RAÇAS CAPRINAS E CRUZAMENTOS PARA O NORDESTE DO BRASIL



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Transcrição:

RAÇAS CAPRINAS E CRUZAMENTOS PARA O NORDESTE DO BRASIL Airton Alencar de Araújo 1 Maria Gorete Flores Salles 2 Priscila Teixeira de Souza 3 David Ramos da Rocha 4 Erica Araújo 5 1 Universidade Estadual do Ceará Prof. Adjunto - FAVET; 2 Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira UNILAB - Prof a. Adjunta ; 3 Universidade Federal do Piauí - Prof a. Adjunta; 4 Universidade Vale do São Francisco - PE- Prof. Adjunto; 5 Universidade Federal do Ceará - Aluna de Graduação em Zootecnia. INTRODUÇÃO A cabra foi introduzida no Brasil com a chegada dos primeiros colonizadores portugueses. Assim, os caprinos criados nos primórdios da colonização geraram, ao longo do tempo, os tipos nativos (ou naturalizados) hoje encontrados no nordeste do Brasil. Por ser uma região semiárida de vegetação característica de caatinga e de altas temperaturas ao longo do ano, os caprinos aqui introduzidos tiveram que se adaptar às condições ambientais da região, adquirindo a característica da rusticidade para sobreviver em condições desfavoráveis. Como consequência, os animais de boa produção que aqui chegaram tiveram que diminuir as características produtivas e aumentar a resistência ao calor, e aos ecto e endoparasitos, e ainda se alimentar com uma vegetação totalmente diferente daquela de seu lugar de origem. Imagina-se que muitos dos animais que aqui chegaram não sobreviveram, mas os sobreviventes se aclimataram se adaptaram e geram os tipos nativos hoje existentes. A natureza fez um processo de seleção, confirmando, assim, os postulados de Charles Darwin que afirmou: não são os mais fortes que sobrevivem, e sim os mais adaptados. Muitas pessoas dizem que os nativos são improdutivos devido ao pequeno porte, baixa produção de carne e leite, mas esquecem do fator rusticidade. É a mentalidade europeia Fortaleza, CE, Brasil, 08 a 12 de junho de 2015 167

que ficou de um animal grande, mais produtivo e vistoso aos olhos. Assim sendo, os nativos ficaram, ao longo do tempo, fora dos olhos da elite colonizadora e perto da necessidade do pequeno produtor de ter sua miunça (gado miúdo), de ter sua cabra criada na corda (cabra-de-corda), selecionadas dentre as fêmeas mais produtoras de leite que garantiam o sustento da família. Atualmente com as mudanças climáticas, a temperatura global tem se elevado significativamente, sobretudo na região dos trópicos onde ocorrem as mais elevadas temperaturas do planeta. Há, portanto, cada vez mais, a necessidade que os animais sejam mais tolerantes ao calor, evitando, deste modo, gastos excessivos com o conforto ambiental, visto que os pecuaristas nos trópicos praticam, em maior escala, o criatório extensivo ou semiextensivo, visando o aproveitamento racional das pastagens nativas ou cultivadas. Assim, a importância de trabalhar a rusticidade, sobretudo a tolerância ao calor, em cruzamentos das nativas com caprinos exóticos mais produtivos, é essencial para aumento da produtividade da pecuária dos países de clima tropical como o Brasil, principalmente no nordeste, região de clima semiárido. Felizmente, graças à iniciativa de criadores, tidos como preservacionistas, algumas das raças naturalizadas estão preservadas sem risco de extinção. Contudo, algumas delas como a Marota e a Gurgueia correm risco de desaparecer, resultado da falta de uma política preservacionista de nossas instituições. Se não preservarmos essa genética naturalizada, esses genes, atualmente desvalorizados, poderão nos fazer falta no futuro. Resta começar a fazer nossa arca de Nóe de preservação; do contrário, vamos ter somente a coleção de fotos dos animais já extintos ou em via de extinção. E a gerações no futuro dirão: que pena!. RAÇAS NATIVAS E CRUZAMENTOS COM RAÇAS EXÓTICAS Comparando, com base na exognosia, as cabras nativas com as europeias, observa-se grandes semelhanças entre elas. Na maioria das vezes, o que se observa de diferença marcante é o porte das exóticas que é bem superior. Portanto, as nativas acasaladas com o seus homólogos europeus poderão gerar animais que, mantendo a rusticidade, adquirirão os genes favoráveis a uma elevação da produção de leite ou de carne, independente do sistema de criação empregado. Fortaleza, CE, Brasil, 08 a 12 de junho de 2015 168

Os cruzamentos de nativos com seus homólogos europeus: Bristish Alpine x Canindé, Saanen x Marota, Murciana x Graúna e Parda Alpina x Gurgueia, gerarão animais mais produtivos e mais bem adaptados, uma combinação perfeita de genes da rusticidade com os da produtividade. Seria um refrescamento de sangue, uma vez que a genética das nativas teve origem no seu homólogo europeu, seguindo-se ainda de uma pressão de seleção natural dos mestiços para obtenção de linhagens cada vez mais produtivas e bem adaptadas. Na verdade, um trabalho de melhoramento dentro dos próprios nativos deveria ter sido realizado para estes cruzamentos serem bem mais eficientes, visando maior aproveitamento do vigor hibrido. A GENÉTICA MAIS CONVENIENTE Alguns trabalhos de melhoramento genético dos caprinos naturalizados foram realizados em alguns estados aqui do nordeste. Ressalto aqui um trabalho realizado nos anos 80 e 90 pela extinta Empresa de Pesquisa Agropecuária do Ceará (EPACE) que trabalhou o cruzamento da Alpina Britânica com a Canindé, resultando em mestiços que deram bons resultados para a produção de leite. Ainda hoje existem criadores que utilizam esses animais como produtores de leite em região semiárida. Ressaltamos aqui, o trabalho de criadores obstinados como Manelito Dantas Vilar na Paraíba, que possui rebanhos de vários tipos de nativos preservados e cruzados com seus homólogos europeus, aliando, assim, as características de adaptação destes animais à boa produtividade das exóticas. Destacamos também, a colaboração de alguns animais exóticos aqui introduzidos que poderiam ser mais valorizados para o criatório de caprinos no nordeste brasileiro. A raça Anglonubiana, de origem britânica, resultado do cruzamento de bodes Saxões com cabra da Núbia, é uma excelente produtora de leite e carne, e por sua boa adaptação as condições dos trópicos foi uma das raças que mais contribuíram para a existência de animais mestiços, os ditos anglonubianados existentes em várias regiões do nordeste. Sua boa adaptação ao clima tropical é devido a sua tolerância ao calor mais elevada em relação às outras raças de origem europeia. Para exploração da caprinocultura de leite na região nordeste, muitos criadores optaram pelas raças Saanen e a Parda Alpina, e alguns criadores formaram seus rebanhos pelo cruzamento contínuo com bodes destas raças, obtendo, assim, animais puros por Fortaleza, CE, Brasil, 08 a 12 de junho de 2015 169

cruza. Contudo, apesar do aumento da produção leiteira, houve uma diminuição da rusticidade, principalmente no que ser refere à tolerância ao calor. Em Pesquisa realizada no Programa de Pós-graduação em Medicina Veterinária da UECE, o cruzamento da Anglonubiana com a Saanen mostrou um aumento da tolerância ao calor dos mestiços, com produção de leite mais elevada no período seco em relação às fêmeas Saanen puras por cruza (figura 1). Este cruzamento gerou animais mais adaptados (figura 2) e com boa produção de leite para exploração em condições de confinamento em clima tropical. Fig. 1 Producão de leite de cabras Saanen e mestiças ½S½AN durante as estações chuvosa e seca em clima tropical. Colunas pretas: ½S½AN mestiças, colunas cinzas: cabras Saanen. Letras minúsculas representam differenças na mesma estação (p<0.05). Letras maiúculas representam diferenças entre estações para os genótipos (p<0.05). Fig. 2 Coeficiente de adaptabilidade (CA) de cabras Saanen e mestiças ½S½AN durante as estações chuvosa e seca em clima tropical. Colunas pretas: ½S½AN mestiças, colunas cinzas: cabras Saanen. Letras minúsculas representam differenças na mesma estação (p<0.05). Letras maiúculas representam diferenças entre estações para os genótipos (p<0.05). O CA quanto mais próximo de dois, mais adaptado é o animal. Fortaleza, CE, Brasil, 08 a 12 de junho de 2015 170

CONSIDERAÇÕES FINAIS Associar à rusticidade das naturalizadas com a boa produtividade das exóticas, realizando os cruzamentos entre homólogos, ou entre raças exóticas mais tolerantes ao calor, é uma ação a ser posta em prática na pecuária caprina e ovina, tanto para a produção de leite como de carne. A introdução de exóticos com intuito de aumentar produção sem atentar para o fator adaptação destas raças às condições edafoclimáticas da região nordeste, é um ledo engano que se tem cometido, e ainda se comete nesta região. Faz-se necessário mudar a mentalidade, e agregar junto a essa mudança as melhorias das condições de nutrição e sanidade para realização de uma pecuária racional em uma região semiárida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A Cabra. Aristóbulo de Castro. 3 a edição. Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1984. As 15 raças de Dr. Manelito. Revista O BERRO Nº 142 Março de 2011. http://www.revistaoberro.com.br Maria Gorete Flores Salles. Parâmetros fisiológicos e reprodutivos de machos caprinos Saanen criados em clima tropical. Tese de Doutorado. 2010. PPGCV-UECE. Fortaleza, CE. Orientador: Airton Alencar de Araújo. Maria Gorete Flores Salles. Carlos Eduardo Azevedo Souza, Davide Rondina, Arlindo Alencar Araripe Moura, Airton Alencar de Araújo. Respostas fisiológicas ao estresse térmico de bodes Saanen em clima tropical. Ciência Animal, v.19, n.1, p.19-28, 2009. Priscila Teixeira de Souza, Maria Gorete Flores Salles, Airton Alencar de Araújo. Impacto do estresse térmico sobre a fisiologia, reprodução e produção de caprinos. Ciência Rural, Santa Maria, v.42, n.10, p.1888-1895, out, 2012. Priscila Teixeira de Souza, Maria Gorete Flores Salles, Antônio Nélson Lima da Costa, Hilton Alexandre Vidal Carneiro, Leonardo Peres de Souza, Davide Rondina, Airton Fortaleza, CE, Brasil, 08 a 12 de junho de 2015 171

Alencar de Araújo. Physiological and production response of dairy goats bred in a tropical climate. Int J Biometeorol. DOI10.1007/s00484-013-0760-x Fortaleza, CE, Brasil, 08 a 12 de junho de 2015 172