DIREITO CIVIL I. Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro... 002 II. Pessoas Naturais e Pessoas Jurídicas... 013 III. Domicílio e Bens... 025 IV. Dos Fatos Jurídicos... 030 V. Prescrição e Decadência... 044 VI. Prova... 047 VII. Obrigações... 050 VIII. Contratos... 055 IX. Atos Unilaterais... 066 X. Responsabilidade Civil... 073 XI. Direito das Coisas: posse e propriedade... 078 XII. Direitos Reais: superfície, servidão, usufruto, uso, habitação, direito do promitente comprador, penhor, hipoteca e anticrese... 087 XIII. Do direito de Família... 097 XIV. Do direito das Sucessões... 136 XV. Títulos de Créditos... 179 XVI. Das Preferências e Privilégios Creditórios... 188 XVII. Bens Sonegados. Colações. Pagamento de Dívidas... 190 XVIII. Lei nº 8.078/90 - Código de Defesa do Consumidor... 193 XIX. Lei nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente... 218 XX. Lei nº 9.610/98 - Direitos Autorais... 297 XXI. Lei nº 10.931/94 - Patrimônio de Afetação de Incorporações Imobiliárias, Letra de Crédito Imobiliário, Cédula de Crédito Imobiliário, Cédula de Crédito Bancário... XXII. Lei nº 11.441/07 - Inventário, Partilha, Separação Consensual e Divórcio Consensual por Via Administrativa... 299 302 1
DIREITO CIVIL (...) I. DAS PESSOAS 1. PESSOA NATURAL 1.1. Início A personalidade civil começa com o nascimento com vida, o que se constata com a respiração. Nascendo vivo, ainda que morra em seguida, o novo ente chegou a ser pessoa, adquiriu direitos, e com sua morte os transmitiu. Antes do nascimento não há personalidade. 1.2. Nascituro O nascituro não é sujeito de direito, mas o artigo 2 ressalva os direitos do nascituro, desde a concepção. Os direitos assegurados ao nascituro encontram-se em estado potencial, sob condição suspensiva. Nascendo com vida, a sua existência, no tocante aos seus interesses, retroage ao momento de sua concepção. Assim, o direito protege a expectativa de um futuro sujeito de direitos. 1.3. Extinção Somente com a morte real termina a existência da pessoa natural, que também pode ser simultânea. Da doutrina: a) morte real prevista no art. 6 do CC. Prova pelo atestado de óbito ou pela justificação, em caso de catástrofe e não ser encontrado o corpo. Acarreta a extinção do poder familiar, a dissolução do vínculo familiar, a extinção dos contratos personalíssimos, a extinção da obrigação de pagar alimentos etc; b) morte simultânea ou comoriência, prevista no art. 8 do CC. Se dois ou mais indivíduos falecerem na mesma ocasião, não se podendo averiguar qual deles morreu primeiro, presumir-se-ão simultaneamente mortos. Não há transferência de bens entre comorientes; 2
c) morte civil, morte fictícia, relegada no direito atual. Tratava-se de uma penalidade imposta aos direitos do cidadão, que era considerado falecido e perdia a cidadania e todos seus bens, os quais eram transmitidos a seus herdeiros. Alguns autores visualizam resquícios desse instituto no art. 1816 do Código Civil. d) morte presumida, com ou sem declaração de ausência. Presume-se a morte, quanto aos ausentes, nos casos em que a lei autoriza a abertura de sucessão definitiva. A declaração de ausência produz efeitos patrimoniais, permitindo a abertura de sucessão provisória e, depois, a definitiva (art. 7 do CC). 1.4. Capacidade Toda pessoa é dotada de personalidade, isto é, tem capacidade para figurar em uma relação jurídica, para adquirir direitos e contrair obrigações. Assim, capacidade é a medida da personalidade. A que todos possuem é a capacidade de direito, de aquisição e gozo de direitos. Porém nem todos possuem a capacidade de fato, que é a aptidão para exercer, por si só, os atos da vida civil, também chamada de capacidade de ação. Os recém-nascidos e os loucos têm somente a capacidade de aquisição de direitos, mas não têm a capacidade de fato. Podem herdar, mas não podem propor qualquer ação em defesa da herança recebida, precisam ser representados pelos pais e curadores. Assim, tem capacidade plena quem possui as duas espécies de capacidade (de direito e de fato), que se