Carolina Amaral de Aguiar

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1 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker The Cu ban Rev o lu tion in Chris Marker s documentary films A presença de Cuba nas discussões políticas entre artistas e intelectuais na Fran ça du ran te os anos 1960 e 1970 pode ser exem pli fi ca da por um epi só dio narrado por Jorge Semprún em Mon tand: la vie con ti nue (1983). Nes se li vro me - morialístico, o escritor demonstra suas divergências com Régis Debray e descreve uma si tu a ção em ba ra ço sa ocor ri da em 1974 na casa de cam po de Yves Mon - tand e da atriz e es cri tora Simone Signoret, em Auteuil. Lá jan ta vam os dois an - tagonistas e outros convidados do casal (entre os quais Chris Mar ker). Sem prún ale ga que du ran te mu i tos anos evi ta ra fa lar so bre Cuba com De bray, que se ha via tornado uma referência para a esquerda francesa após o sucesso do ensaio Révolution dans la révolution? (1967), obra fo quis ta. Po rém, foi jus ta men te um li vro é mestre em Estética e História So cial e doutoranda em História So cial pela USP (bolsista FAPESP); é integrante do programa internacional USP-Cofecub Exercícios de história cul tural conectada: caminhos cruzados en tre Brasil, América Latina e França Artigo recebido em 24 de dezembro de 2012 e aprovado para publicação em 9 de abril de Est. Hist., Rio de Ja ne i ro, vol. 26, nº 51, p , ja ne i ro-junho de

2 que repensava a estratégia armada que desencadeou a briga em Auteuil. Debray in da gou a opi nião de Sem prún so bre La cri ti que des ar mes (1974), dan do-lhe a oportunidade de dizer o quanto abominava a defesa assumida pelos intelectuais franceses dos métodos e da ditadura de Fidel Castro. A bre ve des cri ção des se epi só dio, que pa re ce ter tido um fi nal mu i to mais constrangedor do que sugere o parágrafo acima, exemplifica como o modelo de socialismo cubano esteve na pauta das discussões francesas desde a vitória da Revolução (1959) e a posterior declaração de seu caráter socialista (abril de 1961) até os anos A presença de Chris Marker como um participante-observador orgânico desse grupo da intelectualidade também é um dado importan te des se re la to, já que, ape sar da crí ti ca fe roz à Ré gis De bray, Sem prún não cita os fil mes re a li za dos por Mar ker (a quem elo gia) para de fen der as ações de Fi - del Castro. O episódio exemplifica também o papel central da Revolução Cubana nos de ba tes in te lec tu a is en tre o fi nal dos anos 1950 e me a dos da dé ca da de Claudia Gilman (2012) verifica essa centralidade na esquerda intelectual latino-americana, apontando sua reverberação na intelectualidade europeia. Considerado um fato original por ser uma revolução socialista vitoriosa sem a participação do Partido Comunista, o processo revolucionário cubano aparecia como uma alternativa ante ao abalo da confiança na União Soviética após a divulgação dos cri mes do sta li nis mo, em Assim, Gil man iden ti fi ca que a Re vo lu ção rompeu com uma perspectiva eurocêntrica, ocidentalista e do Atlântico Norte para dar lugar a uma perspectiva policêntrica. A ideia de uma perspectiva policêntrica ajuda a com pre ender como a Revolução Cubana foi apropriada pelos meios artísticos e de teoria política da França, tornando-se um parâmetro para pensar a própria democracia desse país. Para contribuir nesse debate, propõe-se a análise de dois documentários de Marker: Cuba si 1 (1961) e La bataille des dix millions (1970). Essas duas pro du ções ela - boraram um discurso sobre o processo revolucionário cubano e levaram a intercâm bi os com o Insti tu to Cu ba no del Arte e Indus tria Ci ne ma to grá fi cos (ICAIC), que foram fundamentais para o estabelecimento de práticas cinematográficas comuns entre Europa e América Latina. Alfredo Guevara (2009), então dirigente do ICAIC, atribui o contato do governo revolucionário com o grupo de intelectuais de Paris ao interesse do ator Gérard Philipe e sua mulher, Anne Philipe, pela Revolução Cubana. Porém o casal mais emblemático dessa aproximação foi Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que estavam entre os primeiros franceses a visitar a Cuba revolucionária, en tre fe ve re i ro e mar ço de Em meio a ou tros com pro mis sos, eles estiveram nas de pen dên ci as do ICAIC e fo ram tema de um tex to pu bli ca do na edi ção nº 1 da revista Cine Cubano, Simone de Beauvoir y Sartre hablan de cine (1960). 36 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.

3 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker Entre os cineastas estrangeiros não pertencentes ao bloco socialista, 2 des ta ca-se a co la bo ra ção de Jo ris Ivens com o ICAIC, quan do ro dou Car net de vi - aje e Pueblo armado (am bos de 1961). O ho lan dês es te ve em Cuba em se tem bro de 1960, sendo contratado para organizar uma escola para documentaristas, concretizada apenas de modo informal. Nesse período, percorreu a ilha acompanhado de cineastas do Instituto, cobrindo os enfrentamentos entre o Exército Rebelde e os contrarrevolucionários. Cabe ressaltar que entre as atribuições dos realizadores convidados pelo Estado cubano estava a de propagandear os feitos da Revolução na Europa, função desempenhada pelos filmes analisados neste artigo. No li vro Cinema cubano, Mariana Villaça (2010) destaca que durante os chamados anos dourados da cinematografia em Cuba, a década de 1960, inúmeros cineastas passaram pelo Instituto, que priorizou colaboradores que tivessem comprovada experiência no cinema documental, gênero eleito como o prio - ri tá rio para o pro ces so re vo lu ci o ná rio. Foi o caso de Ivens e tam bém de Chris Marker, que começou o projeto Cuba si em ja ne i ro de Essa ten dên cia le vou ainda outros documentaristas ao país, como Mario Gallo, que rodou Arriba el campesino e Al com pás de Cuba (ambos de 1960), e Agnès Varda. O caso de Var da deve ser des ta ca do, já que a ci ne as ta e Chris Mar ker têm um longo histórico de amizade e colaboração, que remete pelo menos ao Groupe des Tren te (1953). A realizadora participou também do projeto Loin du Vi et nam (1967), a par tir do qual se cri ou a pro du to ra mi li tan te Service pour le Lancement des Œuvres Nou vel les (SLON). Em Cuba, ela es te ve a con vi te do ICAIC em 1962, quan do ro dou Salut les cubains! (1963), que teve como as sis ten te a cu ba na Sara Gó mez. O do cu men tá rio de Var da apresenta semelhanças com o de Marker, como será abordado a seguir. É necessário ressaltar, entre as presenças europeias na Cuba pós-revoluci o ná ria, a de Ré gis De bray. De acor do com Jac ques Le e nhardt e Pi er re Kal fon (1992), ele se ofe re ceu fren te à em ba i xa da de Cuba em Pa ris para lu tar nas for ças internacionalistas durante a invasão norte-americana da Baía dos Porcos (junto com seu amigo Bernard Kouchner, que posteriormente se tornaria um dos fun - dadores do programa Médicos sem Fronteiras). Os au to res afir mam (com bas - tante ironia) que, mesmo sem conhecer uma palavra de espanhol, Debray alfabeti zou cam po ne ses da Si er ra Ma es tra. Anos de po is, em 1965, vol tou à ilha a con vi - te do próprio Castro, transformando sua nova experiência em Révolution dans la révolution? (1967). Afi nal, o au tor ha via de i xa do Cuba para acom pa nhar Ernes to Che Gu e va ra na Bo lí via e, como con se quên cia, foi con de na do a 30 anos de pri são (em um episódio de difíceis articulações diplomáticas que levou Debray ao centro dos noticiários internacionais). Marker refere-se a esse livro em alguns de seus fil mes, como La spirale (1976) e O fundo do ar é vermelho (1977). Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de

