PROGRAMA HABITAR BRASIL II NA ZONA NORTE DE LONDRINA: O remanejamento da população do fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida

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1 CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA JOSIANE RODRIGUES DOS SANTOS PROGRAMA HABITAR BRASIL II NA ZONA NORTE DE LONDRINA: O remanejamento da população do fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida LONDRINA 2010

2 JOSIANE RODRIGUES DOS SANTOS PROGRAMA HABITAR BRASIL II NA ZONA NORTE DE LONDRINA: O remanejamento da população do fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida Monografia apresentada ao Curso de Geografia da Universidade Estadual de Londrina UEL, como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em Geografia. Orientador: Prof. Dr. Fábio César Alves da Cunha LONDRINA 2010

3 JOSIANE RODRIGUES DOS SANTOS PROGRAMA HABITAR BRASIL II NA ZONA NORTE DE LONDRINA: O remanejamento da população do fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida COMISSÃO EXAMINADORA LONDRINA 2010

4 AGRADECIMENTOS Agradeço aqueles que me incentivaram. Ao meu orientador, amigos e professores do departamento de geociências da Universidade Estadual de Londrina.

5 SANTOS, Josiane Rodrigues dos. Programa Habitar Brasil II na zona norte de Londrina: O Remanejamento da população do fundo de vale da microbacia do Córrego Sem Dúvida folhas. Monografia (Bacharelado em Geografia) Centro de Ciências Exatas Departamento de Geografia Universidade Estadual de Londrina, RESUMO O presente trabalho teve como finalidade analisar o Projeto de Urbanização de Assentamentos Subnormais (UAS) financiado através do Programa Habitar Brasil do Banco Interamericano de Desenvolvimento (HBB). Este Projeto foi executado em um assentamento subnormal situado no fundo de vale da microbacia do Córrego Sem Dúvida localizado na zona norte da cidade de Londrina. O projeto contemplou uma série de ações como o remanejamento das famílias envolvidas, cursos de capacitação e uma nova unidade habitacional. O presente trabalho procurou fazer uma avaliação dessas ações. Palavras-chave: Assentamentos Subnormais. Habitação. Programas Habitacionais. Urbanização. Remanejamento.

6 SANTOS, Josiane Rodrigues dos. Programa Habitar Brasil II na zona norte de Londrina: O Remanejamento da população do fundo de vale da microbacia do Córrego Sem Dúvida folhas. Monografia (Bacharelado em Geografia) Centro de Ciências Exatas Departamento de Geografia Universidade Estadual de Londrina, ABSTRACT The present work was aimed to analyze the Project of Urbanization of Subnormal Settlement (USS) financed by the Programa Habitar Brasil from Interamerican Bank of Development (IBD). This project was executed in a subnormal settlement situated in the valley bottom of the watershed of the creek Sem Dúvida located in the northern zone of Londrina City. The project contemplated a series of actions like the relocation of the involved families, training courses and a new housing unit. The present work searched to make an evaluation of these actions. Key-words: Subnormal Settlement. Housing. Housing Projects. Urbanization. Relocation.

7 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Atlas Ambiental da Cidade de Londrina Figura 2 - Carta de Localização das Poligonais Turquino e Maracanã e Poligonal Primavera Figura 3 - Vista aérea panorâmica da microbacia do fundo de vale do Córrego Sem Dúvida Figura 4 - Aspecto do fundo de vale do córrego Sem Dúvida Figura 5 - Barracos precários construídos nas proximidades da microbacia do Sem Dúvida.. 36 Figura 6 - Barracos precários construídos nas proximidades da microbacia do Sem Dúvida.. 37 Figura 7 - Carta hipsométrica da microbacia do fundo de vale Córrego Sem Dúvida Figura 8 - Cartaz confeccionado pelo eixo ESA Figura 9 - Casa demolida do fundo de vale da microbacia do Sem Dúvida localizada no Vale da Lua Figura 10 - Moradia do Jardim Primavera II construídas por meio do Projeto HBB II Figura 11 - Aspecto das moradias construídas pelo Habitar Brasil Figura 12 - Moradias localizadas na Rua Antônio Milton Mendes altura do n Figura 13 - Moradia do Sr. Augusto, localizada na esquina da Rua Zhefiro Modenuti do n Figura 14 - Área de revitalização do fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida Figura 15 - Campo de futebol localizado no antigo Vale da Lua Figura 16 - Centro de Referência Viva a Vida

