Planejamento Sucessório: a Vontade Além da Vida

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1 Parte Geral - Doutrina Planejamento Sucessório: a Vontade Além da Vida EMANUELEN DALL'ASTA Advogada, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade de Passo Fundo (2010). VITOR HUGO OLTRAMARI Advogado, Mestre em Direito pela Universidade Federal do Paraná, Professor de Direito de Família e Sucessões da Universidade de Passo Fundo. RESUMO: O presente artigo analisa a sucessão testamentária, com enfoque nas diversas formas pela qual se apresenta e, especialmente, no que refere à possibilidade do seu planejamento. Em face da nova vocação hereditária trazida pelo art do Código Civil brasileiro, parece dispensável, a primeira vista, ter de escolher com quem ficará o patrimônio da pessoa após a sua morte. Porém, em significativa parte dos casos de inventário ocorrem desavenças entre os herdeiros, visto que nem sempre entram em consenso a respeito da partilha. Assim, a autonomia da vontade, marco teórico do presente estudo, permite que, em não havendo herdeiros necessários, a disposição atinja a totalidade do patrimônio, evitando esses impasses. A realização de planejamento sucessório é uma forma de satisfação para o autor da herança, uma vez que lhe permite escolher qual a disposição do patrimônio após a sua morte, evitando desgastes emocionais e impasses entre os futuros herdeiros, e, em alguns casos, proporcionando redução da carga tributária. PALAVRAS-CHAVE: Capacidade de testar; doação; herança; planejamento sucessório; sucessão testamentária. ABSTRACT: The actual study aims to analyze the inheritance, focusing on the several ways witch it presents and, especially, in relation to the possibility of planning. Face to the new hereditary vocation brought by the article 1829, of Brazilian Civil Code, seems to be unnecessary, at first sight, have to choose who will get the person's patrimony after its death. However, in significant part of the inventory cases, occur disagreements between the heirs, since that not always they reach consensus about sharing. So, the freedom of choice, theoretical mark of this study, allows that, in the absence of qualified heirs, the disposal reaches the entire patrimony, avoiding these impasses. The accomplishment of succession planning it's a form of satisfaction to the heritage author, since it allows him to choose witch is the disposal of patrimony after his death, avoiding emotional wastes and impasses between future heirs, and in some cases, providing tax burden reduction.

2 KEYWORDS: Ability to test; donation; heritage; succession planning; inheritance. SUMÁRIO: Introdução; 1 O planejamento sucessório; 1.1 O princípio da autonomia da vontade e as finalidades da elaboração; 1.2 Formas de elaboração e vantagens obtidas com o planejamento sucessório; Testamento; Partilha em vida; Doação; Sucessão de empresas familiares - Holding familiar; Considerações finais; Referências.

3 58 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA INTRODUÇÃO Delicado é falar de um assunto que lembra a perda de um ente querido. O direito das sucessões tem como requisito para a sua aplicação a morte do autor da herança. Talvez seja este o motivo que poucos escrevem sobre este ramo do Direito. Porém, após uma vida de trabalho para a construção do acervo de bens, nada mais justo do que possibilitar a forma de disposição do patrimônio, segundo a vontade de quem o construiu. A transmissão dos bens aos herdeiros pode gerar controvérsias e impasses pelos mais diversos motivos: os filhos que prestaram assistência aos pais na velhice entendem que lhe é devida uma parte maior dos bens, assim como os herdeiros que trabalharam conjuntamente com o autor da herança em uma empresa familiar pretendem receber maior número de ações em relação aos herdeiros que não colaboraram. Este estudo tem como objetivo identificar a viabilidade da realização de um planejamento, antes do falecimento, utilizando os bens do autor da herança, bem como as formas como pode ser feito e as vantagens que traz ao testador e aos seus herdeiros, adequando essas premissas à capacidade de testar e às regras do ordenamento jurídico pátrio. 1 O PLANEJAMENTO SUCESSÓRIO É crescente a preocupação do indivíduo em relação à destinação dos seus bens após a sua morte. Isso por que o trabalho intenso durante toda a vida tem como finalidade reunir esse montante, e almeja-se que os filhos e demais herdeiros saibam administrá-lo da melhor forma possível. O autor da herança dispõe de diversos mecanismos para planejar a sua sucessão, fazendo com que o seu patrimônio

4 permaneça íntegro, escolhendo qual de seus herdeiros ficará com a administração do mesmo. Nesse contexto é que surgiu o planejamento sucessório, uma ideia inovadora dentro do direito das sucessões, em que são indicadas as possibilidades de disposição do patrimônio de uma forma que garanta a satisfação pessoal e não seja considerada irregular. 1.1 O princípio da autonomia da vontade e as finalidades da elaboração O indivíduo possui liberdade para dispor de seus bens, desde que não viole as disposições legais. A sucessão legítima, estabelecida pelo art do Código Civil 1, é aplicada à totalidade do patrimônio somente nos casos em que a pessoa falecer sem deixar testamento.

