Título do trabalho: Uma visão do Sistema Geral de Preferências no Comércio Interancional

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1 Título do trabalho: Uma visão do Sistema Geral de Preferências no Comércio Interancional Mês e ano da elaboração ou atualização do trabalho: Fevereiro de 2004 Nome completo do autor: Rangel Garcia Barbosa Profissão e titulação do autor: Professor de Direito Internacional Público da PUC-MG Unidade São Gabriel. Mestre em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da UFMG. Doutorando em Direito Internacional na Faculdade de Direito da UFMG. do autor:

2 8PD9LVmRGR6LVWHPD*HUDOGH3UHIHUrQFLDVQR &RPpUFLR,QWHUQDFLRQDO $XWRU5DQJHO*DUFLD%DUERVD Belo Horizonte - Fevereiro/2004

3 ³1HQKXPDDPSOLDomRGRFRPpUFLRH[WHULRUDXPHQWDUiLPHGLDWDPHQWHRPRQWDQWH GR YDORU HP XP SDtV HPERUD FRQWULEXD SRGHURVDPHQWH SDUD DPSOLDU R YROXPH GH PHUFDGRULDVHSRUWDQWRDVRPDGHVDWLVIDo}HV 1 David Ricardo 1 (RICARDO, 1996:96)

4 5(6802 Este artigo procura apenas dar uma visão geral do que seja o Sistema Geral de Preferências (SGP) e sua aplicabilidade no sistema comércial mundial, utilizando uma análise do seu contexto jurídico e econômico.

5 $%675$&7 This paper only aims to show a general vision of what a General Preference System (GPS) is and its aplicability in the world trade system, using an analisys of its legal and economic context.

6 6XPiULR 1. As Relações Econômicas Internacionais no pós-2.ªguerra; 2. O Sistema Geral de Preferências; 3. A Atuação do SGP na Prática Comercil; 4. Bibliografia. $V5HODo}HV(FRQ{PLFDV,QWHUQDFLRQDLVQRSyV *XHUUD $&DUWDGR$WOkQWLFRHD&RQIHUrQFLDGH%UHWWRQ:RRGV Em 1941, quando o sol ainda silenciava as bombas da última noite, Theodore Roosevelt e Winston Churchill ergueram o pilar daquelas que seriam as maiores e mais duradouras construções do pós-guerra. Nesta nova ordem econômica internacional,...vhvjudqghvoljqhvghydlhqw HQHIIHW rwuhsrvphvsduohv(wdwv8qlvhwod*udqgh%uhwdjqhdoruvprphtxhodghx[lqphjxhuuh PRQGLDOHpWDLWORLQG rwuhwhuplqphod&kduwhgho $WODQWLTXHGHO DFFRUGG DLGH PXWXHOOH GH HW O DFFRUG ILQDQFLHU GH (CARREAU, 1998: 41), junta-se a 2 Deve ser feita a ressalva de que todas as citações serão feitas em sua língua de origem para que assim não se percam em uma tradução as particularidades dos institutos jurídicos citados pelo autor.

7 estes acordos o início de duas negociações paralelas em : a primeira, referente à instituição de uma organização internacional para a regulação monetária e financeira do mercado mundial; a segunda, objetivando a constituição de uma organização internacional atuante no âmbito do comércio internacional (BELANGER, 1997: 12). A primeira das negociações a terminar foi aquela que versava sobre o sistema monetário internacional. Após um longo embate entre os negociadores norte-americanos e ingleses, chegou-se a um consenso, em 1943, no qual prevaleceu a posição norteamericana, defensora da formação de um fundo monetário comum das nações superveninentes à guerra 4. No dia 1º de julho de 1944, foram assinados os acordos de Bretton-Woods, na verdade, os estatutos de duas novas instituições internacionais: o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD). Ambos entraram em vigor no ano de 1945, entretanto, as atividades destas organizações internacionais somente se iniciaram em Tendo por base os acordos comerciais realizados por si na década de 30 (RAINELLI, 1998: 17), os Estados Unidos buscaram a constituição de um ente internacional que tivesse por principal escopo a liberalização do comércio internacional. 3 Estas negociações, antecessoras ao fim da guerra, ocorreram graças ao medo americano de que houvessem novamente os problemas de convetibilidade de moeda e GXPSLQJPRQHWiULR, além da corrida protecionista na esfera comercial, ambos corriqueiros no início da década de Para maiores detalhesde uma das maiores discussões econômicas do século: (LELART, 1997).

