157 spectrum RESUMO PALAVRAS-CHAVE



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Transcrição:

157 DA INADEQUAÇÃO DO TERMO ANALFABETISMO E DA NECESSIDADE DE NOVOS CONCEITOS PARA A COMPREENSÃO DO APRENDIZADO DA LEITURA E DA ESCRITA EM LÍNGUA PORTUGUESA NILCE DA SILVA * RESUMO O presente artigo apresenta novos conceitos acerca da aquisição da leitura e da escrita materna. Partimos do conceito de letrismo a-funcional desenvolvido pelo professor Jean Biarnès, professor e pesquisador da Université Paris-Nord, e decorrentes deste, tratamos dos conceitos de letrismo funcional, analfabetismo de resistência e alfabetização de opressão. Fundamentando nossa exposição, mostramos o preconceito existente nos termos analfabeto (destinado às pessoas que encontram-se em situação de pouca ou nenhuma escolarização em sua própria língua materna). Finalmente, pretendemos contribuir para a compreensão do aprendizado da língua materna, do ensino das primeiras letras e ainda, oferecer conceitos que possam contribuir com pesquisa nesta área do saber. PALAVRAS-CHAVE 1. letrismo a-funcional; 2. letrismo funcional; 3. analfabetismo de resistência; 4. alfabetização de opressão; 5. alfabetização; 6. analfabeto * Profª Doutora do Departamento de Didática e Metodologia do Ensino da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

158 INTRODUÇÃO Conhecer os trabalhos realizados pelo professor Jean Biarnés nas escolas públicas nos banlieus parisienses e o quadro teórico que o mesmo constrói, à luz da teoria de D. Winnicott, sobre a relação estabelecida entre imigrantes e a língua francesa, faz-nos perceber que a palavra analfabetismo (palavra que indica situação de desconhecimento da língua escrita do seu país natal) não é satisfatória para compreender a relação estabelecida entre o Homem na cidade de São Paulo, pesquisa em nível de doutoramento que realizamos desde 1998. Existe alguma pessoa que não se relaciona de modo algum com a língua escrita de modo a ser considerado analfabeto no Brasil? Do nosso ponto de vista, a resposta é: Não. Não existe nenhuma pessoa que não se relaciona com o mundo das letras. Sendo assim, há que se pensar em novas palavras que expliquem esta situação com diferentes nuances, conforme apresentaremos a seguir. Afirmamos que os termos analfabeto e analfabetismo precisam ser discutidos e retirados dos discursos dos nossos tempos, sejam eles proferidos por professores, formadores de professores, autoridades, alunos, entre outras pessoas. Nossa proposta conceitual apresenta letrismo funcional e letrismo a- funcional, analfabetismo de resistência e alfabetização de opressão. LETRISMO A-FUNCIONAL E LETRISMO FUNCIONAL A palavra analfabetismo, no Brasil, especificamente, encontra-se maculada e insuficiente como conceito no fenômeno do aprendizado e ou não aprendizado da leitura e da escrita da Língua materna por pelo menos três razões: 1- Retira do sujeito toda a sua responsabilidade sobre a sua situação. Ou seja, nada se fala sobre o que o sujeito faz do contexto que lhe cerca. 2- Não explica porque nem todos os sujeitos reagem da mesma forma nesta situação, ainda que, saibamos que todos os sujeitos possuem um aparelho psíquico pensante. 3- Porque analfabeto indica um modo pejorativo de referir-se a pessoas que não dominam a leitura e a escrita. Segundo J. Biarnés (1996, 1998, 1999), todos possuem uma relação com a letra, com a escrita. Ele também não está de acordo com o conceito de analfabetismo funcional já que este salienta as falhas de competências apresentadas por uma pessoa dentro das suas capacidades de utilizar-se da letra. O conceito de letrismo a-funcional permite-nos compreender qual é o lugar da escrita dentro da relação Homem e realidade especialmente quando estamos no campo

