A Nova Sistemática de Tributação dos Planos de Previdência Privada Luca Priolli Salvoni e Mário Shingaki Consultores Tributários do Levy & Salomão Advogados Em complemento às normas editadas no final do ano de 2004, que visavam alongar os prazos de investimentos no mercado financeiro, foi editada em 29 de dezembro de 2004 a Lei nº 11.053, que alterou a sistemática de tributação dos planos de benefícios de caráter previdenciário. Através da Instrução Normativa nº 497, de 24 de janeiro de 2005, a Secretaria da Receita Federal ( SRF ) regulamentou a referida lei, esclarecendo alguns de seus dispositivos que haviam gerado controvérsias, embora normativos complementares ainda precisam ser editados pelo Governo. O escopo do presente trabalho é apresentar as principais alterações promovidas pelas novas normas na tributação dos planos de benefícios de caráter previdenciário, e comparar em linhas gerais o retorno dos investimentos em Fapi, PGBL e VGBL, com aqueles obtidos no mercado financeiro, em aplicações de renda fixa. Modalidades de Previdência Fapi (Fundo de Aposentadoria Programada Individual). Embora receba o mesmo tratamento fiscal, não é considerado previdência privada, mas sim um fundo de investimento em renda fixa, como os FIFs. O objetivo do Fapi é constituir um plano de complementação da aposentadoria básica oferecida pela Previdência Social. Pelo Fapi, capitaliza-se a poupança numa empresa e, com o resultado, do investimento, compra-se uma renda vitalícia numa seguradora. PGBL (Plano Gerador de Benefícios Livres). É a modalidade mais comum de plano aberto de previdência privada, tendo tratamento fiscal semelhante àquele dispensado aos fundos de pensão. Permite a acumulação de recursos que são convertidos em renda mensal (aposentadoria) para recebimento a partir da data escolhida pelo participante. Para fins didáticos, referimo-nos no presente trabalho, de maneira geral, apenas ao PGBL, cujas regras se aplicam aos demais fundos de previdência. VGBL (Vida Gerador de Benefícios Livres). Referido nas normas como seguro de vida com cláusula de cobertura por sobrevivência, é um seguro de vida que tem como objetivo a concessão de indenização em vida ao segurado. A quantia investida durante um determinado período pode ser resgatada na forma de renda mensal ou pagamento único a partir de uma data escolhida pelo segurado. As contribuições pagas pelos empregadores para o Fapi e PGBL, em favor de seus empregados e dirigentes, não entram no cômputo do rendimento bruto das pessoas físicas. As contribuições do empregador para o VGBL constituem rendimento tributável na declaração, e estão sujeitas à retenção na fonte, a tabela progressiva. Em vista disso, o Fapi e o PGBL são as opções mais indicadas no caso de empregados e dirigentes cujos rendimentos são sujeitos à incidência do Imposto de Renda na Fonte ( IRF ), a enquanto o VGBL é indicado quando tais empregados e dirigentes (i) não tenham rendimentos tributáveis pela tabela progressiva; (ii) declarem o imposto de renda no formulário simplificado, ou (iii) tenham previdência privada e/ou já abatam o limite máximo de 12% da renda bruta. A tributação dos resgates e dos pagamentos dos benefícios de PGBL e Fapi sempre ocorre sobre a totalidade dos recursos (principal aportado mais rendimentos), enquanto no caso do VGBL o imposto recai apenas sobre os rendimentos. 2. Disclosure das Transações Financeiras março / abril 2005
Dedutibilidade das Contribuições A partir de 1º de janeiro de 2005 as contribuições pagas pelas pessoas jurídicas para o VGBL passaram a ser dedutíveis da base de cálculo do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Até então, as contribuições para o VGBL podiam ser deduzidas apenas se fossem pagas a entidades optantes pelo regime especial de tributação previsto na Medida Provisória nº 2.222, de 4 de setembro de 2001. Não houve alterações nas regras de dedutibilidade das contribuições pagas pelas pessoas jurídicas ao Fapi e ao PGBL. As pessoas jurídicas devem observar os seguintes requisitos para poder deduzir os valores vertidos à previdência privada: i) PGBL e VGBL: contribuições não podem exceder a 20% do total dos salários dos empregados e da remuneração dos dirigentes da empresa vinculados ao referido