8 Esta empreitada originou o plano de constituição da Organização Internacional do Comércio, por meio da chamada Carta de Havana. Contudo, após sondar o congresso norte-americano, e saber que o projeto da Carta não seria aprovado nos moldes em que se encontrava, sendo que as negociações para uma possível mudança do acordo - de uma maneira que satisfizesse o congresso - seriam impossíveis, este país buscou a negociação da parte IV da Carta, coincidentemente, aquela que mais lhe era interessante: expressão dos diferentes compromissos concernentes à liberalização do comércio mundial. Para tanto, em 1947, os Estados Unidos sugeriu uma rodada de negociações, realizada em Genebra, ansiando a adoção desta interessante fatia da Carta de Havana, tendo por base a alegação que as outras partes da mesma seriam adotadas no ano seguinte (TAMAMES, 1995: 121). Assinado em 30 de outubro de 1947, para entrar em vigor no dia 1º de janeiro de 1948, o GATT 5 foi o primeiro acordo referente a livre circulação de mercadorias sombreando os cinco continentes. 6 Um quarto acordo internacional pode ser acrescentado a esta tríade, na formação do quadro econômico mundial do pós-guerra, a Carta das Nações Unidas. O essencialismo econômico contido no art. 1º, par. 3º, e no art. 55, al. a) e c), não pode ser 5 General Agreement for Tarifs and Trade. 6 A Carta de Havana foi assinada pelos mesmos signatários do GATT no dia 24 de março de Todavia, por ter sido ratificada apenas pela Austrália e Libéria, ela nunca entrou em vigor, consequentemente, não houve a

9 descartado enquanto grande impulsionador da ordem econômica internacional, já que este era o único elo jurídico-econômico que ligava os países capitalistas aos socialistas. No seu conjunto, estas entidades internacionais pretendiam zelar, no linguajar de Dominique Carreau, pela FRQVpFUDWLRQ G XQ OLEUHpFKDQJH RUJDQLVp, através de uma empenhada defesa do princípio da vantagem comparada, no quadro comercial, e da estabilidade e convertibilidade monetária, na seara monetária. Nesta tarefa, de regular a ordem econômica internacional, foi o GATT quem mais efetivamente se sobressaiu. 2V3RQWRV&DUGHDLVGR&RPpUFLR,QWHUQDFLRQDO Apesar do pequeno número de signatários, 23 países 7, o GATT foi um marco na história do comércio internacional por proporcionar, pela primeira vez, uma abordagem multilateral na busca da liberalização do comércio internacional 8. constituição da talanteada organização internacional do comércio. Para aprofundar esta questão: (JACKSON, 1992: ) 7 África do Sul, Austrália, Bélgica, Brasil, Burma, Cánada, Ceilão, Chile, China, Cuba, Estados Unidos da América, França, Grã-Bretanha, Holanda, Índia, Líbano, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, Paquistão, Rodésia, Síria, e a Tchecoslováquia. 8 A liberdade de comércio foi definida pelo Tribunal Permanente Internacional de Justiça como...a faculdade, em princípio ilimitada, de empreender toda a atividade comercial, quer ela tenha por objeto o negócio propriamente dito, isto é a venda e a compra de mercadorias, ou se aplique à indústria..., quer se exerça no interior ou se exerça com o exterior por importação ou exportação. (acórdão de 12 de Dezembro de 1934, caso 2VFDU&KLQQ, série A/B nº 63, p.84)

10 Este alastramento de uma nova filosofia comercial pelo mundo proporcionou aos princípios basilares do GATT o estatuto de novos orientadores do comércio internacional. Nesta medida, para melhor entender este novo paradigma econômico-comercial das décadas de 50, 60 e início de 70, faz-se necessário o elenco destes princípios: - a diminuição constante das barreiras comerciais, sejam elas de toda e qualquer natureza, tarifárias ou não-tarifárias. Como principais expoentes: art. XI e art. XXVIII bis; - o princípio da não-discriminação entre as partes contratantes 9. Desdobra-se em duas esferas diferentes: a não-discriminação de um país terceiro em relação a outro Estado exportador para este mesmo mercado; a não-discriminação entre as mercadorias importadas de uma parte contratante e as mercadorias nacionais. O primeiro sobressai-se através do art. I, a claúsula da nação mais favorecida, enquanto, o segundo por meio do art. III, 4º, a claúsula do tratamento nacional; - O princípio da reciprocidade, de acordo com o qual um Estado não pode dar concessões senão em contrapartida de concessões feitas por parte dos outros integrantes do GATT, ou não as aplicar aos Estados que não solidifiquem suas negociadas concessões. Isto está atestado nos vários protocolos de entrada das 9 Esta denominação foi dada aos países constituidores do GATT por este não constituir uma organização internacional VWULFWRVHQVX. Maiores informações sobre este tema: (JACKSON, 1997: 31-79)

