PARTICIPAÇÃO DAS ENTIDADES DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NO CAS/DF: DISCURSO E PRÁTICA. 1

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1 PARTICIPAÇÃO DAS ENTIDADES DE ASSISTÊNCIA SOCIAL NO CAS/DF: DISCURSO E PRÁTICA. 1 Érica Ramos Andrade 2 Marlene de Jesus Silva Santos 3 1. Introdução Mesmo com os grandes avanços verificados após a Constituição Federal de 1988 (CF/88), a assistência ainda sofre dificuldades em implementar seus preceitos legais diante de seu legado histórico. As entidades de assistência social 4 se constituem num dos pilares da filantropia como relação entre Estado e sociedade civil, se colocando à frente da prestação de serviços para a população pobre. O empecilho de consagrar da assistência enquanto um direito social reconhecido pelo Estado e provido mediante política pública se deu mesmo por interesses privados das elites, comprometendo a construção da cidadania nesse processo. O Conselho Nacional de Serviço Social (CNSS), um dos principais órgãos de institucionalização da filantropia, cedeu lugar ao Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) que pretendeu garantir a participação do conjunto da sociedade civil no processo de construção da política. Os Conselhos de Assistência são órgãos colegiados e deliberativos, compostos, além dos representantes governamentais, por trabalhadores, entidades privadas e usuários, sendo esses últimos três com igual peso. Como espaço de publicização de conflitos, o Conselho de Assistência Social do Distrito Federal (CAS/DF), espaço tomado para realização deste trabalho, assume um papel contraditório: é visto tanto como recurso para práticas inovadoras que visam aprofundar a democracia no Brasil, como espaço para reprodução de interesses privados 1 Esta pesquisa foi parte de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Serviço Social apresentado em fevereiro de 2011 na Universidade de Brasília (UnB). 2 Assistente Social graduada pela UnB. 3 Assistente social e Mestre em Política Social pela UnB. Professora do Departamento de Serviço Social da UnB. 4 Nesse trabalho entidades e instituições privadas, filantrópicas e de assistência social são usadas como sinônimos como recurso de estética para o texto e evitar repetições. 1

2 e corporativos das entidades filantrópicas. As entidades como representantes da sociedade civil assumem esse conflito ao mediar os interesses dos usuários da assistência e os seus como prestadores de serviços. Diante do exposto, o objetivo deste trabalho consiste em analisar o discurso e a prática das entidades representantes no CAS/DF. Logo, indagamos se a prática e o discurso no CAS/DF dos (as) conselheiros (as) representantes das entidades e organizações de assistência que atendem os usuários da assistência social refletem as demandas do público que eles (as) representam? A fim de respondê-la, levantou-se a hipótese de que esses representantes não conseguem refletir os interesses dos usuários. Para referendar a pesquisa optou-se pelo uso de metodologia qualitativa em que se procurou identificar as variáveis que interferem na participação social da sociedade civil no CAS/DF. Foram realizadas entrevistas individuais semi-estruturadas com 5 representantes das entidades eleitas para levantar aspectos do seu discurso e compromisso com os usuários da política de assistência social. O estudo foi feito, também, com base em observações ordinárias feitas em 4 reuniões do CAS-DF, sendo duas reuniões ordinárias e duas extraordinárias. Além disso, foram analisadas as atas das reuniões de 2009 e 2010, período de vigência da última gestão eleita. Essas etapas permitiram verificar quais pautas têm sido priorizadas, de que forma as discussões foram feitas, quem apoiou ou não e se elas conseguiram aprovação. Ademais, esta pesquisa respeitou os princípios éticos estabelecidos na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília (CEP/IH) conforme protocolo 10/11 de Assistência Social no Brasil: o peso do legado histórico Historicamente, a assistência social no Brasil se mostrou como um campo marcado pela relação tênue entre público e privado. Provida tanto pelo governo quanto pelas entidades privadas pertencentes, principalmente a Igreja Católica, acabou por se desenvolver mais em decorrência do dever moral da ajuda do que por uma necessidade de promover justiça social e cidadania (BEC apud BOSCHETTI, 2006: 180), só vindo 2

