7 Referências bibliográficas
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- Filipe Raminhos Fonseca
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6 ANEXOS 148
7 149 Anexo 1: Entrevista-conversa com uma das professoras da escola pesquisada Nomes fictícios foram utilizados para todos os participantes, inclusive a secretária que interrompe a gravação com duas linhas. 1 Alex: tá, vamos começar então... quais são as disciplinas 2 ensinadas na escola que você trabalha? 3 Lucy: aqui nós temos língua portuguesa, história, geografia, matemática, língua estrangeira >aqui só inglês< houve um tempo que aqui já foi ministrado aula de francês... mas... >dava< dava muita confusão. porque algumas turmas tinham francês, outras tinham inglês, >aí quando chegava< no ano seguinte não havia um acompanhamento, aí o aluno que estudou na quinta com francês >na sexta estudava inglês< aí... era uma loucura. 12Alex: não era assim pra ele escolher de repente? 13Lucy: não, não. 14Alex: ah, eu 15 16Lucy: tive francês então vou dar continuidade... não? é... não. a gente até tentou fazer isso, mas como era opção do professor, e aí, tinha a:no <que o professor>... podia dar aquela aula, tinha ano que não... >era uma experiência meio louca<... hh. 21Alex: e qual é a sua disciplina? 22Lucy: >língua< estrangeira. 23Alex: Lucy: Alex: Lucy: na SUA opinião existem disciplinas consideradas, pelos alu:nos, pela direção... pelos próprios profe=professores de outras línguas, ou atéprofessores de inglês mesmo, como mais importantes? geralmente é português e matemática=isso fica muito nítido até os professo::res... quando se colocam nos conselhos de cla::sse, são os que... parecem que são os donos da bola. hh. eles é que têm que tomar as decisões, os outros são os outros. e uh-huh, e no seu ponto de vista >no seu caso a disciplina é inglês< qual a importância da língua inglesa pra VIda do aluno? ºbemº. eu trabalho com inglês instrumental... aqui... eu comece::i aqui em eu trabalhava o normal=seguindo lá o conteúdo programático que vinha no livro >tudo bonitinho< só que... uns ci::nco anos atrás, eu percebi que aquilo não tava tendo efeito, principalmente com os alunos do ensino médio. aí eu comecei a trabalhar inglês instrumental, e comecei com as turmas pequenas o uso de dicionário, leitu:ra, usava fita que a gente usa em curso de inglês pra eles irem treinando >a audição< E, foi melhor. 48Alex: uh-huh. 49Lucy: ma:s... é... num determinado momento fica um pouco
8 150 1 Lucy: complicado, porque aqui na escola... é eu tenho sorte que=um=alguns professores, eles dão muito valor à língua estrangeira, >até pros seus filhos então< então eles valorizam o trabalho do >professor de língua estrangeira, professor de educação física=até que são< valorizados... né... é eles falam com os alunos olha essas disciplinas são importantes >ºnão sei o queº<=tem escola que não. tem escola que você e na::da é a me:sma coisa. NÃO, não reprova então esquece. 11Alex: por que é inglês? 12Lucy: é. pra quê quer saber isso?não sabe nem português. 13Alex: uh-huh. 14Lucy: e já aqui até que não. 15Alex: e aí é, >quer dizer< essa importância que você dá, você, sente que tem em relação à língua inglesa, você se baseia em que pra isso, na experiência mesmo, com outros professores, com os alunos? 19Lucy: não. 20 não, o que acontece, é que os alunos >por exemplo< 21 eles gostam (mas=é) até a vida cotidiana, eles têm 22 acesso a muita coisa em inglês=são músicas que eles 23 gostam. apesar da gente trabalhar numa escola de 24 periferia muitos aqui tem televisão... a cabo 25 entendeu, ou se não tem em casa, tem na casa da 26 >madrinha, da avó< então eles assistem outros 27 programas, eles se interessam, então (por), pela 28 necessidade=curso de informática que é até que 29 eles, eles têm bastante acesso ºessas coisasº então 30 eles querem aprender novas pala:vras, querem saber 31 o significado de algumas frases, GOstam de, de compreender os textos... e quando você começa a 33 trabalhar >por exemplo< com os cognatos, eles se 34 apaixonam, porque, >eles começam a perceber< que 35 eles conseguem compreender um texto me:smo sem 36 saber todo o vocabulá:rio, então, por interesse 37 deles mesmos, ºaí você vai trabalha:ndoº. 38Alex: existe alguma atividade complementar na escola? 39Lucy: Alex: tem, eles chamam de... até >atividade complementar mesmo< mas=eu=acho que estão sempre ligadas a parte de ou de leiturização..., mais em língua portugue:sa... alguma coisa relacionada à meio ambiente, e... as outras ativida:des, se têm ºeu desconheçoº. agora a pergunta que, talvez seja a pergunta CHAve, né, do que eu estou querendo saber=acho até que você já, já respondeu um pouco no início. você a:cha que existe algum preconceito por parte de outros professores, por parte dos alu:nos, ou até mesmo por parte da esco:la em relação à sua disciplina?