11 partes contratantes e nas várias negociações realizadas no decorrer URXQGV 10 que preencheram toda a existência do GATT. À primeira vista, este princípios aparentam uma grande harmonia e plena funcionabilidade, todavia, após os ver por sete anos, muitos países não concordaram com isso. $$SDULomRGRV39'V Com o encerrar da segunda guerra mundial, o mundo deflagrou-se com uma profusão de novos países na África e Ásia, que vieram a se juntar com os já independentes na Ámerica, para formar, na década de 50, o chamado, inicialmente pela escola francesa de geografia, terceiro mundo (BONIFACE, 1995: 25). 10 Nome dado as negociações multilaterais sazonais que ocorriam a sombra do GATT. 11 Consideram-se países em via de desenvolvimento, para efeito deste texto, todos aqueles que não faziam parte da OCDE até a década de 90 (quando acenderam a esta organização internacional, vários países, dentro de um conceituação puramente econômica, subdesenvolvidos) - todavia, no momento adequado, iremos ressaltar as disparidades que dividem países como a Coréia do Sul e o Paraguai dentro desta qualificação. Por seu lado, os países menos avançados- PMAs - estão definidos, em número de 48, em uma lista, nos termos de Pellet, movediça, publicada pela CNUCED - resolução 2564 (XXIV) - e é esta enumeração que será adotada ao se fazer referência aos PVDs.

12 No ano de 1955, acontece a primeira manifestação global de cooperação dos países subdesenvolvidos 12, a conferência de Bandung (ALMEIDA, 1978: 41). Nesta, eles estabeleceram a necessidade da criação de um foro internacional para as suas discussões 13, e afirmaram a carência de ajuda financeira para conseguir o seu desenvolvimento. Atendendo o anseio inicial, o primeiro decêncio das Nações Unidas para o desenvolvimento, em 1961, testemunhou o novo interesse atribuído pelas Nações Unidas aos problemas próprios do Estados de Perfiferia : um ensaio para a futura formação da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (CNUCED). Já na sua busca por ajuda financeira, os PVDs alcançaram os empréstimos por parte do FMI. Não obstante, este sucesso não se repetiu na esfera comercial, o que corroborou para a criação do slogan, 7UDGHQRW$LG, adotado por estes países no início da década de 60. Com efeito, a CNUCED veio como uma tentativa de solucionar este último problema, tanto que, em sua primeira realização, 1964, foram adotados alguns princípios que constituiram o esboço dos fundamentos da futura nova ordem econômica 12 Deve ressaltar-se que o Clube de Paris - grupo constituído pelos países desenvolvidos - existe desde o séc. XIX. 13 Este foro foi denominado grupo dos setenta e sete (G-77), e passou a se reunir periodicamente para discutir os assuntos relevantes para os PVDs. Hoje, possui 131 membros. Para maiores informações:

13 internacional ; neste mesmo ano, afetando esta mesma seara, deve-se destacar a atitude paralela da adoção da parte IV do GATT 14. Nos dois decênios seguintes, a CNUCED protelou o discurso, sem maiores implicações práticas 15. Esta relapsa atitude contribuiu para impulsionar a redação da Declaração de Argel na quarta conferência dos não-alinhados, em 1973, e a ofensiva feita pela OPEP 16 : diminuindo a produção de pétroleo para forçar a elevação dos preços, objetivando na verdade uma maior flexibilazação dos países desenvolvidos em outros nichos econômicos. Contudo, os grandes prejudicados com a primeira crise do petróleo foram os países do terceiro mundo, já que estes eram os dependentes do combustível não detentores de fontes de renda para adquiri-lo após o aumento do preço do barril(angelopoulos, 1977: 76). O desencadeamento destas reações levou a ONU a refletir sua postura, e, nesta medida, a mudança da mesma. No dia 1º de maio de 1974, a Assembléia Geral das Nações Unidas adota a Declaração 17 e o Programa de Ação relativo à Instauração de uma 14 Esta parte do GATT consagra uma exceção aos PVDs na medida em que prega a inexigibilidade da reciprocidade dos mesmos nas negociações multilaterais, art. XXXVI. Esta não era nenhuma novidade, pois na, já referida, Carta de Havana, havia a previsão de um tratamento preferencial para os países em desenvolvimento, na sua parte VII. 15 A questão do SGP será tratada no capítulo seguinte. 16 Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo. Para maiores informações: fundada na equidade, na igualdade soberana, na interdependência, no interesse mútuo e na cooperação entre todos os Estados, independentemente do seu sistema econômico e social, que corrigirá as desigualdades e retificará as injustiças atuais, permitirá eliminar o fosso crescente entre os países desenvolvidos eos países em via de