4 A colaboração entre as esquerdas cubana e europeias (especialmente a francesa) envolveu ainda a circulação de técnicos como agrônomos e economis - tas. Esse pa no ra ma mos tra que a tro ca en tre Cuba e a Eu ro pa cos tu ma va ser de mão dupla (não mais sob uma perspectiva eurocêntrica), sendo que os europeus buscavam na ilha alternativas possíveis para sua própria militância, enquanto, para os cubanos, interessava difundir os ideais revolucionários, assim como capacitar tecnicamente as novas instituições de Estado que se formavam ou se renovavam. Nesse sentido, a contribuição no campo cinematográfico, em torno das atividades do ICAIC, é exemplar. O documentário Cuba si pode ser ana li sa do como uma propaganda da Revolução para espectadores franceses, mas também como um la bo ra tó rio de ex pe ri men ta ção e tro cas no dia a dia do set de fil ma gem. Cuba si (1961) Mar ker che gou a Cuba em de zem bro de 1960 e logo ini ci ou gra va ções para Cuba si. A sequência inicial do filme mostra crianças pedindo seus presentes de Na tal, que na ilha são ofer ta dos no Dia de Reis. O do cu men tá rio une a tra di - ção festiva da data com as comemorações do segundo aniversário da Revolução, em 1º de ja ne i ro de Esses dois as pec tos são bas tan te ex plo ra dos na pro du - ção: a autenticidade cultural do povo cubano e a liberdade de exercê-la em sua plenitude após a libertação promovida pelos revolucionários. Marker exibe o nascimento de uma nova nação, representada pelos pedidos de meninos e meni - nas aos reis magos alegoricamente barbudos como os guerrilheiros. A voz over anuncia: Era o ano pas sa do, em Havana. Preparávamo-nos para ce le brar nes ta or dem: o 1º de ja ne i ro, que é o 1º de ja ne i ro, o 2 de ja ne i ro, que é o ani ver sá rio da Re vo lu ção, e o Dia de Reis, que é o Na tal o ver da - de i ro Na tal, o dia dos pre sen tes, quan do ofer ta mos às cri an ças os be - bês-cachorros, que crescerão, os bebês-coelhos, que crescerão, os periqui tos ba ti za dos de pe i xes, os ur sos e as bo ne cas, e tam bém os be bês me - tralhadoras, que crescerão! (Cuba si, 1961) 3 A militarização aparece como uma característica da sociedade cubana que é amplamente exaltada em Cuba si. O documentário é repleto de cortejos militares, sempre mesclados à multidão nas ruas, caracterizada como uma soma de pessoas multiétnicas. Soldados caminham com metralhadoras, mas também com tambores. A celebração é garantida, na visão de Marker, pela unidade do 38 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.

5 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker povo e sua dis po si ção de se de fen der dos ini mi gos in ter nos e ex ter nos. Esse país re cém-li ber to, ex-quin tal dos Estados Unidos, está agora nacionalizado, porém não sem tensões e ameaças. O cli ma de fes ta, mas tam bém de cons pi ra ção, mos tra do em Cuba si, condiz com os desafios enfrentados pelo Estado cubano no princípio de Em carta ao embaixador de Cuba na França, Harold Gramatges, de janeiro de 1961, Alfre do Gu e va ra (2009) anun cia a pre sen ça de Mar ker no país e sua in ten - ção de rodar um documentário com o cubano Eduardo Manet, declarando estar ciente de que o diplomata fora o responsável pela vinda do cineasta francês. Na mesma correspondência, Guevara compartilha a preocupação com as constantes ame a ças dos Estados Unidos, que haviam rompido relações diplomáticas e tinham planos de agressão. De fato, os lon gos me ses de di ca dos a Cuba si possibilitaram a incorporação de ce nas do ata que nor te-ame ri ca no à Baía dos Por cos, em 17 de abril de 1961, nas sequências finais do documentário. De volta à França, Marker insere na montagem fotos de jornais franceses sobre o episódio e narrações de rádio. A voz over anuncia que os relatos da imprensa europeia o remeteram aos passeios feitos meses antes em Havana. Assim, ele caracteriza suas próprias lembranças como orá cu los de uma si tu a ção que já se anun ci a va. São es sas lem bran ças, por outro lado, que lhe permitem confiar na resistência do povo cubano, conforme ex põe a voz over. Os pla nos gra va dos em Cuba se con ver tem em souvenirs (como ob je tos trazidos de uma viagem) quando vistos em Pa ris. A ques tão do lo cal de onde fala o re a li za dor é fun da men tal em toda a obra de Mar ker, que, ao se re me ter a lu ga res distantes, assume um ponto de vista estrangeiro. É possível perceber em suas produções que abordam processos latino-americanos, como Cuba si, um diá lo go direto com a sociedade francesa, assim como a internacionalização do discurso político. Após uma lon ga se quên cia na qual uma mar cha mi li tar se trans for ma em um grande desfile carnavalesco de conga, Marker declara que fora de Havana o resto do mundo segue seu curso normalmente. Nesse momento, vários planos curtos se sucedem: corrida de automóvel, desfile de moda, competição de beleza de animais, reuniões de chefes de Estado, astronautas, guerras e touradas. Esse pot-pourri de ima gens é co men ta do pela voz over, que guia um per cur so pe las di - ver sas re giões do mun do: Fran ça, Argé lia, Amé ri ca, Con go, Laos, Áfri ca. O luxo e a vi o lên cia disseminados, fenômenos associados nessa sequência, não estão presentes em Cuba. A ilha é, em Cuba si, uma ex ce ção. Um lu gar onde a mi li ta ri za ção é li ber - ta do ra. Onde as ar mas e os tam bo res, o exér ci to e o povo, com par ti lham as ruas em enormes manifestações de apoio ao governo. As metralhadoras cubanas, as Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de

