Amor, história e luta

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1 Antologia de Folhetos de cordel Amor, história e luta Organização e apresentação de Márcia Abreu Projeto de Leitura Douglas Tufano Maria José Nóbrega

2 Leituras da vida Douglas Tufano O homem não encontra sua imagem na extensão dos conhecimentos que adquire; ele encontra uma imagem de si mesmo nas perguntas que faz. (André Malraux, escritor francês, ) A vida palpita na literatura. A experiência da leitura nos faz mergulhar no âmago da vida, nos descortina outras formas de existência, nos abre horizontes insuspeitados, nos leva de volta para dentro de nós mesmos, nos inquieta com perguntas provocantes. Essa é a grande força da literatura e, por isso, ela deve ser introduzida na sala de aula porque tem uma função educativa, e não meramente escolar. A literatura não traz respostas; ao contrário, ela é, na verdade, uma pergunta que desafia o leitor. E a boa literatura nada mais é do que uma boa pergunta, daquelas que nos fazem refletir, que mexem com nossas convicções e alargam nossos horizontes, exatamente como deve ser a boa educação intelectual. Por isso, quando lemos literatura, lemos a vida. Quando discutimos um texto, discutimos a vida, as reações humanas, os problemas da existência. Aparentemente, ela nos distancia da realidade, mas só por alguns momentos, pois logo em seguida nos devolve ao mundo ainda mais lúcidos. Como diz o escritor alemão Hermann Hesse, não devemos ler para esquecer-nos de nós mesmos e de nossa vida cotidiana, mas, ao contrário, para reassumir em nossas mãos firmes e de maneira mais consciente e madura a nossa própria existência. Devemos ir aos livros não como alunos tímidos que temem aproximar-se de mestres frios e indiferentes; não como os ociosos que passam o tempo a beber. Mas, sim, como alpinistas a galgar alturas, como guerreiros que acorrem ao quartel para buscar armas. A variedade de gêneros textuais desta coleção de antologias crônica, teatro, poesia, carta, conto, cordel etc. amplia o horizonte dos jovens leitores e constitui, por si só, um agente motivador de leitura. E como os livros são compostos de textos curtos, os alunos podem lê-los na própria sala de aula, facilitando o acompanhamento do professor, que deve ser um incentivador, aquele que cria condições para os debates de idéias, que sabe escolher as atividades mais adequadas às turmas. O professor participa como um dos leitores dos textos, mas um leitor especial, por sua experiência, e não por ser uma presença autoritária, que imponha uma interpretação. Ao contrário, ele deve estar sempre aberto à participação dos alunos, mas sem esquecer de ensiná-los a examinar criticamente suas interpretações. Por meio dos livros desta coleção, o aluno terá ainda uma visão abrangente da cultura brasileira. Terá a oportunidade 2

3 de fazer vários percursos históricos, conhecendo autores de hoje e de ontem. Passará pela literatura de cordel, pelo folclore, pela história. Tomará contato com uma ampla variedade de estilos literários e afinará sua sensibilidade para questões de linguagem. No mundo de hoje, massificado e massificante, o trabalho com a leitura se torna mais urgente do que nunca. Ajudar o aluno a se tornar um leitor crítico é ajudá-lo a se desenvolver como pessoa, é dar-lhe autonomia de pensamento. Discutir com ele as questões suscitadas pela leitura é estimularlhe o raciocínio, fazê-lo perceber as várias facetas de um problema, é ensiná-lo a considerar as coisas de outros pontos de vista, a levar em conta os argumentos alheios. É, enfim, ajudá-lo a se tornar maduro e a ser autocrítico. A vida palpita na literatura. Saibamos recriar essa vida na sala de aula, ajudando os alunos a perceber que os livros convidam a um diálogo, a uma troca de idéias, e que toda leitura, no fundo, é um reencontro do leitor consigo mesmo, em busca de respostas para suas inquietações mais profundas. DESCRIÇÃO DO PROJETO DE LEITURA Um pouco sobre o autor Procuramos contextualizar o autor e sua obra no panorama da literatura brasileira para jovens e adultos. Resenha Apresentamos uma síntese da obra para que o professor, antecipando a temática, o enredo e seu desenvolvimento, possa avaliar a pertinência da adoção, levando em conta as possibilidades e necessidades de seus alunos. Comentários sobre a obra Apontamos alguns aspectos da obra, considerando as características do gênero a que pertence, analisando a temática, a perspectiva com que é abordada, sua organização estrutural e certos recursos expressivos empregados pelo autor. Com esses elementos, o professor irá identificar os conteúdos das diferentes áreas do conhecimento que poderão ser abordados, os temas que poderão ser discutidos e os recursos lingüísticos que poderão ser explorados para ampliar a competência leitora e escritora dos alunos. QUADRO-SÍNTESE O quadro-síntese permite uma visualização rápida de alguns dados a respeito da obra e de seu tratamento didático: a indicação do gênero, das palavras-chave, das áreas e temas transversais envolvidos nas atividades propostas; sugestão de leitor presumido para a obra em questão. Gênero: Palavras-chave: Áreas envolvidas: Temas transversais: Público-alvo: 3

