TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº 20.471/2003 ACÓRDÃO



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Transcrição:

TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº 20.471/2003 ACÓRDÃO Lancha MAR DE ESPANHA. Colisão com mergulhador. Deficiência de sinalização de mergulho. Exculpar o 1º representado e condenar o 2º. Condenação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos No dia 5 de janeiro de 2003, cerca das 14h15min, na área de aproximação da ilha de Santo Aleixo, Barra de Sirinhaém PE ocorreu a colisão da lancha MAR DE ESPANHA com o mergulhador Cláudio Manoel Teixeira, que efetuava pesca submarina (apnéia), provocando-lhe ferimento no músculo tibial anterior. No inquérito, realizado pela CPPE, foram ouvidas 5 testemunhas, realizado laudo pericial e juntada a documentação de praxe. Consta que Cláudio Manoel Teixeira, conhecido por Cal, marinheiro auxiliar de convés, que, por ocasião do acidente, fazia pesca submarina, no peito (apnéia), pescando polvo; que utilizava pé de pato, máscara, respirador, bicheiro, arpão (espingarda Cobra), defensa ou bóia de borracha para sinalizar o local do mergulho; que, tem experiência neste tipo de pesca, cerca de 18 anos; que o acidente ocorreu na frente da ilha de Santo Aleixo, cerca de 200 metros; que a distância da ilha ao Continente é de 6 quilômetros; que a profundidade do local do acidente é de 2 metros e meio em fundo de pedra; que o seu colega estava pescando a mais ou menos 15 metros do depoente, em fundo de areia numa profundidade de 3 metros e meio; que desconhece o nome do proprietário da embarcação de apoio, sendo a mesma emprestada por um colega; que o depoente, juntamente com seu filho Francisco e um amigo, Roberto, foram à remo, até o local da pescaria, saindo da Barra de Sirinhaém; que o material de

salvatagem constava de 2 coletes salva-vidas e 3 defensas que serviam de bóia; que começaram a pescar por volta das 9h e o acidente aconteceu cerca das 14h40min; que a maré estava com uma hora de enchente, sol muito bonito, tempo limpo; que a distância do local do acidente em relação ao barco de apoio era cerca de 20 metros; que a bóia era utilizada para marcar o ponto de mergulho e amarrar os peixes em um arame de aço inox; que a mesma estava amarrada a espingarda; que tinha ferrado um polvo e viu outro, porém o fôlego não dava para pegar o segundo; que foi até a superfície respirar, quando escutou um barulho muito forte, subindo rápido para ver o que era, quando viu uma lancha se aproximando a cerca de 3 metros; que largou a espingarda, o bicheiro e desceu, sentido o pé de pato raspar no fundo da lancha e a hélice pegando no pé esquerdo; que subiu rapidamente, ficando chamando a pessoa da lancha, acenando com o pé de pato, porém a pessoa não atendeu; que nadou em direção a bateira e seu filho veio remando lhe encontrar; que embarcou na mesma colocou a perna para cima apoiando em um tambor plástico, parando o sangramento e amarrando uma camisa abaixo do corte maior; que solicitou a um amigo, Falcão, que ia passando, para pegar o nome da lancha; que o dito amigo passou um rádio pedindo socorro e foi até a lancha que estava parada na praia da ilha, falando para o proprietário prestar socorro; que a lancha rebocou a bateira até a entrada da Barra de Sirinhaém, onde foi transferido para um barco, uma vez que a pessoa da lancha não conhecia o local; que foi levado até Barra de Sirinhaém onde recebeu os primeiros socorros; que em seguida a ambulância da Prefeitura o transferiu para o Hospital Getúlio Vargas; que entre os dias 7 ou 8 de janeiro, o proprietário da lancha compareceu na casa do depoente, acompanhado do escrivão da Delegacia de Sirinhaém e de um policial com roupa civil e o conduziu a uma Clínica particular em Recife, onde realizou exame médico; ao ser perguntado se o local onde ocorreu o acidente era de tráfego rotineiro de embarcações, respondeu: passa embarcação pequena; que as maiores passam pelo sul da ilha, onde tem baliza e o 2