6 mesmas desejadas pelas crianças patriotas no início do filme, são as armas de defesa, enquanto as utilizadas pelas potências imperialistas são as de ataque. Nesse sen ti do, vale des ta car que há um jul ga men to éti co da vi o lên cia, pelo qual ela pode ser con si de ra da boa ou má de acor do com o fim ao qual se des ti na. Há tam bém uma cla ra alu são às ide i as de Frantz Fa non (2011), as sim como à de fe sa da violência como parteira da História, realizada por Sartre no prefácio de Les damnés de la terre. Entre as estratégias narrativas usadas para transmitir o enfrentamento entre essas duas forças luta armada libertadora e poderio militar imperialista (revolução e contrarrevolução), está o uso de imagens metafóricas. A tensão que an te ce de o ata que à Baía dos Por cos é pos ta em cena por cro co di los sub mer - sos em Pla ya Gi rón que se pre pa ram para dar o bote, as sim como os vi zi nhos yan - kees e os anticastristas cubanos. As tomadas desses traiçoeiros animais são acompa nha das pela trans mis são de uma rá dio fran ce sa que ques ti o na o apo io que a di ta du ra de Fi del Cas tro te ria do povo cu ba no. Um cor te in tro duz ce nas da in - vasão norte-americana e do poderio militar defensivo de Cuba. A voz over decla - ra que em 20 de abril de 1961 o mundo não apenas viu a vitória do governo revolucionário, como apreendeu que seu povo estava pronto a defendê-lo. A sequência final de Cuba si de i xa cla ro que se tra ta de um fil me mi li tan - te no sen ti do mais es tri to do ter mo, fe i to para atu ar em prol de uma ca u sa no caso, a Re vo lu ção Cu ba na. A pro du ção exal ta o pro ces so em cur so no país em tom celebrativo, e inicialmente receberia o nome de Celebración. Mes mo a ex cla - ma ção de no mi na ti va em fa vor da ilha, Cuba si, ti ra da de um dos le mas do go - verno revolucionário, reforça o caráter propagandístico do documentário. Sua intenção é evidentemente contradizer a visão negativa de Fidel Castro hegemô - nica na imprensa europeia, sobretudo francesa. Esse objetivo está claro, por exemplo, na exibição de manchetes críticas a Cuba retiradas dos periódicos europeus. Cuba si acu sa que, para o res to do mun do, é mais fá cil res sus ci tar o mito e associar Fidel Castro à figura de Robin Hood do que entender sua verdadeira ori gem. Uma se quên cia de jus ta po si ção de gra vu ras e tre chos de um fil me de fic - ção 4 representando o príncipe dos ladrões é intercalada a imagens documentais da guer ri lha na Si er ra Ma es tra, li gan do Cas tro e Ro bin Hood por meio da se le - ção de ce nas que lem bram o es te reó ti po do ho mem bár ba ro, um bar bu do vi - ven do nas ma tas e co men do com as mãos. O co men tá rio pro fe ri do pela voz over, no entanto, torna a situação mais complexa: Tra ta-se, tal vez, de Ro bin Hood... So men te to mar dos ri cos e dar aos po bres, no sé cu lo em que es ta mos, não con sis te ne ces sariamente em atacar as diligências. E quando Robin Hood leu Marx, 40 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.

7 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker quan do nas suas mon ta nhas ele pre pa ra as leis e re for mas da fu tu ra re - pú bli ca, uma par te do mun do co me ça a se dar con ta com pe sar que está atra sa da tam bém, mais que um Ro bin Hood. Assim, mor rem as len das. O mito de Ro bin Hood se des faz em pedaços. Em seu lu gar, uma Re vo lu - ção. (Cuba si, 1961) Bus can do ir além do mito, Mar ker in se re pla nos de Cas tro es tu dan do. A vi são do guer ri lhe i ro como um bár ba ro se in ver te, por meio de seu re tra to como um intelectual. Nessa etapa, Cuba si se assume como um contraponto aos estereótipos negativos em torno do líder cubano, dedicando-se a entender inclu - sive suas contradições. Grandes manifestações em apoio à causa revolucionária des men ti ri am nas es tra té gi as de Mar ker a vi são de que se tra ta va de um di ta - dor. O do cu men tá rio ca mi nha para o ar gu men to de que, ao in vés de um fe nô me - no to ta li tá rio como defendia a imprensa francesa, a Revolução era um exemplo de democracia direta. Para perceber esse fato, faltava que o estrangeiro compreendesse os aspectos culturais da Revolução Cubana. A voz over co men ta que, en quan to as ce - nas de fuzilamento de um ex-comandante de Batista rodaram o mundo, as dos prisioneiros políticos disputando competições de xadrez com seus guardas permaneciam desconhecidas (até serem mostradas em Cuba si). Enquan to as man - chetes da imprensa francesa publicavam que Castro era acusado de trair seus companheiros pelo Departamento de Estado, as faces dos engravatados almofadinhas que formavam esse órgão eram desconhecidas. Assim, o realizador francês se de di ca a trazer contra-argumentos ao discurso da mídia francesa, gerando um panorama extremamente favorável a Cuba. Mar ker lan ça a se guin te per gun ta: quem é Fi del Cas tro? Fi lho de pro - prietário de terras, aluno jesuíta e fundador da primeira república socialista das Américas. Como se deu essa metamorfose? A resposta é inserida na montagem por meio de um frag men to de en tre vis ta com o pró prio che fe de Esta do, re gis tra - da originalmente para a televisão francesa. Castro atribui sua postura a uma vocação política, a uma tendência natural à justiça e a um ambiente favorável à revo lu ção como o que estava dado em Cuba devido à desigualdade social. Ele se explica ao público francês: Não pode ha ver re vo lu ção fora de tem po. Qu an tos Ma - rats, e quantos Dantons e quantos Robespierres haverão nascido na Fran ça des de que a Fran ça exis te. E, no en tan to, so men te um Ma rat, so - mente um Danton e somente um Robespierre se transformaram em re - Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de

