Cadeias Produtivas Solidárias
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- Filipe Jardim Carmona
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1 Cadeias Produtivas Solidárias Euclides André Mance IFiL, Curitiba, 11/2002 Definição Sintética As cadeias produtivas compõem todas as etapas realizadas para elaborar, distribuir e comercializar um bem ou serviço até o seu consumo final. Algumas concepções aí também integram o financiamento, desenvolvimento e publicidade do produto, considerando que tais custos compõem o custo final e lhe incorporam valor a ser recuperado graças à venda do produto. Em outras palavras, uma cadeia produtiva pode ser mapeada, levantando-se os itens que foram consumidos ou realizados para a produção de um bem ou serviço. Quando consideramos as cadeias produtivas em economia de rede, partimos sempre do consumo final e produtivo, para então compreendermos as conexões e fluxos de matérias, informações e valores que circulam nas diversas etapas produtivas em seu processo de realimentação. A reorganização solidária das cadeias produtivas, sob a lógica da abundância, amplia os benefícios sociais dos empreendimentos em função da distribuição de riqueza que operam visando sustentar o consumo nas próprias redes. Atualidade e Importância. Principais Controvérsias Os sistemas de rede na economia solidária nem sempre dão maior importância à análise e recomposição das cadeias produtivas. Práticas de Fair Trade, em geral, não exigem a certificação dos fornecedores de insumo, mas apenas que o 1
2 empreendimento produtivo, que gera o bem a ser consumido, respeite os critérios éticos e ambientais requeridos. Redes de Troca, igualmente, centrando a atenção no momento do intercâmbio, não estabelecem uma estratégia global de interferência sobre as cadeias produtivas. Outras redes mais complexas, entretanto, que integram organizações solidárias de crédito, consumo, produção, comércio e serviços, passaram a refletir sobre as melhores estratégias de expansão e consolidação dessas redes, chegando-se à percepção da necessidade de remontar solidariamente as cadeias produtivas. Essa progressiva remontagem possibilitaria à economia solidária converter-se paulatinamente no modo de produção socialmente hegemônico e não apenas em uma esfera de atividade econômica de segunda ordem, paleativa ou complementar, destinada apenas a atender populações pobres ou marginalizadas pelos movimentos dos capitais. A idéia básica dessa remontagem, consiste em substituir fornecedores de insumo que operem sob a lógica do capital por fornecedores que operem sob a lógica da economia solidária; substituir insumos elaborados de maneira ecologicamente incorreta, por outros elaborados de maneira ecologicamente sustentável. Isso possibilitaria uma correção de fluxos de valores (ver FLUXOS ECONÔMICOS), o empoderamento cada vez maior da economia solidária e a propagação de um desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente sustentável. A forma proposta para tanto não é de um planejamento centralizado, que pretenda planificar a intervenção de todos os atores que operem em uma cadeia produtiva completa de um 2
3 determinado bem. A estratégia é mais complexa e simples. Cabe aos diversos operadores solidários que atuam na cadeia produtiva darem preferência a fornecedores solidários, onde eles existam, substituindo insumos visando alcançar o objetivo da sustentabilidade ecológica e social. Onde tais fornecedores ou insumos não existam, cabe às redes locais montar empreendimentos que possam produzir os itens demandados. Quando os investimentos requeridos extrapolam as condições das redes locais, ou o consumo da rede local é insuficiente para manter o faturamento necessário à viabilidade do novo empreendimento, cabe às redes regionais avaliar as melhores alternativas, e assim em âmbitos de abrangência horizontais cada vez maiores. Para a remontagem solidária das cadeias produtivas, a organização do consumo final e produtivo é fundamental. A prática das cooperativas de consumo e de outras formas organizativas de consumidores mostra que a organização dos consumidores permite elevar o poder aquisitivo de suas rendas e melhorar a sua qualidade de vida, ao mesmo tempo em que quando fazem parte de redes solidárias viabilizam a comercialização de produtos elaborados em empreendimentos solidários. A novidade, desse sistema está pois em que, a partir do consumo final e produtivo, podem ser remontadas as cadeias produtivas de maneira solidária, na medida em que os empreendimentos fornecedores são selecionados com base em aspectos técnicos, ambientais e sociais. Essa seleção baseia-se na percepção de que o valor pago pelo consumidor, referente ao produto final, é o que permite não apenas girar a produção das empresas que vendem o produto final, mas também girar, mediatamente, a produção dos diversos operadores que fornecem algum insumo incorporado no produto final consumido ou algum outro elemento utilizado no processo de produção daquele bem ou serviço. Assim, é o consumo do produto final o que garante às 3
4 empresas, cujos produtos são vendidos na ponta dessa cadeia, faturar e apurar o lucro com essa parcela de produtos consumida. Entretanto, na medida em que a rede solidária vai remontando esta cadeia produtiva, criando empreendimentos que atuem como fornecedores, o lucro que anteriormente era acumulado nesses segmentos da cadeia produtiva, converte-se então em excedente que passa a realimentar a expansão da própria rede. Assim, uma rede, organizando empreendimentos capazes de gerar um certo volume de excedente, pode crescer reinvestindo coletivamente tais excedentes, montado novos empreendimentos e remontando a cadeia produtiva do próprio produto final. Desse modo, vendendo-se a mesma quantidade de produto final, pode-se ampliar o número de trabalhadores integrados na rede, o número de empreendimentos produtivos solidários, o volume de renda distribuído na rede em remuneração do trabalho, os excedentes gerados na rede e o seu patrimônio. Com a finalidade de promover a correção de fluxos de valores, assegurar o bem viver dos consumidores e ampliar a possibilidade de sustentação dos empreendimentos, propõe-se diversificar a oferta de produtos finais, possibilitando que os empreendimentos de base possam estar simultaneamente integrados em várias cadeias produtivas solidárias. Graças a essas múltiplas conexões e fluxos em rede, esses empreendimentos tornam-se sustentáveis atendendo a um significativo volume de demandas estáveis. Desse modo, criam-se as condições requeridas para suplantar progressivamente as relações de acumulação capitalista e expandir relações de produção e consumo solidárias, compartilhando os excedentes produzidos, gerando novas oportunidades de trabalho, incrementando o consumo dos participantes e gerando uma grande diversidade de produtos e 4
5 serviços que garantam o bem viver de todos os que praticam o trabalho e o consumo solidário. Referências MANCE, Euclides André. "Cadeias Produtivas em Economia de Rede". Revista Candeia, Ano I, N.1, 2000 MANCE, Euclides André. Redes de Colaboração Solidária. (Objeção 10). Petrópolis, Ed. Vozes, 2002, p. 5
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