calado é maior; ao ser perguntado, a qual distância a bóia se encontrava do local estava mergulhando, respondeu: mais ou menos 15 metros; que na sua opinião a causa determinante do acidente foi a falta de atenção do piloto da lancha, pois passaram em direção a ilha de Santo Aleixo, mais ou menos 20 lanchas e vários barcos de pesca e todos passaram pelo lado do sul; que sempre pescou naquele local sem nenhum problema e que conhece a ilha e toda região como a palma da mão. Que o depoente fez anexar ao seu depoimento, cópia de uma declaração de sua autoria, sem assinatura, relatando a assistência prestada ao mesmo pelo senhor Cláudio Cabral Simões, ver folha nº 13. Francisco Cardoso da Silva Filho, conhecido por Falcão, marinheiro auxiliar de convés, que estava em seu barco de passeio, navegando em direção a ilha de Santo Aleixo, quando viu pela sua proa uma bateira e duas bóias de sinalização a mais ou menos 10 metros da bateira; que por BB viu se aproximando duas embarcações, sendo uma maior e outra menor; que a maior ao ver o seu bardo, passou pela popa e a menor entre a sua proa e a bateira e as bóias; isto a mais ou menos 20 metros; que a sua embarcação embora sendo de passeio é pesada, navega a baixa velocidade e tem um calado de 1 metro e meio; que por conta deste fato não passa sobre as pedras, desviando para BE para entrar pela baliza; que a embarcação de pouco calado pode na maré de enchente passar sobre as pedras, local onde se encontrava o mergulhador; que, após a lancha passar, viu um dos mergulhadores fazendo sinal para a lancha; que ao se aproximar mais, o mergulhador fez sinal e o depoente se aproximou mais ainda; que quando chegou no local o mergulhador estava subindo na bateira e viu que estava ferido na perna esquerda; que falou para ele fazer um torniquete e folgar a cada 5min, enquanto iria pedir ajuda a uma embarcação mais veloz; que fez comunicação por rádio pedindo socorro a uma embarcação mais próxima da ilha de Santo Aleixo; que se dirigiu a lancha Mar de Espanha, que já estava fundeada na ilha, distante em linha 3

reta, aproximadamente 100 metros do local onde estava o mergulhador; que falou para o responsável da embarcação, que tinha passado por cima de um mergulhador, ele ficou com voz alterada dizendo que não tinha culpa; o depoente falou que não estava ali para julgar, e sim, querendo um socorro para um acidentado; que o responsável pela lancha escutou pelo rádio as transmissões; que algumas pessoas que estavam na embarcação procuraram acalmá-lo e encontrar uma solução; que ele falou que não sabia entrar na Barra de Sirinhaém; o depoente falou para socorrer o rapaz que ele por rádio mandaria outra lancha para Boca da Barra indicar o caminho; que o condutor da lancha fez o reboque da bateira até a Boca da Barra; acrescentou ainda o depoente que a lancha MAR DE ESPANHA passou entre a bateira e as duas bóias; que no local onde ocorreu o acidente é comum o tráfego de embarcações de menor calado, na maré de enchente; que as embarcações aumentam a velocidade para praticamente planar na água; que aquela embarcação vinha em velocidade normal para aquele local. Roberto Belo da Silva, conhecido por Betinho, que faz pesca de mergulho, por esporte, no local onde ocorreu o acidente a mais ou menos 3 anos; ao ser perguntado qual a distância do local do acidente em relação a bateira, respondeu; da bateira para o Cal, uns 17 metros; que se encontrava a mais ou menos 10 metros do Cal; que não viu a lancha bater nele, pois estava mergulhado; que ao subir viu o Cal pedindo socorro para o depoente e para o seu filho; que chegou na bateira, remaram até ele e o puxaram para cima; que na hora que ele estava gritando, a lancha seguia para Santo Aleixo; que as bóias ou defensas são amarradas nas espingardas e ficavam a mais ou menos 10 metros do depoente e do Cal; que as lanchas passavam pelo lado sul, entrando pela baliza e a lancha que atingiu Cal, veio em linha reta, passando entre a bóia e a bateira; acrescentou o depoente que após Falcão pedir apoio, o condutor da lancha voltou para prestar socorro; que o proprietário da lancha pediu desculpa ao Cal e foi saindo, quando o Cal 4