8 2 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Dados populacionais/caracterização da população da microbacia do fundo de vale do córrego sem dúvida Tabela 2 - Moradores co-habitados do fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida: Tabela 3 - Tempo de moradia Tabela 4 - Instalação sanitária das residências no assentamento irregular Tabela 5 - Condições do Escoadouro das casas do assentamento irregular no fundo de vale da microbacia do Sem Dúvida Tabela 6 - Moradores entrevistados que ainda não haviam sido remanejados pelo HBB II Tabela 7 - Moradores entrevistados que já haviam sido remanejados por meio do HBB II

9 LISTA DE ABREVIATURAS OU SIGLAS APP - Área de Preservação Permanente BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento BNH - Banco Nacional da Habitação CEF - Caixa Econômica Federal CTNP - Companhia de Terras do Norte do Paraná COHAB-LD - Companhia de Habitação de Londrina DI - Desenvolvimento Institucional DF - Distrito Federal ESA - Educação Sanitária e Ambiental FGTS - Fundo de Garantia por Tempo de Serviço GERCA - Grupo Executivo de Erradicação do Café GTR - Geração de Trabalho e Renda HBB - Habitar Brasil BID IAP - Instituto Ambiental do Paraná ITEDES - Instituto de Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e Social MOC - Mobilização e Organização Comunitária PSH - Programa de Subsídio a Habitação de Interesse Social UAS - Urbanização de Assentamentos Subnormais UEM - Unidade Executora Municipal

10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO DESENVOLVIMENTO A URBANIZAÇÃO E O PROBLEMA DA HABITAÇÃO CRESCIMENTO URBANO E TERRITORIAL DE LONDRINA OCUPAÇÕES IRREGULARES EM LONDRINA A origem do assentamento no fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida Vale da Lua Vale do Sol Jardim dos Campos Programa de Subsídio a Habitação de Interesse Social PSH O Programa Habitar Brasil Ações desempenhadas antes da execução do Projeto UAS do Programa HBB II Perfil dos moradores da Poligonal Primavera Metodologia da Pesquisa Desempenho do HBB II no fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida CONSIDERAÇÕES FINAIS ANEXOS ANEXO A - CRONOGRAMA DE ATIVIDADES ANEXO B - RECURSOS HUMANOS ANEXO C - RECURSOS MATERIAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 87

11 10 1 INTRODUÇÃO Este trabalho tem como intuito analisar um problema que se solidificou na realidade urbana brasileira, a questão do déficit habitacional. Ela é fruto dos baixos salários, dos altos índices de desemprego, da concentração de renda, da segregação social imposta pelo modo capitalista de produção e principalmente da transformação da terra em uma mercadoria cara e escassa. Vivemos em um país na qual uma minoria vive em casas abastadas, verdadeiros palacetes, enquanto grande parte da população reside em ocupações irregulares em condições precárias ou subumanas. Esta situação expressa que a cidade não é apropriada por todos de maneira igual. São muitos os que convivem em locais inadequados à edificação de habitações, lugares desprovidos de qualquer tipo de infraestrutura básica com riscos de alagamentos, deslizamentos e proliferação de doenças etc. Comumente são áreas proibidas de se instalar moradias como áreas públicas ao longo de rios (como os fundos de vales que são áreas de preservação permanentes: (APPs) e encostas de morros etc.). Nosso objetivo é compreender como são constituídas estas áreas. Por isso, analisamos o processo de ocupação que teve início em 1996 na cidade de Londrina, no espaço situado na Rua Ana Caputo Piacentini, parte integrante do fundo de vale da microbacia Córrego Sem Dúvida, que corresponde a uma área de preservação permanente (APP) no fundo do conjunto habitacional Jardim Aquiles Stenghel. Tendo como finalidade solucionar a questão da ausência de um lar, inicialmente 84 famílias procedentes da região dos Cinco Conjuntos em virtude da incapacidade de arcar com o oneroso custo do aluguel ocuparam o espaço da área daquela rua. Posteriormente tendo conhecimento da existência desse assentamento chegaram outras famílias que resolveram abandonar a casa em que habitavam com o objetivo de residir neste local. Estas famílias incorporaram para si as terras que ficavam nas bordas e no entorno do fundo de vale, da microbacia do Córrego Sem Dúvida. Coletando sobras de material de construção, lonas, compensados de madeira, pedaços de tijolos, papelão, garrafas pet e qualquer outro tipo de material que lhes permitissem levantar seus barracos, organizaram-se e ocuparam o fundo de vale da Rua Ana Caputo Piacentini e constituíram ali um assentamento subnormal.

