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Destaque Depec - Bradesco Ano XII - Número 121-30 de setembro de 2015 Melhora dos fundamentos macroeconômicos protege países latino-americanos de repetir crise de mesma intensidade da década de 80 Felipe Wajskop França Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos A década de 1980 foi marcada por sucessivas crises nos países da América Latina. A forte dependência externa da região e a fragilidade dos fundamentos macroeconômicos, em conjunto com um cenário internacional bastante desafiador, resultaram no default da dívida externa na maioria deles e em um longo período de baixo crescimento econômico. Muitas das condições presentes naquele momento se repetem hoje, o que levanta a dúvida sobre a possibilidade de a América Latina repetir a década perdida. Nos últimos trinta anos, no entanto, esses países foram capazes de reduzir sua fragilidade macroeconômica. Desse modo, o risco de que uma crise da mesma magnitude daquela exibida na década de 80 se concretize nos próximos anos nos parece reduzido. Durante a década de 1970, dois choques 1970 1980 1990 Argentina 19,4% 35,8% 46,3% Brasil 14,3% 31,7% 26,8% Chile 32,5% 41,8% 58,5% Colômbia 33,5% 21,5% 45,6% México 20,3% 30,6% 41,2% Peru 46,4% 48,4% 83,4% Venezuela 12,0% 43,6% 71,7% A partir de então, os países latino-americanos passaram a enfrentar dificuldades crescentes de servir suas dívidas externas e, nos anos que se seguiram, a maioria foi obrigada a renegociar suas sucessivos nos preços do petróleo (em 1973/1974 e em 1979/1980) criaram, em última instância, um fluxo crescente de recursos dos países exportadores (beneficiados pelo aumento dos preços) para as nações latino-americanas (afetadas pela deterioração do déficit em conta corrente) 1. Como resultado, ao longo desse período, a dívida externa dos países da região cresceu em velocidade surpreendente. A dívida do México, por exemplo, saltou de 20,3% do PNB 2 em 1970, para 30,6% em 1980. O baixo nível da taxa de juros nos países desenvolvidos e o crescimento acelerado da economia mundial permitiram que essa situação se estendesse ao longo dos anos 70. No entanto, com o início do aumento dos juros nos EUA em 1979 e uma recessão em nível global nos anos seguintes, essa situação se tornou insustentável. Dívida externa (% do PNB) Fonte: Banco Mundial/ Banco Central do Chile obrigações com os credores. O primeiro deles foi o México, que em agosto de 1982, anunciou ao banco central norte-americano e ao FMI que não conseguiria mais horar seus compromissos 1 Esse fluxo não ocorria de forma direta, mas por meio dos bancos norte-americanos, que canalizavam o excesso de liquidez proveniente dos países exportadores de petróleo com empréstimos para a América Latina e outras nações menos desenvolvidas (LDC na sigla em inglês). 2 O Produto Nacional Bruto (PNB) considera as rendas recebidas do exterior por residentes do País e desconta as que foram apropriadas por residentes de outros países. 1

financeiros. Como consequência das dificuldades em rolar suas dívidas, os países da região passaram a recorrer cada vez mais à emissão monetária, levando a inflação (já elevada nos anos anteriores) a patamares explosivos. Adicionalmente, a falta de recursos para financiar o déficit em conta corrente e os regimes de câmbio fixo, adotados pela maioria dos países, resultaram em contrações acentuadas da atividade econômica nos anos seguintes o PIB do México, por exemplo, retraiu 4,2% em 1983. 1980 1981 1982 1983 1984 Argentina 4,2% -5,7% -5,0% 3,9% 2,2% Brasil 9,1% -4,4% 0,6% -3,4% 5,3% Chile 8,1% 4,7% -10,3% -3,8% 8,0% Colômbia 4,1% 2,3% 0,9% 1,6% 3,4% México 9,2% 8,8% -0,6% -4,2% 3,6% Peru 6,1% 5,6% -0,2% -10,4% 3,6% Venezuela -4,4% -0,4% -2,1% -3,8% 1,4% Variação anual do PIB (%) Fonte: Banco Mundial Algumas das condições que levaram a essa situação se repetem hoje, ainda que não na mesma intensidade. Os países latino-americanos acumularam déficits em conta corrente expressivos nos últimos anos, a maioria deles enfrenta inflações acima das respectivas metas e desaceleração do PIB e os EUA se preparam para subir os juros. No entanto, dois fatores fundamentais diferem em muito a situação atual daquela de 30 anos atrás. Em primeiro