falou, como é que vai ficar, eu tenho família, tendo ele falado, você tem que andar com sinalização, tendo o depoente dito que tinha duas bóias na água. Claudio Cabral Simões, Arrais Amador, proprietário da lancha de nome fantasia MAR DE ESPANHA, o mesmo disse que, como não há qualquer prova contundente sobre a conclusão do choque da lancha com o pescador, declara que prestará rigorosamente todas as informações necessárias com base nos fatos que permeiam esta possibilidade; que antes de possuir embarcação já freqüentava a ilha de Santo Aleixo, junto com amigos; que em 1999 adquiriu a 1ª embarcação e desde então, rigorosamente em todo verão, de acordo com as condições do mar que entendia como boas, saía da ponta de Serrambi para a citada ilha; ao ser perguntado, no momento que o senhor não tem certeza que foi o autor da colisão com o pescador, por que assumiu ou custeou parcialmente as despesas decorrentes do ferimento sofrido pelo pescador, respondeu: sendo esta uma possibilidade, preferiu por questões de princípio e formação dar ajuda ao pescador; que foi informado quando da sua chegada a praia da ilha, através de um barco utilizado em passeios turísticos que havia um bote com um pescador lhe solicitando socorro, uma vez que dizia ele ter sido tocado quando mergulhava, por sua embarcação; que imediatamente recolheu âncora e rumou ao bote citado para observar o que havia acontecido; que naquele momento foi informado pelo pescador de que não havia observado sua bóia, bóia esta que se tratava de um pedaço de isopor bastante deteriorado que possivelmente se confundia com a cor do mar; que informou ao pescador que a sinalização correta para o mergulho não era aquela e sim, sinalização bandeirada, ou seja, acima do nível do mar, de qualquer forma por uma questão humanitária, rebocou o pequeno bote onde ele se encontrava com o pé para cima, aparentemente, com pequeno sangramento; que não conhecia a entrada da barra que da acesso a praia de Sirinhaém, rebocando o bote até a entrada da barra, quando foi ajudado por uma embarcação que deu continuidade ao socorro; que assim que o 5

pescador passou para a outra embarcação, solicitou ao filho dele que fornecesse o nome do acidentado e telefone de contato; que a partir daquele momento, ainda no mar, fez contato com a Capitania dos Portos, relatando o ocorrido e prestando as primeiras informações; ao ser perguntado se no trajeto em direção a ilha de Santo Aleixo, viu um bote com um possível pescador e nas proximidades do mesmo, bóias sinalizadoras ou mesmo pedaços de isopor, demonstrando a presença de rede de pesca ou mergulhador em operação, respondeu: viu o bote com duas pessoas dentro, a BB, aproximadamente a 100 metros, com uma bóia a cerca de 2 metros do referido bote, o que lhe garantia a distância suficiente para passar com a sua embarcação. Paulo Roberto Chaves Vieira, publicitário, declarou que saíram de Serrambi em direção a ilha de Santo Aleixo; que quando chegaram na ilha e desceram da lancha, chegou uma embarcação informando que nós havíamos passado por cima de um pescador; que foram até o local indicado por aquela embarcação e viram que havia um bote sendo puxado por uma lancha; que naquele bote havia uma pessoa com o pé para cima; que perguntaram o que houve, tendo aquela pessoa falado que a nossa lancha havia passado por cima dele; acrescentou o depoente que na sua opinião, foi uma falta de responsabilidade estar naquele local, sem nenhuma sinalização, no meio do nada; que não sabe se foi a lancha que o atingiu, porque ninguém viu nada. Francisco Neves Teixeira, conhecido por Manga Rosa, ajudante de pedreiro, que, por ocasião do acidente com o seu pai, conhecido por Cál, estava secando a água da canoa (bateira); que, quando levantou a vista, viu o seu pai lhe chamando e o sangueiro na água, e a lancha já estava a uns 20 metros de distância; que a mesma era branca, com cabine branca, com uma cobertura tipo lona e tinha mais ou menos 6 pessoas; que o seu pai ao ser atingido, estava bem em frente a bateira, uns 20 metros; que havia duas bóias indicando a presença de mergulhadores, na cor branca com as pontas azuis, de material tipo borracha; que a distância do local onde seu pai foi 6