4 Propostas de atividades a) antes da leitura Os sentidos que atribuímos ao que se lê dependem, e muito, de nossas experiências anteriores em relação à temática explorada pelo texto, bem como de nossa familiaridade com a prática leitora. As atividades sugeridas neste item favorecem a ativação dos conhecimentos prévios necessários à compreensão e interpretação do escrito. Explicitação dos conhecimentos prévios necessários à compreensão do texto. Antecipação de conteúdos tratados no texto a partir da observação de indicadores como título da obra ou dos capítulos, capa, ilustração, informações presentes na quarta capa, etc. Explicitação dos conteúdos da obra a partir dos indicadores observados. b) durante a leitura São apresentados alguns objetivos orientadores para a leitura, focalizando aspectos que auxiliem a construção dos sentidos do texto pelo leitor. Leitura global do texto. Caracterização da estrutura do texto. Identificação das articulações temporais e lógicas responsáveis pela coesão textual. Apreciação de recursos expressivos empregados pelo autor. c) depois da leitura São propostas atividades para permitir melhor compreensão e interpretação da obra, indicando, quando for o caso, a pesquisa de assuntos relacionados aos conteúdos das diversas áreas curriculares, bem como a reflexão a respeito de temas que permitam a inserção do aluno no debate de questões contemporâneas. F nas tramas do texto Compreensão global do texto a partir de reprodução oral ou escrita do que foi lido ou de respostas a questões formuladas pelo professor em situação de leitura compartilhada. Apreciação dos recursos expressivos empregados na obra. Identificação e avaliação dos pontos de vista sustentados pelo autor. Discussão de diferentes pontos de vista e opiniões diante de questões polêmicas. Produção de outros textos verbais ou ainda de trabalhos que contemplem as diferentes linguagens artísticas: teatro, música, artes plásticas, etc. F nas telas do cinema Indicação de filmes, disponíveis em VHS ou DVD, que tenham alguma articulação com a obra analisada, tanto em relação à temática como à estrutura composicional. F nas ondas do som Indicação de obras musicais que tenham alguma relação com a temática ou estrutura da obra analisada. F nos enredos do real Ampliação do trabalho para a pesquisa de informações complementares numa dimensão interdisciplinar. DICAS DE LEITURA Sugestões de outros livros relacionados de alguma maneira ao que está sendo lido, estimulando o desejo de enredar-se nas veredas literárias e ler mais: w do mesmo autor; w sobre o mesmo assunto e gênero; w leitura de desafio. Indicação de título que se imagina além do grau de autonomia do leitor virtual da obra analisada, com a finalidade de ampliar o horizonte de expectativas do aluno-leitor, encaminhando-o para a literatura adulta. 4

5 Antologia de Folhetos de cordel Amor, história e luta Organização e apresentação de Márcia Abreu UM POUCO SOBRE OS AUTORES A obra apresenta uma seleção de textos de 5 autores de cordel: Firmino Teixeira do Amaral, João Melquíades Ferreira da Silva, Delarme Monteiro da Silva, João Martins de Ataíde e Manuel Camilo dos Santos. Para saber mais sobre a vida e a obra desses autores consulte, no próprio livro, o texto de abertura que antecede cada reprodução dos cordéis. Resenha Introduzindo a antologia, Márcia Abreu nos faz uma apresentação bastante delicada da literatura de cordel no Brasil, revelando-nos as inúmeras transformações do gênero no decorrer do tempo desde sua origem puramente oral e nordestina, até a impressão dos folhetos em papel colorido, já sem a presença das antigas xilogravuras. Ficamos conhecendo, também, os principais subgêneros do cordel: as pelejas, as histórias de amor e de luta e os relatos históricos, bem como alguns dos poetas de maior destaque. O que fica mais evidente, porém, é o fascínio que essa manifestação popular de literatura exerceu em seus leitores, e o quanto ela se constituía como parte inseparável da vida das comunidades de onde provinha. À medida que percorremos o livro, temos a oportunidade de entrar em contato com alguns folhetos originais de cordel. Descobrimos, primeiramente, os desaforos intermináveis da 5