8 volucionários. Quando? Quando a monarquia feudal já estava em decadência. (Cuba si, 1961) Em outro trecho dessa mesma entrevista, Castro cita novamente a França para ex pli car por quê, após dois anos da Re vo lu ção, ain da não ha vi am ocor ri - do eleições. É evidente que a escolha dessa sequência por Marker visava a rebater a acu sa ção de que se tra ta va de uma di ta du ra. Lem bran do os anos du ran te os quais a ilha estivera submetida ao governo de Fulgencio Batista, o líder cubano considera a hipótese de instaurar um processo eleitoral posterior à institucionalização da Revolução. Ele compara o país latino-americano ao europeu, estranhando o fato de os franceses não entenderem que o eleitorismo não resolveria os problemas de uma nação. E completa: enquanto na França a população estava descontente, em Cuba haveria eleições todos os meses em praça pública, visíveis na aclamação popular. Claramente, esse trecho indica a posição de Marker ao lado das análises esquerdistas que consideravam a ilha um exemplo de democracia direta (como já havia defendido Sartre, por exemplo). Essa ên fa se em uma nova for ma de de mo cra cia, que re ba tia as crí ti cas ao ca rá ter di ta to ri al da Re vo lu ção Cu ba na, res pon dia ao di ag nós ti co de que a Eu ro pa vi via uma ida de de fer ro em opo si ção ao fer men to re vo lu ci o ná rio de ou tras re giões, con for me apon ta Cla u dia Gil man (2012). A au to ra des ta ca que o ter ce i ro-mun dis mo vi nha ao en con tro da ur gên cia de um novo es quer - dis mo re vo lu ci o ná rio, di an te das fór mu las in su fi ci en tes em voga na es quer da eu ro pe ia: No mundo desenvolvido e próspero, quem havia transitado pelas hipóteses do marxismo contemplava perplexo sua própria realidade: a social democracia, o economicismo do proletariado que se mostrava não só incapaz, senão também pouco disposto a transformar radicalmente a sociedade. (Gilman, 2012: 47) Essa oposição entre uma falsa social democracia, não representativa da vontade do povo, e o governo revolucionário aparece em Cuba si. Do pon to de vis ta da se le ção de pla nos, são as ce nas de mul ti dão, so bre tu do aque las nas qua is os cubanos civis aparecem mesclados às paradas militares (confirmando que, no caso de Cuba, as ar mas são li ber ta do ras, e não opres so ras), as que mais con fir - mam essa tese da democracia direta. Em relação às temáticas abordadas, o alinhamento militante do realizador com o Estado cubano valoriza aquelas que mos tram as trans for ma ções do país. Sendo assim, além de celebrar, o documentário busca também propagandear essas mudanças. 42 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.

9 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker A música cubana está presente como um recurso sonoro de exaltação da Re vo lu ção. São mu i tas as ce nas em que ela acom pa nha a mul ti dão e as mar chas mi li ta res. A prin ci pal de las é a se quên cia em que um cor te jo mi li tar se trans for - ma inesperadamente em uma conga, dançada pelo povo que acompanhava a fanfarra. Outra canção fundamental é Des pu és de un año, de Car los Pu e bla, que ce le - bra o pri me i ro ani ver sá rio do go ver no. O re frão Y el pu e blo des pu és de un año repite, Gracias Fidel exalta o apoio popular ao líder revolucionário e é usada pelo realizador com essa finalidade. Além do cli ma fes ti vo, a de fe sa de Cuba de Mar ker pas sa pela opo si ção en tre o novo go ver no e o pe río do em que Ba tis ta go ver nou essa sim, uma ver da - deira ditadura. Ao final da primeira parte do documentário que é dividido em dois blocos, são alternadas tomadas gravadas durante o período de Batista com outras realizadas após a mudança de poder. Se antes havia palácios e pobreza extre ma, se o povo era mas sa cra do pela re pres são mi li tar bem como os guer ri lhe i - ros que o de fen di am, em ja ne i ro de 1959 do luxo pa la ci a no so bra va ape nas uma es tá tua de um bebê Na po leão 5 (mais uma referência à história de seu próprio país que Marker insere). A representação cênica de um mundo decadente e de outro emergente está em várias passagens do filme. Esse procedimento é evidente quando o realizador insere imagens do arquivo do ICAIC rodadas na Sierra Maestra. Concomitantemente aos registros de Ernesto Che Guevara, Raul e Fidel Castro e Camilo Cienfuegos, a voz over indica que o objetivo da guerrilha era destruir uma ditadura e construir uma sociedade nova. As cenas de vida compartilhada entre os guerrilheiros na mata anunciam aspectos de uma coletividade que iria, na visão do re a li za dor, es tar pre sen te após a vi tó ria. Além de armas, eles manuseiam a massa do pão, tijolos, máquinas de escrever e aparelhos eletrônicos. Embora estejam presentes com mais frequência na segunda produção de Marker sobre Cuba, La bataille des dix millions, em Cuba si há algumas sequências em que o tra ba lho ma nu al apa re ce como um va lor de se já vel para essa nova so ci e - da de. Se essa atri bu i ção é evi den te nas ce nas da Si er ra Ma es tra, ela vol ta na se - gun da par te do do cu men tá rio, quan do os mi nis tros de Cas tro cor tam cana-de-açú car, dan do o exem plo para a pro du ção. 6 Essa se quên cia é im por tan - te, pois se con tra põe à ri que za do im pé rio dos usi ne i ros de Ba tis ta, épo ca de ex - ploradores e explorados. Na Revolução, essa distinção estaria ausente e todos trabalhariam em conjunto para o bem comum, como ocorrera nas matas entre os revolucionários. A ide ia é de uma pas sa gem en tre dois mun dos, en tre a Cuba an ti ga e a nova, en tre Cuba e o res to do mun do, en tre Cuba e a Fran ça. Na se quên cia em que a voz over descreve que a rádio francesa anunciara o ataque norte-americano em 17 de abril, um car ro atra ves sa um tú nel em Ha va na en quan to são pro fe ri dos Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de

10 comentários sobre as transformações revolucionárias. A expropriação de empresas pelo Esta do, diz a voz over, é tam bém a pas sa gem de um mun do para ou tro. Nes se tre cho, o ca mi nho pelo tú nel é um re cur so que materializa cenicamente esse trânsito entre universos opostos. Em Cuba si, aparecem alguns recursos estilísticos amplamente presentes na filmografia de Chris Mar ker. Um de les, sem dú vi da, é o co men tá rio mar can te. Em suas pro du ções, pode-se di zer que tex to e ima gem es tão in ter li ga dos, sen do que mu i tas ve zes um ques ti o na ou afir ma com ve e mên cia o ou tro. A voz over tem o pa pel fun da men tal de tra zer tex to às ima gens. Vale res sal tar que Mar ker co me - çou sua carreira como ensaísta, atribuindo à palavra um peso tão grande quanto ao universo visual. Nesse documentário, a voz over apresenta algumas particulari da des co muns a outras produções, como a ironia, o lirismo, o papel informativo e a função questionadora. Para os ci ne as tas do ICAIC, a es ta da de Chris Mar ker teve ou tra fun ção além de divulgar na Europa os feitos da Revolução. No artigo Tres semanas de trabajo junto a Chris Mar ker, es cri to por Edu ar do Ma net para a Cine Cubano, está um re la to sobre os métodos markerianos, visando a contribuir para a for ma - ção de documentaristas latino-americanos. Ele divide sua metodologia em duas categorias: geral (tomar o fato no instante em que é produzido, eleger fatos representativos e integrar figuras humanas à paisagem sempre que possível) e específica (registrar rostos em movimento, utilizar animais como metáforas e captar uma tendência da alma nacional ). De maneira didática, Manet determina preceitos que podem ser seguidos, especialmente o de unir um cinema testemunhal e do cu men tal com a arte. Um documentário necessita de métodos definidos, sensibilidade artística e engajamento político. São esses três aspectos que Manet aprende durante a estada de Marker. O artigo é interessante por narrar a vontade do realizador francês de registrar as mais diversas imagens, que poderiam eventualmente ser aproveitadas na montagem. Ele descreve, por exemplo, que as tomadas da comemoração do segundo aniversário da Revolução, que estão na sequência inicial de Cuba si, fo ram gra va das sem medir a luz, com a rapidez de uma metralhadora, focando em rostos, mãos e expressões. Identificar as estratégias narrativas de Marker na obra dos cineastas do ICAIC é uma tarefa difícil, pois há métodos distintos presentes nesse grande conjunto de filmes e de realizadores cubanos. Porém algumas características que se tornaram hegemônicas nos documentários estão, de alguma forma, em Cuba si. Na des cri ção de Edu ar do Ma net está, por exem plo, a pre fe rên cia pela ra pi dez do registro em detrimento da qualidade técnica da imagem. Esse procedimento de gravação condiz com alguns dos preceitos defendidos pelo cinema-verdade, 7 para o qual a ex pe riên cia vi vi da é o mais re le van te na to ma da fíl mi ca. 44 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.