14 Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), seguida pela apreciação e votação da Carta dos Direitos e Deveres Econômicos do Estado 18, em Dezembro do mesmo ano 19. Este é considerado o início da NOEI Este novo paradigma deveria ser mais equitativo que o seu anterior, por meio de uma simbiose entre dois aportes: a independência efetiva e a interdependência operante (BEDJAOUI, 1979: 36). A primeira urge do princípio tradicional da igualdade soberana, expressa, principalmente, na reivindicação da institucionalização da prática um Estado - um voto 20 ; e do desaparecimento dos órgãos onde os países em desenvolvimento não beneficiam de igualdade 21. A segunda anuência aconteceria no que tange a criação de uma estrutura que tornasse a interdependência entre os países mundiais direcionada para o desenvolvimento dos PVDs, usando, no campo do comércio mundial, da discriminação e não reciprocidade. A incompatibilidade entre estes dois anseios, apontada por alguns autores (BOULARES, 1980: 10), é apenas aparente, por ser isso, na verdade, o reconhecimento desenvolvimento, e assegurará na paz e justiça às gerações presentes e futuras um desenvolvimento económico e social que se irá acelerando... (DINH, 1994: 907) 18 Deve Constar que nenhum país desenvolvido foi signatário desta carta, não reconhecendo, assim, a sua condição de codificação de novos costumes internacionais. Sendo este o ponto fulcral no questionamento da existência, ou não, de uma nova ordem econômica internacional. 19 Resoluçôes 3201 e 3202 (S-VI), respectivamente. 20 Como exemplo adverso, o sistema de votos ponderados institucionalizado no FMI. 21 Conselho de Segurança das Nações Unidas.

15 de princípios de natureza coligada, distinta e compatível; na medida em que um país pede o reconhecimento de sua autonomia e a atenção sobre a sua condição de inferioridade econômica, ele não opõe uma a outra, mas sim tenta demonstrar que apesar da segunda, a primeira sustenta-se SHUVH. Como exemplo de alguns frutos desta nova filosofia: a Organização pela Agricultura e Comida 22, 1978, e a Organização das Nações Unidas do Desnvolvimento e Indústria (ONUDI), no seio da ONU; os diversos Acordos no comércio dos produtos de base; o Sistema Geral de Preferências (SGP); alguns atos da OCDE, no sentido de ajuda financeira 23 ; uma maior cooperação entre os PVDs 24. De todos estes programas, os únicos que propunham um programa de desenvolvimento sustentável, e não de simples doações e mudanças na condição jurídica internacional, eram aqueles ligados à seara comercial. 22 Mais conhecida por FAO - Food and Agricultural Organization. Para maiores informações: 23 Nomeadamente a criação do Comitê de Ajuda ao Desenvolvimento - CAD - na sua estrutura institucional. Para maiores informações: 24 Na terceira reunião do G-77, a Convenção de Manila, em 1976, adotou-se a resolução sobre a Cooperação Econômica entre Países em Desenvolvimento que objetivava a construção do conceito de autosuficiência coletiva, VHOIUHOLDQFH.