5 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA 59 Nas palavras de Sílvio de Salvo Venosa, "a ordem de vocação hereditária fixada na lei vem beneficiar os membros da família, pois o legislador presume que aí residam os maiores vínculos afetivos do autor da herança" 2. A sucessão testamentária, por sua vez, possibilita ao autor da herança modificar a forma disposta pelo legislador. Aqui reside o princípio da autonomia da vontade, por meio do qual o falecido elenca, da forma que lhe aprouver, quais serão os seus herdeiros e respectivos bens. Segundo Rolf Madaleno, ao homem dotado de razão é dado, como direito fundamental de sua dignidade, o direito de decidir o que é bom ou ruim para ele e de guiar-se, conforme suas próprias escolhas, resguardados os direitos de terceiros, porque sua vontade não pode ser absoluta, pois precisa se conciliar com os direitos das demais pessoas [...]. 3 O princípio da autonomia da vontade refere-se à liberdade que o testador, na qualidade de autor da herança, tem para escolher a destinação que dará ao patrimônio que construiu. Deve ser interpretado conjuntamente com o princípio da liberdade, que, segundo Paulo Luiz Netto Lôbo, diz respeito "à livre aquisição e administração do patrimônio familiar e ao livre planejamento familiar" 4. Na lição de Ana Luiza Maia Nevares: [...] os limites da autonomia do testador são, apenas, a reserva dos herdeiros necessários, a licitude, a determinabilidade e a possibilidade do objeto da disposição testamentária, bem como a necessidade de ser observada a forma prescrita em lei para a feitura do testamento, sob pena de invalidade. 5 Assim, utilizando a referida autonomia da vontade do testador, que, na hipótese de não haverem herdeiros necessários, abrange a totalidade do patrimônio 6, surge o planejamento sucessório, como

6 forma de proporcionar ao autor da herança conforto e segurança.

7 60 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA A elaboração do planejamento tem por escopo proteger e dar continuidade aos bens do falecido, utilizando mecanismos familiares, societários e tributários. Segundo Sílvia Maria Benedetti Teixeira, o planejamento sucessório se preocupa exatamente com a determinação da sucessão, a priori, ou seja, é uma atividade estritamente preventiva com o objetivo de adotar procedimentos, ainda em vida do titular da herança, com relação ao destino de seus bens após sua morte. 7 Assim, é possível determinar a distribuição dos bens ainda em vida, como, por exemplo, imóveis, móveis, ações, fazendas, controle dos negócios e empresas, incluindo também discussões conjuntas com os herdeiros acerca da destinação destes 8. O planejamento sucessório, segundo Cassio Namur, "é a organização em vida da divisão do patrimônio entre os herdeiros e o estabelecimento de mecanismos de administração desse patrimônio" 9. Silvia Maria Benedetti Teixeira conceitua o assunto em tela, disciplinando que: Planejamento sucessório é uma forma cada vez mais usada para garantir a partilha de bens de maneira mais eficiente e desejada pelas pessoas físicas. Por meio dele se pode planejar a partilha do patrimônio quando ainda se está vivo, de forma mais justa e eficiente, garantindo redução de encargos financeiros e segurança para todos os envolvidos. 10 Depreende-se dos conceitos explanados que o planejamento sucessório é o mecanismo a ser utilizado para proporcionar uma divisão eficiente do patrimônio, elevando a vontade do testador e proporcionando uma transição com mais tranquilidade 11. A mesma autora afirma que é possível planejar a distribuição dos bens em vida, até mesmo com a participação dos herdeiros, o que permite a redução

8 de desgastes emocionais nos relacionamentos entre cônjuges, filhos e parentes após a morte. Em alguns casos também podem ser evitados desgastes financeiros, na medida em que o planejamento sucessório pode evitar a ocorrência de custos judiciais e tributários de um inventário. 12

