Uma nova realidade, um novo desafio Setembro, 2008.
História de um Cuidador Tenho 65 anos, fui emigrante na França e na Alemanha e cá em Portugal trabalhei em várias zonas. Sempre gostei da vida! Reformei-me há sete anos e pensei que iria continuar a ter uma vida bonita, mas enganei-me Há sete anos que não tenho descanso A minha esposa teve uma trombose e está acamada. Ela berra toda a noite, passo a minha vida lá fora, naquela mesa de pedra, a ver os outros a passar e sempre à espera que chegue o Domingo, para eu ir dar uma volta. Vivo com a minha filha mais nova, os outros filhos estão casados e têm os seus empregos e as suas casas Quando as empregadas do apoio domiciliário chegam aproveito para ir à cidade. Nunca pensei acabar os meus dias assim (choro) Vou morrer em casa, naquele banco! Dantes um maço de cigarros dava para dois dias, agora Nunca tomei remédios na minha vida e estou a tomar agora. Nunca sofri de nada e agora estou preso de pés e mãos.
Cuidadores familiares Idosos: Elevada importância no apoio ao idoso dependente; Os cônjuges como principais cuidadores do idoso dependente; O marido como cuidador principal; Recorrem cada vez mais a apoios formais ou dos vizinhos; Novos desafios para a Família, para o Estado, para os Técnicos do apoio domiciliário e para os Centros de Saúde.
Tipos de Soluções encontradas: Solução A: Baseada no Apoio da Família e no Apoio Domiciliário (em alguns casos, no apoio de uma empregada). Dois tipos de apoio familiar: 1. Filhos co-residem com os cuidadores; 2. Filhos que apoiam o cuidador, mas que não residem com ele. Solução B: Baseada no Apoio Domiciliário e nos vizinhos (em alguns casos numa empregada).
Investigação: O sexo, a escolaridade e o contexto dos cuidadores parecem não condicionar o tipo de solução adoptada; O que parece condicionar os apoios que os cuidadores familiares usufruem é a capacidade económica, as relações familiares e ainda as relações de vizinhança; A existência de poder económico conduz à contratação de empregadas (limpeza da habitação, alimentação, tratamento de roupas e compras) e de mais serviços do apoio domiciliário; O grau de dependência parece não condicionar o tipo de solução adoptada pelos cuidadores, existindo nas diferentes soluções diversificados graus de dependência;
Depois do apoio da família e do apoio domiciliário, os cuidadores do sexo masculino recorrem mais à ajuda dos vizinhos e as cuidadoras do sexo feminino recorrem mais à ajuda de uma empregada; Há que referir que os cuidadores (sexo masculino e sexo feminino) não delegamnos vizinhos, nem nas empregadas as tarefas relacionadas com a saúde(administração da medicação e articulação com médicos e enfermeiros) e com a higiene e conforto dos idosos dependentes: Osvizinhos e empregadasexecutam tarefas de apoio mais instrumentaise pontuais.
Necessidades Expressas pelos cuidadores: Solução A Apoio familiar: Acesso a mais cuidados de saúde ; Apoio económico. 1. Coabitam com os filhos - Os cuidadores apresentam menos necessidades. 2. Não coabitam com os filhos - Os cuidadores apresentam mais necessidades: Apoio domiciliário permanente;
Necessidades expressas pelos cuidadores Solução B: Sem apoio familiar. Apoio económico; Acesso a um apoio domiciliário permanente e a mais serviços do apoio domiciliário.
Conclusões: O apoio domiciliário tradicional não responde às necessidades dos cuidadores familiares idosos; Não existem políticas direccionadas para o cuidador familiar idoso; Os cuidadores familiares idosos que possuem apoio da família, mas não coabitam com ela apresentam muitas semelhanças com os cuidadores que não possuem apoio da família;
Estes cuidadores correm mais riscos e expressam mais necessidades : Executam a gestão dos cuidados de uma maneira isolada e frágil, colocando em risco a saúde do idoso dependente e a sua própria saúde; A maioria das decisões e tarefas são da responsabilidade do cuidador familiar idoso, aumentando a sua sobrecarga física, social e psicológica.