16 26LVWHPD*HUDOGH3UHIHUrQFLDV6*3 8P'LVFXUVR Desde a descolonização, muitas ex-metrópoles perpetuaram suas relações comerciais preferênciais com as ex-colônias, o que foi reconhecido pelo GATT, em Todavia, como a maioria dos países subdesenvolvidos estava fora deste esquema, além de terem percebido que não poderiam competir no eixo comercial Norte-Norte, a partir da supracitada Conferência de Bandung, o discurso por relações comerciais diferenciadas começou a formar coro. Seus primeiros ecos foram sentidos no GATT, em 1964, quando da, já citada, adoção da parte VI do acordo, reconhecendo a não-reciprocidade nas relações comerciais. Contudo, a pedra angular deste novo conceito comercial foi fundada em Neste ano, o então secretário geral da CNUCED sugeriu que se constituísse um sistema comercial preferencial que beneficiasse os países em desenvolvimento ; para o seu desenvolvimento foi criado o Comitê Especial de Preferências. 25 Ressalta-se o fato de a URSS e a Austrália já terem seus SGPs desde 1965 e 1966, respectivamente. O segundo país, mesmo sendo signatário do GATT, nunca ter recebido uma reclamação neste sentido, perante o Conselho das Partes Contratantes, até o ano de 1971, ano de aprovação da derrogação acerca do SGP.

17 Este Comitê terminou seus trabalhos em 12 de Outubro de 1970, quando emitiu suas conclusões concertadas, que serviriam de base para os trabalhos que passaram a ser desenvolvidos no GATT. Nos ajustes do grupo de discussão formado no berço do GATT em 1947, relevouse a incompatibilidade do SGP com a claúsula da nação mais favorecida. Para solucionar esta antítese, as Partes Contratantes decidiram aprovar o SGP sob forma de derrogação ao GATT com base no art. XXV, 5º do acordo, tendo como prazo de vigência, dez anos. 26 Resolução 21 (II) da Assembléia Geral das Nações Unidas. 27 Como intrumentos básicos deste mecanismo de importação tem-se: -a auto-elegibilidade organizada: o SGP de cada país enumera os seus possíveis requerentes, não podendo ser constestado o seu método de escolha; -as listas dos produtos abrangidos pelas reduções tarifárias, e o valor percentual destas reduções, anexas à lei consituidora do SGP. Conjuntamente estão as regras de origem que devem ser atentidas pelos produtos dos países beneficiários para a obtenção das reduções tarifárias; -claúsulas de encerramento unilateral, nas quais os países dadores afirmam poder reiscindir o SGP a qualquer tempo; -a existência de previsões no tocante a: claúsulas de salvaguarda, excepções gerais, restrições quantitativas e, principalmente, as FRPSHWLWLYHQHHGOLPLWDWLRQV e as claúsulas GHPLQLPLV, que impossiblitam a eligibilidade de certos produtos na medida em que estes estiverem competitindo com produtos nacionais, ou ao passo que assumem uma posição monopolística no quadro de importações. Assim percebe-se que algumas dessas medidas diminuem a amplitude do caráter beneficiante dotado por este sistema.

18 Após este ato das Partes Contratantes do GATT, chegaram a existir 20 SGPs 28 por todo mundo, no final da década de No Tóquio Round ( ), os países constituidores do GATT voltaram a discutir este tema, devido a proximidade do término do prazo de derrogação. Buscando não propriciar infindas renovações de derrogações vindouras acerca do tema, eles propuseram a instituição de uma claúsula de habilitação, em 1979, na qual afirmavam: ³1RQREVWDQWOHVGLVSRVLWLRQVGHO DUWLFOH SUHPLHUGHO $FFRUG *pqpudoohv3duwlhv&rqwudfwdqwhvshxyhqwdffrughuxqwudlwhphqw GLIIpUHQFLp HW SOXV IDYRUDEOH DX[ SD\V HQ YRLH GH GpYHORSSHPHQW VDQVO DFFRUGHUjG DXWUHVSDUWLHVFRQWUDFWDQWHV 31 A claúsula de habilitação definiu muito bem os paramêtros no qual poderiam se desenvolver os SGPs, e deixou muito clara a sua condição de exceção ao art. I do GATT, todavia, esqueceu-se de definir o que ela mesmo seria. 23UREOHPDGHVXD1DWXUH]D-XUtGLFDQR4XDGURGR$FRUGR,QVWLWXLGRUGD20& ³7KH VLWXDWLRQ LQ WKH :72 DIWHU WKH 8UXJXD\ 5RXQG FRQWLQXHV ZLWK HYHQPRUHDPELJXLW\7KH8UXJXD\5RXQGWH[WSURYLGHVWKDWPRVWRIWKH 28 Entretanto, existiram reações adversas dos países desenvolvidos, como: o Acordo Multifibras, as restrições voluntárias às exportações e a multiplicação das medidas `anti-dumping. 29 Ainda, existem apenas 10 SGPs em vigor. 30 Os exemplos dos SGPs dos EUA, Comunidade Européia (CE) e Austrália serão analisados mais detidamente D SRVWHULRUL. 31 Em: Doc., GATT/1234 de 12 de abril de (p. 10)