9 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA 61 Ressaltando o aspecto do direito empresarial, que será oportunamente abordado, o planejamento oportuniza a continuidade da empresa, possibilitando a atribuição da administração do negócio a determinado herdeiro ou a administradores profissionais. Ademais, torna viável a constituição de renda aos herdeiros não envolvidos na gestão patrimonial 13. Em síntese, as principais benesses deste mecanismo traduzem-se na rapidez da transmissão do patrimônio aos herdeiros, reduzindo ou extinguindo o montante de bens a inventariar, bem como evitando disputas futuras relativas à divisão do acervo hereditário. 1.2 Formas de elaboração e vantagens obtidas com o planejamento sucessório São diversas as formas pelas quais pode ser realizado o planejamento sucessório, e entre elas estão o testamento, a partilha em vida, a doação com adiantamento da legitima, a doação com reserva de usufruto, a doação com dispensa de colação e a sucessão de empresas familiares Testamento Entre as modalidades apresentadas, o testamento constitui a mais conhecida, revelando-se como um dos recursos mais relevantes do direito privado, pois é o ato que traduz com maior amplitude a autonomia da vontade do autor da herança 14. Segundo Sílvio de Salvo Venosa: Com as modificações feitas pelo Código de 2002 na ordem de vocação hereditária, com o malévolo imbróglio criado pelo legislador, mormente no tocante à sucessão do cônjuge e do convivente, tendo também em vista o aspecto da reprodução assistida após a morte do pai ou da mãe, o testamento ganha nova força. O Código vigente, por outro lado, de certa forma facilitou a elaboração do testamento,

10 simplificando suas formalidades. 15 A sucessão testamentária, que só tem eficácia depois do falecimento 16, é um instrumento a disposição do autor da herança para garantir a divisão de pelo menos metade de seu patrimônio da forma que desejar, não havendo que se sujeitar à sucessão legítima, que nem sempre opera de forma justa.

11 62 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA As precauções e formalidades exigidas por ocasião da feitura da carta testamentária têm por escopo garantir a autenticidade do ato, bem como assegurar que o proprietário da herança esteja ciente da seriedade do instrumento 17. Importante relembrar que a pessoa que tiver descendentes, ascendentes ou cônjuge vivos, ou seja, herdeiros necessários, só poderá dispor de 50% dos seus bens por testamento, tendo em vista que o restante constitui a legítima, que possui vedação legal quanto à disposição do testador 18. Maria Berenice Dias ensina que é preciso preservar o direito dos herdeiros necessários e a fração a que faz jus o cônjuge ou companheiro a título de concorrência sucessória. Esta posição extremamente privilegiada do cônjuge não existe na união estável. O companheiro, além de não ser herdeiro necessário, tem direito de concorrência com relação aos aquestos. E, na concorrência com os ascendentes e colaterais, desfruta de posição totalmente diferenciada do que o cônjuge no mesmo regime de bens da comunhão parcial. 19 Disciplina Sílvia Maria Benedetti Teixeira que, "dentro do planejamento sucessório, o testamento é com certeza uma das formas mais utilizadas para deixar definida a herança, com a vantagem de escolha entre o testamento público, cerrado ou particular" 20. Além da comodidade de escolher a forma pela qual irá elaborar o testamento, entre as tantas elencadas pelo Código Civil, este ato proporciona segurança no cumprimento, pois respeita a disposição de última vontade do autor da herança 21. Quanto à parte disponível do patrimônio, o autor da herança possui diversas formas de deliberar acerca da destinação dos bens. Embora com menos autonomia, também pode estabelecer algumas restrições relativamente à parte legítima, utilizando para tanto as cláusulas restritivas de direito: inalienabilidade, incomunicabilidade e

12 impenhorabilidade 22. Segundo Carlos Alberto Dabus Maluf, tal medida é salutar para se prevenir contra os possíveis desmandos daqueles que são peritos em transformar grandes fortunas em tristes ruínas, pois é altamente revoltante vermos um patrimônio feito com grande sacrifício ser dissipado por alguém sem escrúpulos. 23