159 da educação de crianças, jovens e adultos em situação de pouca ou nenhuma escolarização no Brasil. A construção de letrismo a-funcional é de grande importância, isto porque, segundo tal conceito, ninguém está totalmente fora da letra ou dentro da letra, procura, portanto, compreender a ou as funcionalidade(s) que construímos em nossa relação com a letra. Funcionalidades externas que implicam em comunicação com os outros; e funcionalidades internas, na economia psíquica do sujeito. Nas palavras de Biarnès: Personne n étant totalemente en dehors de la lettre, ni totalement dedans, le problème est alors de comprendre la ou les fonctionnalités que nous construisons dans nos rapports à la lettre. Il est alors évident, et aujourd hui les statistiques le prouvent, que certains d entre nous donne à ce raport une fonctionnalité externe` quasi nulle. Nous parlons de fonctionnalité externe` car cette a-fonctionnalité` se situe dans les rapports de communication, dans les rapports à l autre. Par contre en interne`, c est à dire dans l économie psychique du sujet, ce rapport a-fonctionnel externe` à la lettre est hautement fonctionnel. En substitution aux concepts d illettrisme ou d analphabétisme fonctionnel, nous proposons donc de parler de lettrisme a- fonctionnel`. Ce changemement de concept est d importance car là où l illettrisme et analphabétisme fonctionnel` stigmatisent le sujet en faisant le seul porteur d anormalité, de manques, le concept de lettrime a-fonctionnel` nous engage à regarder le problème comme inclus dans un large sistème de significations diverses qu a donné le sujet en relation avec son environnement à son propre rapport à la lettre. L une de ces significations l engagé à construire une a-fonctionnalité de la lettre dans ses rapports à l autre BIARNÈS, 1999, 104 A nossa adesão ao conceito letrismo a-funcional indica o princípio da não estigmatização do sujeito. Tal definição é parte de um amplo sistema de significações diversas em que o sujeito, em relação com o seu meio, atribui significações à sua própria relação com o sistema escrito. ANALFABETISMO DE RESISTÊNCIA E ALFABETIZAÇÃO DE OPRESSÃO Afirmamos que em apenas um contexto o uso das palavras «analfabeto» e «analfabetismo» são suficientemente capazes de compreender o fenômeno do aprendizado da leitura e da escrita, conforme explicitaremos a seguir.

160 Segundo Serge Wagner (1990) podemos classificar as minorias sociais em três tipos: Povos aborígenes: povos que habitam seu país de origem há muito tempo, que possuem, porém, um estilo de vida tradicional, considerado arcaico, pelas sociedades industrializadas. Neste grupo, situam-se os nativos australianos, nativos brasileiros etc. Minorias estáveis: Grupos estabelecidos no seu país de origem há muito tempo e que possuem modos de vida próximos das sociedades industrializadas, como por exemplo: Bretões na França, canadenses franceses no Canadá. Novas minorias : Designam pessoas que imigraram recentemente desejando a nacionalidade do país que os acolhe; e ainda, minorias criadas por um processo de migração interna no interior do próprio país; tal como observamos no caso dos nordestinos que migram para a cidade de São Paulo. Já o analfabetismo, nestas sociedades minoritárias, pode ser classificado em dois tipos: analfabetismo de opressão e analfabetismo de resistência. O analfabetismo de resistência pode ser utilizado quando a letra passa a ser um perigo muito grande de perda da identidade, sua a-funcionalidade torna-se uma arma eficaz contra essa perda fundamental. O fenômeno da resistência, diga-se de passagem, tem sido a causa do insucesso de muitos programas de alfabetização propostos no Brasil e no mundo. Ou seja, o analfabetismo de resistência pode produzir o letrismo a-funcional. Em relação ao «analfabetismo de opressão», afirmamos que o mesmo expressa a reação de integração forçada de um grupo minoritário face à ofensiva lingüística e cultural do grupo dominante. Finalmente, decorrência dos conceitos apresentados até agora: letrismo a-funcional, novas minorias, analfabetismo de resistência e alafabetização de opressão, resta-nos definir o letrismo funcional. Este conceito abrange o grupo de pessoas que têm excelente controle da língua escrita e falada do local em que se encontram inseridos, ou seja, pessoas capazes de fazer da língua instrumento de comunicação e de garantia de seus direitos, além, é claro, de fazer com que a escrita e a fala sirvam como possibilidades de organização das suas formas de pensar. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os conceitos de: letrismo a-funcional, letrismo funcional, analfabetismo de resistência, alfabetização de opressão parecem-nos os mais adequados para se compreender a compreensão do aprendizado da Língua Portuguesa nos anos iniciais da escolarização de crianças, jovens e adultos. Além disso, mesmo não sendo o tema deste artigo, lembramos que os diferentes conceitos aqui apresentados alteram de modo substancial a prática

161 pedagógica do professor; e ainda, oferecem possibilidade de avanço na área da pesquisa que trate desta temática. Em suma, o termo analfabeto, analfabetismo podem fazer parte do passado da educação no Brasil, pois mostram-se preconceituosos e insuficientes; outros conceitos, tais como os apresentados aqui, são necessários para a compreensão atual do tema que aqui abordamos. BIBLIOGRAFIA APPLE, Michael W. e NÓVOA, António (orgs.). Paulo Freire: Política e Pedagogia. Porto: Porto Editora, 1998. BIARNÈS, Jean. Jeunes et adults en échec, mais encore! Education, Paris, vol. 24, mars/mai. 1996. Jean. Universalité, Diversité, sujet dans l espace pédagogique. Paris: L Harmattan, 1999. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. KLEIMAN, Ângela (org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado das Letras, 1995. WAGNER, S.. In: Minorites Etnolinguistiques, analphabetisme et alphabetisation: Les francophones minoritaires du Canada, LIRE, L.IR.E. les actes du Colloque. Cultures et subcultures orales, cultures et subcultures de l ecrit dans le pays de la francophonie. Decembre, 1990.