plano; devem ser oferecidos indistintamente aos empregados e dirigentes, e ii) Fapi: contribuições não podem exceder a 20% do total dos salários dos empr egados e da remuneração dos dirigentes da empresa vinculados ao referido plano; deve atingir, no mínimo, cinqüenta por cento dos empregados. Não houve alteração nas regras de dedutibilidade das contribuições efetuadas pelas pessoas físicas ao VGBL, que continuam indedutíveis. As contribuições para o PGBL e o Fapi permanecem dedutíveis para as pessoas físicas, até o limite de 12% do rendimento bruto, sendo o abatimento condicionado ao recolhimento das contribuições para o regime geral de previdência social. Caso o titular ou cotista do PGBL ou do Fapi seja dependente do declarante, a dedutibilidade é condicionada ao recolhimento, pelo declarante, das contribuições para o regime geral da previdência social. Na hipótese de este mesmo dependente ter mais de 16 anos, ele também terá que contribuir para a previdência oficial, de forma a garantir a dedutibilidade. Retenção de IRF nos Resgates dos Fundos Até a edição da Lei nº 11.053/ 04, a legislação não diferenciava a tributação (i) dos resgates dos recursos acumulados nos fundos (ii) do pagamento de benefícios, estando ambos sujeitos à retenção do IRF a tabela progressiva. A nova lei alterou a tributação dos resgates de valores acumulados, que passaram a sofrer a incidência do IRF à alíquota de 15%, a partir de 1º de julho de 2005. Em vista disso, no cálculo do IRF a ser retido no resgate dos recursos, as entidades de previdência complementar e as sociedades seguradoras não devem mais descontar a parcela dos rendimentos isenta do imposto (equivalente a R$ 1.164,00 por mês), retendo o imposto sobre quaisquer valores resgatados. Esta medida, todavia, não implica aumento da carga fiscal efetiva dos resgates, uma vez que o IRF de 15% é considerado antecipação do devido na declaração, na qual o Imposto de Renda das Pessoas Físicas ( IRPF ) é calculado de acordo com a tabela progressiva. O IRF de 15% impede prática consistente em resgatar valores abaixo da linha de isenção, e não informá-los ao Fisco na declaração. O pagamento de benefícios por planos de previdência, por sua vez, permanece sujeito ao IRF a tabela progressiva, mantendo-se, em relação a estes, a isenção para os rendimentos mensais de até R$ 1.164,00, a partir deste ano. Tributação em Alíquotas Regressivas Alternativamente ao regime geral de tributação, a partir de 1 o de janeiro de 2005 os participantes de planos de benefícios de caráter previdenciário podem optar por sistemática de tributação do IRF em alíquotas regressivas, definidas com base no prazo de acumulação dos recursos, correspondente ao tempo decorrido entre a data de março / abril 2005 Disclosure das Transações Financeiras. 3
aporte dos mesmos no plano e a data de resgate ou pagamento do benefício. Nesse caso, o IRF incidirá em regime exclusivo de fonte sobre os regates e o pagamento de benefícios, às seguintes alíquotas: Através da Instrução Normativa Conjunta da SRF/SUSEP nº 524, de 11 de março de 2005, definiram-se os critérios de cálculo dos prazos de acumulação, para fins de determinação das alíquotas de IRF. Para os resgates de valores acumulados nos planos, o critério adotado é o primeiro que entra, primeiro que sai (PEPS), de forma que se consideram resgatados sempre os valores há mais tempo aplicados, calculando-se o prazo com base na data de aporte dos recursos. Aplica-se este mesmo critério (PEPS) aos pagamentos de benefícios em planos não estruturados em regime atuarial, assim considerados os planos em que os benefícios correspondem exclusivamente à soma dos recursos aportados e dos respectivos rendimentos (planos de contribuição definida). Para os participantes de planos estruturados em regime atuarial, o prazo de acumulação, no pagamento de benefícios, será calculado com base em Prazo Médio Ponderado (PMP), que levará em conta a data do aporte de recursos e Tempo de Contribuição ao Plano Alíquota do IRF Até 2 anos 35% De 2 a 4 anos 30% De 4 a 6 anos 25% De 6 a 8 anos 20% De 8 a 10 anos 15% Acima de 10 anos 10% Fração Ideal (FI) do patrimônio de cada plano. Segundo a IN 524/05, consideramse planos estruturados em regime atuarial aqueles em que a