3 a se firmar como direito constitucional a partir de A assistência, portanto, desenvolveu-se assentada numa cultura política filantrópica como base da relação entre Estado e sociedade civil. A instituição do Conselho Nacional de Serviço Social (CNSS) em 1938 caracterizou-se como uma das primeiras iniciativas da burocracia estatal voltada ao amparo social. Muito embora em seu regimento constassem outras atividades como a realização de estudos e pesquisas na área, o repasse de recursos financeiros e registro das entidades foram funções que mais se destacaram, de modo a conferir um caráter cartorialista a esse órgão. Orientadas muito mais por interesses organizacionais do que por uma necessidade de conferir proteção aos pobres, essas atividades acabam por florescerem a revelia desses interesses. A Legião Brasileira de Assistência (LBA), entidade privada e de caráter missionário fundada em 1942 para apoiar os brasileiros ex-combatentes da II Guerra Mundial e seus familiares, teve um papel central na institucionalização da filantropia no provimento das ações assistenciais. Em pouco tempo a LBA iria formar convênios com entidades filantrópicas de forma a enraizar sua atuação por quase todo o território nacional 5 sem romper com a centralização das ações a nível federal desarticulado das ações locais (SPOSATI & FALCÃO, 1989). Ela estende o seu ramo de atuação para atividades de apoio à maternidade e à infância, além de especializar e prover maior racionalidade aos serviços prestados com o aumento do corpo técnico de profissionais, em que pese a predominância dos serviços ainda serem prestados à revelia das instituições privadas. Foi criada, também, a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) cuja atuação consistia em subsidiar entidades de proteção à criança e ao adolescente. Nessa linha de prestação de serviços sócio-assistenciais, com a Lei nº 3.933/61 sobre a Declaração de Utilidade Pública a partir da década de 60, tem-se um alargamento das vantagens fiscais para as entidades privadas e a concessão de anistia às instituições devedoras da previdência. Influenciado por isso, houve uma especialização 5 Após 3 anos de sua criação a LBA estava presente em 90% dos municípios brasileiros, e em 1968 ela expande suas ações a 26 estados (SPOSATI & FALCÃO, 1989: 21). 3

4 maior das atividades do CNSS, conseqüência do volume de subvenções e registros que eram requisitados. Por isso, Mestriner define essa etapa como: de institucionalização definitiva da subvenção, que ganha maiores exigências e controle, e da instituição do cadastramento das entidades sociais pelo Registro Geral no CNSS, na primeira fase do período; e do alargamento das vantagens fiscais, na segunda fase. (2008: 130). Com a instauração da ditadura militar em 1964, verifica-se uma expansão dos direitos sociais 6 como contrapeso ao cerceamento dos direitos políticos e civis. No campo da assistência a LBA desvincula-se de seu caráter missionário para transformarse em Fundação de direito privado com aumento de sua estrutura administrativa e crescimento do corpo de profissionais técnicos fazendo reproduzir sua ação por toda a rede de filantropia, por meio de acordos e convênios de cooperação mútua (MESTRINER, 2008: 168). Além disso, passou a contar com recursos orçamentários da União, Estados e Municípios e oriundos dos concursos de prognósticos. O fato de se ter parte dos serviços organizados pelo Estado ainda não assegurava à assistência a qualidade de direito, sendo ofertada predominantemente sob a ótica da filantropia. A LBA não assumia a responsabilidade primeira pela promoção do bemestar da população, mas uma co-responsabilização partilhada com a sociedade civil na prestação de serviços (SPOSATI & FALCÃO, 1989). Também as suas funções, ainda que destinadas a alguns setores populacionais, não conseguiam garantir cobertura a toda a população pobre e não contavam com uma continuidade e integração de seus serviços. À medida que a recessão econômica se propala na década de 1970, tem-se o agravamento dos problemas sociais e a explicitação dos conflitos, sinais esses que serão fundamentais para fragilizar o regime ditatorial e aumentar a pressão pelo retorno da democracia política. Soma-se a isso, a baixa efetividade das ações da LBA (SPOSATI & FALCÃO, 1989: 55) e das entidades filantrópicas. A partir desses elementos retomase a discussão de propor reformas mais eficazes que possam atingir de fato as questões que persistem na sociedade brasileira. 6 Houve uma tendência a alargar a proteção social brasileira com a unificação dos Institutos de Aposentadorias e Pensões e das Caixas de Aposentadorias e Pensões, universalizando a provisão dos serviços e benefícios previdenciários e de assistência médica, e com a criação do Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social em 1977 que se caracterizava em regulamentar as políticas de previdência, assistência social e assistência médica e controlar a execução dessas políticas. Além disso, foram incluídos na previdência os trabalhadores rurais. 4