6 Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho; uma história de amor em tom de conto-de-fadas moderno, no Romance do Pavão Misterioso; um relato emocionado de um momento histórico que culminou no suicídio de um presidente, em A morte do Presidente Getúlio Vargas; as estripulias e malandragens de um personagem bem conhecido, em As proezas de João Grilo; e, por fim, a descrição fantástica de um país quase ideal, em Viagem a São Saruê. COMENTÁRIOS SOBRE A OBRA Numa época em que o hábito de contar histórias é cada vez menos comum, e a cultura de massa tem assumido na vida das pessoas o papel que antes cabia à cultura popular, uma iniciativa como a de Márcia Abreu torna-se muito valiosa. A literatura de cordel encanta por ser uma manifestação cultural espontânea, que não é privilégio de doutores eruditos. Tratando dos mais diversos temas com a mesma fluência, ela nos faz lembrar do prazer muito antigo de ouvir e de contar histórias. Seus versos possuem uma sonoridade que não passa despercebida: pedem para ser lidos em voz alta. A Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho surpreende pelo seu humor anárquico e direto, muito longe daquilo que é considerado aceitável em nossa época politicamente correta; o Romance do Pavão Misterioso encanta com os seus elementos modernos incorporados a uma história de amor cujo tom nos remete às narrativas de As mil e uma noites; A morte do Presidente Getúlio Vargas remete à divulgação de acontecimentos históricos, de uma forma semelhante à que ocorria nas crônicas medievais; em As proezas de João Grilo reencontramos, em suas origens, uma personagem que se tornou conhecido do público após o sucesso da minissérie O auto da compadecida, dirigida por Guel Arraes e, em Viagem a São Saruê, encontramos um poeta dando livre vazão ao seu sonho de um país onde a vida é farta de prazeres... Por meio deste livro, somos convidados a (re)descobrir a força e a graça dessa manifestação popular brasileira, de uma cultura da qual muitos de nós, talvez, se encontram distantes. Quadro-síntese Gênero: cordel Palavras-chave: humor, pelejas verbais, romance, história recente Áreas envolvidas: Língua Portuguesa, História, Educação Artística Temas transversais: Pluralidade cultural Público-alvo: jovem adulto Propostas de atividades Antes da leitura 1. Pergunte a seus alunos o que eles sabem a respeito da literatura de cordel e se eles já haviam lido algum folheto antes. 2. Diga a eles que observem as capas dos folhetos que se encontram na antologia, e peça que imaginem o que elas podem nos revelar a respeito do conteúdo de cada história. Durante a leitura 1. Os romances e folhetos de cordel costumam tratar de muitos temas diferentes como Márcia Abreu nos mostra na introdução do livro: existem as pelejas (em que um cantor desafia o outro), as histórias de amor e luta, os folhetos históricos e muitos outros. Os folhetos presentes nesta antologia possuem temas e formatos bastante diferentes entre si. Peça a seus alunos que prestem atenção ao tema de cada um dos folhetos, identificando suas particularidades. 2. Chame a atenção dos alunos para o fato de que o livro possui muitas notas de rodapé. 6

7 Diga a eles que, quando possível, é melhor que tentem descobrir o significado das palavras desconhecidas a partir do contexto em que elas aparecem para não interromper o fluxo da leitura mas que, quando isso não for possível, eles podem recorrer às notas. Depois da leitura F nas tramas do texto 1. A literatura de cordel, como a organizadora mostra durante a apresentação, nasceu a partir da literatura oral, do improviso. Seus versos conservam ainda uma musicalidade própria da oralidade, não podendo ser totalmente apreciados sem a leitura em voz alta. Peça a seus alunos que se dividam em grupos, escolham um trecho do folheto de que mais gostaram para decorar e apresentem para a classe. Deixe que eles usem toda sua criatividade, podendo trazer figurinos e objetos, transformar os versos em música etc. Ressalte que o importante é capturar a atenção dos ouvintes. 2. Peça a seus alunos que façam uma pesquisa para descobrir mais sobre o cordel, e depois abra um espaço para que eles possam compartilhar as informações conseguidas com os colegas. Se possível, seria interessante trazer alguns folhetos no suporte original para a classe. 3. A xilogravura é quase sempre associada à literatura de cordel, uma vez que a partir do século XX passou a ser utilizada na produção de capas dos folhetos. Aproveite para conhecer um pouco mais a respeito da técnica e de sua origem. 4. Ao ler a Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho, provavelmente os leitores irão perceber o tom pesado de muitos dos xingamentos, que podem soar preconceituosos. Na nota de rodapé de número 17, a organizadora ressalta: Não existe peleja eticamente correta. Por isso os cantadores ofendem descaradamente um ao outro e, muitas vezes, são preconceituosos. Os tempos eram outros e o que valia era irritar o oponente a ponto de impedi-lo de responder. Debata esta questão com seus alunos: até que ponto o tom da peleja é preconceituoso? Isso é um aspecto negativo ou se trata apenas de um jogo, em que vale o pior xingamento? 5. O poeta que relata a Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho não parece ter uma posição muito neutra a respeito da disputa. Pergunte aos alunos o que eles acham. De que lado o narrador está? Que momentos do texto nos permitem chegar a essa conclusão? 6. O Romance do Pavão Misterioso é quase um conto de fadas, mas surpreende por apresentar alguns elementos que denunciam a sua origem moderna, como a fotografia e a construção de uma máquina voadora. Peça aos alunos que identifiquem os elementos antigos e os modernos presentes na história. 7. A morte do Presidente Getúlio Vargas apresenta uma visão bastante idealizada da figura de Getúlio, certamente influenciada pela comoção do momento. Será que essa opinião é unânime? Peça a seus alunos que realizem uma pesquisa sobre a vida de Getúlio Vargas, para descobrir informações que não aparecem no folheto. 8. Após o sucesso de O auto da compadecida, que apareceu primeiro como minissérie da Rede Globo e depois acabou virando filme, ambos livremente inspirados na peça homônima de Ariano Suassuna, João Grilo se tornou uma personagem bastante conhecida. Quais são as semelhanças e diferenças entre o João Grilo da minissérie e o João Grilo desse folheto de cordel? Se possível, seria interessante exibir o filme para os alunos. 9. As malandragens do esperto João Grilo nos remetem à esperteza de outro conhecido personagem do folclore brasileiro Pedro Malasartes. Traga um conto em que apareça Pedro Malasartes para ler com os alunos, e discuta com eles os pontos que os dois têm em comum. 10. Em Viagem a São Saruê, Manuel Camilo dos Santos dá vazão à sua fantasia de um país ideal, que é sobretudo um país de prazeres, em 7