11 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker Mariana Villaça (2010) defende que o melhor termo para descrever esse tipo de ci ne ma em Cuba é cineurgente, já que a ide ia de to ma das opor tu nas que fossem ao encontro da realidade estava presente, mas nem todas as técnicas do gênero tal como realizado na Europa eram seguidas. Esse termo, cunhado por Santiago Álvarez, descrevia a necessidade de um registro rápido aliado a uma narração ágil, método que empregava nos Noticiero ICAIC Latinoamericano. Em Cuba si, essa parece ter sido a estratégia utilizada para gravar as manifestações de rua, a par tir das qua is Mar ker de mons tra um sen ti men to de ver a His tó ria acon - te cer, ou seja, uma cer ta ur gên cia em re gis trar e di vul gar os mo men tos que vivenciava. Vale des ta car que se Cuba si se apro xi ma dos mé to dos usa dos por gran de parte dos documentaristas do ICAIC (especialmente Álvarez) em suas técnicas de registro das imagens, ele difere substancialmente desse corpus fíl mi co na uti li - za ção do tex to, bem como na mon ta gem. Para Álva rez, por exem plo, há uma pre - ferência por utilizar palavras em forma de entretítulos e uma importância pequena da voz over. Em Marker, ocorre justamente o contrário. A voz over corrobora ou contradiz as imagens; estabelece uma ligação entre os diversos planos por meio de um texto autoral. Quando assume a posição espacial do realizador no momento da mon ta gem, um fran cês de vol ta à ter ra na tal relembrando sua estada, ela reve - la uma subjetividade que concede às imagens anteriores o papel de fragmentos de memória. Essa subjetividade assumida é um recurso pouco presente no cinema político cubano, com algumas exceções Sara Gómez, Nicolás Guillén Landrián e To más Gu tiér rez Alea (Paranaguá: 2003). Nesse sentido, apesar das semelhanças entre o documentário de Marker e o de cubanos o que comprovaria uma certa escola europeia, são muitas as diferenças que permitem afirmar que o ICAIC desenvolveu um caminho autônomo, com a criação de estratégias narrativas próprias e o diálogo com outros atores (como os latino-americanos no contexto do Nuevo Cine Latinoamericano). Dessa maneira, há, por exemplo, mais proximidade entre produções como Cuba si e Salut les cubains!, de Agnès Var da, do que en tre Cuba si e os filmes de Álvarez. Apesar de algumas diferenças estilísticas e temáticas (o papel da mulher, por exem plo, é uma ques tão para Var da, bem como a re li gião afro), a cul tu ra cu - bana, a mestiçagem e as mudanças positivas geradas pelo novo governo são aspectos celebrados em Salut les cubains! que já es ta vam em Cuba si. Se no do cu - men tá rio de Mar ker a can ção exer cia um pa pel im por tan te, no de Var da ela é o elemento fundamental, desempenhando um papel narrativo e exemplificando a ri que za cul tu ral do povo. Ou tro as pec to em co mum é a exal ta ção das ce nas de multidão e sua afirmação como verdadeiros momentos democráticos, corrobo ran do a tese de que ha ve ria nes se país uma nova for ma de de mo cra cia direta. Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de

12 Essa breve comparação entre os dois documentários permite afirmar que Cuba si se tor nou uma re fe rên cia nos me i os fran ce ses para pen sar a Re vo lu - ção Cu ba na. Vale res sal tar que o fil me foi cen su ra do em 1961, épo ca de sua pro - dução, por defender o governo de Fidel Castro, tornando-se público apenas em setembro de Nessa ocasião, apareceram muitos textos na imprensa de esquerda exaltando-o, entre eles um artigo de Georges Sadoul (1963). Em al guns des ses ar ti gos está pre sen te a ide ia de que Cuba si só foi li be ra - do pela censura quando a vitória dos revolucionários passou a ser mais um fato histórico do que um acontecimento político recente, ou seja, quando o filme já perdera parte de seu poder de persuasão. Apesar de muito saudado pela esquerda e ainda uma referência de engajamento, em 1963 a coqueluche Cuba deixava de ser uma epi de mia na Fran ça. Le e nhardt e Kal fon apon tam al guns epi só di os que contribuíram para o enfraquecimento dessa visão lírica e romântica: a crise dos mís se is (em ou tu bro de 1962) e o acor do de ven da de açú car para o blo co socialista em Esses acontecimentos evidenciaram a dependência que o país latino-americano tinha da União Soviética, abalando a visão idílica frequente da gauche française. Nesse contexto, a tese da democracia direta, presente nos docu - men tá ri os de Mar ker e de Var da, per dia seu po der de persuasão. Após a par ti da de Che Gu e va ra para se guir a guer ri lha em ou tras par tes do mun do, em 1965, e sua mor te na Bo lí via, em 1967, abor dar a Re vo lu ção Cu ba - na pas sou a ser uma ques tão ain da mais de li ca da, como é pos sí vel per ce ber em outro documentário de Marker sobre a ilha: La bataille de dix millions (1970). Nessa produção, a celebração presente em Cuba si dá lu gar a uma re fle xão mais com ple xa so bre o tema, em bo ra sem abrir mão da mi li tân cia em fa vor do go ver - no de Cas tro. Porém os argumentos presentes nessa militância serão outros. La bataille des dix millions (1970) Após a experiência de Cuba si, Chris Mar ker se man te ve à dis tân cia como um co la bo ra dor do ICAIC. Em 18 de agos to de 1968, por exem plo, en vi ou a Alfredo Guevara um roteiro do cineasta Peter Kassovitz. Marker propunha que o instituto cubano aceitasse a coprodução desse projeto. Manifestava ainda a von ta de de exi bir o re cém-concluído Loin du Vi et nam (1967) em Cuba. Esses ca - sos mos tram que a co la bo ra ção en tre o re a li za dor fran cês e o ICAIC não vi sa va somente a novos modelos estéticos para o cinema militante, mas tinha objetivos con co mi tan tes à pro du ção e à di fu são de fil mes. A cri a ção da SLON em 1967 foi fru to da bus ca de caminhos para realizar projetos sem depender das grandes produtoras. Nesse sentido, Marker procurava parcerias com instituições que pudessem fortalecer o coletivo. 46 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.