5 Em meio a isso, é garantida a aprovação da Constituição Federal de 1988, considerada um avanço na consagração da política de assistência social. A sua instituição como direito social, devendo ser ofertada como política pública oferece um novo padrão de proteção. A sua inclusão no artigo 6º insere o imperativo legal na busca de reelaborar práticas históricas de tutela do Estado e do setor privado que tornavam tênue a linha de separação entre política social e ações de caridade (BOSCHETTI, 2003). Alçada a essa condição, a assistência provoca a intervenção do Estado no amparo a determinados grupos além de se distinguir das ações da filantropia que, embora consideradas um dever moral, não produzem direitos correspondentes e não são judicialmente reclamáveis (PEREIRA, 1996: 70). A Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS) promulgada em 1993 como uma das garantias de consagração desse direito, expressou uma combinação de lutas e interesses no âmbito da sociedade civil: ao passo que ela reitera a primazia da responsabilidade do Estado na condução da política, no artigo 6º declara que ações serão organizadas e prestadas pelas entidades privadas (LOAS, 1993). Nesse aspecto, a lei é contraditória ao fundar uma política pública e ao mesmo tempo reafirmar a filantropia. Ela é permissiva, portanto, quanto à permanência dessas atividades a cargo da sociedade civil. Foram instituídos também com a LOAS, os Conselhos de Assistência Social com vistas a fiscalizar e aprovar ações para a referida política com a participação de setores da sociedade civil. Além disso, foram estabelecidas as Conferências de Assistência Social realizadas a 4 anos como forma de avaliar a política como um todo. Aqui, se consagram os pilares fundamentais da participação política ensejando uma cultura democrática mediante a possibilidade de atuação de sujeitos sociais permanentemente nos processos decisórios. Entretanto, o CNAS, ao substituir o CNSS, herda dele o legado da função cartorialista. Em que pese o volume de trabalho de fiscalização que tomou conta de um espaço destinado à discussão política, foi esse trabalho também que permitiu legitimar o CNAS no cenário nacional (RAICHELIS, 2008). Mesmo assim, algumas das tentativas desse Conselho consistem em conferir maior clareza e aprimorar as regras na concessão de vantagens às entidades de 5

6 assistência. A Resolução nº109 de 11 de novembro de 2009, padronizou os serviços do SUAS de modo que as entidades que sejam de assistência social não podem fugir desse rol de serviços listados. Mesmo que com recursos públicos a prestação deixa de ser à revelia dos critérios das entidades e passa a assumir propriedades mais sistematizadas e em consonância com as pactuações efetuadas nas instâncias deliberativas. Já a Resolução nº16 datada de 5 de maio de 2010 estabelece critérios básicos para a inscrição de entidades de assistência social nesses Conselhos de forma a estabelecer quais entidades prestam, de fato, serviços de assistência social. Em que pese o fato dessas normas conferirem maior sistematicidade à prestação de serviços, essa política ainda encontra-se entremeada a valores que foram enraizados no decorrer de sua histórica conformação. Ao lado das proposições legais e práticas inovadoras permanecem mentalidades e valores conservadores que estimulam ações emergenciais e caridade e pronto-socorro aos pobres (OLIVEIRA, 2003: 18). Afirmar uma cultura embasada no direito a ter direitos significa, para além de o Estado ter a primazia na execução da política, a supremacia do interesse público 7 frente a interesses privados e organizacionais. 3. Conselhos de Assistência Social: espaço de representação de interesses As mudanças conquistadas a partir da CF/88 prometeram suplantar um padrão de regulação Estado-Filantropia-Sociedade por meio de direitos que diferiam do dever moral da ajuda. A cidadania 8 deve ser compreendida não só como o acesso a esses direitos sociais básicos, mas também quanto à possibilidade de participação da sociedade civil nas decisões do Estado. Os Conselhos de Assistência Social fazem parte de um processo de democratização da esfera pública, essa última entendida como espaço de publicização de interesses heterogêneos, de confronto entre práticas sociais contraditórias e de luta pela hegemonia político-cultural em torno de projetos 7 Aqui a idéia de interesse público remete ao interesse dos usuários por ser esse o alvo primeiro da política. 8 Entende-se como respeito ao próprio direito à vida no seu sentido pleno, como direito à existência em todas as suas dimensões (COVRE, 1991). A cidadania implica que o interesse público seja permanentemente construído por seus atores. 6