atinge com 18 anos. Tem capacidade limitada quem só tem a capacidade de direito, e por isso necessita de outra pessoa que substitua ou complete sua vontade. São chamados incapazes. A incapacidade é a restrição legal aos atos da vida civil. Observe-se que no direito brasileiro só existe incapacidade de fato ou exercício, mas não existe incapacidade de direito, pois, ao nascer, todos se tornam capazes de adquirir direitos, conforme o art. 1 do CC. 1.4.1. Espécies de incapacidade A incapacidade pode ser absoluta ou relativa. A ABSOLUTA acarreta a proibição total do exercício, por si só, do direito. O ato somente poderá ser praticado pelo representante legal do absolutamente incapaz, sob pena de nulidade. O incapaz não participa do ato, que é praticado apenas pelo seu representante. 3
Art. 3. São absolutamente incapazes: a) os menores de dezesseis anos: são os menores impúberes, que ainda não atingiram maturidade suficiente para participar da atividade jurídica; b) os privados do necessário discernimento por enfermidade ou deficiência mental: refere-se a todos os casos de insanidade mental, permanente e duradoura, caracterizada por graves alterações das faculdades psíquicas; c) os que, mesmo por causa transitória, não puderem exprimir sua vontade: diferentemente do item anterior, são as pessoas que não se encontram em perfeitas condições de exprimir sua vontade em determinado momento, por causas transitórias, tais como: ausência, embriaguez não eventual, uso eventual e excessivo de entorpecentes ou substâncias alucinógenas, hipnose, paralisia, excessiva pressão arterial etc. A RELATIVA permite a prática de atos da vida civil desde que assistido, sob pena de anulabilidade. Reconhece-se ao relativamente incapaz certo discernimento e, portanto, ele praticará o ato acompanhado, com a assistência de seu representante. Art. 4. São relativamente incapazes: a) os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos: são os menores púberes. b) os ébrios habituais, os viciados em tóxicos e os deficientes mentais de discernimento reduzido: os alcoólatras e toxicômanos, que são viciados no uso e dependentes de substâncias alcoólicas ou entorpecentes. Os deficientes mentais de discernimento reduzido são os fracos de mente ou fronteiriços, com gradação intermediária de debilidade mental. c) os excepcionais sem desenvolvimento mental completo: os surdos-mudos (e demais excepcionais) que, por não terem recebido educação adequada e permanecerem isolados, ressentem-se de um desenvolvimento mental completo. Se a tiverem recebido, e puderem exprimir plenamente sua vontade, serão capazes. d) os pródigos: são os indivíduos que dissipam seu patrimônio desvairadamente. Trata-se de um desvio de personalidade, e não propriamente de estado de alienação mental. Importante salientar que o pródigo só ficará privado de praticar atos que extravasam a mera administração e implicam comprometimento do patrimônio, como emprestar, transigir, dar quitação, alienar, hipotecar, demandar ou ser demandado. Poderão praticar validamente, e por si só, os atos da vida civil que não envolvam seu patrimônio. 4
O atual Código Civil excluiu os silvícolas do rol de sujeitos relativamente incapazes. A capacidade dos índios será regulada por legislação especial. A tutela do índio não integrado à comunhão nacional tem a finalidade de protegê-lo, à sua pessoa e aos seus bens. O Ministério Público Federal funcionará nos processos em que haja interesse dos índios e, inclusive, proporá as medidas judiciais necessárias à proteção de seus direitos. Há, também, a questão da legitimidade para os atos da vida civil, mas que só será questionada nos casos estabelecidos pela lei. Exemplos: venda de bens imóveis por um dos cônjuges (é necessária a outorga marital ou uxória, exceto no regime de separação absoluta de bens) ou feita por ascendente a descendente (é necessária a anuência dos demais descendentes). 