19 OHJDOLQVWUXPHQWVXQGHU*$77 32 VWLOOLQIRUFHZKHQWKH:72FDPH LQWR H[LVWHQFH ZRXOG EH FDUULHG RYHU DV SDUW RI *$77 7KXV LW DSSHDUV WKDW WKHVH PHDVXUHV FRQWLQXH WR DSSO\ DOWKRXJK WKH VSHFLDO SURYLVLRQV IRU GHYHORSLQJ FRXQWULHV GLVWULEXWHG LQ PDQ\8UXJXD\5RXQG WH[WV PD\ ODUJHO\ VXSHUVHGH WKH 7RN\R 5RXQG 'HFODUDWLRQ (JACKSON, 1997: 324) Então, para se entender a natureza jurídica do SGP na OMC, deve ser feito o retorno a contextualização da claúsula de habilitação dentro do GATT Na ausência de regulação sobre esta matéria no Direito Internacional, acredita-se que esta imiscuização somente poderá derivar da conceituação: de suas características, procurando verificar se existe alguma similitude com os outros instrumentos jurídicos do GATT, e da sua natureza jurídica, para que, partindo deste ponto, possa-se definir o seu regime jurídico ideal. ³/D FODXVH G KDELOLWDWLRQ GX *$77 Q HQJOREH SDV OH WUDLWHPHQW GLIIpUHQFLpHWSOXVIDYRUDEOHGDQVVDJpQpUDOLWp6RQFKDPSG DSSOLFDWLRQ HVWFLUFRQVFULWjODJDPPHGHVLQVWUXPHQWVHWPHVXUHVVXLYDQWVV\VWqPHV GH SUpIpUHQFHV WDULIDLUHV JpQpUDOLVpHV DUUDQJHPHQWV SUpIpUHQWLHOV HQWUH 39'HWWUDLWHPHQWVSpFLDORFWUD\pDX[SD\VOHVPRLQVDYDQFpVGXJURXSH GHV ³ PHVXUHV QRQWDULIDLUHV UpJLHV SDU OHV GLVSRVLWLRQV GHV FRGHV QpJRFLpVVRXVOHVDXVSLFHVGX*$77 (LEBULLENGER, 1982: 286) A partir desta citação, pode-se atestar que a claúsula de habilitação não cobre as preferências especiais arranjadas por acordos específicos entre países desenvolvidos e 32 O GATT chamado de GATT 1947 é aquele aprovado em Genebra neste mesmo ano, vigorando em 1948; já o GATT 1994 é o texto contido no anexo 1A do acordo constituinte da OMC. Este é formado pelo GATT 1947, mais instrumentos adotados a partir da vigência deste e outras declarações - sua plena constituição está descrita em seu primeiro parágrafo. Assim, quando se adota, neste texto, a partir de agora, o termo GATT, enquanto acordo, quer se referir ao GATT 1994.

20 certos PVDs. Devido a isto, a Comunidade Européia (CE) aprovava seus sucessivos acordos 33 tendo como base jurídica a parte IV do GATT. Outro intrincado fato é que, ³/D FODXVH G KDELOLWDWLRQ LQWqJUH pjdohphqw OHV PHVXUHV WDULIDLUHV HW QRQ WDULIDLUHV pfkdqjphv HQWUH SD\V HQ YRLH GH GpYHORSSHPHQW,O V DJLW WRXW G DERUG GHV µduudqjhphqwv UpJLRQDX[ RX PRXQGLDX[FRQFOXVHQWUHSDUWLHVFRQWUDFWDQWHVSHXGpYHORSSpHVHQYXHGH OD UpGXFWLRQ RX GH O polplqdwlrqd GH GURLWV GH GRXDQH VXU XQH EDVH PXWXHOOH (LEBULLENGER, 1982: 287) Isso fomenta a dúvida sobre qual deve ser a base jurídica sob a qual os países subdesenvolvidos devem submeter os seus acordos de integração para a aprovação, se a claúsula de habiltação ou o art XXIV do GATT 34. Para finalizar o elenco de suas características, sublinha-se a primeira citação do prof. Lebullenger,LQ ILQH, ao expressar que a claúsula de habilitação engloba os acordos responsáveis pela regulação das barreiras não tárifárias, podendo, destarte, afetar a claúsula da nação mais favorecida em outros tratados 35, sem ter a previsão de sua derrogação nos mesmos. Após atentar para o fato de que uma vista em suas características mais confundiram o SGP com outros mecanismos jurídicos do GATT do que esclareceram 33 Menciona-se, como exemplo, as sucessivas Convenções de Lomé. 34 A prática tem demonstrado a opção por esta última alternativa. 35 A OMC é constituída por um grande número de acordos adotados sob a forma de um VLQJOHXQGHUWDNLQJ. Muitos desses acordos contém a claúsula da nação mais favorecida dentro de seu corpo de normas - GATS (Geral Agreement of Trade of Services) e TRIPS (Trade Related Intellectual Property).