12 11 Os moradores com o decorrer do tempo criaram uma espécie de regionalização do local que deste modo foi dividido em três subáreas sendo elas: Vale da Lua, Vale do Sol, Jardim dos Campos e, que fazem divisa com os Conjuntos Habitacionais: Aquiles Stenghel, Luís de Sá e Maria Cecília. Desemparadas por um longo período de sete anos, em 2003 aquelas 84 famílias neste período já correspondiam a 122. Todas elas foram beneficiadas com a implantação de um programa habitacional intitulado de Programa de Subsídio a Habitação e Interesse Social (PSH). Salienta-se que foram beneficiadas com o PSH um total de 122 famílias moradoras no fundo de vale da microbacia do Córrego Sem Dúvida. Deste total 08 famílias eram da comunidade Vale da Lua, 45 do Vale do Sol ambas foram remanejadas e as 69 restantes permaneceram no local da ocupação em lotes parcelados e regularizados no Jardim dos Campos. O PSH encerrou suas atividades no ano de Contudo diante da proliferação de 249 novos barracos na citada microbacia o poder público de Londrina pleiteou outro programa habitacional intitulado: Habitar Brasil do Banco Interamericano de Desenvolvimento ou, (HBB) este financiava projetos de urbanização de assentamentos subnormais (UAS). Ele foi concebido em 1998 entre o governo federal e implantado em 119 cidades brasileiras sendo umas delas Londrina. Foi executado por duas vezes nesta cidade. A primeira experiência do HBB aconteceu em 2004 na área sudoeste de Londrina que compreendia o Jardim Turquino e o Jardim Maracanã (designado de Habitar Brasil I ou HBB-I). A segunda iniciou-se em junho de 2006 sendo executado na região norte desta cidade nas proximidades da Rua Ana Caputo Piacentini no fundo de vale da microbacia do córrego Sem Dúvida Poligonal Primavera (nomeado de Habitar Brasil II ou HBB-II). Este último foi o cerne de nosso trabalho. É necessário esclarecer que as áreas atendidas pelo HBB foram intituladas de Poligonal I e II, por apresentarem características semelhantes como falta de infraestrutura básica correspondendo a áreas de riscos, insalubres, ou sujeitas a desmoronamentos. Na página seguinte podemos observar na figura 1 carta da cidade de Londrina com a localização da Poligonal Turquino / Maracanã (na cor roxa) e também a Poligonal Primavera (em destaque na cor vermelha).

13 Figura 1 - Atlas Ambiental da Cidade de Londrina Organização: Santos, Josiane Rodrigues. 12

14 13 A figura 1 mostra a carta de localização das áreas contempladas com o programa HBB em Londrina. Na cor roxa destaca-se a primeira implantação que ocorreu no Jardim Turquino e o Maracanã (HBB I), também nomeado de Poligonal I. Já em vermelho, notamos a área de efetivação da segunda experiência do Habitar Brasil, situado na zona norte de Londrina, fundo de vale da microbacia do Sem Dúvida e designada de HBB II ou Poligonal Primavera II. Salientou-se que o HBB foi um programa realizado por meio do governo federal na gestão do presidente Itamar Franco em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Foi implantado para assistir as famílias que ocuparam o fundo de vale do Sem Dúvida após a conclusão do PSH. Desta forma, o presente trabalho está estruturado em quatro capítulos sendo que o primeiro trata da urbanização e o problema do déficit habitacional. Neste, apontamos a necessidade do sistema capitalista de produção de reestruturar o espaço urbano em função do caráter capitalista de produção de mercadorias. Mencionamos as alterações na estrutura urbana, as mudanças nas relações de trabalho e nas relações de produção de equipamentos e infraestrutura urbana, a instituição da propriedade privada dos meios de produção e a conversão da terra em mercadoria cara e escassa. No segundo capítulo, intitulado Crescimento Urbano e Territorial de Londrina, analisamos esta cidade que foi originada na dinâmica capitalista de produção. Veremos que Londrina é fruto de um empreendimento de colonização da Companhia de Terras do Norte do Paraná (CTNP) responsável pela ordenação espacial que ditou o tipo de ocupação dessa cidade planejada para abrigar uma população de habitantes locais. Esclareceremos os motivos que levaram a ocorrer a partir de 1950, uma explosão demográfica em Londrina ocasionando um processo de ocupação territorial e populacional desordenado. No que diz respeito ao terceiro capitulo designado As ocupações irregulares em Londrina discutimos sobre a questão da produção, disputa e utilização do solo urbano moldado de acordo com a atuação de diferentes agentes sociais. Tratamos da transformação do solo em mercadoria cara e escassa que fez surgir o problema do déficit habitacional que atinge grande parte da população brasileira, sendo que a cidade de Londrina não foge a regra. Essa pesquisa nasceu da necessidade de compreender a execução de programas habitacionais que tentam conter a proliferação de assentamentos irregulares em Londrina.

