A INFLUÊNCIA DO SANEAMENTO AMBIENTAL NA PRESERVAÇÃO DA LAGOA OLHO D ÁGUA



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Transcrição:

A INFLUÊNCIA DO SANEAMENTO AMBIENTAL NA PRESERVAÇÃO DA LAGOA OLHO D ÁGUA Maria de Lourdes Florencio dos Santos (1) Engenheira Civil (UFPE), Mestre em Hidráulica e Saneamento (EESC- USP), Ph.D em Tecnologia Ambiental (Wageningen Agricultural University LUW-Holanda). Profa. Adjunto do Depto. de Eng. Civil-UFPE. Autora de vários artigos científicos publicados em anais de congressos bem como em periódicos especializados nacionais e estrangeiros. Mario Kato Eng. Civil (UFPR), Mestre em Hidráulica e Saneamento (EESC-USP), Ph.D em Tecnologia Ambiental (LUW-Holanda). Prof. Adjunto do Depto. de Eng. Civil-UFPE. Coordenador e membro da equipe técnica de vários convênios da UFPE com órgãos públicos, de fomento e prefeituras. Autor de vários artigos científicos publicados em periódicos especializados nacionais e estrangeiros. Endereço (1) : Grupo de Saneamento Ambiental - Depto. de Engenharia Civil - Centro de Tecnologia e Geociências - Universidade Federal de Pernambuco - Av. Acadêmico Hélio Ramos, s/n - Recife - PE - CEP: 50740-530 - Brasil - Tel: (081) 271-8228 / 8220 - Fax: (081) 271-8205 / 8219 - e-mail: florencio@npd.ufpe.br. RESUMO A Lagoa Olho d água, situada em Jaboatão dos Guararapes, é a principal lagoa natural na costa de Pernambuco, sendo uma das maiores dentro de zona urbana no Nordeste e no país. A importância ambiental da Bacia do Olho d água e consequentemente, o interesse na proteção da lagoa em si, se devem primeiramente por ser ela a única de restinga remanescente no estado. Nos últimos dez anos entretanto, tem ocorrido uma forte pressão econômica e social, principalmente em função da ocupação crescente da área da bacia e mesmo no entorno da lagoa, para construção de moradias, conjuntos habitacionais e edifícios. Como conseqüência, muitos dos recursos naturais na bacia, tais como, água, solo, fauna e flora nativas, vêm se deteriorando, resultando em graves problemas de ordem sanitária-ambiental, de saúde pública e sócio-econômicos. O presente trabalho apresenta uma avaliação e diagnóstico da situação sanitária atual baseado em dados em estudos existentes bem como coletados em campo. Algumas proposições para as intervenções necessárias à recuperação ambiental da lagoa também são apresentadas. PALAVRAS-CHAVE: Saneamento Ambiental, Revitalização, Gerenciamento Ambiental. 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2163

INTRODUÇÃO A Lagoa Olho d água, situada em Jaboatão dos Guararapes, é a principal lagoa natural na costa de Pernambuco, sendo uma das maiores dentro de zona urbana no Nordeste e no país. Seu espelho d água tem uma área de 3,75 Km 2, possuindo aproximadamente 3,5 Km de comprimento por 1,9 Km de largura. A área da bacia hidrográfica da lagoa é de 33,5 Km 2 e abrange a parte de grande e crescente densidade populacional do município, desde a orla marítima (praias de Piedade, Candeias e Barra de Jangada) até a BR-101 Sul, no sentido lesteoeste, e da divisa com o município de Recife até a zona estuarina do Rio Jaboatão, no sentido norte-sul. A população estimada na bacia é de cerca de 200 000 habitantes. A lagoa em si também é singular por ser um meio de ligação hídrica entre dois estuários da Região Metropolitana do Recife. Através do Canal Olho d água liga-se ao estuário formado pela foz dos rios Jaboatão e Pirapama, em Barra de Jangada, e através do Canal Setúbal, ao estuário do rio Pina, na confluência dos rios Tejipió, Jordão e Capibaribe, em Recife. A importância ambiental da Bacia do Olho d água e consequentemente, o interesse na proteção da lagoa em si, se devem primeiramente por ser ela a única de restinga remanescente no estado. Além disso, a área no entorno da lagoa pertence a um importante ecossistema estuarino de cerca de 3,7 Km 2, sendo portanto, uma área de preservação ambiental. Adicionalmente, esta área estuarina é importante por ser também uma fonte de subsistência de pescadores artesanais. Nos últimos dez anos entretanto, tem ocorrido uma forte pressão econômica e social, principalmente em função da ocupação crescente da área da bacia e mesmo no entorno da lagoa, para construção de moradias, conjuntos habitacionais e edifícios. Dentre os fatores que influenciam esta ocupação se destacam: a disponibilidade de área, a valorização das praias e mais recentemente, as atividades de