manutenção dos benefícios tenha por premissa o mutualismo dos recursos dos respectivos recursos garantidores, ou seja, os planos em que os benefícios pagos não têm relação direta com os valores aportados (planos de benefício definido). A opção pela sistemática de tributação do IRF em alíquotas regressivas, irretratável, deverá ser exercida pelo participante no momento do ingresso nos planos constituídos a partir de 1º de janeiro de 2005, e até o dia 1º de julho de 2005 em relação aos planos anteriores a 31 de dezembro de 2004. O prazo de acumulação será contado a partir de 1 o de janeiro de 2005, no caso de aportes de recursos realizados até 31 de dezembro de 2004, e da data do aporte, no caso de aportes de recursos realizados a partir de 1 o de janeiro de 2005. A Lei permite aos participantes trocar de produtos e entidades (portabilidade), mas tal transferência não pode alterar o regime de tributação dos investimentos. No caso de transferência entre planos sujeitos ao regime de tributação por alíquotas regressivas, o prazo acumulado no plano originário será computado no plano receptor para fins de determinação da alíquota do IRF aplicável. Tributação Durante o Prazo de Acumulação A partir de 1º de janeiro de 2005, os rendimentos auferidos nos investimentos efetuados pelas entidades de previdência complementar e seguradoras, durante o prazo de acumulação dos planos, não estão sujeitos ao IRF e ao pagamento em separado do Imposto de Renda. Foi revogado o regime especial de tributação previsto na MP nº 2.222/01, que permitia às entidades de previdência optar por recolher, periodicamente, imposto de renda sobre os rendimentos auferidos nas aplicações financeiras dos ativos dos planos, pela alíquota de 20%, mas limitado a 12% do volume de contribuições feitas pelo patrocinador ou instituidor do plano. 4. Disclosure das Transações Financeiras março / abril 2005
Resumo Comparativo das Regras Fiscais dos Planos de Previdência Regras até 31/12/04 Regras até 01/01/05 Modalidade PGBL/Fapi VGBL PGBL Fapi VGBL Contribuição da pessoa física dedutível até 12% da receita bruta, desde que o participante recolha também a previdência oficial não dedutível dedutível até 12% da receita bruta, desde que o participante recolha também a previdência oficial não dedutível Contribuição da pessoa jurídica aos empregados e dirigentes vinculados ao referido plano. PGBL deve ser oferecido a e dirigentes. Fapi deve abranger pelo menos 50% dos empregados dedutível apenas nos pagamentos a entidades optantes pelo regime especial de tributação da MP 2.222/01 aos empregados e dirigentes vinculados ao referido plano. PGBL deve ser oferecido a e dirigentes. Fapi deve abranger pelo menos 50% dos empregados aos empregados e dirigentes vinculados ao referido plano. Deve ser oferecido a e dirigentes Resgate (regra geral) Pagamento benefícios (regra geral) dos do resgate, à alíquota de 15%, como antecipação do devido na declaração de ajuste anual IRF sobre o rendimento, à alíquota de 15%, Resgate e pagamento de benefícios (opção por alíquotas regressivas) n/a n/a IRF definitivo sobre a totalidade dos resgates e dos benefícios, em alíquotas de 35% a 10%, dependendo do prazo de acumulação, não sujeito a ajuste anual IRF definitivo sobre os rendimentos, em alíquotas de 35% a 10%, dependendo do prazo de acumulação, não sujeito a ajuste anual Previdência x Mercado Financeiro A partir de janeiro de 2005, por força do disposto na Lei nº 11.033, de 21 de dezembro de 2004, e na Instrução Normativa nº 487, de 30 de dezembro de 2004, alterouse a sistemática de tributação das aplicações financeiras de renda fixa, que pode ser assim resumida: i) Aplicações e Operações de Renda Fixa: Estão sujeitas IRF a alíquotas regressivas dependendo do prazo de investimento, assim considerado o período decorrido entre a aplicação e o resgate ou liquidação dos investimentos. O imposto, no caso de investidores pessoas físicas, incide exclusivamente na fonte. As alíquotas março / abril 2005 Disclosure das Transações Financeiras. 5