7 societários (RAICHELIS, 1998: 85). Na qualidade de pública, ela passa a estar sujeita à pressão de atores sociais defendendo distintos projetos políticos. A LOAS já emerge de um aumento da participação de diversos atores incorporando, além das tradicionais entidades filantrópicas, novas ONGs com concepções mais progressistas que contribuirão para o aprofundamento de uma cultura de participação e reivindicação de direitos numa área que historicamente reproduziu a ausência de mobilizações sociais. A formação dos Conselhos advém desse processo recente de mobilização, o que para a assistência tem certa importância devido ao peso da sua cultura tradicional. Uma das inovações que os conselhos trazem consiste em garantir espaço para que a participação representativa seja feita pelos próprios destinatários da assistência o que não impede, entretanto, que os demais setores também levem as demandas dos usuários pela via indireta. O fato de haver diversos segmentos ali representados não significa que eles devem levar seus interesses corporativos, mas que eles carreguem demandas dos sujeitos a que se destina a política, uma vez que é a esses que a assistência se volta. Como espaço aberto ao conflito, é importante compreender quais tipos de projetos políticos predominam. Gohn (2004) identifica que o conceito de empoderamento pode conotar tanto a mobilização e mudanças de práticas de forma a garantir autonomia, desenvolvimento e qualidade de vida de grupos e comunidades como designar meramente ações sociais com vistas a integrar paliativamente e emergencialmente populações pobres e/ou excluídas. Essa compreensão pode orientar quais discursos estão sendo pautados nesses espaços de controle social. A consagração de um espaço público deve se dar mediante ocupação de sujeitos coletivos, que representem legitimamente pautas coletivas e voltadas ao interesse público, confluindo para o confronto entre os diversos projetos políticos em voga (RAICHELIS, 2008: 85). Isso implica que representantes formem laços com a sociedade civil no sentido de realizar a mediação e intermediação necessária para promover visibilidade e controle social exercido pelo resto da população. É importante que os instrumentos publicizadores sejam constantemente ativados de tal modo que a participação extrapole os espaços institucionalizados e que os representantes sejam constantemente aptos e 7

8 capacitados para a tomada de decisão. Contudo, segundo Paz (2009) a representação dos interesses caracteriza-se como uma via de mão dupla, onde tanto os eleitos quanto as demandas possuem responsabilidades de mobilização e articulação. De outro modo, a representação acaba por ser esvaziada de representatividade quando há uma delegação àqueles que estão efetivamente no poder e omissão da base na formação das pautas e defesa de projetos. Diante da dificuldade de estabelecer essa articulação, a participação representativa nesses espaços significa antes a expressão da diversidade na sociedade civil do que a defesa de interesses coletivos organizados em nome dos outros (ABERS e KECK, 2008). Isso demonstra que as decisões levantadas naquele espaço não necessariamente refletem ideais bem consensuados e organizados. Apesar de tais decisões não se configurarem de fato numa democratização das relações e formação ativa e legítima de representantes, os Conselhos se caracterizam, em última instância, como fontes de novas práticas e novos procedimentos e constituem-se em arenas para o debate e tomada de decisão (ABERS e KECK, 2008: 101). Desse modo, mesmo que o espaço não se constitua ainda como, de fato público, ele fomenta uma cultura mais participativa dos segmentos inseridos na política. O principal desafio que se coloca frente a esses espaços é a compreensão de seus significados e suas potencialidades no campo do controle social (RAICHELIS, 1998). Eles se colocam como estratégias concretas para promover mudanças na cultura desenvolvida no campo da assistência. Nesse cenário, mostra-se importante a consagração de uma esfera pública que dê vazão e reafirme os diversos interesses e propostas em torno da política conferindo um espaço de embates políticos que deságuam no consenso ativo dos atores sociais. Para tanto, a publicização requer: a garantia de visibilidade social das ações do governo; o controle social pela sociedade civil na fiscalização das ações como na proposição e na deliberação delas; a representação de interesses coletivos, a fim de que haja o trânsito desses diversos projetos na cena pública; a democratização das relações sociais; e, a afirmação de uma cultura pública. Essa estratégia faz parte de um processo de abertura desses espaços à população, fortalecendo os laços de discussão e debates para formação do consenso deliberado. 8

