Terceirização - Mitos e Realidades



Documentos relacionados
TERCEIRIZAÇÃO NO BRASIL:

Consultoria TRABALHISTA SINDICAL

Abrangência da terceirização


O SEBRAE E O QUE ELE PODE FAZER PELO SEU NEGÓCIO

TERCEIRIZAÇÃO - Esclarecimentos Necessários

Terceirização: o que é? terceirização

Terceirização. A precarização das relações trabalhistas No Brasil

Terceirização é precarização do trabalho

NR 4. SESMT Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho. Portaria de 08 de junho de 1978

A REFORMA DA LEI DAS SOCIEDADES ANÔNIMAS

Parecer Consultoria Tributária Segmentos Controle de Ponto do Trabalhador terceirizado

Contrato de Facção não é Terceirização

Companheiros e companheiras,

Terceirização no Tribunal de Justiça de Minas Gerais SS JUSTIÇA MG

REGULAMENTO PROJETO SERVIÇOS E CIDADANIA

TERCEIRIZAÇÃO NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

O ENQUADRAMENTO SINDICAL DA CATEGORIA DOS MOVIMENTADORES DE MERCADORIA VERSUS A ATIVIDADE PREPONDERANTE DO EMPREGADOR

CONTRATO DE TRABALHO DE CURTA DURAÇÃO

PROJETO DE LEI DA CUT PARA A REGULAMENTAÇÃO DA TERCEIRIZAÇÃO NAS EMPRESAS PRIVADAS E DE ECONOMIA MISTA

A função da associação de classe na construção e defesa de suas agendas. 15 ago 13

COMO SÃO DEFINIDOS OS 2. NOSSOS SALÁRIOS

Programa de Formalização do Micro Empreendedor Individual Sustentabilidade Social. Florianópolis - SC

Os males da terceirização

PROJETO DE LEI Nº, DE 2004

Unidade II. Unidade II

Relações do Trabalho no Brasil Cenários e Dificuldades

Fatores ambientais que influenciam o planejamento estratégico. Planejamento de Relações Públicas II Profª. Carolina Alves Borges

Assunto: A Contribuição Sindical dos Profissionais Liberais.

CONSIDERAÇÕES SOBRE REDUÇÃO DE JORNADA DE TRABALHO (RJT) SEM REDUÇÃO SALARIAL

COMISSÃO DE TRABALHO, DE ADMINISTRAÇÃO E SERVIÇO PÚBLICO

A DESVIRTUALIZAÇÃO DA TERCEIRIZAÇÃO

MUDANÇAS NA ISO 9001: A VERSÃO 2015

Welcome Call em Financeiras. Categoria Setor de Mercado Seguros

TERCEIRIZAÇÃO. Autor: Ivaldo Kuczkowski, Advogado Especialista em Direito Administrativo e Conselheiro de Tributos da Empresa AUDICONT Multisoluções.

Reunião Plenária do Comtextil

PROJETO BÁSICO GRAMADOTUR

Título: Tributação nos Planos de Participação nos Lucros e Resultados, Stock Option, Hiring Bônus, Retainer Fee OSWALDO OTHON DE PONTES SARAIVA FILHO

COOPERATIVAS DE TRABALHO

% terceiros x empregados

REQUERIMENTO. (Do Sr. Flávio Bezerra)

PROJETO DE LEI 4330 DISCUSSÃO ACERCA DA TERCEIRIZAÇÃO

Pequenas e Médias Empresas no Canadá. Pequenos Negócios Conceito e Principais instituições de Apoio aos Pequenos Negócios

PROJETO DE LEI N.º 162/XII/1.ª COMBATE O FALSO TRABALHO TEMPORÁRIO E PROTEGE OS TRABALHADORES TEMPORÁRIOS

O SR. VANDER LOUBET (PT-MS) pronuncia o. seguinte discurso: Senhor Presidente, Senhoras e. Senhores Deputados, a Conferência Internacional da OIT,

O SEBRAE E O QUE ELE PODE FAZER PELO SEU NEGÓCIO

Decisão do STF permite contratação de professores federais por Organização Social

TERCEIRIZAÇÃO NA MANUTENÇÃO O DEBATE CONTINUA! Parte 2

A VERDADE SOBRE AS FUNERÁRIAS NO MUNICÍPIO DO RJ:

Cadastro das Principais

PORTARIA DE 21 DE AGOSTO DE VOCÊ SABIA?