aplicáveis são: (i) 22,5% para investimentos de até 180 dias; (ii) 20% para investimentos de 181 a 360 dias; (iii) 17,5% para investimentos de 361 a 720 dias, e (iv) 15% para investimentos de prazo superior a 720 dias. ii) Fundos de Investimento de Renda Fixa: Dividem-se em fundos de longo prazo e de curto prazo, o prazo médio dos títulos que compõem suas carteiras seja superior ou inferior a 360 dias, respectivamente. Os rendimentos auferidos pelos fundos estão sujeitos ao IRF semestralmente (comecotas) à alíquota e 15%, no caso de fundos de longo prazo, e à alíquota de 20%, no caso de fundos de curto prazo. Por ocasião do resgate dos fundos, o IRF (exclusivo de fonte, no caso de investidores pessoas físicas) incidirá a alíquotas regressivas de (i) 22,5%, 20%, 17,5% e 15%, no caso de fundos de longo prazo, e (ii) de 22,5% ou 20%, no caso de fundos de curto prazo, considerando, nos dois casos, o mesmo escalonamento de alíquotas/prazos aplicável às demais operações de renda fixa. Considerando as alterações promovidas na tributação das aplicações financeiras, comparamos a seguir o retorno financeiro de uma pessoa física que invista R$ 100.000,00 em um Fundo de Investimento Financeiro ( FIF ), em um Certificado de Depósito Bancário ( CDB ) e em um VGBL. Considera-se que o investimento seja feito à vista, mantenha-se pelo prazo de 1 ano e garanta juros de 1,2% ao mês nas 3 modalidades (mero exemplo). CDB: decorrido 1 ano da data do aporte dos recursos, o investimento de R$ 100.000,00 em um CDB terá rendido R$ 15.389,46. No resgate, o investidor estará sujeito ao IRF de 20%, equivalente a R$ 3.077,89. O valor líquido recebido no resgate será de R$ 112.311,57. Como a tributação do CDB é exclusiva de fonte, o investidor não será obrigado a incluir o rendimento auferido no CDB em sua declaração de ajuste anual. O rendimento líquido auferido na aplicação, dessa forma, será de R$ 12.311,57. VGBL: se a mesma aplicação for feita em um VGBL, o investimento renderá após 1 ano os mesmos R$ 15.389,46. No resgate, o investidor estará sujeito a um IRF de 15%, equivalente a R$ 2.308,42, de modo que o valor líquido recebido no resgate será de R$ 113.081,04. Em sua declaração, o investidor em VGBL terá que recolher o imposto adicional, correspondente à diferença entre a alíquota de 15% aplicada no resgate e os 27,5% devidos a tabela progressiva. O ajuste complementar será de R$ 1.923,68, e o rendimento líquido auferido na aplicação, ao final do exercício, será de R$ 11.157,36 (considerando que o investidor tenha rendimentos tributáveis acima de R$ 27.912,00 anuais). FIF: os fundos de investimento sujeitam-se ao come-cotas semestral. Dessa forma, passados 6 meses do investimento no FIF, será retido e recolhido o IRF sobre os rendimentos auferidos pela carteira do fundo até tal data. No exemplo em exame, considerando que o FIF seja constituído por títulos de curto prazo, o IRF retido no primeiro come-cotas será de 20%, resultando em um recolhimento de R$ 1.483,89. Por essa razão, o rendimento ao final da aplicação será de apenas R$ 13.795,47, sujeito ainda ao IRF no resgate, à alíquota de 20% (equivalentes a R$ 2.759,09). O IRF recolhido no resgate e no come-cotas é definitivo, de forma que o rendimento líquido auferido na aplicação, ao final do exercício, será de R$ 11.036,37. Conclui-se, nesse caso, que o investimento em CDB será o mais vantajoso, garantindo um retorno líquido de 12,31%. O FIF, embora seja tributado à mesma alíquota do CDB (20%), garantirá um resultado inferior (11,04%), devido à incidência do come-cotas. O VGBL garantirá um resultado intermediário (11,16%), uma vez que sofrerá tributação a alíquota superior (27,5%). As conclusões acima se invertem se o investidor for um profissional liberal ou não tiver renda sujeita a ajuste anual - por exemplo, receber dividendos isentos. Nesse caso, a maior parcela do IRF de 15% pago no resgate do VGBL (R$ 2.308,42) poderá ser restituída ao final do exercício (R$ 2.095,20), considerando que o contribuinte auferiu rendimentos próximos ao limite de isenção de R$ 13.968,00. Caso seja esta a situação do investidor, o retorno líquido dos investimentos passa a ser de: VGBL (15,18%), CDB (12,31%) e FIF (11,24%). Existem, todavia, inúmeros fatores que devem ser considerados pelas pessoas físicas na hora de escolher seus investimentos. O exemplo acima considera, de maneira simplista, apenas um dos cenários possíveis. 6. Disclosure das Transações Financeiras março / abril 2005