15 14 Discutimos especificamente a execução de um programa habitacional implantado por duas vezes nessa cidade nomeado Programa Habitar Brasil do Banco Interamericano Desenvolvimento (HBB). Analisaremos a segunda versão deste que foi realizado no assentamento subnormal no fundo de vale do Córrego Sem Dúvida. No quarto capítulo nomeado Desempenho do HBB II discorremos sobre as ações desenvolvidas pelo projeto assim como a sua atuação no referido fundo de vale. Esse local é uma Área de Preservação Permanente (APP) onde se instalaram primeiramente 116 famílias no ano de 1996 e que depois de uma longa espera de sete anos foram assistidas através do Programa de Subsídio a Habitação (PSH). Contudo no mesmo local surgiram novas 249 famílias que ocuparam o local referido acima. Estas foram assistidas por meio de outro Programa o Habitar Brasil do Banco Interamericano de Desenvolvimento (HBB). Este programa concedeu a essas famílias uma unidade habitacional e, além disso, lhes ofertou cursos de capacitação profissional visando à reintegração dessas pessoas a sociedade. E finalmente, nas considerações finais buscamos sintetizar os principais resultados alcançados através do referido programa habitacional descrito neste trabalho.

16 15 2 DESENVOLVIMENTO 2. 1 A URBANIZAÇÃO E O PROBLEMA DA HABITAÇÃO No período que antecede a Revolução Industrial na Inglaterra no século XVIII, a vida, o cotidiano humano, bem como as configurações territoriais apresentavam-se em contextos diferentes dos atuais. Havia a produção de mercadorias, contudo, esta se realizava com vistas a atender uma pequena demanda de compradores locais da cidade. Segundo Rolnik (1995 p. 26), em um primeiro momento, os mercados urbanos eram somente locais, restritos a uma cidade, e a dimensão mercantil da cidade era secundária em relação a sua dimensão política. A autora enfatiza que a expansão do caráter mercantil da cidade se dá quando se constitui uma divisão de trabalho entre cidades. (...) Quando esta divisão do trabalho se estabelece, à cidade deixa de ser apenas a sede da classe dominante, onde o excedente do campo é socialmente consumido para se inserir no circuito da produção propriamente dita. (ROLNIK, 1995 p. 26 e 27). A vida não era regulada pela ditadura do relógio (tempo), a terra (espaço físico) ainda não havia sido transformada em uma mercadoria escassa e cara. Este quadro sofre alterações profundas a partir da mudança no modo de produção de mercadorias que antes era manufaturado e que a partir da Revolução Industrial no século XIX é convertido em maquinofaturado. A implantação de um novo modo de produção, o fabril, permitiu a concretização de um novo modo de produção que corresponde ao capitalismo industrial. O capitalismo industrial ocorreu na Inglaterra na segunda metade do século XVIII com uma série de inovações na tecnologia de produção, onde a capacidade de transformação da natureza por meio de máquinas movidas a vapor possibilitou o aumento cada vez maior de produtos, o que multiplicava os lucros dos produtores. <órbita.starmedia.com/neomundo/capind.htm> acesso em 23/10/2010.