1.4.2. Cessação da incapacidade Cessa a incapacidade quando cessar sua causa (enfermidade mental, menoridade, etc.) ou quando houver emancipação (com, no mínimo, 16 anos). A emancipação pode ser voluntária, judicial ou legal. A voluntária é a concedida pelos pais, se o menor tiver dezesseis anos completos (por instrumento público, independente de homologação judicial); a judicial é concedida por sentença, ouvido o tutor, em favor do tutelado que já completou dezesseis anos; a legal é a que decorre de fatos previstos na lei como o casamento, o exercício de emprego público efetivo, a colação de grau em curso de ensino superior e o estabelecimento com economia própria, civil ou comercial ou existência de relação de emprego, tendo o menor dezesseis anos completos. A voluntária deve ser concedida por ambos os pais. A impossibilidade de qualquer deles participar do ato, por se encontrar em local ignorado ou por outro motivo relevante, deve ser devidamente justificada em juízo. Havendo divergência entre si, tal deverá ser dirimida pelo juiz. Ademais, a emancipação voluntária não produz o efeito de isentar os pais da obrigação de indenizar as vítimas dos atos ilícitos praticados pelo menor emancipado, para evitar emancipações maliciosas. A voluntária e a judicial, para que produzam efeitos, devem ser registradas em livro próprio no Registro Civil da comarca do domicílio do menor, anotando-se também, com remissões recíprocas, no assento de nascimento. Quando concedida por sentença, o juiz deve comunicar, de ofício, a concessão ao escrivão do Registro Civil. A emancipação legal independe de registro e produzirá efeitos desde logo, ou seja, a partir do ato ou do fato que a provocou. Em qualquer forma, a emancipação é irrevogável, o que não impede o reconhecimento da invalidade do ato. 5
1.5. Ausência A lei autoriza que o juiz declare ausente a pessoa desaparecida de seu domicílio. Para que se verifique o desaparecimento não basta o afastamento da pessoa do lugar em que reside, por mais prolongado que seja. É necessário que se tenha perdido totalmente as notícias sobre a pessoa e seu paradeiro. A lei é, inclusive, redundante, ao dizer que será declarada a ausência da pessoa que desaparecer sem dela haver notícia (art. 22 do CC). Para que seja decretada a ausência de uma pessoa é necessário que o desaparecido não tenha representante ou procurador cuidando de seus negócios e bens. Não exige a lei prazo mínimo para a caracterização do desaparecimento, nem determina que se diligencie a procura do desaparecido. Convencendo-se de que certa pessoa está realmente desaparecida e seus interesses encontram-se ao desamparo, o juiz, a pedido de qualquer interessado, declarará a sua ausência. A primeira consequência dessa declaração é a arrecadação dos bens do ausente e a nomeação de um curador para esses bens, fixando seus poderes e obrigações. Depois de transcorrido um ano da arrecadação dos bens da pessoa declarada judicialmente ausente, os legalmente tidos por interessados (art. 27 do CC) podem requerer ao juiz a abertura da sucessão, que, inicialmente, terá caráter provisório. Também pode ser requerida a abertura de sucessão provisória da pessoa desaparecida que possuía representante ou procurador, se o desaparecimento perdura por três anos. Na sucessão provisória o ausente preserva a propriedade de sues bens, mas a posse é dada aos seus presumíveis sucessores. O curador dos bens do ausente, assim como o representante e o procurador do desaparecido, é dispensado de suas funções e a responsabilidade pela administração dos bens passa a ser do titular do direito à posse provisória. Durante a fase da sucessão provisória nenhum bem imóvel do ausente pode ser, como regra, alienado ou hipotecado, para impedir a perda dos bens. Há duas exceções, contudo: o imóvel pode ser desapropriado (que é uma hipótese de alienação) ou pode alienado ou hipotecado, mediante autorização judicial, para evitar sua ruína. Em relação aos bens móveis, quando sujeitos a deterioração ou a extravio, o juiz pode ordenar sua venda e posterior emprego do valor obtido em investimento de perfil conservador, lembrando a lei de imóveis e títulos federais (art. 29 do CC). 6