Problemas Comuns Erros e alterações na administração da medicação: os diabetes começaram a baixar e eu próprio reduzi-lhe a dose. (Entrev. Nº11) Não, às vezes passa um dia sem eu lhe dar, mas eu controlo porque tenho a máquina de controlar os diabetes. (Entrev. Nº 14) Falta de articulação com médicos e enfermeiros do Centro de saúde: Sou eu que o levo, ainda no outro dia amarrei nele e pu-lo no carro e levei-o à médica, deixei-o cá fora e a médica veio ver o meu marido cá fora. (Entrev.Nº 15) Setembro 2008
Problemas físicos (cansaço, dor, esforço): Sinto-me cansado, fui cem por cento a baixo! Fui a baixo fisicamente, não sinto forças. (Entrev.Nº10) Problemas psicológicos(tristeza, cansaço, desespero, instabilidade, stress): Da cabeça estou perdida, estou mesmo a ficar perdida e claro tudo vem ao pensamento, (Entrev.Nº1)
Problemas sociais (isolamento, sensação de estar preso, ausência de convívio social, ausência de actividades de lazer) Gostava de ir à praia passear a pé, mas agora não há tempo. Gostava de andar de bicicleta, mas raramente agora o faço, só de vez em quando ao sábado faço isso porque vou mais cedo para Vila do Conde andar a pé e depois vou à missa. (Entrev. Nº2); Não saio de casa. Aqui em casa sempre foi assim desde que casamos: ou saímos os dois ou não sai nenhum. (Entrev. Nº8) Impacto negativo na saúde do cuidador: Sinto-me mais cansada e até tomo anti-depressivos. A médica receitou-me numa altura que eu andava com muitas dores de cabeça. Ela disse-me : Vou-lhe receitar isto porque você necessita de uma ajuda! e foi desde aí e já foi há alguns anos (Entrev. Nº7);
Económicos : São os nossos filhos que nos pagam a alimentação que vem do centro, porque gastamos muito dinheiro em medicação e o dinheiro não chega. (Entrev. Nº1) Apoio Domiciliário não responde às necessidades: Gostava de ter um apoio mais alargado, pois libertava-me um pouco a mim e também às minhas filhas. Elas trabalham e não têm tempo. Uma filha vem do Porto para cuidar da mãe. Gosto de ter aqui a minha esposa, porque ela aqui tem mais carinho e apoio dos dela. Se houvesse um apoio até mais tarde e com mais profissionais ela estaria melhor e nós também. (Entrev. Nº2);
Desafios Inserir o cuidador familiar idoso nas respostas sociais: Criar novos serviços de apoio (físico, social e psicológico) ao cuidador familiar idoso: Exemplos: O serviço de supervisão no apoio domiciliário; dar formação ao cuidadores; tentar inserir o cuidador na sociedade; potencializar o seu suporte social; e fomentar o voluntariado organizado e responsável. Colocar em prática as respostas sociais previstas pela Segurança Social: Apoio Domiciliário Integrado e Unidade de Apoio Integrado.
Mais informação: divulgação das respostas sociais existentes; Repensar a falta de articulação existente entre os serviços de saúde e as respostas sociais de apoio: Adoptar programas de apoio para os idosos dependentes em contexto domiciliar e para os cuidadores familiares idosos; Envolver nestes programas as famílias, os técnicos do apoio domiciliário e os técnicos de saúde.
Económicos: Estado mais investimento para criar novas respostas sociais de apoio ao idoso dependente em contexto domiciliar e de apoio ao cuidador familiar idoso; Administração da medicação deveria ser realizada, na ausência de apoio da família, por técnicos ou pessoas competentes capazes de executar correctamente esta tarefa e assegurar o correcto uso da medicação.
Os cônjuges prestam mais horas de assistência, e têm mais probabilidade de fornecer cuidados pessoais, tolerando maiores incapacidades e por mais tempo, com menor ajuda externa e mais custos pessoais. (Paúl, 1997)
Cuidadores familiares idosos: Heróis esquecidos.
FIM Obrigada