9 Nota-se, diante do exposto, que os Conselhos são espaços repletos de limites e de caminhos possíveis para construção da participação e cidadania. Acima de tudo, devem-se entender os Conselhos como espaços importantes e indutores de uma nova cultura política, de tal forma que seja possível romper com os laços tradicionais da política de assistência e radicalizar a cidadania (RAICHELIS, 1998). Resta saber, e tentaremos analisar no próximo tópico, em que medida as entidades têm feito esse papel tencionando o Estado com as demandas que lhe são levadas como um dos segmentos interlocutores dos usuários. 4. Análise dos dados O CAS/DF consiste em um instrumento de construção da Política de Assistência Social no Distrito Federal que conta com a participação coletiva de representantes da sociedade civil empossados por eleições diretas. É importante destacar que na última eleição, dada a falta de mobilização dos usuários, fato presente historicamente na referida política, não foi possível compor as quatro cadeiras de suplentes reservadas e um dos titulares eleitos foi indicado por uma entidade. Tal fato ilustra a argumentação de Raichelis (2006), quando pontua que a contraface da pobreza como ausência de renda, se constitui na dificuldade de representação política nos espaços públicos. Pelas entrevistas realizadas foi possível analisar algumas características das entidades empossadas. A maioria delas foi criada até meados da década de 70 com exceção de uma, cuja sucursal de Brasília foi criada em Ainda, três entidades declararam possuir vínculos com a Igreja Católica, uma cultua o espiritismo, apesar de não ser ligada a nenhuma instituição religiosa, e uma laica. A partir desse quadro, é possível perceber como a Igreja Católica permanece predominante nesse campo. Ainda, tais fatores podem indicar que as entidades carreguem concepções mais tradicionais em relação à assistência, muito embora ocorra uma reformulação dessas concepções à medida que associam valores e práticas conservadores às compreensões mais progressistas. Esse perfil montado pode já indicar como algumas características que foram percebidas historicamente podem influenciar na participação das entidades. No universo de representantes entrevistados, todos declararam que suas respectivas entidades recebem subsídios governamentais, por meio de isenção de 9

10 impostos e repasse direto de recursos. Isso demonstra como de fato a filantropia continua a ser utilizada como base da relação entre Estado e sociedade civil. No entanto, o papel dos Conselhos é repensado a partir da CF como potencializador de uma construção democrática das políticas. São criados sob a ótica da cidadania, apesar da atividade cartorial herdada pelo CNSS. Essa herança recebida pelos Conselhos de Assistência Social dilui a sua compreensão como espaço eminentemente político, abrindo espaço para um trabalho mais técnico como é a concessão de certificados e inscrições de entidades. Em relação à motivação das entidades em participar do CAS, as entrevistas revelaram que existe uma preocupação por parte das entidades em antes se legitimarem como prestadoras de serviço da política de assistência social. Segundo a ata da 192º reunião ordinária, outro representante de entidade pede que o CAS faça gestões com os procuradores da PGDF para agilizar pareceres de Utilidade Pública. Portanto, as entidades ainda percebem o CAS como instrumento para ganhar certificados que sejam de seu interesse e para que possam continuar a atuar no campo. O reconhecimento do Conselho, por essa ótica, justifica que as entidades recorram a esse espaço para atender também à suas demandas como prestadoras de serviços para além de representar as demandas dos usuários. Esse achado de pesquisa corrobora Neves (2008), que explica que o domínio do privado no espaço público constitui um lastro na tradição da cultura brasileira que define valores e práticas sociopolíticas interferindo na construção dos Conselhos como espaço eminentemente público. Esse entendimento de participação acaba por influenciar na compreensão do papel dessas entidades no CAS/DF. Na fala desse representante, o Conselho é visto como espaço meramente para se ocupar em vez de participar. A presença dos conselheiros é entendida como ouvidos da sociedade civil para que as decisões possam ter o consentimento dela, por meio dos representantes eleitos. Não está presente nos discursos uma concepção daquele espaço como fortalecimento da política de assistência social e como fonte produtora de novos direitos. A política não deve ser uma conquista em si, mas ela é um espaço em constante construção implicando que haja a participação ativa da população e a plena compreensão dos princípios, objetivos e da operacionalização desses conceitos para que sejam efetivamente implementados. 10