13 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA 63 Essas restrições trazem segurança ao testador, na medida em que impedem que os herdeiros alienem os bens de forma irresponsável, dissipando em pouco tempo e impensadamente o patrimônio construído com muito trabalho e dedicação. Na lição de Sílvio de Salvo Venosa, bens indisponíveis são aqueles que "não podem ser alienados sob qualquer forma, nem a título gratuito nem a título oneroso". Já os bens gravados pela incomunicabilidade "não se comunicam ao cônjuge do herdeiro, não importando qual seja o regime de bens do casamento" 24. Os impenhoráveis, por sua vez, são aqueles bens que não são passíveis de penhora. Porém, para o estabelecimento destas cláusulas, é necessário que o autor da herança decline justo motivo, a teor do disposto no art , caput, do Código Civil 25. Acerca do assunto, Zeno Veloso disciplina que o estabelecimento da cláusula de inalienabilidade, quanto aos bens que integram a legítima, deve observar o que dispõe o art Este Código limitou bastante a aposição de cláusulas restritivas, que eram admitidas, francamente, pelo art do Código Civil de Agora, nos termos do art , salvo se houver justa causa, declarada no testamento, não pode o testador estabelecer cláusula de inalienabilidade, impenhorabilidade, e de incomunicabilidade, sobre os bens da legítima. 26 Nos termos do art , caput, do Código Civil 27, agora tratando genericamente da possibilidade de clausular a disposição, quando for imposta a cláusula de inalienabilidade a determinando bem, este será atingido também pela incomunicabilidade e impenhorabilidade. Caso assim não fosse, o legislador teria dado ensejo a situações ilegais, como o recebimento pelo cônjuge dos bens gravados de forma livre e desembaraçada ao final do casamento, ou, no caso de impenhorabilidade, créditos e execuções simuladas, levando o bem à penhora, com a consequente alienação 28.

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15 64 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA O testamento, apesar de ser utilizado como forma de disposição dos bens patrimoniais, poderá versar sobre outros assuntos, quais sejam, não patrimoniais, nos termos do art , 2º, do Código Civil 29. Maria Aracy Menezes, em palestra proferida no Congresso de Direito de Família do Mercosul 30, elenca, ainda, um rol de disposições testamentárias úteis ao planejamento da sucessão. Entre elas está à destinação de direito de habitação para o companheiro, pois este não está elencado como herdeiro necessário no art do Código Civil, nem incluído no texto do art , exigindo uma interpretação extensiva ou buscando a disposição do art. 7º da Lei nº 9.278/ como forma de lhe garantir este direito. Além desta, é possível determinar a deserdação de herdeiro necessário; o reconhecimento de um filho; estabelecer o perdão do indigno; autorizar a utilização de material genético para fertilização artificial 33; informar doações feitas em vida, objetivando que o donatário as traga à colação; ou até mesmo pedir morte digna em caso de doença terminal 34.

16 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA Partilha em vida A partilha em vida, disciplinada no art do Código Civil 35, é uma das formas de os herdeiros começarem a usufruir da herança mais cedo. Segundo Moacir César Pena Júnior, é a "faculdade que tem a pessoa, por ato entre vivos, de dar destino a seus bens, por instrumento público ou particular, com validade perante a lei, desde que não prejudique a legítima dos herdeiros necessários" 36. No dizer de Maria Berenice Dias: É uma modalidade de planejamento sucessório, sobre a parte disponível, pois é preciso preservar o direito dos herdeiros necessários. Trata-se de verdadeira sucessão antecipada. Os bens recebidos não precisam ser trazidos à colação. Feita partilha em vida, desnecessário o processo de inventário se não existirem outros bens a serem partilhados. 37 Assim, torna-se desnecessário o processo de inventário quando ocorrer a partilha em vida, tendo em vista que esse tipo de planejamento sucessório é considerado um inventário antecipado. A regra não se aplica quando o autor da herança tiver reservado alguns bens para a sua própria subsistência ou houver adquirido mais bens depois da partilha. O ascendente realiza, ainda em vida, uma distribuição dos seus bens aos herdeiros necessários. Essa partilha, quando for feita por escritura pública, caracteriza-se como uma doação entre ascendentes e descendentes, que lhes permite utilizar desses bens de forma imediata 38. O instituto não se confunde com a doação como antecipação da legítima, vez que o ascendente irá submeter-se às regras pertinentes à divisão do patrimônio entre os herdeiros como se tivesse falecido, ou seja, não se trata de ato de generosidade 39. Ademais, as doações de bens feitas em vida necessitam ser trazidas à colação

17 pelos herdeiros, ao passo que os bens partilhados em vida estão dispensados, contanto que tenham tido a anuência de todos os herdeiros necessários ou não tenham ferido o direito à legítima de cada herdeiro. A validade desse tipo de partilha está condicionada à observância de determinados requisitos, tais como forma, capacidade e aceitação. Importante também, como apontado, que todos os herdeiros aceitem expressamente e que não exista prejuízo da parte legítima de nenhum deles.