9 151 1 Lucy: dos alunos não... talvez assim quando eles, estejam, já numa (telefone toca) fase mais adiantada no ensino médio, talvez sim. mas (não) nas fases inicia:is é a sensação=acho que é a disciplina que eles mais gostam=que eles mais têm intere:sse >principalmente com quinta série<, >ºadoro trabalhar com quinta série por causa dissoº<. tu:do que você propõe é novo, é legal, ele:s... têm muito interesse. AGORA... tem preconceito tem é, mas, eu acho que não é muito com a discipli:na, eles elegem o, o professor de, dependendo de, de co:mo você é, de como você se comunica, aí eles vão gostar ou não da sua disciplina >estou falando dos outros colegas<. 15Alex: uh-huh. 16Lucy: né. agora se é uma pessoa assim que eles num 17 (né)=aí, eles não sepa:ram. 18Alex: mas aí aquele lance que você falou do conselho de 19 classe >por exemplo< né que, bom, português e 20 matemática 21Lucy: Lucy: português, é inglês não reprova, aqui não tem muito isso, você pode... participar de qualquer conselho que >inclusive o conselho participativo com os alunos< que eles sempre >tão falando< o::lha inglês e educação fí::sica e >não sei quê< são matérias importantes que reprovam, que vocês precisam, né. porque muitos desses professores, te:m i:sso em ca:sa né, são as pessoas que, que trabalham com seus filhos e aí querem que o filho faça o curso de inglês e tal, então eu acho que eles já repetem tanto esse discurso em ca:sa, meu filho >você precisa fazer curso de inglês que vai ser bom pra você< então eles ficam repetindo isso. (praticamente) que s:abe que é, que é importante, não tem jeito, mas que há preconceito, eu a:cho que há sim. 37Alex: mas mais por parte de quem então? 38Lucy: dos professores. dos alunos não. os alunos eu acho 39 que eles não, não colocam 40Alex: talvez os alunos então de 41 oitá::va série? primeiro ano, segundo? 42Lucy: isso. 43 talvez do segundo, é >do ensino médio< 44Alex: sabe porque que eu 45 estou te perguntando isso, porque, é, eu tive 46 uma, uma pesquisa numa turma de oitá:va em que 47 du=dois grupos entregaram o trabalho de inglês na 48 da:ta porque havia um outro trabalho de histó:ria 49 pra ser entregue também, então eles estavam na aula 50 de inglês fazendo o trabalho de histó:ria, no di:a 51 de entregar o trabalho de inglês. 52Lucy: quando eles vão crescendo, vai tendo, mas isso é refle:xo do que o professor, coloca em sala também, não porque o meu é mais importante, ºporqueº o traba::lho de tal disciplina é, é o
10 152 1 Lucy: importante, então eles, isso é refle::xo né. 2 Alex: uh-huh. 3 Lucy: e muito também, porque, às vezes o professor de 4 inglês ele é muito complacente, ele aceita depois, 5 ah, não, tudo bem, não tem tanta importância 6 assim. quem é ma:is, contundente que, fica ali no 7 pé deles mesmo, (você) ainda consegue, mas é, é 8 claro, é um estresse né. você vai se indispor com 9 aluno, você vai se indispor com o seu cole:ga, 10 porque o outro professor não quer entender i:sso, 11 ah, inglês, >inglês não serve pra nada< é uma, é 12 um discurso contraditório, porque (tá o fulano) > 13 não que é importante não sei quê < mas quando 14 chega na hora de entregar o trabalho não entrega o 15 meu, o meu é mais importa:nte=essa maté:ria é que 16 vai ser importa:nte pra você, as outras não. 17Alex: e você? você, é, como é que você vê i:sso em relação... a o que=vamos, vamos supor que você está nessa situação. que você tá na sa:la, você pediu e:sse traba::lho, e dois grupos só entrega::ram, >você aceitaria depois<? 