atingido e as bóias era cerca de 8 metros; que o Cál usava roupa de mergulho na cor cinza; que a embarcação que atingiu seu pai, passou próximo ao bico da bateira e próximo das bóias; ao ser perguntado se tem certeza que a lancha que atingiu o seu pai foi a mesma que voltou para prestar socorro, respondeu, tenho, porque tinha um moreno forte e uma pessoa mais magra e reconheceu também por conta da capota tipo lona com armação de alumínio. Foi procedida perícia, conforme o laudo de exame pericial, folhas nº 74/76, onde os peritos afirmam que a embarcação de esporte e/ou recreio de nome fantasia MAR DE ESPANHA, encontrava-se em bom estado de conservação, apresentando ranhuras no hélice de 3 pás e algumas no casco pela proa; que os coletes salva-vidas estavam sem marcação, contrariando o preconizado na NORMAM 03 de 2002; que, segundo informação da vítima, Sr. Cláudio Manoel Teixeira, no momento do acidente encontrava-se pescando de mergulho em apnéia; que os pescadores utilizaram como meio de transporte para o local do acidente, uma bateira de 3,5 metros de comprimento, de fundo chato, inadequada para navegação na área em ocorreu o acidente; que o material de sinalização era composto de duas defensas de cor branca e a própria bateira; que foi emitido um laudo preliminar a respeito das lesões sofridas pelo Sr. Cláudio Manoel Teixeira, em decorrência do acidente, do Hospital Getúlio Vargas, onde consta, lesão do músculo tibial anterior esquerdo, ver folha nº 52. Que a comissão de peritos, complementando o laudo de exame pericial, utilizando-se de uma embarcação da inspeção naval, realizou o trajeto empreendido pela Lancha MAR DE ESPANHA, nas condições aproximadas de maré por ocasião do acidente. Verificando que o local onde ocorreu o acidente, tem uma profundidade na baixa mar, cerca de 4 metros e é considerado área navegável, mesmo em fundo de pedra. Que o fator material contribuiu para o acidente, por falta de bóia de sinalização adequada para a prática de mergulho (bóia de marcação de mergulho autônomo, que 7

poderia ser de qualquer cor, porém deveria ter a devida bandeira na cor vermelha e branca, indicativa de mergulhador na área). Acrescentou ainda a comissão de peritos, que o fator operacional contribuiu para o acidente, tendo em vista o descumprimento da Regra 5 do RIPEAM, por parte do condutor da lancha MAR DE ESPANHA. Concluído que as causas determinantes do acidente estão contidas nos fatores material e operacional citados. Que a embarcação (bateira) utilizava pelos pescadores/mergulhadores no trajeto entre Barra de Sirinhaém e as imediações da ilha de Santo Aleixo, era incompatível, para navegação em mar aberto. No relatório o encarregado do inquérito concluiu: Fator material contribuiu, tendo em vista a ausência de bóia de marcação de mergulho autônomo, muito embora a vítima estivesse utilizando uma defensa de cor branca para marcar o local do mergulho e amarrar os peixes; e Fator operacional contribuiu, deficiência de vigilância, por parte do condutor da lancha MAR DE ESPANHA, tendo em vista o descumprimento da Regra 5 do RIPEAM (Vigilância Toda embarcação deverá manter, permanentemente, vigilância apropriada, visual e auditiva, bem como, através e todos os meios apropriados às circunstâncias e condições predominantes, a fim de obter inteira apreciação da situação e do risco de colisão ). Vale ressaltar que nas proximidades do local onde se encontrava a vítima, havia outro mergulhador, também com uma defensa e a bateira, que indicava no mínimo, a presença de rede de pesca/pescadores e ou mergulhadores. Que, em face do que foi dito e apurado, permite considerar como possíveis responsáveis pela colisão, a própria vítima, o Senhor Claudio Manoel Teixeira, por imprudência em mergulhar em área considerada navegável, sem utilizar a correta bóia de marcação para mergulho autônomo; e 8