turismo. Como conseqüência, muitos dos recursos naturais na bacia, tais como, água, solo, fauna e flora nativas, vêm se deteriorando, resultando em graves problemas de ordem sanitário-ambiental, de saúde pública e sócio-econômicos. A falta de planejamento acarretou uma ocupação desordenada do solo havendo muitos problemas fundiários, bem como a falta de infra-estrutura urbana. Problemas de lixo, poluição das águas e das praias, esgotos domésticos e industriais, alagamentos, invasões e construções ilegais, são problemas visíveis. Há necessidade, portanto, de medidas integradas para a preservação, recuperação e melhoria das condições ambientais da Bacia do Olho d água. Como parte do Programa de Revitalização da Lagoa Olho d água, a Prefeitura Municipal de Jaboatão dos Guararapes -PMJG - estabeleceu metas prioritárias que incluem o esgotamento e o tratamento dos esgotos sanitários, a macro-drenagem, a limpeza urbana, a estruturação e desenvolvimento urbano, o manejo e tratamento paisagístico, a preservação da flora e da fauna, e a educação ambiental. Para o desenvolvimento dessas metas, a PMJG vem se articulando a nível local, estadual, nacional e mesmo internacionalmente, para o desenvolvimento de estudos e projetos específicos. Vários convênios foram firmados ou se encontram a nível de elaboração para esse objetivo. Algumas ações já se encontram em andamento, seja em termos de estudos, seja a nível de execução. 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2164

O presente trabalho se insere dentro do contexto do programa de revitalização, como uma das iniciativas das medidas integradas levadas a cabo pela PMJG para, através de um levantamento sanitário -ambiental, avaliar primeiramente os aspectos críticos da situação atual. Os objetivos são o de fornecer subsídios, como condicionante, às proposições para os sistemas de saneamento futuros. Este trabalho visa também, juntamente com outras medidas, integrar-se aos diversos aspectos necessários a um gerenciamento ambiental para a bacia da Lagoa Olho d água em Jaboatão dos Guararapes. METODOLOGIA Este estudo foi realizado em três etapas: a) Estudos existentes e dados complementares: levantamento de estudos, mapas e informações existentes relacionados com saneamento, meio ambiente e dados complementares em órgãos tais como: secretarias e organizações da PMJG, secretarias estaduais da Agricultura, de Planejamento, de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, Federação das Indústrias de Pernambuco (FIEPE), Companhia Pernambucana de Controle da Poluição e Gerenciamento dos Recursos Hídricos (CPRH), Companhia Pernambucana de Saneamento (COMPESA), além das Universidades Federal de Pernambuco (UFPE) e Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a CPRM e o IBGE. b) Dados coletados em campo: levantamento das condições sanitárias de toda a área, inclusive a da lagoa, identificação das fontes poluidoras, coleta de amostras de água para análises em laboratório para avaliação da qualidade da água, visitas e avaliação dos sistemas de tratamento de esgotos sanitários, levantamento de possíveis locais para tratamento descentralizado ou único. c) Avaliação e diagnóstico da situação sanitária atual e as proposições para as intervenções necessárias à recuperação ambiental da lagoa. RESULTADOS Infra-estrutura Sanitária O abastecimento de águas, entre os serviços públicos de infra-estrutura sanitária, é o que apresenta uma maior abrangência e é fornecido regularmente na área da bacia da Lagoa. Entretanto, em algumas áreas próxima à lagoa ainda existem comunidades de baixa renda que não dispõem do serviço público de distribuição de águas, o que as levam a utilizarem poços rasos construídos pelo município ou perfurados por eles mesmos. Em relação aos sistemas de esgotamento sanitário de todo o município, há uma estimativa de que apenas 15% da população é servida por algum tipo de sistema público, sendo que a maioria deles foi construída em conjuntos habitacionais dentro da área de abrangência da lagoa. Entretanto, a operação e a eficiência das estações de tratamento desses sistemas não são satisfatórias. Nas últimas décadas, têm sido muito baixos os investimentos em sistemas de 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2165