APRENDA AS MUDANÇAS DE FORMA FÁCIL

Empresa como Sistema e seus Subsistemas. Professora Cintia Caetano

DESENVOLVIMENTO DAS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS, GERAÇÃO DE EMPREGO E INCLUSÃO SOCIAL. XII Seminario del CILEA Bolívia 23 a 25/06/2006

Cadeias de Valor e Aglomerações Empresariais Estratégias para Inserção Competitiva. Luiz Gilberto Mury

DIREÇÃO NACIONAL DA CUT APROVA ENCAMINHAMENTO PARA DEFESA DA PROPOSTA DE NEGOCIAÇÃO DO SALÁRIO MÍNIMO, DAS APOSENTADORIAS E DO FATOR PREVIDENCIÁRIO

Grupo de Estudos de Voluntariado Empresarial. 1º Encontro 2011 Aspectos Legais do Voluntariado 09/02/2011

OS FUTUROS CONTRATOS DE TRABALHO.

Estrutura da Apresentação

PUBLICADO EM 01/08/2015 VÁLIDO ATÉ 31/07/2020

CONFERÊNCIA AS RECENTES REFORMAS DO MERCADO LABORAL EM PORTUGAL: PERSPECTIVAS DOS PARCEIROS SOCIAIS 1

Infraestrutura Turística, Megaeventos Esportivos e Promoção da Imagem do Brasil no Exterior. Ministro Augusto Nardes

FEVEREIRO 2015 BRASÍLIA 1ª EDIÇÃO

TEMA NR 4 - SERVIÇOS ESPECIALIZADOS EM ENGENHARIA DE SEGURANÇA E EM MEDICINA DO TRABALHO

Distribuidor de Mobilidade GUIA OUTSOURCING

CEAP CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO AMAPÁ CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DISCIPLINA COMÉRCIO ELETRÔNICO PROF. CÉLIO CONRADO

FALTA DE TRABALHADOR QUALIFICADO NA INDÚSTRIA. Falta de trabalhador qualificado reduz a competitividade da indústria

CONVENÇÃO 158 da OIT

Inovação nas Médias Empresas Brasileiras

A Sra. ALMERINDA DE CARVALHO (PMDB-RJ) pronuncia o seguinte discurso: Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados, mais uma vez, a Igreja,

CARTILHA DA LEI DE PROTEÇÃO AO TRABALHADOR TERCEIRIZADO

CARTILHA DA LEI DE PROTEÇÃO AO TRABALHADOR TERCEIRIZADO

JOVEM APRENDIZ. Resultado do Aprofundamento dos Estudos. Coordenação-Geral de Normas de Contabilidade Aplicadas à Federação

TERCEIRIZAÇÃO IMPACTO NAS EMPRESAS PROJETO DE LEI 4.330/15 PROJETO DE LEI DA CÂMARA 30/15

O QUE SUA EMPRESA PODE FAZER PARA SER MAIS COMPETITIVA?

AULA 02. Estrutura do Sistema Financeiro Nacional. Subsistema Operativo I

EMPREENDEDORISMO DE. Professor Victor Sotero

8º.Seminário de Qualificação do Servidor Público Municipal

Sumário 1 APRESENTAÇÃO LINHAS GERAIS Diretrizes Básicas Objetivos Público-Alvo... 4

Orientações sobre Micro Empreendedor Individual

Apresentação Institucional

C Â MARA DOS DEPUTADOS Deputado Federal MIGUEL CORRÊA PT/MG

Sistema Unimed DR. SIZENANDO DA SILVA CAMPOS JÚNIOR DIRETOR PRESIDENTE DA UNIMED GOIÂNIA

ROTEIRO DE ESTUDOS DIREITO DO TRABALHO TERCEIRIZAÇÃO

Transcrição:

Terceirização - Mitos e Realidades Está em pauta no Supremo Tribunal Federal a repercussão geral sobre a delimitação das hipóteses de terceirização diante do que se compreende por atividade-fim de uma empresa. Nesse sentido, indagamos o que seria mais relevante? Coibir as empresas de trabalhar em cadeia de produção ou assegurar a proteção aos trabalhadores que integram essas cadeias? Lilian Knupp Pettersen e Marcella Lange Del Vecchio AAA/SP - lpettersen@albino.com.br e mvecchio@albino.com.br Está em pauta no Supremo Tribunal Federal a repercussão geral sobre a delimitação das hipóteses de terceirização diante do que se compreende por atividadefim de uma empresa. Nesse sentido, indagamos o que seria mais relevante? Coibir as empresas de trabalhar em cadeia de produção ou assegurar a proteção aos trabalhadores que integram essas cadeias? É demasiada a resistência dos que combatem a terceirização por verem este processo como sinônimo de precarização do trabalho. Importante lembrar, no entanto, que em 1943, quando a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi criada, existia um modelo de empresas verticalizadas, produzindo praticamente tudo. Hoje, a preponderância é a produção horizontalizada, em que várias empresas atuam em parceria, assumindo etapas de produção e de serviços até que o produto final possa chegar ao seu destinatário, qual seja o consumidor. Convém e desmistificaremos algumas considerações envolvendo o tema. 1º mito: Precarização e redução de direitos trabalhistas A terceirização é um modelo atual de organização do processo produtivo da empresa, sendo uma forma de organização de gestão estratégica e de produção. Nos