18 66 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA Sílvia Maria Benedetti Teixeira pontua, em seu artigo, que "há necessidade de que quem está doando tenha capacidade civil e disponibilidade dos bens no momento da doação e de quem está recebendo (os descendentes) deva manifestar a aceitação de forma expressa ou tácita" 40. Ademais, nos casos em que a partilha em vida abranger a totalidade do patrimônio, é necessária reserva de rendas para a sua subsistência, sob pena de esta ser ineficaz. O monte a ser partilhado em vida deve respeitar a legítima de cada herdeiro, em observância ao disposto no art do Código Civil 41. Essa determinação não obriga que o autor da herança distribua igualmente os bens entre os herdeiros, mas sim que o montante seja retirado da parte disponível da herança, protegendo a legítima, que não poderá ser reduzida. O patrimônio que será calculado é o do momento em que se lavra a partilha em vida, conforme dispõe o art , 1º, do Código Civil: "A colação se faz tomando-se por base o valor do bem indicado no ato de liberalidade; na sua falta, apura-se o que o bem doado valia na mesma época". Assim, a verificação feita para saber se o doador dispôs de mais da metade do valor dos seus bens é calculada ao tempo da partilha, e não da data da abertura da sucessão 42. Orlando Gomes preceitua em sua obra: No regime da comunhão universal de bens, um só dos cônjuges fica impedido de realizar a partilha em vida, porque nenhum deles tem a propriedade exclusiva dos bens, nem sendo possível determinar, antes da dissolução conjugal, os que constituem a meação. Todavia, não é proibida a partilha em vida em conjunto por ambos os cônjuges, que, em um mesmo ato, partilham todo o patrimônio entre os descendentes. 43 Dessa forma, os cônjuges só podem fazer conjuntamente a partilha em vida, pois é impossível determinar a meação sem que a

19 sociedade conjugal seja dissolvida.

20 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA Doação A doação também é considerada uma das formas de consolidação do planejamento sucessório. Ela pode se apresentar sob três formas: doação como adiantamento da legítima, doação com reserva de usufruto ou doação com dispensa de colação. O art. 544 do Código Civil dispõe que "a doação de ascendentes a descendentes, ou de um cônjuge ao outro, importa adiantamento do que lhes cabe por herança". Traduz-se na doação feita em favor dos herdeiros necessários da parte do patrimônio que irão herdar, ou seja, doação como adiantamento da legítima. Conforme preceitua o art do Código Civil 44 e art do Código de Processo Civil 45, as doações serão posteriormente conferidas por ocasião do inventário do autor da herança por meio da colação. Existe, porém, uma forma diferenciada de doação que dispensa a colação, elencada no art , caput, do Código 46. Para que a mesma ocorra, o doador deve, no ato da liberalidade, dispor que o bem doado está sendo retirado da sua parte disponível, não devendo exceder o montante disponível na época da liberalidade 47. No silêncio do doador, o bem deverá, necessariamente, ser levado à colação. Nesses termos, o descendente que recebe bens de seu ascendente direto, a título gratuito, deverá colacioná-los no inventário do doador, para que tal patrimônio recebido seja descontado da parte cabível no monte hereditário. O cônjuge só terá o dever de trazer os bens recebidos em doação quando for casado com o autor da herança pela separação convencional de bens, comunhão parcial de bens com bens particulares do falecido ou no regime de participação final dos aquestos, hipóteses em que concorre com os ascendentes 48.

21 68 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA A espécie de doação em exame estabelece contrato entre vivos, e deve submeter-se às condições de validade essenciais na doação pura e simples, como a capacidade, a aceitação, o respeito à legítima, entre outras 49. São consideradas inoficiosas as doações de bens em montante superior à metade disponível, devendo ser considerado o momento em que foi efetuada a liberalidade para fins de cálculo. Nos casos em que houver constatação de doação em montante superior ao disponível, esta poderá ser reduzida, a fim de corresponder à metade do seu patrimônio, preservando-se a legítima dos herdeiros necessários, conforme já referido no segundo capítulo. Por outro lado, conforme anteriormente mencionado, a doação com reserva de usufruto também é considerada forma de planejamento sucessório. Maria Berenice Dias, a esse respeito, disciplina: Desdobrar a nua-propriedade e a posse é outra forma de deliberar sobre a sucessão durante a vida. Conserva o titular para si o usufruto e transfere a nua-propriedade aos herdeiros. Assim, quando de sua morte, consolida-se o domínio em favor dos herdeiros, o que dispensa o processo de inventário. 50 Sílvio de Salvo Venosa assinala que o "usufruto é um direito real transitório que concede a seu titular o poder de usar e gozar durante certo tempo, sob certa condição ou vitaliciedade de bens pertencentes a outra pessoa, a qual conserva sua substância" 51. Nessas doações, os ascendentes transferem aos descendentes a nua-propriedade, retirando o poder de usar e gozar dela, possibilitando a sua exploração econômica. O ius disponiendi, ou conteúdo de domínio, fica reservado ao doador pelo prazo estabelecido ou até a sua morte, com o chamado usufruto vitalício 52. Com a morte do autor da herança e usufrutuário, consolida-se na pessoa do nu-proprietário a propriedade plena. Apesar de ser

