nelson de oliveira ódio sustenido

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1 ódio sustenido

2 sai da chu va, josé! Ah, José, que é que vo cê faz aí parado? Sai da chu va, José! Larga es sa tai nha e cor re pra varanda. Ah, José, a vi da não é só ga nhar ou per der. Você sa be dis so, sem pre sou be. O mun do não é Las Vegas, São Paulo não é o Grande Cassino. Larga es se pei xe e vem pra dentro, José. Quê?! Que foi que vo cê disse? O pei xe fa lou com vo cê? A tainha? Ah, José, eu bem que te avi sei, não avi sei? Eu fa lei: Zé, é me lhor vo cê não sair nes sa chu va. Mas vo cê não me deu ou vi dos. Você nun ca me es cu ta, José! Desembucha! Que foi que a tai nha te disse? Quê?! Ela dis se isso? Tem cer te za? Você pres tou bas tan te atenção? Não, José. Não po de ser.

3 Nosso pla no de go ver no é per fei to, re don do, sem falhas. Em to das as áreas. Agora não é ho ra de mu dar nada. O que foi pro me ti do foi pro me ti do. E o elei to ra do? Que jus ti fi ca ti va a gen te ia dar? A tai nha? Deixa dis so, José. A tainha?! Sai da chu va, sai. Deixa tu do aí, a va ra, as is cas, de vol ve a tai nha ao rio. Ah, José, tu do era tão mais fá cil quan do vo cê não pesca va. Quando vo cê ape nas co le cio na va chaveiros. Álbuns de figurinhas. Miniaturas de car ros da fórmula-1. Selos. Como a vi da era mais tranqüila. Você não pes ca va nem tra ta va de po lí ti ca com os peixes. Você não fi ca va a tar de to da na mar gem dos rios, nos barrancos, debaixo de chuva. As tai nhas não su ge riam mu dan ças na nos sa estratégia. Os ro ba los não opi na vam so bre a nos sa as ses so ria de imprensa. Os pi ra ru cus não metiam o bedelho nas nossas contas de campanha. Ah, José, sai da chu va, sai, vo cê es tá ensopado. Solta a po bre da tai nha, des faz es se olhar de pei xe mor to e vol ta pra dentro. 14

4 ódio sustenido A fes ta ain da não aca bou. Olha só a ale gria do povo. A far ra es tá só começando. Eu já pre pa rei o teu dis cur so. Já es co lhi a tua me lhor rou pa. Deixa o pei xe pra lá. Não, José. Pára! Que é que vo cê tá fazendo? Não ti ra a camisa. Sai des sa chu va, não fi ca nes se ven to. Assim vo cê vai pegar uma pneumonia. Não ti ra o sa pa to, não ti ra a calça. Aonde vo cê vai pe la do? Volta aqui, José! Ah, José, se eu sou bes se que a vi tó ria me xe ria tan to assim com você Agora a vi da não vol ta rá a ser co mo an tes? Nunca mais? Volta aqui, José. A água de ve es tar fria de mais, is so não é bom pra tua saú de. Olha a bronquite. Solta o pei xe e vol ta pra casa. Quê? Que foi que ele disse? A vi da não tem se gun do turno? Eu sei, José, ele tá cer to, a vi da não tem se gun do turno. Então sai des se rio, não aban do na a gen te jus to ago ra. A fes ta já vai começar. 15

5 Volta! Que é que a gen te vai di zer pra im pren sa, pro par tido, pro povo? Como é que a gen te vai jus ti fi car is so pra Justiça Eleitoral? Não, José, não vou le var a tai nha comigo. Não vou mos trar o pei xe na te vê, não vou pe dir a ele que ex pli que tu do is so em re de nacional. Eu sei, José, ele es tá cer to, a vi da não tem se gundo turno. Mas o rio não tem três mar gens, não adian ta na dar até o horizonte. Veste a rou pa, vol ta pra ca sa, José. Eu sei, eu sei, os fo gos de ar ti fí cio as sus tam. As bombas, os ro jões, os buscapés. Mas vo cê que ria o quê? Moema te ado ra, Pinheiros não po de vi ver sem vo cê, Higienópolis em pe so es tá te espe ran do com a nos sa ban dei ra nas ja ne las, nos carros. Ah, José, que é que vo cê faz aí parado? Sai da chu va, José! Sai da água, lar ga es sa tai nha e cor re pra varanda. Quê?! Que foi que vo cê disse? O pei xe não quer que vo cê saia do rio? 16

6 ódio sustenido Por que vo cê dá tan ta aten ção a es sas cria tu ras, José? Que é que elas en ten dem de po lí ti ca, hein? Me diga?! Por aca so foi um lam ba ri que fez a tua po pu la ri da de su bir nos bair ros da periferia? Foi uma tru ta que na ho ra agá con ven ceu os in de cisos a vo tar em você? Foi um pei xe-boi que des co briu a aman te do teu maior adversário? Ah, José, tu do era tão mais fá cil quan do vo cê não pes ca va. Quando vo cê ape nas co le cio na va re vis tas de fotonovelas. Amuletos africanos. Miniaturas de mo nu men tos famosos. Estetoscópios. Como a vi da era mais tranqüila. Você não pes ca va nem di vi dia com os pei xes os de talhes da tua intimidade. Vamos, ho mem! Coragem! Não se dei xe aba ter pe los fo gos da vi tó ria! A vi da não é só ga nhar ou per der. Você sa be dis so, sem pre soube. Sai do rio, ves te a tua rou pa e vol ta pra varanda. O ver da dei ro orá cu lo são as ur nas, não os peixes. A fa vor, con tra, nu los, em bran co, os vo tos não mentem. Melhor do que a bo la de cris tal é a cé du la eleitoral. É ver da de ou não é? 17

7 É ou não é?! Pergunta ao teu ami go es ca mo so, pergunta! Eu não disse! Até ele con cor da comigo. Acorda des se so nho mo lha do, José. Abre os olhos e vol ta pra ca sa. Vencer não é vergonha. Eu sei, ago ra vo cê vai ter que di zer não pra to do mundo. Agora vo cê vai ter que bri gar, se es con der, fin gir que não co nhe ce ninguém. Eu sei, os fa vo res, as pro mes sas, as dívidas Mas quem não de ve não tem, José. Quem não de ve não tem. Viu só? Até a tai nha con cor da comigo! Ah, José, tu do era tão mais fá cil quan do vo cê não pes cava. Quando você apenas colecionava camisas de jogadores. Macaquinhos de pelúcia. Miniaturas de es tre las do cinema. Elepês. Como a vi da era mais tranqüila. Você não pes ca va nem di vi dia com os pei xes as tuas angústias mais profundas. 18

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