21 suas particularidades; resta apenas o seu estudo comparado com as outras exceções do GATT tocantes à claúsula da nação mais favorecida, para poder-se afirmar, se existe conceituação possível. A única pista, neste sentido, dada pelos instrumentos do seu ato de aprovação é a possibilidade de alargamento do campo da claúsula de habilitação, dentro do processo de aprovações de derrogações do art. XXV no entanto, não se diz se esta será temporária ou não. Deve-se notar que, apesar do que foi descrito no parágrafo acima, a claúsula de habilitação não pode ser definida enquanto uma derrogação especial de caráter intermitente, já que se aplica a um pedido singular e não se conforma a figura de um arcabouçopara uma pluralidade de situações. De acordo com John Jackson (JACKSON, 1992: ), estas exceções são: as medidas de salvaguarda (art. XIX), a possibilidade de constituição de uma zona de livre comércio ou uma união aduaneira (art. XXIV), as exceções gerais (art. XX), exceções por motivos de segurança (art. XXI). Após um estudo mais aprofundado das características de uma medida de salvaguarda, pode-se afirmar que não existe compatibilidade alguma entre esta e a claúsula de habilitação, a primeira foi instituída como medida a ser adotada em situações de dano a indústria nacional, que poderiam ser resolvidas em um pequeno espaço de tempo, situação em nada parecida àquela passível de usufruir da segunda.

22 Pela leitura dos artigos acima citados, claramente atesta-se a ausência de semelhanças entre a claúsula de habilitação e o art XXIV, pois este cobre um âmbito muito menor que aquele coberto pela claúsula de habilitação. A única ligação, que se percebe entre estes dois instrumentos, é a já discutida possibilidade de imparcimônia no enquadramento dos movimentos de integração dos PVDs. Apesar de versarem sobre diferentes temas, os arts. XX e XXI possuem um mesmo modo de aplicação e interpretação 36. Na sua confrontação com a claúsula de habilitação extraem-se algumas semelhanças: o regime de exceção; o prazo indeterminado de aplicação; a possibilidade de aplicação unilateral destas medidas desde que esta não impeça ou anule a aplicação de outras partes do acordo, ou atente contra os objetivos do acordo (art. XXIII). Por maioria de razão, optando pela classificação da claúsula de habilitação como um conjunto de excepções gerais, resta definir a sua natureza jurídica. Não conseguindo verificar qualquer remissão à claúsula de habilitação dentro do GATT; nem a previsão, dentro dos instrumentos da sua adoção e de sua submissão ao regime de resolução de controvérsias estabelecido pelos arts XXII e XXIII do acordo, 36 Para uma melhor definição do modo de interpretação destes artigos: Shrimp Case, USA vs. México - Appelate Body Report.

23 acredita-se que, tal como o acordo que lhe foi berço, a claúsula de habilitação dentro do direito internacional configure-se como um H[HFXWLYHDJUHHPHQW de natureza especial 37. Isto deve ter assim se sucedido para que os países desenvolvidos não tivessem os seus SGPs submetidos à possibilidade de serem analisados por3dqhov, nos termos do art. XXIII, e, desta maneira, pudessem ter plena discricionariedade nos seus atos circunspectos aos limites do SGP. Agora, para melhor entender o SGP e suas particularidades, faz-se necessária a sua comparação com outros sistemas de preferência comercial: os Acordos sobre o comércio de produtos de base, as Convenções de Lomé e o SGP estabelecido na Convenção de Belgrado, em *3HVHXV3DUHV Os três modelos comerciais acima citados são denominados de SGP. Mesmo se falando em considerar a existência de um conceito amplo de SGP, isso não seria possível. As particularidades de cada um destes modelos não permitem que possam ser colocados em um mesmo conceito, por mais ODWRque este seja. Os Acordos sobre o Comércio de Produtos de Base (ACPB) são 37 Ou seja, um acordo realizado de maneira paralela ao acordo principal, e que não necessitou de ratificação para a sua entrada em vigor.