22 encontrada comumente na relação entre pais e filhos, nada impede que esta doação ocorra em outros tipos de relações 53.

23 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA 69 O indivíduo que receber a doação com reserva de usufruto poderá obter da coisa toda a utilidade que esta proporciona, vez que a utilização que lhe é deferida caracteriza-se pela amplitude e quase totalidade do bem, devendo, porém, respeitar a sua existência e destinação econômica 54. Ressalta-se que esta doação pode englobar um ou mais bens do patrimônio do doador, e, nos casos de bens imóveis, é necessário o registro junto ao Cartório de Registro competente. Quando ocorrer o falecimento do usufrutuário, apresentando-se como prova a certidão de óbito, deve ser solicitado o cancelamento, ocasião em que aquele que recebeu o imóvel terá plena disposição do mesmo 55. Esta forma de planejamento sucessório favorece o autor da herança, na medida em que possibilita doar determinado bem a um dos herdeiros, permanecendo com a nua-propriedade do mesmo. Apesar de a necessidade da doação ser trazida à colação - vez que é hipótese de adiantamento da legítima -, resta garantido o desejo de que este bem permaneça com o herdeiro escolhido após a morte do doador Sucessão de empresas familiares - Holding familiar É significativo o número de empresários que se preocupam com o planejamento da sucessão de seus bens empresariais, a fim de garantir que a troca do comando da empresa não cause prejuízos a ela. Neste processo que envolve tanto os interesses particulares quanto os da sociedade empresária, é necessário que haja harmonia entre os diversos fatores influenciadores, como parceria, dinheiro, poder e disputa 57. Segundo Maria Berenice Dias, quando o acervo patrimonial é constituído de pessoas jurídicas, o planejamento sucessório evita a pulverização societária e os naturais atritos entre sócios remanescentes e os herdeiros ou

24 sucessores do sócio falecidos. Isso tudo tem mais um atrativo: a redução da carga tributária, além de afastar o pagamento do imposto causa mortis. 58

25 70 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA Realizando o planejamento sucessório, o empresário, além de evitar atritos naturais entre os sócios/herdeiros, possibilita a transferência do capital social, reduzindo a incidência de impostos, vez que a sua utilização ocorre com mais frequência em núcleos familiares com montante patrimonial significativo. Essa redução tributária incide sobre o rendimento da pessoa física, pois será realizada por intermédio da pessoa jurídica e tributada tomando por base o lucro presumido. A diferença resultante retorna à pessoa física sem incidência de impostos 59. Ressalta Moacir César Pena Júnior 60 que "o planejamento sucessório não visa retirar os membros da família da gestão dos negócios, assim como também não pretende que a empresa renuncie a princípios que a seguem desde a sua instituição, mas, sim, conseguir uma administração mais eficiente". Sobre o tema, Cláudia Haidamus Perri também sustenta que "o líder da empresa familiar deve ter visão de futuro para solução de problemas e novos negócios, liderança, além de preparo para transições e mudanças a fim de que o processo de sucessão seja bem conduzido" 61. Assim, surge a figura das holdings, que, na lição de Maria Berenice Dias, são "sociedades juridicamente independentes que adquirem e mantém ações de outras sociedades empresariais, em quantidade suficiente para controlá-las", possuindo como objetivo "a participação no capital de outras sociedades como atividade única, de modo a viabilizar investimentos em novos negócios" 62. Torna-se viável a distribuição dos bens da pessoa física, somando-os aos da pessoa jurídica, antes do falecimento do sócio, vez que este definirá em vida a fração que caberá aos herdeiros 63. É necessário que o titular do patrimônio identifique os seus objetivos, definindo qual parcela do patrimônio caberá a cada herdeiro, conforme a sua vocação, delegando a gestão da empresa a

26 administradores profissionais e constituindo renda para determinado herdeiro, o que leva à conclusão de que o planejamento deve ser feito caso a caso 64.