lugar, entre os maiores países da região, apenas a Argentina e a Venezuela têm hoje regimes de câmbio fixo 3. Dessa forma, a variação do câmbio absorve o impacto da volatilidade externa, equilibrando o déficit em conta corrente. Adicionalmente, ao longo das últimas décadas, os países emergentes acumularam uma quantidade significativa de reservas em moeda estrangeira, reduzindo sua fragilidade externa. Outros avanços institucionais importantes conquistados nas últimas décadas também deram maior proteção às nações latino-americanas em eventuais crises internacionais. Em especial, a adoção de sistemas de metas de inflação e regimes fiscais responsáveis 4. No primeiro caso, políticas monetárias conduzidas com autonomia de fato, se não de direito, reduzem o custo de desinflacionar essas economias, especialmente frente a desvalorizações expressivas do câmbio, como as que têm ocorrido recentemente. Ao mesmo tempo, quando aliadas a políticas fiscais responsáveis, guiadas por esforços em reduzir a dívida pública, reforçam os fundamentos macroeconômicos e reduzem o prêmio de risco desses países. Condições macroeconômicas média de 1980 a 1984 Destaque - Bradesco Argentina Brasil Chile Colômbia México Peru Venezuela Saldo em CC (% do PIB) -2,1% -5,7% -9,2% -3,6% -1,5% -6,4% 4,6% Reservas/ Dívida Externa 13,9% 7,8% 16,3% 51,4% 5,8% 20,2% 37,4% Variação do PIB (%) -0,1% 1,4% 1,3% 2,4% 3,4% 0,9% -1,8% Inflação (%) 268,1% 132,4% 19,2% 22,0% 63,5% 90,3% 11,1% Resultado nominal (% do PIB) -5,0% 0,9% -0,5% -3,7% -6,0% -4,3% 1,8% Crédito ao Setor Privado (% do PIB) 29,2% 44,5% 68,4% 34,3% 16,2% 20,1% 53,8% Dívida Pública (% do PIB) 36,9% 41,6% 24,1% 19,3% 44,3% 44,8% 19,3% Variação dos termos de troca (%) -1,5% -2,1% -3,4% -6,0% -2,8% -1,9% 6,9% Variação do PIB Mundial (%) 2,3% 2,3% 2,3% 2,3% 2,3% 2,3% 2,3% 3 No caso argentino há um regime de desvalorização administrada por parte do banco central, que, no entanto, mantém a moeda sobrevalorizada em relação ao dólar. 4 Entre os maiores países da região, o Chile foi o primeiro a adotar o sistema de metas de inflação, em 1990, seguido pelo, Brasil, Colômbia e México (todos em 1999) e Peru (2002). 2

Condições macroeconômicas 2014 Argentina Brasil Chile Colômbia México Peru Venezuela Saldo em CC (% do PIB) -0,9% -4,4% -1,2% -5,0% -2,1% -4,1% 4,3% Reservas/ Dívida Externa* 22,4% 74,4% 26,7% 46,9% 40,7% 116,1% 17,1% Variação do PIB (%) 0,5% 0,1% 1,9% 4,6% 2,1% 2,4% -4,0% Inflação (%) 37,6% 6,3% 4,4% 2,9% 4,0% 3,2% 62,2% Resultado nominal (% do PIB) -2,7% -6,2% -1,4% -1,4% -4,6% -0,1% -14,8% Crédito ao Setor Privado (% do PIB) 14,4% 69,1% 109,4% 52,7% 31,4% 34,0% 29,9% Dívida Pública (% do PIB) 48,6% 65,2% 13,9% 38,0% 50,1% 20,7% 45,6% Variação dos termos de troca (%) -2,5% -3,4% -1,2% -3,6% -5,1% -5,7% -11,8% (*) O último dado disponível é de 2013. Uma análise mais criteriosa de um conjunto maior de variáveis macroeconômicas, de fato, nos permite afirmar que a situação dos maiores países latinoamericanos é bastante mais confortável hoje que na década de 1980 tanto em termos de fragilidade interna como externa. Comparando o período de 1980 a 1984 com 2010 a 2014, apenas a Venezuela está em situação efetivamente desfavorável. A Argentina é um caso um pouco à parte, pois desde a renegociação da sua dívida, em 2005 e 2010, o país tem baixo nível de endividamento externo (e interno), o que reduz as chances de uma crise de grandes proporções, mesmo com um regime de câmbio semifixo, inflação elevada e baixo crescimento econômico. Um ponto que chama a atenção, no entanto, é o aumento da alavancagem do setor privado, medida pelo crédito como proporção do PIB, que subiu em quase todos os países analisados (com exceção da Argentina e da Venezuela). O setor público, porém, está em situação mais favorável, em especial quando comparamos o esforço fiscal, medido pelo resultado nominal como proporção do PIB. O mesmo pode ser dito sobre o crescimento médio do PIB (apesar da desaceleração recente da atividade econômica na região) e sobre a inflação. Por fim, o ambiente internacional é menos desfavorável, já que a perda de termos de troca é menor e o crescimento do PIB mundial ainda é ligeiramente maior. Comparação das condições macroeconômicas 1980/1984 e 2010/2014 Destaque - Bradesco (*) O último dado disponível é de 2013. De fato, a principal vantagem desses países no período atual é a adoção de um regime de câmbio flutuante, que tem permitido o ajuste do déficit externo na maioria deles. O exemplo mais expressivo é o México, onde a desvalorização de mais de 20% da moeda nos doze meses encerrados em junho (em conjunto com a retração da demanda doméstica) permitiu a redução do déficit em conta corrente de 2,1% em 2014 para 0,5% no segundo trimestre de 2015. Por outro lado, uma medida de mais alta 3