esgotamento sanitário pela COMPESA. Por esta razão algumas iniciativas têm sido tomadas pelo próprio município que, para atender a 5 000 famílias em 11 comunidades de baixa renda dentro da bacia da lagoa, está construindo sistemas coletivos e descentralizados ou isolados de baixo custo. A maioria dessas comunidades faz uso de algum tipo de fossa negra cujo efluentes deságuam nos canais ou mesmo no sistema de drenagem pluvial, quando não são dispostos a céu aberto. Para as residências individuais e edifícios da população de poder aquisitivo mais elevado, onde existe infra-estrutura urbana tais como, ruas pavimentadas e galerias de águas pluviais, há uma predominância do uso de fossa séptica seguida por filtro anaeróbio. Contudo, por falta de cuidados operacionais, há transbordamento que causa desconforto, bem como problemas ambientais. Essas águas residuárias se mesclam e contaminam as águas pluviais que são drenadas para os canais conectadas à Lagoa. A área da Lagoa tem topografia plana e baixa, ficando parte dessa área situadas em zonas permanentes ou temporariamente inundada durante a estação chuvosa. Isso implica que, para implantar um sistema de drenagem seria necessário aterrar muitas áreas, de maneira a se definir uma topografia artificial, que permita o lançamento de coletores dotados de declividades suficientes para um rápido escoamento das águas pluviais, que teriam que ser direcionados para os canais ou mesmo diretamente para a lagoa. No presente momento a maioria das águas pluviais são escoadas pelas ruas e solo. O lixo urbano é sem dúvida outra importante fonte de contaminação e poluição da lagoa. O sistema de coleta é porta-a-porta e é terceirizado, feito por uma companhia privada. O lixo coletado é transportado e disposto em um aterro controlado fora da área da lagoa. Cerca de 400 toneladas de lixo por dia são produzidos por todo o município. Há um defict no sistema de coleta o que implica na existência de uma parcela da população não benefíciada pelo serviço. Além da capacidade de todo o sistema ser deficitário, existe uma rede informal de pessoas desempregadas que coletam materiais recicláveis para a venda, deixando os resíduos sólidos sem valor comercial espalhados pelas ruas. Além disso, a população descarrega indevidamente lixo nas ruas e canais, que ao final contribuem para a contaminação e poluição da lagoa. Fontes de Poluição Industrial Os dados possíveis que foram obtidos se referem ao cadastro industrial da PMJG, com relação apenas nominal das indústrias, da CPRH com alguns dados sobre as atividades e geração de resíduos de algumas das indústrias e de levantamento preliminar em campo, com observações pontuais. Deve-se observar que dos dados da PMJG e da CPRH, algumas indústrias estão localizadas no outro lado da rodovia, não contribuindo potencialmente e teoricamente, para a descarga de resíduos líquidos ou sólidos para a bacia da lagoa. Os principais tipos de industrias de médio e grande porte situadas dentro da bacia da Lagoa Olho d água, que se destacam, são as de produtos químicos e mecânicas Existem também indústrias de roupas, calçados e tecidos. 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2166

Problemas e Estudos Ambientais Um dos primeiros estudos para a área de estudos se refere ao Plano Diretor Urbanístico para a Lagoa Olho d água da FIDEM (1979). Este plano era um dos componentes de um plano de desenvolvimento integrado da RMR, visando o seu ordenamento espacial, através de áreas especializadas ou nucleações. A área da lagoa se inseria na Nucleação Sul, destinada para as atividades do setor secundário e terciário. Para a área da lagoa, foram definidos alguns padrões urbanos e de controle do uso do solo. Também se estabelecia a implantação das atividades de turismo e lazer, com as atividades recreacionais compatíveis com a preservação e valorização dos valores ecológicos e paisagísticos. Para a questão ambiental tinha-se como um dos objetivos específicos, o de instruir normas de preservação e de uso das áreas do entorno da lagoa, especialmente do estuário do Rio Jaboatão, como área de reserva biológica. Para a implantação do plano, que se previa em 4 anos (79-82), foram definidas ações indispensáveis, cujos projetos foram considerados nas seguintes prioridades: (1) projeto de lei de uso do solo, projeto executivo de preservação e valorização da lagoa e de suas margens, projeto executivo das áreas de lazer da lagoa e projeto executivo de drenagem; (2) projeto executivo da rede de água, da rede coletora de esgotos sanitários, do sistema viário, de iluminação pública, de distribuição de energia elétrica e projeto