22Lucy: só dois grupos, entrega:ram? 23Alex: mas aí eles estão fazendo outro trabalho em sala. 24Lucy: >não<. não aceitaria, mas é uma coisa estra:nha, é, 25 vou fa:lar um problema que aconteceu comigo na 26 faculdade. eu fui fazer o curso de português inglês 27 mas, da:ndo ênfase a inglês que >era o que eu< 28 gosta:va, co:mo já trabalha:va (>era o que eu 29 queria<). SÓ que na faculdade eu sempre da:va 30 priorida:de, aos traba:lhos de língua portuguesa, 31 de literatu:ra, porque o inglês eu já sabia 32 (sabe, sabe) 33Maria: Lucy. 34Lucy: oi querida. 35Maria: ai, esqueci. (a secretária interrompe a entrevista e se desculpa pois esqueceu que estávamos gravando) lá na sala dos professores ainda tem mapa mundi? 38Lucy: tem. 39Maria: tem né. 40Lucy: então o que acontecia? o de inglês... ou eu usa=achava não já sei, isso aí ºtá bomº. eu nunca me interessava muito. se pega o meu hh histó:rico, eu sempre tirava, mas se, se tem nota ba:ixa é na disciplina de inglês, não é na disciplina nem de português nem de literatu:ra, nem, até li, é, literatu:ra inglesa e americana até que >tudo bem<, mas aí é que você vê... que já tá intrínseco, a gente mesmo tem esse... não sei se é preconceito, o que que é, mas, é um relaxamento. 50Alex: com aquilo que você sabe 51 mais, de repente. 52Lucy: isso, há um relaxamento. 53 porque você acha ºah, aquilo ali numº... 54Alex: você acha que esse pode ser o caso com os alunos? 55Lucy: eu acho que sim. eu acho que po::r você cobrar
11 153 1 Lucy: Alex: uh-huh. 11Lucy: Alex: tanto=é=claro, você não vai fazer na esco:la... não vai ter a mesma atitude que você tem num curso de inglês=que você tem ali aquele conteú:do >com aquela coisa< rí::gida né, tá ali dentro, de uma franquia, você tem que trabalhar naquele método >e tal<. dá uma coisa mais solta, mesmo quando você quer seguir o conteúdo to:do >é uma coisa mais solta porque< não é uma coisa, que vá depender daqui:lo pra, pra vida dele né. ele não tá, mudar a história da vida dele >por causa daquilo<. por ser mais solto eu acho que ele fala assim não, eu, isso eu consigo fazer, >isso aí depois< eu vou dar uma estuda::da, vou fazer um traba::lho e tá tudo bem. eu acho que o alu:no também pensa um pouco assim. aí no caso >por exemplo<, você acha que aquele professor que e::le, não aceitaria o trabalho depois,você disse que não aceitaria, né? 20Lucy: uh-huh. não. 21Alex: você acha que você ficaria depois, de repente, na 22 visão dos alu:nos como aquela professora megera? 23Lucy: ah, tem. mas se você for se preocupar com isso você nem levanta da cama né. é megera um dia, noutro dia você é Ba:rbie, noutro dia você é maravilho::sa, isso aí é comum... não esquento com isso não hh. depende, depende da LUa... num dia eles estão pensando uma coisa a seu respeito, se não for você hoje vai ser a outra. 30Alex: então tá bom. 31Lucy: então tá. 32Alex: muito obrigada. 33Lucy: nada.