13 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker Um dos fru tos da co o pe ra ção en tre a SLON e o ICAIC foi La bataille des dix millions (1970). Produzido em um momento desfavorável a Cuba, nesse filme a celebração da Revolução de Cuba si dá lu gar a uma mi nu ci o sa aná li se, que se reivindica como autocrítica. O lirismo da produção anterior é substituído pelo uso de lon gas se quên ci as mu i tas de las dis cur sos de Fi del Cas tro com pou cos cor tes que tra zem ex pli ca ções de or dem eco nô mi ca para a cri se na pro du ção de cana-de-açúcar. La bataille des dix millions foi mon ta do com ima gens do Noticiero e da pro - dução Des pe gue a las (1969), de San ti a go Alvarez. 8 Nesse período, Marker pôde acom pa nhar de per to o de sa fio assumido por Cas tro como so lu ção para os problemas econômicos da ilha: produzir uma safra de 10 milhões de toneladas de açú car. A voz over explica que esse era o único recurso renovável exportável em lar ga es ca la e que os 10 mi lhões re pre sen ta vam o po ten ci al de ven da para os países socialistas. Ela informa que União Soviética havia exigido uma planificação para 1970, e por isso a meta ha via sido fir ma da para aquele ano. Mas afir ma que Castro admitia, em seu pro gra ma, a exis tên cia de uma gran de dis tân cia en tre os números reais e os ideais. Esse primeiro trecho, composto pelas imagens do líder e por essa lo cu ção em over, compõe uma espécie de prólogo anterior aos créditos. Nele se conhece o plano, e também sua incapacidade de realização. Assim, a derrota está anunciada desde o início. É necessário entendê-la. As cenas seguintes são extraídas do documentário Des pe gue a las 18.00, que re tra - ta os es for ços dos tra ba lha do res da par te ori en tal para pro du zir o açú car. Se ha via na montagem do realizador cubano o objetivo de verificar as falhas e incentivar o trabalhador, no documentário de Marker as mesmas imagens são usadas para sensibilizar o espectador para quem são es ses per de do res. Ho mens sim ples, mu lhe res e cri an ças. Enquan to a câ me ra foca o ros to de al guns de les, a voz over se defende de possíveis queixas vindas da esquerda que seu filme poderia receber: Então, se nós mostrarmos essas imagens cotidianas de Cuba, essas filas intermináveis, essas dificuldades de provisão, esses No hay, não há, que eles re pe tem como um re frão, se nós dis ser mos que em Cuba há irritação, estaremos dando armas ao adversário? Um iní cio de res pos ta tal vez seja: es sas ima gens são de um fil me cu ba no, Des pe gue a las 18:00, de Santiago Álvarez, e essas palavras foram pronun ci a das en ten da você mes mo por Fi del Cas tro. (La bataille des dix millions, 1970) Fidel Castro é o grande protagonista do filme. Seu maior mérito destacado é a capacidade de fazer uma autocrítica. Ele está presente em vários e lon gos Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de

14 planos-sequências (dispositivo pouco habitual na filmografia de Marker). Na par te fi nal, a voz over finalmente quantifica a derrota: ao invés dos 10 mi lhões de toneladas, foram produzidos 8,5 mi lhões, um re cor de, mas dis tan te do de se ja do. Além disso, os demais setores produtivos da ilha haviam ficado paralisados, agravando a crise econômica. Diante da catástrofe, Castro fala para uma multidão no dia 26 de ju lho de 1970, em um dis cur so que está nas ce nas fi na is de La ba - taille des dix millions. Antes das ex pli ca ções téc ni cas, o lí der faz um mea-cul pa: Como vo cês veem, nós não te mos medo de ad mi tir quan do nos sos ini mi gos têm razão, nós vamos começar assinalando, em primeiro lugar, nossa responsabilidade a to dos a mi nha, em par ti cu lar. (La bataille des dix millions, 1970). Marker claramente se dirige aos setores da esquerda que não suportavam as crí ti cas. Nes se sen ti do, pode-se di zer que La bataille des dix millions integra uma fase do realizador que repensa as próprias estratégias do cinema militante, sem abrir mão da defesa do socialismo. Procedimento semelhante está em On vous par le de Pra gue: le de u xiè me procès d Arthur Lon don (1971), documentário que registra os bastidores de A confissão (L a veu, 1970), de Costa-Gavras, baseado no li vro de Arthur Lon don, que combatia o stalinismo e relatava a perseguição sofri da por ele no ano de 1951, em Pra ga. Em On vous par le de Pra gue aparecem as questões: O que é ser um verdadeiro comunista? É preciso fazer a autocrítica mes mo dan do água ao mo i nho adversário?. Dessa maneira, La bataille des dix millions, produzido no mesmo período de On vous par le de Pra gue, ana li sa as ra zões da der ro ta não para dar água ao mo i - nho ad ver sá rio, mas para evi tá-la no fu tu ro. É esse ob je ti vo que faz do fil me um balanço político e econômico, uma análise realista além dos idealismos. Marker in se re um dis cur so de Cas tro no cen te ná rio de Le nin (abril de 1970), no qual ele afirma que, independentemente das diferenças, o apoio do Estado soviético era um privilégio para qualquer movimento revolucionário. A voz over confirma essa fala ao cons ta tar que, se os Esta dos Uni dos eram a gran de ame a ça à Re vo lu - ção, era evi den te que seu prin ci pal ali a do se ria o go ver no de Mos cou. A ques tão cu ba na não é vis ta ape nas como um epi só dio lo cal, ela está li ga da a in te res ses e lutas políticas em escala mundial. Nesse sentido, ela é, para o diretor, um interesse de to dos. Porém, além desse cenário internacional, estão homens e mulheres cuba nos. Após o dis cur so de Cas tro, a mon ta gem traz pla nos cur tos de pes so as res - pon den do à mes ma per gun ta: o que você fa la ria para Le nin se ele es ti ves se vivo? Quem?, O fundador do socialismo, o russo? são algumas das respostas. Essa simulação impossível é proposta a um pescador, a agricultores, à bailarina. A simplicidade das frases, incompletas ou pouco articuladas, evidencia uma distância entre as discussões teóricas e os problemas reais. A voz over une a aná li se política ao cotidiano do povo para justificar a crise da produção, vista como fruto do subdesenvolvimento: 48 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.