piloto de implantação de uma zona residencial; (3) projeto de preservação e constituição de reserva biológica do estuário do Rio Jaboatão, do Centro Turístico da lagoa, de incentivos tributários aos equipamentos especializados de turismo e projeto de expansão do sistema de telecomunicações. O trabalho de Silva (1989) enfoca os aspectos sócio-econômicos e de percepção ambiental em relação às atividades de pesca artesanal na lagoa. Um dos objetivos foi o levantamento dessa atividade junto a pescadores, abordando também a questão e influência da poluição por esgotos domésticos e industriais na lagoa. Na percepção os pescadores, o maior problema relacionado com a pesca estava relacionado com a poluição da lagoa, resultando em falta de peixes. A poluição, cujo aspecto visível era a diminuição da transparência da água e com coloração esverdeada, foi atribuída aos esgotos domésticos e ao lançamento de resíduos industriais. Os pescadores também relataram o problema de aterramento das margens da lagoa, em função dos loteamentos e construções. Uma das recomendações desse trabalho foi o de implantar o monitoramento de efluentes industriais através do uso de bioindicadores, com larvas de sapo, crustáceos e peixes. No levantamento das condições ambientais da região litorânea de Jaboatão dos Guararapes, de Leal (1995), a área de estudo abrange quase a totalidade da bacia da Lagoa Olho d água. Neste trabalho, a planície costeira (arenosa litorânea) foi dividida em 3 subunidades ambientais, a lagunar, a restinga de Candeias e a margem oceânica. No passado, a Lagoa Olho d água teve uma comunicação mais ampla com o mar e atualmente, devido a modificações ocorridas, como também a problemas de assoreamento tem a sua área superficial reduzida. As principais causas do assoreamento são atribuídas aos detritos industriais e esgotos domésticos lançados no canal de Setúbal, à retirada da vegetação original, práticas agrícolas, bem como à ineficiência da drenagem da lagoa pelo canal Olho d água para o Rio Jaboatão. Em levantamento de 1994 constatou-se que nas margens da lagoa havia um alto teor de matéria suspensa, em função da maior ocupação do solo ao redor da lagoa. A restinga de Candeias desempenhou um importante papel na formação da atual lagoa. É um obstáculo natural entre a lagoa e a praia. A 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2167

área de restinga se encontra caracterizada atualmente pela ocupação, devida ao crescimento urbano. De sua área total de cerca de 26,73 Km 2, a ocupação urbana chega a 6,59 Km 2, com crescimento desordenado. Como resultado, verifica-se nessa área, como em toda a bacia da lagoa, um aumento preocupante da poluição, extinção de espécies nativas da fauna e da flora, com descaracterização desse ecossistema. A restinga de Candeias é considerada como a mais típica do estado, se estendendo desde Piedade até Barra de Jangada. Já a margem oceânica é representada pela praia atual e os recifes de arenito. Atualmente se constata que a área de praias vem sofrendo uma acentuada redução, principalmente devido à especulação imobiliária, com ocupação também desordenada da faixa costeira. Há ocupação de faixas de areia e formação de barreira contra o vento. Além da modificação da paisagem natural das praias, há a aceleração do processo de erosão marinha, causando o desaparecimento de trechos de praias e tornando necessárias medidas de contenção do mar. Os molhes de pedra e espigões, entretanto, nem sempre têm se tornado efetivos e muitas vezes, ao contrário, têm causado problemas. Estes se referem aos focos de depósitos de lixo, causando o aparecimento de ratos e baratas, por exemplo, provocando assim, focos de vetores de doenças. Outros problemas ambientais se referem aos entulhos de construção civil depositados nas praias, que durante a maré cheias ocasionam o seu espalhamento pela areias, provocando acidentes e mais poluição. Uma conseqüência bastante visível, a partir do crescimento urbano acelerado em meados da década de 80, tem sido as condições de balneabilidade na zona de praia, com deterioração acentuada, principalmente na parte mais ao sul, que também coincide com a área próxima à foz dos rios poluídos Jaboatão e Pirapama. No trabalho de avaliação do impacto da poluição sobre os recursos pesqueiros do Rio Jaboatão, de Fernandes (1996), é apresentado um diagnóstico ambiental em termos de qualidade da água, com apresentação de dados de várias