O condutor da lancha MAR DE ESPANHA, Senhor Claudio Cabral Simões, por descumprir a Regra 5 do RIPEAM. A PEM, em uniformidade de entendimento com o relatório, ofereceu representação em face dos indiciados com fulcro nos arts. 14, letra a (colisão) e 15, letra e (todos os fatos) da Lei nº 2.180/54. Cláudio Manoel Teixeira, alega em sua defesa que o requerente foi vítima de colisão no dia 5 de janeiro de 2003, quando pescava em sua bateira nas proximidades da ilha de Santo Aleixo, pela lancha MAR DE ESPANHA cuja hélice lhe causou profundo ferimento na perna esquerda com lesão do músculo tibial anterior conforme doc 2, ora acostado, bem como lesão dos extensores dos dedos do pé (doc. 3). Convém salientar, Doutor julgador, que conforme se verifica na própria representação (3) o requerente utilizava material de sinalização duas defensas de cor branca e a própria bateira (grifo nosso) além de também próximo ao requerente encontrarem-se outros 2 pescadores efetuando o mesmo mister e que, por pouco não foram atingidos. Sendo, pois, impossível que uma qualquer pessoa sóbria, atenta, vigilância e devidamente qualificada (grifo nosso) não visualizasse o grupo. Corrobora o que se explicita o depoimento do Sr. Francisco Cardoso da Silva Filho às fls. 16. É ainda importante e necessário salientar que até 2 meses antes do acidente a lancha MAR DE ESPANHA era pilotada por marinheiros já que o proprietário não tinha prática, tendo o filho do requerente Severino dos Ramos de Assis, trabalhado com o referido dono. No item 7 da representação convém destacar a afirmação dos peritos de que o local deve ser evitado pelas embarcações. Não procede o que consta no item 6 da representação pois o requerente jamais foi transferido para Clínica particular em Recife pelo primeiro representado. Este lhe 9

omitiu socorro só retornando quando a lancha TORTUGA foi ao seu encalço. Todo tratamento foi no Hospital Getúlio Vargas e sua lesão dos dedos do pé é irreversível. Por todo o exposto espera ter demonstrado que não houve negligência de sua parte pois estava sinalizado e foi uma vítima dos que fazem do mar sua recreação contra os que buscam nele sua sobrevivência. Já a defesa de Cláudio Cabral Simões, argumentou que as defensas utilizadas para sinalização pelo pescador Claudio Manoel (2º representado), estavam conforme comprovado pelas fotos, com sua cor bastante alterada, ou seja, fora do seguro e recomendável, sendo perfeitamente possível não serem percebidas ou mesmo confundidas com objetos que são lançados ao mar. Não havia portanto, sinalização própria e definitiva de que havia presença de homens mergulhando naquela área. No momento em que foi avisado pelo piloto de uma embarcação de passeio, que alguém pedia socorro, mesmo não havendo qualquer certeza de que realmente o acidente havia sido provocado por sua embarcação, prestou imediato socorro à vítima. O trajeto realizado por embarcações pelo lado sul da ilha de Santo Aleixo, conforme citado por um pescador no laudo, é normalmente feito por embarcações que partem de Toquinho e Barra de Serinhaém ou mesmo embarcações de menor porte que encontram dificuldade em navegar em mar aberto. O trajeto pelo lado norte, é comumente utilizado por barcos que partem de porto de Galinhas e Serrambi (local de partida da embarcação). No tocante ao descumprimento à regra nº 5 do RIPEAM citado no laudo, a utilização de material impróprio para mergulho além da localização arriscada e imprudente do pescador, poderiam ter motivado sobremaneira o citado descumprimento. A partir de tais ponderações e dentro do melhor direito de defesa, baseado no mandado de citação, torna-se imperioso ratificar os seguintes pontos: 10

