esquecimento dessas teses, pois, nos servem de parâmetros históricos para não nos afundarmos novamente nessas teorias que só geraram percalços à humanidade e também para enxergarmos que ainda há quem comungue dessas ideias. 28 (ALVAREZ, 2004).

15 15 A história demonstrou que até mesmo se cogitou, como no nazismo, a esterilização de supostos delinquentes e extirpação de mistura de etnias como forma de impedir a disposição aumentada de indivíduos hereditariamente inferiores, criminosos, etc. Com base nesse contexto: Por regra geral, quando se menciona a esterilização forçada de delinquentes e de deficientes real ou supostamente hereditários a contaminação do sangue com raças inferiores, a proibição de matrimônios interraciais ou mistos e ouras aberrações semelhantes, o nazismo é imediatamente evocado. 29 Vemos que o preconceito e as teses que permeavam as justificativas para o crime e o criminoso eram regadas a racismo e distorções. Chegou a supor uma eugenia como forma de controle da criminalidade e formar gênios. Para isso, Francis Galton, em seus estudos matemáticos disse que o cruzamento de indivíduos perfeitos ou superiores, geraria geniais. Mera forma de menosprezar. Outro que merece ser mencionado é Madison Grant. Esse escritor firmava categoricamente que era necessário impedir a reprodução de criminosos, loucos e doentes com forma de excluir o crime e os criminoso. Não era algo imposto por ele, mas esse não deixava de crer que a conscientização nesse sentido era necessária para expor os riscos. Seria uma eugenia positiva. Mas, o nazismo trouxe um conceito de imposição nesse sentido, de que a raça superior não poderia se misturar, mesmo que obrigatoriamente, criando assim uma modelo de eugenia negativa. A história demonstra por quão negros foram perseguidos nos tempos de outrora no que tange referências ao crime. Destinado agora comentários ao Direito Penal, os estudiosos do ramo começaram a impor que a Criminologia era mero instrumento que poderia ser usado pelo direito quando necessário. Extirparam o aspecto inquisitorial que possuía, melhor dizendo, não mais aceitavam que aqueles, muitas vezes médicos como Lombroso, lhes imporem o que era ou não atinente a crime ou como deveriam tratar o crime e o criminoso. Fato esse foi visto na Europa. Não existia preocupação com o positivismo biológico que irrigava a criminologia da época, era meramente hierárquica, os penalistas queriam o terreno perdido de volta, não tendo qualquer preocupação com qualquer possibilidade de impacto negativo na formação de valores dentro da sociedade ou consequência de ordem política. Assim os penalistas descreviam o que era entendido por delito e após, entravam em cena os criminólogos, tendo a incumbência de explicar o porquê o crime foi cometido e o que levava o criminoso a praticá-lo. Os criminólogos foram colocados em uma posição subalterna. Nessa época o direito penal se tornou contaminado por um positivismo biológico, haja visto que a criminologia se baseava nisso, passava a ser uma ordem de conhecimentos servis ao direito penal. 30 As atividades acadêmicas do direito se tornaram também contaminadas por essas ideias, que eram racistas e se refletiam fora das faculdades. O contexto social era atacado diretamente e muitos injustiçados. Nesse sentido: O que mais impactou a criminologia do canto foram as classificações segundo os biótipos, ou seja, voltou-se a correlacionar as características físicas com as psicológicas, ao estilo dos fisiognomistas. Algum autor mas moderno diz que era 29 (ZAFFARONI, 2013, p. 98). 30 (ZAFFARONI, 2013, p. 102)