11 Ainda assim, a maioria (3 dos entrevistados) afirmou estar preocupado em estabelecer diálogos com movimentos sociais e organizações de usuários. Porém, ao que tudo indica esse diálogo tem sido feito parcialmente, uma vez que as discussões não conseguem chegar ao CAS. O trabalho de assessoramento a movimentos e organizações reflete um pouco a dificuldade dos representantes em como interagir com as demandas. Em uma plenária, um dos representantes das entidades fez o seguinte questionamento: qual a responsabilidade material e orientativa de reconhecer esses movimentos que não possuem recursos para se registrar e receber recursos?. Ao que parece, o problema maior das instituições se refere à ausência de recursos financeiros, porém subjaz nessa fala a importância de as entidades desenvolverem tarefas de assessoramento, organização e articulação junto aos movimentos sociais fazendo a ligação entre usuários, Conselhos e Estado para que os interesses populares sejam ouvidos. Mesmo assim, a forma como os conselheiros formulam suas propostas, ainda parece estar distante de consolidar uma democratização dos espaços de discussão. Alguns relataram não levar propostas, porém dentre os que levam, elas são formuladas da seguinte maneira: Dentro da minha necessidade, da minha vivência aqui e de todas as entidades que tem relacionamento através desse Conselho, é uma necessidade comum dessas entidades. (Entidade 2) [ ] eu, particularmente tenho como princípios não levar propostas minhas, né. Eu discuto as propostas no nosso Conselho das entidades né, no CEPAS. Nós temos um fórum exatamente para discutir e levar propostas. (Entidade 1) As falas apresentam um novo espaço de participação e consenso com forte influência sobre o CAS: o Conselho de Entidades de Promoção de Assistência Social (CEPAS). Sendo assim, as principais propostas discutidas no CAS remetem antes aos interesses das entidades como prestadoras de serviços, do que das necessidades dos usuários. Por serem legitimadas como prestadoras de serviços frente a um Estado que tem se colocado ausente, elas concebem o Conselho como espaço de atendimento também às suas demandas organizacionais. Esse espaço tem sido usado com freqüência como um recurso para resolução de seus conflitos institucionais, como indicam as propostas dos representantes. 11

12 Nesse sentido, parece que as demandas dos usuários têm sofrido certa dificuldade de chegar ao CAS, seja pela falta de organização e mobilização desse segmento para fins de participação direta, seja pela dificuldade das entidades em transitar esses interesses, priorizando algumas vezes seus projetos organizacionais. Isso é identificado até por uma dos representantes dos usuários. Os fatos acima ilustram mesmo um dos problemas da democracia representativa, onde a tomada de decisões é deixada a cargo dos representantes sem que se tenha construído antes um posicionamento coletivo acerca das questões abordadas. Esse é um problema tanto dos representados e representantes que deixam esse vácuo na construção coletiva. Além disso, demonstra a dificuldade de mobilização dos usuários da Assistência Social. Tal fato é notório até pelo fato de o CEPAS ser um dos únicos espaços coletivos mencionados que influencia nas discussões enfrentadas dentro do CAS, indicando a falta de espaços que articulem os interesses coletivos em voga e fortaleça a formação de atores coletivos. Além disso, foi relatado que as pautas acabam sendo tomadas tanto pelo trabalho burocrático cartorial, citado como importante por uma das entidades. É contraditória essa análise uma vez que essa estrutura favorece a manutenção desse segmento como espaço de oferta de serviços socioassistenciais, posicionamento defendido pela maioria dos representantes. Entretanto, é fato que essas discussões acabam tomando muito tempo do Conselho e é uma prática muito mais técnica do que política, contribuindo para despolitizar esses espaços. Desde a criação do CNSS, os Conselhos são vistos pelas instituições privadas como espaço para regular e regulamentar a filantropia, papel que sofreu pouca alteração no transcurso da assistência. Mesmo que pouco, o diálogo com a sociedade civil tem ajudado no fortalecimento desses atores levando a discussão para dentro do Conselho sensibilizando os conselheiros e possibilitando o acúmulo de experiências. Por isso, é importante que os representantes dos diversos segmentos exerçam seu potencial naquele espaço, contribuindo para radicalizar a cidadania realizando trabalhos de assessoramento e organização junto aos movimentos sociais e tencionando tais demandas no espaço público. 12