17 16 De acordo com Spósito, (1989, p. 44), este modo de produção desenvolveu-se plenamente a princípio na Inglaterra, pois naquele país se concretizaram as condições para tal, e mais cedo se criou uma classe trabalhadora livre da condição social servil e sem propriedades. Segundo a mesma autora (1989 p. 53) o novo ritmo de produção imprimido pela industrialização maquinofatureira exigia e provocava mudanças estruturais incluindo o crescimento populacional das cidades. A ampliação da capacidade produtiva pressupunha também a expansão do próprio mercado. A produção artesanal corporativa supria apenas o mercado local. Com a produção industrial em larga escala era necessário que este mercado se ampliasse em nível regional, nacional e até internacional. Conforme Rolnik, (1995 p 31) as cidades passam a se organizar em função do mercado, gerando um tipo de estrutura urbana que não só opera uma reorganização do seu espaço interno, mas também redefine todo o espaço circundante, atraindo para a cidade grandes populações. Spósito, (1989 p 54) afirma que isso significou o fim da cidade como um sistema institucional e social quase autônomo e provocou de forma definitiva, a constituição de redes urbanas, dada à ampliação crescente da articulação entre os lugares. Contudo Pechman, e Ribeiro (1984 p 20) afirmam que o surgimento do grande capital industrial criou a necessidade de remodelação do espaço urbano, adaptando-o às novas exigências ditadas pela produção capitalista de mercadorias. São as economias externas requeridas pela grande indústria implicando a produção de todo um conjunto de equipamentos e de infraestrutura urbanos: sistema de transportes e comunicação, sistema de abastecimento de água e esgoto sanitário, etc. Torna-se também necessário à implantação de um novo sistema de comercialização, condizente com as exigências e uma produção contínua e em grande escala, através da construção de grandes lojas comerciais. Com o decorrer do tempo as relações de produção vão se modificando, pois, o trabalho que era realizado nas corporações de ofício por artesãos já não supria as novas necessidades do mercado, ou seja, produzir em larga escala. O trabalho passa a ser realizado através da divisão do mesmo em etapas, assim sendo, cada operário produz apenas uma parte do produto.

18 17 Constitui-se então uma divisão social: de um lado os proprietários dos meios de produção (capitalistas) e do outro temos os donos da força de trabalho (trabalhadores). Uma divisão social que se territorializa e se expressa na própria divisão territorial do trabalho em áreas urbanas. A produção industrial reduziu o tempo de fabricação de mercadorias, baniu os trabalhadores do conhecimento de todas as etapas do processo de produção, o que resultou no processo de alienação do trabalho, ou seja, os trabalhadores passaram a não mais deter o controle do processo de produção, foram desta maneira expropriados de seu saber como um todo. A Revolução Industrial e o novo modo de produção, como já assinalado, exigiam mudanças nas relações de trabalho, nas relações de produção de mercadorias, e na produção de equipamentos e infraestrutura urbana como transporte, sistema de água e esgoto. Além disso, era imprescindível conceber a propriedade privada dos meios de produção bem como converter a terra em mercadoria. Neste contexto, o capital industrial passa a ditar as regras de produção de mercadorias e assim comanda toda a nova vida citadina por ele alterada. Ocorreu um aceleramento, no ciclo produtivo, ou seja, fabricavam-se mais mercadorias em menos tempo. Além de produzir mais mercadorias o transporte destas acabou sendo facilitado com o advento das ferrovias e seu desenvolvimento que proporcionaram um escoamento rápido bem como simplificou a circulação das mercadorias e das pessoas. Num sistema de produção na qual todos os bens acabam se convertendo em mercadorias não demorou muito para que o espaço também acabasse se transformando numa mercadoria cada vez mais valorizada. Salienta Rolnik (1995 p. 39), que as cidades sofreram uma reorganização radical na forma de organização. O primeiro elemento que entra em jogo é a questão da mercantilização do espaço, ou seja, a terra urbana, que era comunalmente ocupada, (no período medieval) passa a ser uma mercadoria que se compra e vende como um lote de bois, um sapato, uma carroça ou um punhado de ouro. Portanto, alguns mecanismos condicionaram o modo de produção industrial dentre eles: a organização social do trabalho que concretizou as relações de exploração, a