24 ³/HV$FFRUGVGHSURGXLWVGHEDVHVRQWGHVWUDLWpVHQWUH(WDWVFRQFOXV SRXU XQH SpULRGH OLPLWpH HW UHQRXYDEOHYLVDQW j UHJOHPHQWHU OH PDUFKp G XQ SURGXLW GpWHUPLQp HW UpXQLVVDQW VXU XQH EDVH SDULWDLUH SD\V SURGXFWHXUV HW SD\V FRQVRPPDWHXUV GDQV XQH 2UJDQLVDWLRQ LQWHUQDWLRQDOH VSHFLDOHPHQW FUpH SRXU HQ IDFLOLWHU OD PLVH HQ RHXYUH (PELLET, 1978: 108) Destarte, a primeira divergência entre o SGP e o ACPB é a sua fonte: enquanto o primeiro tem sua força derivada de um ato unilateral, o segundo urge de um tratado bilateral. A segunda característica a ser relevada nesta comparação é, no entanto, uma semelhança. Apesar da claúsula de habilitação ser feitadsulrul e de caráter perpétuo, a inclusão do país na lista de beneficiários não o é, desta maneira, ambos possuem um efeito capacitadamente temporário. A próxima diferença reside no objetivo perseguido por cada um deles: o SGP busca o beneficiamento tarifário de uma lista definida de diversos produtos provenientes de um determinado país subdesenvolvido; já o fim do ACPB é a estabilização do mercado mundial de um determinado produto. A quarta dicotomia entre estes instrumentos do comércio internacional é a existência de reciprocidade nas estipulações do ACPB, e a ausência 38 da mesma no SGP. A necessidade de uma organização intenacional específica para a tutela do ACPB é a última diferença entre eles, o SGP é regido pelo país que o aplica, mesmo tendo que observar as regras da OMC. 38 Ressalte-se o caso norte-americano a ser analisado abaixo.

25 Por outro lado, as Convenções de Lomé, para alguna autores 39, sempre foram SGPs. Contudo, ao se certificar do último texto, Convenção de Lomé IV 40, não é umsgp que se configura perante os olhos, mas sim um acordo de cooperação econômica, por demais abrangente para ser conceituado como um SGP. Tomando por parte alguns exemplos: O fato de ser um acordo plurilateral já distancia sua natureza jurídica daquela detida pelo SGP. ³$UWLFOH,Q RUGHU WR SURPRWH DQG GLYHUVLI\ WUDGH EHWZHHQ WKH &RQWUDFWLQJ3DUWLHVWKH&RPPXQLW\DQGWKH$&36WDWHVDUHDJUHHGRQ JHQHUDOWUDGHSURYLVLRQVVSHFLDODUUDQJHPHQWVIRU&RPPXQLW\LPSRUWRI FHUWDLQ$&3SURGXFWVDUUDQJHPHQWVWRSURPRWHWKHGHYHORSPHQWRIWKH $&36WDWHVWUDGHDQGVHUYLFHVLQFOXGLQJWRXULVPDV\VWHPRIUHFLSURFDO LQIRUPDWLRQ DQG FRQVXOWDWLRQ GHVLJQHG WR KHOS DSSO\ WKH WUDGH FRRSHUDWLRQSURYLVLRQVRIWKLV&RQYHQWLRQHIIHFWLYHO\. A leitura do art. 24 proporciona uma visão da amplitude do leque de medidas comerciais presentes no texto da Convenção,e que em muito distanciam-se de tudo que já foi dito a respeito do SGP e do ACPB. Outro marcante diferencial é o Título V da Parte I da Convenção, versando sobre o desenvolvimento industrial dos países componentes da ACP. Neste momento, ressalta-se que em vulgares acordos comerciais internacionais não se tem como objeto qualquer medida concernente a indústria em si mesma. Evitando uma maçante enumeração de artigos e títulos da Convenção de Lomé IV, citar-se-á a mais importante particularidade deste acordo de cooperação econômica, que 39 Em: (GAKUNU, 1999: 26-28). 40 O texto pode ser obtido no site:

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