12 154 Anexo 2 Notas de campo: Nota de campo nº. 1: Em um conselho de classe de uma escola estadual do Rio de Janeiro em abril de 2004, os professores estavam reunidos à mesa na sala dos professores para repassarem os resultados de suas turmas à diretora da escola. Com todas as notas fechadas, a professora de inglês tenta iniciar o conselho quando é interrompida pela fala da professora de português: Não, espera aí! Quem começa somos nós,..., afinal de contas, no final, as notas que vão importar mesmo são as nossas: português e matemática. Inglês é acessório. Quem vai pegar eles no final, somos nós. Nota de Campo nº. 2: Durante uma das aulas de inglês em que a professora começa a falar um pouco sobre cultura norte-americana devido a um filme que havia sido passado para a turma, e a responder algumas das perguntas feitas pelos alunos, um deles dirige-se a ela e tece o seguinte comentário: Professora, a senhora sabe inglês, né?. Um pouco estarrecida com a pergunta, ela lhe responde: Bom, eu tenho que saber, né? Não é o que eu ensino?. Ele responde de volta e a estarrece ainda mais: Ah, não, professora! Tem um monte de professor de inglês que não sabe inglês! A senhora sabe!. Nota de Campo nº 3: Durante uma aula no curso de mestrado em Estudos da Linguagem no ano de 2005, os alunos discutiam a questão da socialização no ensino de línguas. Umas das alunas cita a questão do preconceito por parte de alguns alunos e professores no ensino/aprendizagem de inglês como LE em escolas públicas, e ouve de uma colega: É assim mesmo. Os pais também são assim. Os pais e os alunos sempre dizem que o professor de escola não sabe que nem o professor do curso. Se for pública então, pior ainda. Nota de Campo nº. 4: Durante uma conversa informal na sala dos professores onde o assunto principal era a necessidade de ler e estudar os PCN para um concurso público do Magistério para o município de Magé no Rio de Janeiro, uma das professoras tece o seguinte comentário: Vocês vejam só que ridícula
13 155 essa história de aluno falar mais de uma língua estrangeira. Esse pessoal que escreveu esses PCN nunca deve ter entrado numa sala de aula lotada, com aluno segurando o caderno no joelho e rezando pra ter merenda. As crianças não falam nem português direito! Nota de Campo nº. 5: Em uma conversa informal na sala dos professores, onde apenas estavam presentes uma professora de inglês e um professor de educação física, a professora pergunta a ele sobre a importância da educação física para os alunos da escola e recebe como resposta um relato do professor: Pôxa, acho super importante esses jovens aqui da comunidade que vivem no tráfico ficarem aqui na escola batendo uma bola, aprendendo um esporte, por que o esporte ensina sobre coisas sadias. Agora, fica complicado. A gente está em maio e eu desde o começo do ano pedi bolas. O professor se levanta, vai até um canto da sala e tira de um saco uma bola de basquete furada. Dirige-se a professora e mostrando-a completa: Tá vendo essa bola? É de basquete. Só tem essa. Nesse bimestre, eu estou estudando e ensinando vôlei para as turmas de 5ª série. Eles jogam vôlei com bola de basquete. Fica difícil, né? Mas ninguém está nem aí. Estou desde o início do ano pedindo bola e já falei, daqui a pouco, não vai dar para jogar nem com essa aqui. Agora, fita de vídeo para ajudar na aula de matemática tem aos montes e os professores nem usam. Pra que comprar mais? Acho que tinha que ser balanceado o negócio. Compra uma bola num mês, uma fita no outro e por aí vai, sabe. Nota de Campo nº 6: Ao andar pela rua em direção à sua casa, uma professora de inglês encontra um ex-aluno de uma turma de 8ª série de uma escola estadual. Quando a vê, ele diz: Professora! Que bom ver a senhora! Ao questioná-lo sobre o porquê, ele responde: Pôxa, fessora, queria lhe agradecer! Estou trabalhando de garçom num restaurante chique no Rio e tem muito gringo que vai lá. Só com o que a senhora me ajudou consigo me virar legal lá. Sabe o show da Ivete Sangalo no Maracanã? Pois é, fui escalado pra trabalhar no camarim dela só porque me viro no inglês. Pô, brigadão, hein, fessora!
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Escrito por Davi Eberhard - SIL Dom, 10 de Abril de :47 - Última atualização Qui, 14 de Abril de :19
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