1 Apesar de ter prestado socorro à vítima, não há provas contundentes e definitivas de que o acidente tenha sido provocado pela embarcação em questão. 2 Ainda assim considerando essa possibilidade, conforme o próprio mandato de citação aponta em um de seus parágrafos, a forma de sinalização utilizada pelo mergulhador, foi considerada marcação imprópria para indicação de mergulhador na área. 3 Também com base na perícia, a sinalização inadequada e, em péssimo estado de conservação, contrapõe a idéia de sua fácil visualização. Conforme as fotos da perícia, as ditas defensas de cor branca se tratavam de 2 pedaços de isopor sem forma definida, bastante corroídos pela ação do tempo, cuja coloração e tamanho em nada se aproximam, conforme comprovado, da sinalização exigida para a prática de mergulho em condições minimamente seguras. 4 Em outra prova pericial, constatou-se que: o local do acidente é considerado área navegável, apesar de possuir fundo de pedra, porém, segundo os peritos, por questões de segurança e, quando devidamente balizado, o local deve ser evitado pe las embarcações.. Sobre este ponto, cabem as seguintes considerações: a) Com base na perícia realizada no material utilizado pelo mergulhador, pode-se concluir em definitivo, que não havia balizamento adequado; b) Não existe qualquer apontamento formal, sobre qual o momento exato em que as embarcações devem evitar aquele local, considerado área navegável, e na ocasião com profundidade suficiente para tal; e c) Vale observar que o litoral nordestino, em particular o Pernambucano é conhecido por possuir o fundo do mar com formação de pedras e arrecifes, em praticamente toda sua extensão. 11

5 Quanto ao descrito no 12º ponto do mandado de citação, vale salientar que em qualquer momento o 1º representado reconhece aquele trecho de navegação, como sabidamente utilizado por mergulhadores para pesca submarina. Por todo o exposto, requer à esta corte considerar que, os fatos que levaram à esse processo, além de não evidenciarem responsabilidade do 1º representado, em última análise foram causados por uma atitude inconseqüente e imprópria do 2º representado. Na fase de instrução nenhuma prova foi produzida. Em alegações finais, manifestaram-se as partes. De tudo o que consta nos presentes autos, verifica-se que a causa determinante da colisão da lancha com mergulhador foi a prática de mergulho, em área navegável, sem a utilização de bóia indicativa de mergulho autônomo. A unanimidade da prova produzida nos autos, inclusive o depoimento da própria vítima, são contundentes em afirmar que o mergulho era praticado em área navegável e não possuía bóia de marcação, com bandeira na cor vermelha e branca indicativa de mergulhador na área. Ao contrário, o mergulhador acidentado utilizava-se de dois pedaços de isopor sem forma definida, corroídos pela ação do tempo. Assim não se pode afirmar que houve falta de vigilância por parte do condutor da lancha diante da precariedade da sinalização de mergulho e mais a embarcação utilizada como apoio para o mergulho era inadequada para navegar no local onde encontrava-se. Diante do exposto, deve ser julgado parcialmente procedente a representação, considerando-se responsável o 2º representado, diante de suas condutas imprudentes e exculpando-se o 1º representado uma vez que a sua defesa deu conta de demonstrar que não houve deficiência de vigilância praticada pelo mesmo. 12

Assim, A C O R D A M os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente: colisão de lancha com mergulhador, provocando lesões corporais no mesmo; b) quanto à causa determinante: inexistência de sinalização adequada de mergulhador na área; c) decisão: julgar o acidente da navegação, previsto no art. 14, letra a, da Lei nº 2.180/54, como decorrente da imprudência do 2º representado CLAUDIO MANOEL TEIXEIRA (MAC), mergulhador acidentado, deixando-se de lhe aplicar pena diante do que preceitua o art. 143, da Lei supra, exculpando-se o 1º representado. Isento de custas. Oficiar à Diretoria de Portos e Costas informando as infrações aos arts. 16 e 17 do RLESTA, da responsabilidade do proprietário da lancha MAR DE ESPANHA.P.C.R. Rio de Janeiro, RJ, em 15 de fevereiro de 2005. MARCELO DAVID GONÇALVES Juiz-Relator WALDEMAR NICOLAU CANELLAS JÚNIOR Almirante-de-Esquadra (RM1) Juiz-Presidente 13