19 18 propriedade privada dos meios de produção, bem como a transformação da cidade no espaço da produção de mercadorias, o lugar que assegurou a produção e reprodução do capital. Fatores como a organização social do trabalho, a propriedade privada dos meios de produção e a transformação das cidades no lócus da produção de mercadorias asseguraram as condições necessárias à implantação do sistema capitalista, porém, restava a concretização de um mecanismo: tornar a terra uma mercadoria, esta foi uma das grandes estratégias de sobrevivência do sistema capitalista de produção. De acordo com Rodrigues, (2001, p. 17) a terra transformou-se em uma espécie de capital, que esta sempre se valorizando. É na verdade, um falso capital, porque é um valor que se valoriza, mas a origem de sua valorização não é a atividade produtiva. Investe-se capital dinheiro em terra e espera-se a valorização. Neste contexto, Spósito (1989, p.74) afirma que na economia capitalista, tudo se torna mercadoria até mesmo a terra. O preço do aluguel ou da compra do imóvel é determinado pelo fato de ser um bem indispensável à vida, de ser propriedade de alguns homens e não ser de outros, e de que nas cidades o seu valor se eleva pelo alto nível de concentração populacional e de atividades. Rodrigues (2001, p. 23) salienta que a terra, passa a ter um preço que é definido pela propriedade, pela capacidade de pagar de seus compradores, e não pela sua produção. Desta mercadoria se obtém renda. No caso das habitações, a determinação de seu preço é sempre acrescida com a renda da terra absoluta e diferencial. Conforme Oliveira (1987 p 74) a renda diferencial resulta do caráter capitalista da produção e não da propriedade privada do solo. Já a renda absoluta resulta da propriedade privada do solo e da oposição existente entre o interesse do proprietário fundiário e o interesse da coletividade, resulta do fato de que a propriedade da terra é monopólio de uma classe que cobra um tributo da sociedade inteira para colocá-la para produzir. Além disto, são acrescidos ao valor da habitação os lucros dos investimentos de incorporação da construção da casa, e os juros do capital financeiro, o que atingirá um preço extremamente elevado para a maioria dos trabalhadores. Com a transformação da terra em mercadoria criam-se obstáculos quanto ao acesso à mesma, pois nem todos possuem condições financeiras que permitam adquirir um lote urbano ou mesmo que tornem possível arcar com o elevado preço do aluguel.

20 19 Contudo não podemos deixar de mencionar que o espaço urbano é um emaranhado de significados na medida em que o mesmo está sujeito às ações de diversos agentes sociais que atuam em sua configuração espacial. A cidade é moldada por diferentes agentes sociais que atuam sobre ela. Estes agentes sociais constroem e reconstroem o espaço urbano de acordo com seus próprios interesses visando sempre que mecanismos como a transformação da terra em mercadoria e a especulação fundiária lhes proporcionem renda e concomitantemente se concretize o processo de acumulação e reprodução de seu capital. Para Corrêa (1989, p. 12) a ação destes agentes sociais se faz dentro de um marco jurídico que regula a atuação deles. Por outro lado, a ação desses agentes serve ao propósito dominante da sociedade capitalista, que é o da reprodução das relações de produção, implicando a continuidade do processo de acumulação e a tentativa de minimizar os conflitos de classe, sendo este um papel assumido pelo Estado. Conforme o mesmo autor, os agentes sociais são: os proprietários dos meios de produção, os promotores imobiliários, os proprietários fundiários, o Estado e também os grupos sociais excluídos. Corrêa R. (1989 p. 12) lembra-nos que os proprietários dos meios de produção são os grandes industriais, estes precisam de terrenos amplos e baratos e de fácil acesso para escoarem seus produtos, bem como necessitam de locais de ampla acessibilidade à população. É importante lembrar que os proprietários dos meios de produção também podem ser os proprietários de pequenas indústrias que nesse caso demandam de menores terrenos para efetivar sua produção. Os proprietários fundiários têm como objetivo extrair de suas terras uma renda elevada através da possibilidade transformação de seus lotes voltados ao uso comercial, industrial ou a construção de empreendimentos mais sofisticados como condomínios ou imóveis de luxo. Portanto Corrêa (1989 p. 14) ressalta que a especulação fundiária não interessa aos proprietários dos meios de produção. Interessa, no entanto, aos proprietários fundiários, pois é a retenção de terras que cria uma escassez de oferta e o aumento de seu preço, possibilitando-lhes ampliar a renda da terra. Tal prática gera conflito entre proprietários industriais e fundiários.