estações de monitoramento, incluindo a parte estuarina, na qual se inclui também informações sobre a lagoa, através de uma estação no canal Olho d Água. Os dados mais relevantes de qualidade de água desse trabalho e relacionados com a lagoa se encontram nos itens adiante. Esse trabalho se reveste de importância para a lagoa, em função daquele canal de ligação com o Rio Jaboatão, o qual também recebe a contribuição nas proximidades do Rio Pirapama. No trabalho são apresentados os estudos dos impactos do lançamento de esgotos industriais e domésticos e de outros tipos de poluição, sobre os organismos aquáticos. Foram selecionados indicadores de relevância ecológica, referentes aos aspectos físicos, químicos e bacteriológicos e de toxicidade. Como bioindicadores de estresse a nível individual e populacional, foram selecionados algumas espécies de peixe e camarão para os testes. Como resultado geral da qualidade da água, apresenta-se o Rio Jaboatão com pronunciada alteração da sua qualidade de água, ao longo do seu percurso. Na zona estuarina, as piores condições foram detectadas no canal Olho d água, inclusive no tocante aos testes de toxicidade, atribuído aos despejos industriais e domésticos na lagoa. Como resultado final da qualidade da água, a estação de monitoramento nesse canal foi classificada como uma das 3 piores zonas ou zonas críticas, recomendando-se a implantação a curto prazo, de uma avaliação mais profunda da carga orgânica e tóxica para se determinar o grau de tratamento necessário dos esgotos e conseqüente descarga máxima permissível, compatível com a continuidade da vida aquática. Outra importante recomendação se refere à saúde pública, em termos de controle sanitário do pescado, tanto em relação à contaminação fecal, como devido às 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2168

substâncias químicas tóxicas. Dada o grau de poluição hídrica, tanto o contato primário, como o consumo, por exemplo de moluscos e crustáceos mal cozidos, representariam um alto risco à saúde, não se recomendando pois, o consumo daqueles provenientes do Rio Jaboatão, salvo com grande precaução. Qualidade de Água Na bacia da Lagoa Olho d água não existe nenhuma estação de monitoramento de qualidade das águas controladas rotineiramente pela CPRH. Entretanto, alguns dados disponíveis de análises de água conduzidas pela CPRH se referem a amostras coletadas em 1991, conforme mostrados na Tabela 1. Tabela 1: Qualidade da água na lagoa Olho d água (CPRH 1991). PARÂMETRO SEÇÃO 1 SEÇÃO 2 SEÇÃO 3 temperatura (ºC) 28,0 28,0 28,0 ph 9,4 9,0 9,0 DBO (mg/l) 268,9 118,0 80,0 DQO (mg/l) 634,9 396,8 396,8 amônia (mg/l - N) 0,40 0,34 0,36 nitrito (?g/l - N) 6,21 < 1,0 7,14 nitrato (mg/l -N) < 0,05 < 0,05 < 0,05 fosfato (mg/l - P) 0,65 0,80 0,52 coliformes fecais (NMP/100 ml) < 200 < 200 < 200 seção 1: entrada da lagoa Canal Setúbal; seção 2: meio da lagoa; seção 3: saída da lagoa Canal Olho d água Para atualizar e complementar os dados existentes da CPRH, foram efetuadas coletas de amostras de água nas mesmas seções anteriores, acrescentando-se duas, uma no Canal de Setúbal em Vaquejada e outra no Canal Olho d água. Os resultados estão apresentados na Tabela 2. Tabela 2: Qualidade a Água na Lagoa Olho D água. (Laboratório de Saneamento Ambiental - UFPE, Julho a setembro 1996). PARÂMETRO SEÇÃO 0 SEÇÃO 1 SEÇÃO 2 SEÇÃO 3 SEÇÃO 4 temperatura (ºC) 28 29 28 31 28 ph 7,1 7,2 9,7 9,8 9,2 turbidez (NTU) 12 6 13 10 16 cloretos (mg/l) 79 107 481 280 750 condutividade (?S/cm) 558 723 1320 1128 2720 sólidos totais (mg/l) 333 567 1788 817 1951 alcalinidade (mg/l CaCO3) 132 168 87 69 89 O.D. (mg/l) 0,2 0 7,2-9 DQO (mg/l) 68 166 113-250 DBO (mg/l) 28 67 38 60 41 amônia (mg/l-n) 4,2 1,3 1,0 0,6 1,0 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2169

colif. fecais (NMP/100 ml) 1,1 x 10 6 7,6 x 10 5 475 500 2100 seção 0: Canal de Setúbal - Vaquejada; seção 1: entrada Canal Setúbal; seção 2: meio da lagoa; seção 3: saída Canal Olho d água; seção 4: Canal Olho d água - Ponte Estrada da Curcurana. 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2170