8 que não é preciso trabalhar, porque o dinheiro nasce nas árvores, a comida já nasce preparada, as crianças já nascem educadas... Fantasia essa que nos lembra um poema de um outro Manuel Pasárgada, de Manuel Bandeira. Leia esse poema com seus alunos e discuta as diferenças que existem entre os dois países imaginários. Veja se eles percebem que, enquanto o poema de cordel é uma fantasia solta e leve, o poema de Bandeira revela, por trás da fantasia, uma dor e melancolia profundas. 11. Agora é a vez dos próprios alunos testarem seu talento como autores de cordel. Primeiro, retome com eles o trecho da introdução do livro em que o poeta da feira ensina a seu avô como é a estrutura do cordel: cada estrofe possui seis versos, com rimas no segundo, quarto e sexto versos; cada verso com sete sílabas, sendo que, da última palavra, não contam as sílabas posteriores à sílaba tônica. Tire as dúvidas dos alunos em relação a essa estrutura, usando como exemplo os folhetos que compõem a antologia. Divida-os, então, em duplas e peça que eles escrevam poemas no estilo de cordel, a partir de uma destas propostas (deixe que eles mesmos escolham): criar uma peleja nesse caso, cada um dos membros da dupla escreve alguns versos desafiando o outro; recontar a história de algum conto de fadas conhecido; relatar algum acontecimento histórico; recontar uma história de Pedro Malasartes disponível no endereço com.br/novembro39/im39110c.htm; descrever como seria o seu país ideal. Por fim, cada uma das duplas poderia dizer seus versos em voz alta para toda a classe ouvir. 12. Para saber mais sobre o assunto e ler outros títulos disponíveis on-line visite o site: titulos.htm F nas telas do cinema O auto da compadecida. Dir. de Guel Arraes, Globo Filmes. Narra a divertida história de Chicó e João Grilo, uma dupla de nordestinos que se envolve em uma série de aventuras. Narradores de Javé. Dir. de Eliane Caffé, Bananeira Filmes / Gullane Filmes / Laterit Productions. Quando os habitantes de Javé tomam conhecimento de que o pequeno vilarejo pode desaparecer sob as águas de uma enorme usina hidrelétrica, decidem preparar um documento contando todos os grandes acontecimentos heróicos de sua história para escapar da destruição. Como a maioria dos moradores são analfabetos, a primeira tarefa é encontrar alguém que possa escrever as histórias. Dicas de leitura w sobre o mesmo gênero A editora Hedra publicou antologias de renomados autores de cordel: Cordel de Expedito Sebastião Silva Cordel de João Martins de Athayde Cordel de Raimundo Santa Helena Cordel de Severino José Cordel de Rodolfo Coelho Cavalcante Cordel de Manoel Caboclo Cordel de Zé Vicente Cordel de Teo Azevedo Cordel de Minelvino Francisco Silva Cordel de Cuíca de Santo Amaro Cordel de Patativa do Assaré

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