15 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker É com mu i tos des ses ho mens que se tra va essa ba ta lha dos Dez Mi lhões. No iní cio des sa em pre i ta da, nin guém sa bia ao cer to se Fi del pen sou que ela po de ria ser per di da. Se bem que ga nhar ou per der, diante do subdesenvolvimento, toda batalha já é uma vitória. (La bataille des dix mil li ons, 1970) Após essa fala, o do cu men tá rio traz ce nas da pro pa gan da e do dis cur so de Cas tro na ina u gu ra ção do pro gra ma (em 14 de ju lho de 1969), di ri gin do-se a 30 mil machateros. Por um plano panorâmico em plongée é pos sí vel ver um cam po de cana-de-açúcar onde trabalham milhares de pessoas. A montagem estabelece, nessa sequência, uma clara relação de causa e consequência entre as medidas oficiais do Estado e a resposta dos cubanos. Portanto, os motivos que explicam a derrota não passam pela falta de mobilização social. Ao contrário, mais uma vez, o governo revolucionário e o povo estão colados na visão do realizador. Os ar gu men tos que Mar ker cita para jus ti fi car a der ro ta pas sam por fa to - res de or dem eco nô mi ca. O pro ble ma, anun cia a voz over, não está na co lhe i ta, mas em ou tras eta pas ne ces sá ri as para se che gar ao açú car: o ren di men to da cana, a qualidade técnica da queima, a distribuição de recursos para as usi nas, o trans - porte da matéria-prima etc. No documentário, essas são as principais razões técni cas que ex pli cam o fra cas so dos 10 mi lhões. Tra ta-se de mo ti vos que evi denciam as dificuldades de produzir em um país subdesenvolvido, com recursos limitados e pouco investimento em tecnologia e infraestrutura. A ques tão do Terceiro Mundo não era o foco de Cuba si, 9 cujos esforços exaltavam a cultura cubana, e não sua condição de nação subdesenvolvida. Em La bataille des dix millions eles são fundamentais para explicar as dificuldades enfrentadas pelo governo castrista. Outro elemento novo em comparação ao docu - mentário anterior é a exaltação de uma solidariedade terceiro-mundista. O filme mostra filas de pessoas querendo doar sangue para vítimas de um terremoto no Peru. A voz over destaca uma fraternidade latino-americana e informa que o governo peruano se opôs ao imperialismo norte-americano. Na visão do realizador, os Esta dos Uni dos são um ini mi go co mum, pois blo que ia o pro gres so real da América Latina. Junto ao subdesenvolvimento, o boicote norte-americano a Cuba é um dos fa to res para que a sa fra não seja alcançada. O filme recorre a uma animação onde um personagem desembarca de um submarino e, quando tira seu disfarce, revela ser o Super-Homem. Essa vi nhe ta in tro duz o epi só dio no qual a or ga ni za - ção anticastrista Alpha-66 apreendeu equipamentos de dois barcos de pesca de uma cooperativa estatal cubana e deteve 11 pescadores em uma ilha das Bahamas. O evento causou protestos na frente da embaixada norte-americana em Hava na, po rém o fato te ria sido di fun di do pela Reuters como uma manifestação em Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de

16 razão dos problemas relativos à safra de cana-de-açúcar. Como resposta, o governo cubano colaborou para que 100 mil manifestantes tomassem as ruas exigindo a libertação dos detidos. Em La ba ta il le des dix mil li ons é cor re to afir mar que o sub de sen vol vi - men to e o im pe ri a lis mo são apon ta dos como os dois fa to res fun da men ta is para ex pli car a der ro ta. Embo ra pro po nha um dis cur so au to crí ti co, na aná li se dos acon te ci men tos Mar ker atri bui a ele men tos ex ter nos às ações da es quer da as ra zões da der ro ta. Nas es tra té gi as nar ra ti vas são usa dos inú me ros re cur sos para atre lar a ima gem de Cas tro à do povo. Isso está cla ro na mul ti dão que acom pa - nha os dis cur sos do lí der, e mais ain da nas se quên ci as dos tra ba lha do res nas la - vou ras. Pode-se dizer que, mesmo repensando os possíveis erros da Cuba festiva da Revolução, La bataille des dix millions não rom pe com um dos prin ci pa is ar gu - mentos pró-castro presentes em Cuba si: a ide ia da de mo cra cia di re ta. Além das cenas da multidão apoiando o líder, recurso imagético explorado nos dois documentários, no filme de 1970 essa discussão é aprofundada nas sequências finais, que avaliam um provável legado da experiência dos 10 milhões: o desenvolvimen to de núcleos autogestores, particularmente nas fábricas cubanas. A retórica autocrítica de Fidel Castro é intercalada com entrevistas de tra ba lha do res. Eles res pon dem à ques tão: O que mais te to cou no dis cur so de Fi del? Uma das res pos tas é em ble má ti ca: É o que ele diz so bre a par ti ci pa ção dos ope rá ri os nas de ci sões. Com os es for ços con cen tra dos nas la vou ras de cana, as fá bri cas es ti ve ram en tre gues aos seus pró pri os fun ci o ná ri os. Isso ocor - reu prin ci pal men te em San ti a go de Cuba, onde os ope rá ri os de mons tra ram sua preocupação com a produção com amor e entusiasmo incríveis e revela - ram-se como a clas se po ten ci al men te mais re vo lu ci o ná ria (nas pa la vras do che fe de Esta do). Por tan to, uma das con se quên ci as po si ti vas da der ro ta, aque la vá li da para a ela bo ra ção de no vas es tra té gi as, foi o sur gi men to de for mas or ga - ni za ti vas na in dús tria e a emer gên cia de um novo su je i to re vo lu ci o ná rio: o pro - le ta ri a do. Após os créditos iniciais de La bataille des dix millions, Chris Mar ker pro - ble ma ti za como é pen sar Cuba em Se, na épo ca de Cuba si, a es quer da eu ro - pe ia fes te ja va a che ga da de Fi del Cas tro ao po der, ao lon go dos anos 1960 di ver - sos setores dessa esquerda romperam com esse paradigma, questionando a ausência de um processo eleitoral. Para muitos intelectuais e artistas era incompatível com as estratégias dos partidos esquerdistas europeus defender uma ditadu ra. Mar ker, po rém, não ha via rom pi do com sua vi são po si ti va do país la ti - no-americano e de seu líder, questionando o porquê de se abandonar os modelos quando eles demonstravam estar em cri se. No início do documentário, a voz over coloca de maneira ácida: 50 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.