Com relação à balneabilidade das praias, os dados da CPRH revelam que em diversas estações de controle a situação não é boa. O fato de que a maioria dos balneários não tem sido indicada como apropriadas para o banho, é especialmente significativo após 1990, em função da urbanização sem o devido cuidado sanitário e ambiental. Um outro fator marcante é a água poluída do Rio Jaboatão e do Rio Pirapama. Uma vez que ambos os rios têm uma foz comum na zona estuarina de Barra de Jangadas, os balneários próximos da costa têm sido sistematicamente classificados nos últimos 5 anos como inadequados para balneabilidade. DISCUSSÃO A área de atuação, a Bacia da Lagoa Olho d água, abriga uma população estimada pela PMJG em 200 000 habitantes, com uma parcela significativa de mais de 100 000 habitantes vivendo em comunidades de baixa renda. Essa área vem se caracterizando nos últimos anos e com muito mais intensidade a partir de 1990, pela rápida urbanização, porém desordenada, sem seguir um plano integrado de ocupação. Como conseqüência, houve uma rápida deterioração das condições ambientais naturais. A disponibilidade e valorização da área vem provocando uma crescente ocupação, seja para a construção de conjuntos habitacionais ou para atividades comerciais e de turismo. Algum esforço tem sido feito pela municipalidade, através da elaboração de um plano de revitalização da lagoa, o qual inclui diversas ações específicas, com o objetivo maior de se ter um desenvolvimento sustentável da bacia, com ênfase na proteção ambiental. Entretanto, a situação atual revela, seja através de inspeção de campo, como de diversos estudos ambientais realizados, que por exemplo, a qualidade da água da lagoa, bem como dos rios Jaboatão e Pirapama, no seu entorno, se encontra significativamente alterada pelos esgotos domésticos. Pode-se concluir que os esgotos domésticos são o principal fator de poluição, entre outras fontes, e que vem causando a crescente deterioração da qualidade da água dos diversos corpos d água. A situação atual também revela que, com poucas exceções, não existe sistema público de coleta e tratamento dos esgotos domésticos. O que existem na bacia da lagoa são sistemas de esgotos sanitários isolados, que atendem alguns conjuntos habitacionais e poucas comunidades de baixa renda. A falta de um sistema público integrado resulta em construção de sistemas individuais, quando existente, para as residências e edifícios, do tipo fossa séptica ou similar. Ainda assim, devido à notória falta de manutenção e operação adequadas de tais sistemas individuais, especialmente quando a capacidade dos tanques se encontra esgotada e o lodo acumulado não é removido, ocorre a extravasão do líquido efluente. Este escoa então pelas ruas, se misturando com as águas pluviais nas galerias de drenagem, quando existente. Como resultado, tem-se as praias e a lagoa como destinação final, em função do escoamento natural na bacia. Dessa forma, há uma recepção de considerável quantidade de matéria orgânica e outros poluentes, provocando a poluição ambiental e com risco para a saúde pública. As condições sanitárias e portanto, as condições ambientais atuais em toda a bacia, se tornam mais agravantes, em adição, também pelo serviço não satisfatório da coleta e transporte do lixo 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2171

urbano. Uma prática bastante comum observada na área de atuação é o lançamento dos resíduos sólidos nos terrenos próximos das casas e nos canais. Há uma necessidade de melhoria desse serviço e a PMJG deveria ampliar a cobertura da coleta. Há também deficiência no abastecimento de água. Em algumas comunidades da área o abastecimento se faz através de poços pouco profundos com filas e fornecimento em certas horas do dia. O sistema público atual é deficiente, havendo racionamento e sem atendimento para certa parcela da população, principalmente de comunidades de baixa renda. Há ainda o problema da ocorrência de enchentes em épocas de chuva, com alagamentos constantes durante o inverno, piorando ainda mais a qualidade de vida na zona urbana. Outro aspecto importante se refere à ocupação ilegal pela população de baixa renda, em locais não adequados para a habitação, que contribui para os problemas de falta de infra-estrutura urbana. Na bacia, existem mais de 50 assentamentos consolidados desse tipo, e com estimativa de mais de 200 comunidades de baixa renda. Por fim, existe ainda o problema dos resíduos industriais. Comparando com os esgotos domésticos, os resíduos industriais, sólidos e líquidos, são problemas menores, embora não menos preocupantes. Como se tratam de fontes potenciais de poluição pontuais, o seu controle em tese ficaria mais fácil, caso a caso, através da ação da CPRH. Entretanto, tanto em visita em campo, como de