frequência dos termos de troca, calculada pelo Citibank, revela queda mais intensa desde o início do ano. Adicionalmente, essas economias são hoje mais abertas e também mais dependentes de um único destino para seus produtos (a China), o que as torna mais vulneráveis ao cenário internacional. Ainda assim, o regime de câmbio flutuante permite que a depreciação da moeda compense o impacto da perda de termos de troca e do volume das exportações decorrente de uma desaceleração mais intensa da economia chinesa, equilibrando novamente as contas externas. Taxa de Câmbio Termos de Troca Saldo em CC Argentina 11,7% 2,6% -0,4% Brasil 40,1% -10,3% -4,5% Chile 15,6% -0,5% -0,1% Colômbia 38,3% -24,9% -6,4% México 21,4% -1,8% -0,5% Peru 13,6% -4,1% -3,6% Venezuela* - - - Variação em doze meses até junho da taxa de câmbio e dos termos de troca e saldo em conta corrente (% do PIB) (*) O país não dispõem de dados atualizados e possui regime de câmbio fixo. Fonte: Bloomberg Em resumo, a maioria das nações latino americanas, com raras exceções, como a Venezuela, obteve avanços importantes na condução da política econômica nas últimas décadas, adotando uma política monetária e fiscal responsável, regimes de câmbio flutuante e acumulando reservas cambiais. Dessa forma, ainda que possam enfrentar dificuldades nos próximos anos, em função da perspectiva de aumento dos juros nos EUA, redução da liquidez internacional e fraco crescimento da economia mundial, uma crise da dívida semelhante à ocorrida nos anos 80 tem baixo risco de se repetir. De qualquer modo, o desempenho dessas economias deverá ser bastante inferior ao exibido na última década, quando a região foi beneficiada pelo crescimento acelerado da economia chinesa e por um ciclo favorável dos preços das commodities, principal produto de exportação latino-americano. Destaque - Bradesco 4

Destaque - Bradesco Equipe Técnica Octavio de Barros - Diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos Marcelo Cirne de Toledo - Superintendente executivo Economia Internacional: Fabiana D Atri / Felipe Wajskop França / Thomas Henrique Schreurs Pires Economia Doméstica: Igor Velecico / Andréa Bastos Damico / Ellen Regina Steter / Myriã Tatiany Neves Bast / Ariana Stephanie Zerbinatti Análise Setorial: Regina Helena Couto Silva / Priscila Pacheco Trigo / Leandro de Oliveira Almeida Pesquisa Proprietária: Fernando Freitas / Leandro Câmara Negrão / Ana Maria Bonomi Barufi Estagiários: Davi Sacomani Beganskas / Henrique Neves Plens / Mizael Silva Alves / Gabriel Marcondes dos Santos / Wesley Paixão Bachiega / Carlos Henrique Gomes de Brito / Gustavo Assis Monteiro O BRADESCO não se responsabiliza por quaisquer atos/decisões tomadas com base nas informações disponibilizadas por suas publicações e projeções. Todos os dados ou opiniões dos informativos aqui presentes são rigorosamente apurados e elaborados por profissionais plenamente qualificados, mas não devem ser tomados, em nenhuma hipótese, como base, balizamento, guia ou norma para qualquer documento, avaliações, julgamentos ou tomadas de decisões, sejam de natureza formal ou informal. Desse modo, ressaltamos que todas as consequências ou responsabilidades pelo uso de quaisquer dados ou análises desta publicação são assumidas exclusivamente pelo usuário, eximindo o BRADESCO de todas as ações decorrentes do uso deste material. Lembramos ainda que o acesso a essas informações implica a total aceitação deste termo de responsabilidade e uso. A reprodução total ou parcial desta publicação é expressamente proibida, exceto com a autorização do Banco BRADESCO ou a citação por completo da fonte (nomes dos autores, da publicação e do Banco BRADESCO). 5