27 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA 71 Além da diminuição da carga tributária e eliminação de possíveis desavenças entre familiares, a criação da holding patrimonial possibilita a emissão de títulos de créditos e facilita a concessão de garantias como aval e fiança, face a sua maior credibilidade no mercado 65. que a Maria Berenice Dias elenca ainda mais benesses, pontuando constituição de sociedades controladoras permite a indicação dos sucessores da empresa sem precisar obedecer a ordem de vocação hereditária. Assim, substitui em parte, a elaboração do testamento, além de trazer benefícios fiscais, pois a tributação é sensivelmente menor. A depender da espécie de sociedade, os lucros e dividendos pagos a sócios e acionistas ficam isentos do imposto de renda. As vantagens fiscais também são de outra ordem, pois se elimina a carga tributária que incide quando da abertura da sucessão, isso tudo sem contar a dispensa do pagamento da taxa judiciária e honorários advocatícios. 66 Conclui-se, então, que o planejamento da transmissão da empresa familiar facilita o processo sucessório, amenizando os aborrecimentos e gastos ocasionados com o inventário. Porém, não há que se deixar de lado a necessidade da preparação dos sucessores e das empresas no que tange ao processo de mudança de gestão, que, conjuntamente com as questões jurídicas e fiscais, produzirão os efeitos desejados pelo autor da herança, da forma menos onerosa 67. Todas essas alternativas apresentadas são legais, sendo possível, portanto, planejar a partilha do patrimônio, até mesmo com participação dos herdeiros, reduzindo, com economia, desgastes nos relacionamentos familiares. Sílvia Maria Benedetti Teixeira conclui o assunto: Todo o ser humano sabe que sua existência é finita, mas muitos não admitem discutir o assunto morte. Todavia, é necessário

28 quebrar-se este tabu para pensar e discutir a própria sucessão. [...] O planejamento sucessório é o caminho para todos aqueles que possuem um patrimônio e herdeiros e que, efetivamente, se preocupam com o futuro ou destino deste patrimônio após a sua morte e com a segurança de sua família. 68

29 72 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA Evidenciando as vantagens do planejamento sucessório, destaca-se a redução de custos financeiros e tributários, a possibilidade de uma divisão mais justa, a rapidez do processo de divisão do patrimônio, a segurança financeira da família, bem como a ausência de desgastes emocionais dos herdeiros 69. O planejamento sucessório, na lição de Moacir César Pena Júnior, "significa diminuição de custos, repartição coerente do patrimônio e harmonização na sucessão, o que é bom para todos: para o titular do patrimônio que, em vida, realiza o planejamento, bem como para quem o sucede" 70. De fato, não há como evitar a própria morte, mas é possível garantir a segurança financeira dos herdeiros, evitando conflitos entre os mesmos, bem como assegurando ao autor da herança que os bens sejam partilhados da forma que melhor lhe aprouver. CONSIDERAÇÕES FINAIS A sucessão testamentária, embora elencada pelo legislador como primeira possibilidade de transmissão da herança, não é muito utilizada, quer pelo mito envolvendo a morte ou quer pela concordância com a ordem da vocação hereditária, que, para alguns doutrinadores, deixa a desejar, principalmente no que tange ao companheiro. Porém, vem aumentando a preocupação do titular dos bens da herança em relação ao seu destino depois de sua morte. Após o labor de uma vida inteira, torna-se preocupante pensar que os herdeiros poderão, simplesmente, desfazer-se dos bens de forma inconsequente e imatura, desperdiçando o montante acumulado. A preocupação também surge face às inúmeras desavenças que ocorrem entre os herdeiros, por ocasião da partilha, na disputa por determinado bem ou até pela discordância quanto à administração de uma empresa familiar, quando for o caso. Nesse ínterim,

30 observou-se que o planejamento sucessório revela-se como a melhor solução, com a finalidade de evitar impasses, injustiças e discórdias. O testamento é a primeira forma de planejar a sucessão, utilizado quando o testador possui autonomia para dispor da totalidade dos seus bens, em não havendo herdeiros necessários - descendentes, ascendentes ou cônjuge -, vez que estes têm direito à metade do patrimônio, ou ao menos da metade dela, em os havendo. Além de elencar a disposição dos bens, a carta testamentária pode, também, versar sobre direitos não patrimoniais, como, por exemplo, o reconhecimento de um filho ou autorizar a utilização de material genético para a fertilização artificial.