dados obtidos em estudos prévios, observa-se que a lagoa vem recebendo a contribuição desses resíduos, o que leva a recomendar um controle individual mais efetivo do tratamento e destinação dos resíduos sólidos e líquidos, principalmente, dada a sua natureza e potencial efeito na qualidade de água. Portanto, a conclusão é que em termos de principais fontes poluidoras, as condições sanitárias e ambientais atuais na bacia se encontram deterioradas devido, em ordem de decrescente, pelos esgotos domésticos, resíduos sólidos urbanos e resíduos industriais. O problema prioritário se trata portanto, dos esgotos sanitários na bacia. O baixo nível de atendimento é demonstrado pela população atendida por algum sistema existente, isolado ou individual, estimado em cerca de apenas 15%. Ainda assim, deve-se observar que os sistema existentes possuem um nível de tratamento com eficiência desconhecida, ou seja, constata-se que a eficiência do tratamento deixa a desejar, em função da falta de operação e manutenção adequadas. Em termos de ações a curto e médio prazos, há iniciativas por parte da PMJG, através de atendimento de algumas comunidades de baixa renda, bem como se encontra em fase de estudos a implantação pela COMPESA, do projeto técnico de esgotos sanitários para atender em primeira etapa a faixa litorânea de Jaboatão dos Guararapes, ou seja, as praias de Piedade, Candeias e Barra de Jangada. No primeiro caso, conforme descrito em itens anteriores, o atendimento seria para 11 comunidades de baixa renda. Em relação à perspectiva de implantação de um sistema integrado de esgotos sanitários na bacia da lagoa, tem-se a retomada de iniciativas por parte da COMPESA, em relação ao projeto existente elaborado em julho de 1990 pela URJ. Este trabalho da URJ, por sua vez, é uma adequação de projeto anterior da COMPESA, de 1979. Em geral, do que se pode inferir desse projeto, da URJ caso executado, é que as obras irão naturalmente, melhorar ao menos 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2172

parcialmente as condições ambientais da bacia da lagoa Olho d água, uma vez que a coleta e o tratamento serviria a uma população de mais de 125 000 pessoas numa primeira etapa. Isso representaria, entretanto, menos de 50% da população total da bacia. A área coberta por esse projeto representa menos de 20% da área total atual da bacia. Devido à alta densidade populacional considerada para a área de praia, de até 400 habitantes por hectare, tal população ocuparia cerca de 5,8 Km 2, numa estreita faixa de terra, de cerca de 7 Km por 800 metros. Isso significa também que a presente situação de descarga de esgotos nas praias e no mar sem tratamento adequado, será bem minimizado naquela zona. E aparentemente, as condições de balneabilidade nas praias de Piedade, Candeias e Barra de Jangada também melhorarão significativamente. Da mesma forma, se reduzirá a carga orgânica para a lagoa, reduzindo assim a poluição orgânica nos corpos de água da bacia como um todo. Entretanto, com relação à solução final de tratamento proposta, em especial ao local da ETE, deve-se observar que a destinação dos efluentes tratados seria novamente ou a lagoa ou a zona estuarina dos rios Jaboatão e Pirapama. Para este projeto, foi selecionada uma área para a ETE que ocuparia 18 ha próximo da zona estuarina. Essa área escolhida, no entanto, já se encontra na realidade comprometida com outro projeto de ocupação, por um empreendimento turístico, para a construção de um parque aquático. Consequentemente, será necessária a escolha de uma outra área para a ETE prevista. Ainda existe disponibilidade de área próximo da lagoa ou da zona estuarina para construção de novas ETEs, no entanto, o problema consistirá muito provavelmente no tamanho de área requerido. De qualquer forma, deverá ser também considerado o impacto ambiental da implantação de uma obra dessa natureza próximo à zona urbana. A ETE consistiria de 3 lagoas em série, sendo uma anaeróbica e duas aeradas facultativas. Aparentemente seria obtida uma alta eficiência de remoção de DBO, de cerca de 94%, contando inclusive com o uso de cloração para a desinfecção. Essa solução apresenta o inconveniente de requerer grande área e consumo considerável de energia. Há ainda a questão do uso de cloro para esgotos que deve ser melhor avaliada, uma vez que há a possibilidade de formação de certos compostos secundários, os quais podem ser danosos ao meio ambiente. Outro