13 5. Considerações finais Ao longo deste trabalho percebeu-se que a filantropia ainda se reproduz na política de assistência social colocando as entidades filantrópicas à frente da prestação de serviços em detrimento da construção de uma política de fato pública e atendimento dos serviços diretamente pelo Estado. Essa também é a lógica que permeia os discursos dos representantes no CAS/DF, o que dificulta conceder outro direcionamento à referida política. Esse é um dos fatores centrais que acaba distorcendo a compreensão do CAS/DF por parte dos representantes de entidades, enxergando-o como espaço para vazão de seus conflitos organizacionais. Na ausência de articulação entre os usuários, as entidades levam para o Conselho pautas mais afetas a elas como prestadoras de serviços do que construções coletivas e mais relevantes para os usuários. O CEPAS, como uma das únicas instâncias organizadas coletivamente fora do Conselho, acaba por direcionar as discussões naquele espaço confluindo para que as discussões sejam mais de interesse das entidades. Tal fato se dá até por uma necessidade de sobrevivência das entidades em meio a um Estado neoliberal, que reduz os custos para a área social. Por isso, pode-se dizer que a hipótese de que os representantes das entidades não conseguem refletir os interesses dos usuários foi comprovada. Seja por falta de compromisso e interesse, seja por uma dificuldade de articular-se com as demandas a voz dos usuários ainda sofre dificuldades em chegar ao CAS e ser ouvida pelo Estado. Os interesses das entidades e do governo têm se sobreposto aos interesses dos destinatários da política. Mesmo que haja certo amadurecimento do Conselho como espaço de discussão, as mudanças implementadas ainda são lentas. Diante dessa realidade, é possível inferir que o espaço público ainda é tomado por interesses privados e organizacionais. A luta para aprofundar a esfera pública deve passar pela compreensão dos determinantes culturais e políticos que permearam o cenário brasileiro (NEVES, 2008). Portanto, avançar na luta pela extensão da cidadania e consagração da justiça social no Brasil implica que os sujeitos políticos se dotem de uma compreensão crítica sobre a realidade. 6. Referências Bibliográficas 13

14 ABERS, Rebecca Neaera e KECK, Margaret E.. Representando a diversidade: estado, sociedade e "relações fecundas" nos conselhos gestores. Cad. CRH [online]. 2008, vol.21, n.52, pp BOSCHETTI, Ivanete. Assistência Social e Trabalho: Direitos (In)Compatíveis. In Assistência Social no Brasil: um direito entre originalidade e conservadorismo. 2 ed. Brasília: GESST/ SER/ UnB, p.. Seguridade Social e Trabalho. Paradoxos das Políticas de Previdência e Assistência Social no Brasil. 1. ed. Brasília - DF: Letras Livres / EDITORA UnB, v p. COVRE, Maria de Lourdes Manzini. O que é cidadania? São Paulo: Brasiliense, ed. 78p. (Coleção Primeiros Passos: 250). FALCÃO, Maria do C. ; SPOSATI, Aldaíza. LBA: Identidade e Efetividade das Ações no Enfrentamento da Pobreza Brasileira. GOHN, Maria Glória. Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais. Saúde soc. [online]. 2004, vol.13, n.2, pp MESTRINER, Maria Luiza. O Estado entre a Filantropia e a Assistência Social. 3 ed. São Paulo, Cortez, NEVES, Ângela Vieira. O Pensamento conservador na sociedade brasileira: ambigüidades entre o público e o privado. Serviço Social e Sociedade, v. 93, p ,

15 OLIVEIRA, Heloisa Maria José de. Cultura Política e Assistência Social: desafios à consolidação de uma singular política pública no âmbito da proteção social. In Ser Social nº 12, v. 1, 1 sem Brasília, UnB, PAZ, Rosângela D. O. da. Representação e Representatividade: dilemas para os Conselhos de Assistência Social. In: BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Participação e Controle Social no SUAS. (Cadernos de Textos: subsídios para debates). Brasília, PEREIRA, Potyara A. P. A Assistência Social na perspectiva dos direitos: crítica aos padrões dominantes de proteção aos pobres no Brasil. 1. ed. Brasília: Thesaurus, v p. 15

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