31 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA 73 No testamento, também podem ser incluídas cláusulas restritivas de inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade dos bens pertencentes à parte legítima do acervo patrimonial. A partilha em vida também é uma forma de planejamento da sucessão, vez que permite ao autor da herança determinar a destinação dos bens da parte disponível, ainda em vida, possibilitando que os herdeiros utilizem antecipadamente este patrimônio, garantindo-se, assim, além do benefício aos herdeiros, o cumprimento da vontade do doador. Nessa linha, estudou-se a doação em suas três espécies. Por último, elencou-se a sucessão de empresas familiares, mais conhecida como holdingfamiliar, ferramenta útil aos núcleos familiares detentores de vultosa quantia patrimonial, especialmente no ramo empresarial. Nestes casos, a sucessão torna-se mais complexa, vez que é necessário decidir quem ficará na administração da empresa e quais as cotas caberão a cada herdeiro. Além de evitar desavenças e desgastes emocionais entre os herdeiros, verificou-se que são diversas as benesses obtidas com a realização do procedimento, além das vantagens já assinaladas, a diminuição da carga tributária incidente e a facilitação do processo de inventário, que, em alguns casos, poderão ser até dispensáveis. Em meio a tudo isso, está a realização da vontade do autor da herança, que poderá assegurar que a partilha ocorra da forma que melhor lhe aprouver, gerando satisfação e segurança ao mesmo. Em suma, pode-se afirmar que existem diversas formas de realizar o planejamento da sucessão, seguindo as regras permitidas pelo legislador. Apesar de a morte ser um evento doloroso, que muitos evitam ter em mente, ela se revela como a maior certeza que os indivíduos podem ter. O planejamento sucessório, então, é a ferramenta que o autor da herança tem a sua disposição para evitar brigas e discussões entre os herdeiros, bem como impor a sua vontade acerca da destinação do que amealhou durante a vida.

32 REFERÊNCIAS DIAS, Maria Berenice. Manual das sucessões. São Paulo: Revista dos Tribunais, GOMES, Orlando. Sucessões. 12. ed. rev. Atualizada e aumentada de acordo com o Código Civil de 2002 por Mario Roberto Carvalho de Faria. Rio de Janeiro: Forense, 2004.

33 74 RDF Nº 72 - Jun-Jul/ PARTE GERAL - DOUTRINA LÔBO, Paulo Luiz Netto. Constitucionalização do direito civil. In: FARIAS, Cristiano Chaves (Org.). Leituras complementares de direito civil: o direito civil-constitucional em concreto. Bahia: Podium, MADALENO, Rolf. A desconsideração judicial da pessoa jurídica e da interposta pessoa física no direito de família e no direito das sucessões. Rio de Janeiro: Forense, MALUF, Carlos Alberto Dabus. Da cláusula de incomunicabilidade no Código Civil de In: SIMÃO, José Fernando et al. (Org.). Direito de família no novo milênio: estudos em homenagem ao Professor Álvaro Villaça Azevedo. São Paulo: Atlas, MENEZES, Maria Aracy. A vontade além da vida (palestra). Congresso de Direito de Família do Mercosul - IBDFam, Porto Alegre, 5 e 6 ago NAMUR, Cassio. Planejamento sucessório: mecanismos societários e aspectos fiscais. 1º Ciclo de Palestras - IBDFam, Campinas, NEVARES, Ana Luiza Maia. A função promocional do testamento: tendências do direito sucessório. Rio de Janeiro: Renovar, PENA JÚNIOR, Moacir César. Curso completo de direito das sucessões. São Paulo: Método, PERRI, Cláudia Haidamus. Empresas familiares - Sucessão por ato inter vivos e causa mortis - A importância de um acordo de acionistas, v. 4. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; LEITE, Eduardo de Oliveira (Coord.). Repertório de doutrina sobre direito de família: aspectos constitucionais, civis e processuais. São Paulo: Revista dos Tribunais, RODRIGUES, Sílvio. Direito civil. 25. ed. São Paulo: Saraiva, v. 7, TEIXEIRA, Silvia Maria Benedetti. Planejamento sucessório: uma questão de reflexão. Revista Brasileira de Direito de Família, Porto Alegre: Síntese/IBDFam, v. 7, n. 31, p. 5-18, ago./set

34 VELOSO, Zeno. Comentários ao código civil. Parte especial: direito das sucessões. São Paulo: Saraiva, v. 21, VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: direito das sucessões. 10. ed. São Paulo: Atlas, Direito civil: direitos reais. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

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