inconveniente seria a questão do lodo gerado, a ser removido a cada dois anos. Isso pode representar um obstáculo operacional e oneroso para a COMPESA, uma vez que a solução proposta seria a de aplicação em campos agrícolas, o que não é uma prática ainda experimentada na região, ao menos nessa escala. Esta proposta deverá ser revisada, considerando também os aspectos de impacto ambiental e de saúde. E finalmente, há ainda a questão do balanço de oxigênio na zona estuarina do Rio Jaboatão, o qual deverá sofrer um estudo mais detalhado. O estudo para isso foi realizado em 1980, quando as condições e dados disponíveis para a bacia desse rio eram completamente diferentes das condições atuais. Esse estudo, de certa maneira simplificado, não considerou a influência de todos os poluentes que alcançam a foz, tanto da contribuição dos rios Jaboatão e Pirapama, como da Lagoa Olho d água. Além do mais, os estudos de impacto ambiental em zonas estuarinas são mais complexos, exigindo um detalhamento que deve incluir a parte de hidrodinâmica, além de diversos outros fatores. 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2173

Como conclusão final para um diagnóstico do sistema sanitário atual na área de atuação, a Bacia da Lagoa Olho d água, enfatiza-se a deficiência dos sistemas básicos de saneamento ambiental, com falta de infra-estrutura sanitária e serviços adequados para uma larga porcentagem da população atual. A falta de um planejamento para a ocupação ordenada levou a uma deterioração ambiental não só da lagoa, como de todo o ambiente físico da bacia. A falta de sistema de drenagem, aliado às condições topográficas naturais acarretam alagamentos em vários pontos da bacia, com as águas pluviais se misturando com os esgotos não tratados e lixo urbano. Os serviços de coleta e limpeza urbana são insatisfatórios, há falta de água para abastecimento e a cobertura dos sistemas de esgotos existentes atende a uma pequena parcela da população. Com raras exceções mesmo os sistemas existentes apresentam problemas na parte de tratamento, com eficiência baixa. Dos problemas de poluição do solo e hídrica, incluindo aqueles de origem industrial, os esgotos sanitários são sem dúvida a parte mais crítica, requerendo ações de forma prioritária. O projeto mais recente existente atenderia menos de 50% da população da bacia, concentrada apenas numa pequena faixa de praia, priorizando a população de mais alta renda. Vários aspectos desse projeto deverão ser revisados, tanto em termos de engenharia, como de concepção. Qualquer solução para o problema de esgotos sanitários deverá ser integrado aos vários aspectos, urbanísticos, de uso de solo, drenagem, abastecimento, coleta de lixo, de qualidade de água dos corpos receptores e dos possíveis impactos ambientais. Essas medidas integradas deveriam seguir o Plano de Revitalização proposto pela PMJG, com articulação em vários níveis, para evitar a situação atual, onde se tem ações isoladas, com efeitos ainda muito a desejar. CONCLUSÕES Com os dados obtidos de estudos existentes e de campo, foram identificados e avaliados os locais e os aspectos mais críticos da situação sanitária-ambiental existente e que estão interferindo na lagoa Olho d água. Um dos principais aspectos deste trabalho se refere aos corpos d água, uma vez que existem praticamente, poucos ou quase nenhum sistema de coleta e tratamento de esgotos domésticos implantados na área. Consequentemente, a maioria dos esgotos é lançada sem tratamento nos solos, ruas, canais ou nas galerias de águas pluviais, quando existentes. Ao final, os esgotos produzidos acabam sendo encaminhados, de uma maneira ou outra, para aqueles corpos d água. Os principais pontos finais de lançamento acabam sendo as praias e a Lagoa Olho d água. Para a lagoa, uma contribuição significante dos esgotos da bacia é através do Canal Setúbal. Entretanto, neste trabalho, devido à conexão hídrica da lagoa com a zona estuarina do Rio Jaboatão e Rio Pirapama, alguma consideração foi também dada a esses rios. A conexão hídrica se reveste de importância, também por motivos de ações governamentais, uma vez que a bacia do Rio Pirapama, por ser a futura fonte de água para a Região Metropolitana de Recife, com obras em andamento, será objeto de outros estudos e ações visando o seu gerenciamento ambiental. 19 o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental 2174

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