2 dias atuais, poucas empresas conseguem fazer tudo sozinhas de forma eficiente e competitiva. Este novo modelo visa aumentar a competitividade, a eficiência produtiva, gerar mais recursos para novos investimentos, com consequente geração de empregos. A alegada precarização não decorre da terceirização, mas da existência de trabalhadores na informalidade ou quando não respeitada a legislação trabalhista, o que pode ocorrer em qualquer forma de contratação. De acordo com a Confederação Nacional das Indústrias (CNI), cerca de 83% das grandes indústrias verificam o cumprimento dos encargos trabalhistas e das normas de saúde e segurança do trabalho pelas empresas contratadas. Nesse sentido, é infundado sustentar que a terceirização é sinônima à precarização e redução de direitos trabalhistas. 2º Mito: Informalidade Toda empresa que contrata trabalhadores deve zelar pelo cumprimento da legislação trabalhista vigente. A terceirização não gera a informalidade, em verdade, ela cria a oportunidade de um negócio formal exercido em parceria com uma empresa contratante. Segundo dados do Sindprest em 2012, a terceirização emprega formalmente cerca de 2,2 milhões de trabalhadores em 35 mil empresas prestadoras de serviços, correspondendo a 20% dos trabalhadores com carteira assinada em todo o país, com 11 milhões de pessoas envolvidas no processo de terceirização, recolhendo cerca de 8 bilhões de encargos sociais e 9 bilhões de outros encargos e impostos.

3 3º Mito: Trabalhador da contratada é considerado trabalhador de segunda classe O trabalhador de empresas contratadas possuem todos os direitos trabalhistas garantidos pela CLT, sendo vedada a contratação de empregados sem o devido registro e o pagamento de todos os direitos que possuem. 4º Mito: Desemprego O fortalecimento das cadeias de produção tem provocado o aumento do número de empregos formais. Esse novo modelo de descentralização das atividades produtivas tem gerado 85% dos novos empregos nos últimos dez anos. 5º Mito: Redução de custos A redução de custos, de fato, é um fator de grande relevância para 85% das empresas que contratam empresas parceiras. Segundo a pesquisa realizada pela Sondagem da CNI, há, também, outros fatores que demonstram ser de suma importância na decisão sobre a contratação de cadeias de produção, conforme demonstra o quadro abaixo: Fatores Relevantes Uso de Tecnologias Economia de Tempo Melhoria Qualidade Serviço Empresas Contratantes Redução de Custos 65,00% 70,00% 75,00% 80,00% 85,00% 90,00%

4 6º Mito: A responsabilidade solidária é a única forma de garantir o direito aos trabalhadores Na responsabilidade solidária é transferida para a empresa contratante, automaticamente, a responsabilidade da empresa contratada que, em tese, deveria ter o dever de assumir os riscos de seu empreendimento e, consequentemente, cumprir integralmente o que determina a lei, posto que se ignore o vínculo empregatício do trabalhador com a empresa contratada. Não obstante, a responsabilidade subsidiária atinge a finalidade principal que visa à garantia os direitos aos trabalhadores, sendo a contratante responsável subsidiariamente, caso a contratada não cumpra com suas obrigações trabalhistas e previdenciárias. 7º Mito: Maior risco de acidentes de trabalho Todos os empregados de empresas contratantes e contratadas estão submetidos à mesma legislação trabalhista. Sendo assim, todas empresas devem observar as normas constantes da CLT, instrumentos coletivos, Normas Regulamentares. Ademais, sendo a contratada empresa especializada no segmento, especializados serão seus trabalhadores e, consequentemente haverá menos acidentes de trabalho, posto que os empregados trabalham somente com aquela determinada atividade em que são especialistas. 8º Mito: Desestruturar o sistema sindical O que está por traz do discurso da não regulamentação da terceirização é a perda de representatividade sindical. Todavia, importante destacar que cada categoria

5 profissional possui o seu próprio sindicato que defende seus direitos e firma instrumentos coletivos com os empregadores. Esse discurso é meramente corporativista, tendo em vista que o sindicato dos trabalhadores está preocupado somente com o que arrecada e não com aqueles a quem protege. 9º Mito: Não se pode terceirizar atividade-fim Pouco importa se a terceirização ocorre na atividade meio ou fim. O que não pode é haver a terceirização como forma de burlar a lei, ou seja, como fraude à legislação trabalhista. Na próxima edição será apresentado a segunda parte sobre o tema onde discorreremos sobre a questão da atividade meio x atividade fim e a inconstitucionalidade da Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho.