Manejo e setting clínico



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Transcrição:

XVIII Encontro Latino-Americano: Pensamento de D.W.Winnicott Winnicott Contemporâneo Manejo e setting clínico Marisa Bortoletto Resumo: O trabalho discute a questão do manejo das situações clínicas, recorrendo para tal aos aportes teóricos de D. Winnicott. Além disso, correlaciona essas idéias com a experiência e demanda clínica da Verbo Clínica Psicológica. Discute a dissociação do ser e fazer encontradas em diferentes personalidades. Através de exemplos clínicos a autora mostra o significado dos pedidos de ajuda de diferentes pessoas. Aborda as contribuições e compreensão do funcionamento mental e o manejo na psicoterapia psicanalítica Ao praticar psicanálise, tenho o propósito de: me manter vivo, me manter bem, me manter desperto. Objetivo ser eu mesmo e me portar bem. Winnicott (1962) É assim que Donald Winnicott inicia o texto Os objetivos do tratamento psicanalítico. Isto é, através de sua extraordinária sensibilidade descreve com simplicidade e profundidade o que parece ser uma postura psicanalítica autêntica. Nos lembra o quanto requer do terapeuta essa experiência de cuidar do outro. O quanto é preciso preservar a integridade física e emocional quando estamos nos propondo a ajudar alguém em sua complexa estrutura emocional. A vasta experiência clínica desse psicanalista inglês alude a uma invejável condição pessoal para poder estar com o paciente tal como ele é e respeitá-lo mesmo que a maneira de ser do sujeito possa parecer paradoxal ou estranha. Ele construía um setting clínico capaz de abarcar a observação tanto dos desejos como das necessidades do paciente. Além disso, diferenciava, por exemplo, o desejo de ficar quieto da necessidade de ficar quieto, sendo que esta última poderia reproduzir uma falha ambiental e traduzir uma interrupção dos processos de desenvolvimento do self. Para tal, ora manuseava o setting, ora interpretava o material apresentado. 1

Em 1954, Winnicott apresentou sua experiência clínica com pacientes regredidos e desde essa época já preconizava a idéia de um setting diferente do tradicionalmente concebido por Freud. Os avanços nos estudos e a experiência do atendimento de pacientes borderline psicóticos levaram a conceber um setting onde a função holding estivesse presente. Ao iniciar uma análise, Winnicott (1962) considerava desumano não se adaptar um pouco às expectativas do indivíduo. Todavia, jamais perdia de vista os elementos de uma análise padrão. Entendendo análise padrão como a análise que trabalha centrada na conscientização da transferência. E então dizia análise é para aqueles que a querem, necessitam e podem tolerá-la. Nem sempre os indivíduos suportam um atendimento clínico que visa resgatar o que existe de verdadeiro e real em si. Nossa experiência está baseada na demanda de pacientes da Verbo Clínica Psicológica (VCP), onde observamos homens e mulheres sobrecarregados de trabalho, desempenhando funções pouco motivadoras e burocráticas. Tais pessoas parecem ter desenvolvido, ao longo dos anos, uma dissociação entre o ser e o fazer. O fazer torna-se o alicerce da personalidade e o sujeito constitui-se através das inúmeras atribuições que assume: ora por opção ora pelas próprias exigências internas somadas às exigências financeiras para a manutenção de determinado status sócio-econômico.. Os inúmeros exemplos extraídos da população que procura a VCP reforçam a tese de Vaisberg (2005) sobre o projeto terapêutico de hoje, o qual não pode ser mais apenas uma questão de técnica.o projeto nos remete à discriminação entre ser e fazer. Essa autora entende que o sofrimento humano não é superado apenas pelo conhecimento de si, mas na medida em que pode, por meio de uma nova experiência. Acreditar que não será perturbado, acreditar que não será invadido naquela continuidade de ser que já contém em si mesma a capacidade humana de ser e fazer. 2

Uma mulher de meia-idade chega a clinica entusiasmada pelo fato de a mesma oferecer psicoterapia breve. Almejava algo que resolvesse logo o que a estava incomodando. Conta que iniciou sua vida profissional na adolescência, pois a família necessitava de ajuda financeira. Ao longo dos anos, ocupou cargos que exigiam, basicamente, servir o outro, a população carente. Era como se sentisse estar predestinada a ficar disponível ao outro. Acomodada com a situação, não procurou outra atividade além da de assistente social, pois se acostumou com o trabalho. Todavia, já notava o quanto era difícil pensar em si e nas próprias necessidades. Dotada de grande disposição por fazer coisas e mais coisas, não imaginava que isso poderia causar algum problema emocional. Apenas quando descobre uma doença cardíaca é que se vê num estado depressivo, no qual não se reconhece. Podia cuidar da questão cardíaca, que se tornou controlada e estável, enquanto o quadro depressivo continuava acentuado. Quando procura a terapia, queria apenas voltar a ser a mesma de sempre e, se possível, logo. Embora, ao fazer esse pedido, parecia já ter alguma noção de que outras questões emocionais envolvidas. Uma paciente como muitas, que clamava por um entendimento de seu funcionamento mental para poder encontrar na relação paciente-terapeuta a compreensão e continuidade do próprio processo de desenvolvimento. Não mais da forma breve desejada, mas a partir da vivência dessa relação. No clássico texto de Winnicott (1954), Os aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting psicanalítico, o autor discute e contextualiza a existência de três tipos de pacientes. O primeiro tipo seria a pessoa total, que apresentaria dificuldades nas relações interpessoais (neuróticos). O segundo tipo seria a pessoa quase total, a qual teria alcançado a posição depressiva e desta forma apresentaria a capacidade de se 3

preocupar e considerar o outro (to concern). E o terceiro tipo seria o indivíduo fixado nos estágios primitivos do desenvolvimento emocional (psicóticos). Os pacientes, por vezes, parecem crianças pequenas cheias de expectativas de que alguém descubra o que desejam. Transmitem a idéia de que vivem num estado regredido, o qual requer do terapeuta o devido manejo. O terapeuta precisa estar presente, porém sem ser intrusivo com interpretações precoces. Enfim, saber se aproximar daqueles que pedem auxílio emocional, mas que nem sempre conseguem ser ajudados. O ritmo e as características do processo psicoterapico derivam tanto do paciente quanto do terapeuta, cabendo a este último constituir um setting que mantenha duas características básicas: a estabilidade e a previsibilidade (Hisada, 2002), de tal sorte que o paciente possa criar o seu próprio sentido de tempo e espaço. Hisada concluiu que a análise deve voltar-se cada vez menos sobre o material do paciente e mais sobre a forma como o paciente vive o setting. O manejo do setting busca proporcionar um espaço para a expressão da ilusão de onipotência. Entretanto, não se pode esquecer que esta ilusão mais cedo ou mais tarde dará lugar à desilusão. Sabemos que tanto as falhas maternas como as do terapeuta representam uma quebra da onipotência, a qual pode promover novos acordos entre a realidade interna e externa. Cria-se então a possibilidade de pensar e quem sabe alcançar um novo vértice de si mesmo. Uma moça de 32 anos procura a clínica após uma crise depressiva. Havia conseguido a liberação para doze sessões, pois seu plano de saúde não oferecia mais do que essa quantidade anualmente. Avisada de que esse número de sessões era um tanto limitado, foi orientada a que se organizasse para poder pagar as sessões após o término das doze. Alegava que seria difícil a continuidade do processo. Frente a estas questões restritivas, era 4

preciso refletir sobre o que de fato se poderia oferecer a quem parecia tão debilitada emocionalmente. Ao iniciar as sessões estava abatida, vestia-se com desleixo e o cabelo estava sempre preso. Aparentemente, encontrava-se num estado melancólico, seu tom de voz ressoava como uma melodia de um som apenas. A fala era recheada de queixas e mais queixas. Na primeira sessão avisou a atual terapeuta que havia realizado uma terapia onde a psicóloga dormiu durante a sessão. Coincidência ou não, logo nas primeiras sessões, a psicóloga se sentiu acometida por uma sonolência incontrolável. A paciente tinha alguma idéia do que provocava nos demais. A paciente continuava com o discurso sofrido de que sua vida estava péssima, sem perspectivas de trabalho, sem possibilidade de continuar o relacionamento amoroso com o namorado, etc., etc. Entretanto, a cada sessão sua aparência mudava, então passa a soltar seu longo e esvoaçante cabelo. E as roupas iniciais, que lembravam as de uma adolescente, mudaram para trajes típicos de mulheres executivas. A transformação externa ocorrida sugeria que a paciente acreditava numa depressão que de fato não existia, como descrevia. A idéia central desse e de tantos outros casos é entender que o paciente procura ajuda num momento de regressão. Momento em que o outro pode significar aquele que irá tirá-lo de um estado de desconforto emocional. Ao se sentir acolhido, este auxilio pode contribuir para o restabelecimento do equilíbrio psíquico. As contribuições de Donald Winnicott nos sensibilizam no sentido de compreender e diagnosticar o funcionamento mental do paciente, para então verificar a possibilidade de realizar uma análise padrão ou não. Esse psicanalista sintetiza: Se nosso objetivo continua a ser a verbalização e a conscientização nascente em termos de transferência, então estamos praticando análise, se não, somos analistas praticando outra coisa que acreditamos ser apropriada para ocasião. E por que não haveria de ser assim? (1962) (grifos da autora). 5

BIBLIOGRAFIA Bortoletto, M. Convênios Psicológicos e Psicoterapia psicanalítica: Escuta, 2009. Hisada S. Clínica do Setting em Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter, 2002. Khan M. Prefácio in Da pediatria à psicanálise (D. Winnicott). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. Khan M. Introdução in Holding e Interpretação (D. Winnicott) São Paulo: Martins Fontes, 2001 (1968). Vaisberg TA. O ser e o fazer in Winnicott e o sentidos da realidade. Revista Viver Mente e Cérebro Memória da Psicanálise n. Cinco 2005. Winnicott D. Aspectos clínicos e metapsicológicos da regressão dentro do setting psicanalítico in Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1954. Winnicott D. Os objetivos do tratamento psicanalítico in O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982 (1962). Winnicott D. Retraimento e regressão in Holding e Interpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2001 (1968). Marisa Bortoletto Psicóloga(CRP: 06/10997) Mestrado em Psicologia Clínica PUCSP, Especialista em Psicoterapia Psicanalítica pela USP, Diretora e Responsável Técnica da VCP. Rua Verbo Divino, 130 Granja Julieta São Paulo. e-mail: verboclinica@hotmail.com tel:(11) 51829359 / 91130697 6