21 20 De acordo com Corrêa, (1989 p. 21), há diferentes tipos de promotores imobiliários. Existe desde o proprietário fundiário que se transformou em construtor e incorporador, ao comerciante próspero que diversifica suas atividades criando uma incorporadora, passando pela empresa industrial, que em momentos de crise ou ampliação de seus negócios cria uma subsidiária ligada à promoção imobiliária. Grandes bancos e o Estado atuam também como promotores imobiliários. É importante destacar que segundo Rodrigues, A (2001, p. 20) dentre os vários agentes que produzem o espaço urbano, destaca-se o Estado, que tem sua presença marcante na produção, distribuição e gestão de equipamentos de consumo coletivos necessários à vida nas cidades. Entre os consumos coletivos mais importantes no contexto histórico, destacamse: abastecimento de água, luz, telefone, sistema viário e transporte coletivo, espaços coletivos de lazer e esporte, equipamentos de saúde, educação e habitação para as chamadas classes populares. Além disso, os agentes sociais excluídos constituem outro grupo produtor do espaço urbano, estes, banidos de condições financeiras que lhes possibilitem adquirir ou alugar uma casa, e assim ocupam lotes (públicos ou privados) que constituem com o tempo em assentamentos, favelas, ou ocupações irregulares. Para Corrêa (1989, p. 30), é na produção da favela, em terrenos públicos ou privados invadidos, que os grupos sociais excluídos tornam-se, efetivamente, agentes modeladores, produzindo seu próprio espaço. A produção deste espaço é, antes de qualquer coisa, uma forma de resistência e, ao mesmo tempo uma estratégia de sobrevivência. A partir deste contexto notamos que o espaço urbano na economia capitalista é lapidado e comandado de acordo com os interesses das classes dominantes. Segundo Spósito (1994 p. 57), apenas os poucos proprietários de grandes extensões do território ou de inúmeras residências, acabam determinando os custos do preço do metro quadrado do solo ou do aluguel, o que também vai depender da localização do terreno e/ou padrão da residência. O autor acima afirma que essas pessoas determinam também a dinâmica de crescimento da cidade, não apenas pelo fato de serem proprietárias de grandes parcelas do território, mas também porque fazem parte de outros organismos que definem a cidade, associações patronais, partidos políticos, etc.

22 21 Portanto, verificamos que a cidade é constituída por diferentes agentes, sendo que estes atuam de maneira específica (porém conjunta) no processo de concepção e gestão da mesma. Assim sendo, notamos que a cidade é o espaço da concretização da produção e reprodução do capital, que em sua consolidação gera a cidade como espaço das contradições, desigualdades e injustiças sociais. Carlos (1994, p. 23) lembra-nos que o uso diferenciado da cidade demonstra que esse espaço se constrói e se reproduz de forma desigual e contraditória. A autora acima ainda afirma que o processo de reprodução espacial envolve uma sociedade hierarquizada, dividida em classes, produzindo de forma socializada para consumidores privados. Portanto, a cidade aparece como produto apropriado diferencialmente pelos cidadãos. Carlos, (1994, p. 26), afirma que a cidade aparece como materialidade produto do processo de trabalho de sua divisão técnica, mas também da divisão social. E materialização de relações da história dos homens, reguladas por ideologias, e formas de pensar, sentir, consumir, é modo de vida, de uma vida contraditória. Enfim, Rolnik (1995 p. 28), atesta que hoje a imagem de cidade como centro de produção e de consumo domina totalmente a cena urbana. Nas cidades contemporâneas não há praticamente nenhum espaço que não seja investido pelo mercado (ou pela produção para o mercado). Realmente as cidades são espaços produzidos para o consumo desenfreado. No entanto, independentemente da mercadoria ou de qualquer espécie de serviço prestado haverá sempre um valor de troca, ou seja, um custo financeiro. Mercadorias de valor elevado como, por exemplo, a habitação, poderá ser adquirida somente por aqueles que possuem condições financeiras para tal. Aqueles que são excluídos desse direito que é uma necessidade fundamental acabam fazendo brotar ocupações irregulares. Falaremos a seguir de Londrina, uma cidade que foi concebida dentro da dinâmica capitalista de produção, destacando o crescimento de sua zona norte dentro da lógica capitalista e a geração de ocupações irregulares em áreas de fundos de vale.

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