17 A Revolução Cubana nos documentários de Chris Marker Este ano, Cuba não está exa ta men te na moda. Nós, eu - ro pe us, nós ama mos mu i to os po vos em luta, des de que eles se jam com - pletamente mártires ou completamente vitoriosos. Quando eles não se prestam mais a manifestos inflamados ou a um teatro militante, quando sua luta está no campo sem prestígio da realidade cotidiana, das dificulda des co ti di a nas, com tudo aqui lo que ela tem de de sa gra dá vel, nós nos afastamos deles e, como es sas ve lhas atri zes que ca sam com ho mens cada vez mais jo vens, nos ca sa mos com ca u sas cada vez mais jo vens e pro cu ra - mos, em al gum ou tro lu gar, um novo ros to para so nhar mos. (La bataille des dix mil li ons: 1970) Com pa ran do os dois fil mes, pode-se di zer que Cuba si procurou rebater as críticas à Revolução Cubana feitas pela imprensa europeia e outros setores con trá ri os a ela e a Fi del Cas tro. La bataille des dix millions reafirma a defesa do governo cubano, mas sugere analisar a derrota do episódio dos 10 milhões como parte de uma luta mais ampla, contra o imperialismo e contra o subdesenvolvimento. Internamente, o filme dialoga mais com a própria esquerda europeia (ao contrário do que ocorria na produção de 1961, que rebatia críticas direitistas ), es pe ci al men te os que en ca ra vam Cuba como um modelo ultrapassado e os stalinistas que não permitiam abordar situações de derrota. A par tir da com pa ra ção en tre os dois filmes, pode-se afir mar que sur ge no decorrer da década de 1960 a necessidade de revisões políticas internas (autocríticas), procedimento presente em várias produções de Mar ker. Essa pos tu ra levou-o a es cre ver uma car ta a Alfre do Gu e va ra em maio de 1971 se po si ci o nan - do so bre o Caso Pa dil la, quan do o es cri tor He ber to Pa dil la foi acu sa do de ati - vidades subversivas e preso (Guevara, 2009). Sol to 38 dias de po is, Padilla se apre sen tou jun to à União de Escri to res e Artis tas de Cuba (UNEAC) para se des - culpar publicamente e as sinou uma con fis são em nome de ou tros es cri to res também. Marker se di rigiu a Guevara de maneira afetuosa, mas caracterizou a autocrítica do escritor cubano como grotesca e inverossímil e comparou o fato com os pro ces sos de Mos cou. Elogiou também a postura do escritor Norberto Fu en tes de não con fes sar sob pres são do go ver no de Cuba. Para Cla u dia Gil man (2012), o Caso Pa dil la foi um dos as pec tos que colaboraram para o enfraquecimento do papel central da Revolução Cubana nos debates intelectuais. O episódio representou uma fratura, colocando em discussão te mas como a li ber da de de cri a ção e o lu gar dos es cri to res no pro ces so re vo lu - cionário. Dessa forma, embora não tenha rompido definitivamente com a Revolução Cubana, Marker acompanhou o movimento de muitos artistas e intelectua is que se afas ta ram do projeto revolucionário após esse episódio, como já haviam feito Sartre e Simone de Beauvoir. Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de

18 Notas 1. Optou-se por uti li zar a gra fia Cuba si, tal como aparece nos entretítulos da produ ção de Mar ker, em de tri men to de Cuba sí!, como se ria o cor re to em es pa nhol. 2. Entre os pioneiros do bloco socialista a visitar o ICAIC, Mariana Villaça (2010) res sal ta a pre sen ça de Kurt Ma et zig, Vla di mir Cech e Ro man Kar men. 3. Os tre chos trans cri tos dos fil mes ana li - sados foram traduzidos do francês para o português pela autora, assim como as demais citações bibliográficas cujos originais se en con tram em fran cês ou em es pa nhol. É necessário destacar que o texto da voz over de Cuba si está publicado integralmente em Commentaires 1 (Mar ker, 1967). 4. As ce nas de fic ção usa das nes sa se - quência foram retiradas do filme Robin Hood (1922), de Allan Dwan. 5. Vale des ta car que, se a pri me i ra me ta de do fil me co me ça com ima gens dos no vos bebês adquiridos pelas crianças no Dia de Reis, como os bebês metralhadoras, esse bebê Napoleão decadente, abandonado em um jar dim de um pa lá cio em ru í nas, simboliza a troca de uma sociedade por ou tra. A pas sa gem de um bebê a ou tro representa o fim de uma situação colonial e a emergência da emancipação política. 6. Essa valorização do trabalho manual e a representação dos revolucionários como trabalhadores se relacionam à ideia de um ho mem novo, tal como en ten di da por Ernesto Che Guevara. Pericás (1998) ressalta que, embora esse conceito fosse ante ri or, ele foi atre la do ao pla no de de sen - volvimento econômico instaurado após a Revolução Cubana, convertendo-se em um sis te ma de in cen ti vos que en ten dia o máximo aproveitamento da mão de obra como meio de construir o socialismo. Esse sis te ma foi apli ca do ini ci al men te na produção de cana-de-açúcar e, posteriormente, estendeu-se à agricultura em geral e à in dús tria. Vale des ta car que o fil me La bataille des dix millions é uma representação máxima dessa política, assim como de sua derrocada. Em Cuba si aparece a filosofia de um ho mem novo sur gi do em uma nova sociedade socialista, confirmando a tese de que esse conceito presente nas reflexões de Gu e va ra eco ou em ou tros imagi ná ri os extra-cuba: De qualquer maneira, as ideias do revolucionário argentino tiveram de fato uma in fluên cia gran de, não só nas concepções gerais do governo da ilha como também no imaginário dos movimentos de esquerda em toda a América Latina, assim como apresentaram consequências reais na eco no mia e política de Cuba na época em que ele era um dos principais dirigentes daquele país (Pericás, 1998: 107). 7. É necessário enfatizar que Marker é considerado um dos pioneiros do cinema-verdade surgido na França no início dos anos No en tan to, na ma i or par te de suas obras, várias práticas usuais desse ci ne ma não es tão pre sen tes, como o uso do som direto. 8. Nessa mesma época, Marker produziu dois documentários sobre o Brasil montados com material recebido de Cuba: On vous par le du Bré sil: tor tu res (1969) e On vous parle du Brésil: Carlos Marighela (1970). 9. Cabe res sal tar que o de ba te so bre a questão do subdesenvolvimento ganhou for ça ao lon go dos anos 1960, es pe ci al - mente em Cuba. Em 1966, o país se di ou a Primera Conferencia Tricontinental de La Havana, que fundou a Organización de Solidaridad de los Pueblos de África, Asia y América Latina (OSPAAAL). No ano se - guinte, foi realizada, também em solo cubano, a conferência da Organización Latinoamericana de Solidaridad (OLAS). 52 Est. Hist., Rio de Ja neiro, vol. 26, nº 51, p , ja neiro-junho de 2013.