Conhecimento é saúde e saúde é conhecimento 1. Monica Aiub

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1 Conhecimento é saúde e saúde é conhecimento 1 Monica Aiub Muitas das questões relativas ao cuidado com a saúde passam pelas formas de vida que construímos. Grande parte de nossas doenças são advindas de hábitos adquiridos, outras de um desconhecimento das necessidades de nossa estrutura biológica ou dos nossos limites existenciais. A tendência de retirar do médico a responsabilidade pelo tratamento, atribuindo-a ao paciente, exige que este último busque formas de conhecimento para cuidar de si mesmo. Nesse processo, muitos buscam receitas, fórmulas mágicas para ter saúde e longevidade. Medicamentos, dietas, vitaminas, exercícios físicos, técnicas de relaxamento, meditação, muitas são as formas para o cuidar. Como escolher entre tantas? Como tomar para si a tarefa do cuidar de si mesmo? Pessoas tomam medicamentos para aperfeiçoar seu funcionamento físico e mental; fazem cirurgias, colocam próteses, para deixar seus corpos mais perfeitos ; tomam vitaminas e complementos alimentares para nutrir melhor seu organismo. Qual a medida dessa perfeição? Outras fazem exercícios físicos e mentais à exaustão para ultrapassar seus limites; inúmeras pesquisas são feitas para aumentar a expectativa de vida, para evitar, de diferentes maneiras, a doença, o sofrimento e a morte. Há medicamentos para o necessário e para o contingente. Há um limite? Até onde podemos ir? Quais as melhores maneiras de cuidar de si? A primeira referência histórica que encontramos acerca do cuidado de si, está diretamente relacionada ao conhecimento de si, e se passa na Grécia Antiga. A inscrição do oráculo de Delfos conhece-te a ti mesmo é um indício de um modo de pensar. No período antropológico, os diálogos de Platão apresentam o conhecimento de si como uma prática necessária. Foucault, em Hermenêutica do Sujeito (2004), denomina o cuidado de si como uma forma de conhecimento de si, vista na Antiguidade Clássica como o cuidar de si para cuidar da polis, para governar. O conhecer-se e o cuidar-se possuíam um caráter amplo. Cuidar de si implicava em conhecer o universo para situar-se, para deliberar acerca das questões da polis. Cuidar da alma, do corpo, da casa, da sociedade e da natureza implicava em conhecer para deliberar, para constituir a autonomia. O papel da filosofia, desde sua, é possibilitar a autonomia entendendo-a aqui como autonomia da razão, o livre pensar, a busca do conhecimento tendo como finalidade o benefício do ser humano 2. Primeiramente, o tema de uma atitude geral, um certo modo de encarar as coisas, de estar no mundo, de praticar ações, de ter relações com o outro, a epiméleia 1 Artigo publicado na Revista Filosofia, Ciência & Vida Caderno Especial: Filosofia e Medicina. 2 Definição esta encontrada em Platão, em passagens dos diálogos Fedro e Teeteto.

2 heautoû [o cuidado de si mesmo] é uma atitude para consigo, para com os outros, para com o mundo. Em segundo lugar, a epiméleia heautoû é também uma certa forma de atenção, de olhar. Cuidar de si mesmo implica que se converta o olhar, que se o conduza do exterior para (...) si mesmo. O cuidado de si implica uma certa maneira de estar atento ao que se pensa e ao que se passa no pensamento. Há um parentesco da palavra epiméleia com meléte, que quer dizer, ao mesmo tempo, exercício e meditação, assunto que também trataremos de elucidar. Em terceiro lugar (...) também designa sempre algumas ações, ações que são exercidas de si para consigo, ações pelas quais nos assumimos, nos modificamos, nos purificamos, nos transformamos e nos transfiguramos. Daí uma série de práticas que são, na sua maioria, exercícios, cujo destino (na história da cultura, da filosofia, da moral, da espiritualidade ocidentais) será bem longo. São por exemplo, as técnicas da meditação; as de memorização do passado; as de exame de consciência; as de verificação das representações na medida em que elas se apresentam ao espírito, etc. (FOUCAULT, 2004: 14-15) Nas filosofias estóica e epicurista, dadas as modificações sociais e políticas que incorreram na extinção da democracia ateniense, o cuidado da polis deixou de ser tarefa do cidadão e, a fim de encontrar formas de sobreviver a um império não desejado, o cuidado de si passou a ter como objetivo a vida feliz, o equilíbrio interior, o saber envelhecer. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. (EPICURO, 2002: 23). O cuidado, caracterizado como cuidado da alma na Antiguidade, exigia um conhecimento da natureza quer para, no período antropológico, encontrar os elementos para o equilíbrio necessário à organização político-social; ou para, no período helenístico, com a finalidade de tranqüilizar, aquietar as preocupações, afastar o medo e, conseqüentemente, encontrar a felicidade. Não podendo exercer a autonomia política, o cidadão ateniense do período helenístico volta-se para a autonomia do indivíduo, que obtém conhecimento para não se deixar afetar 3 por medos infundados, que seriam oriundos de opiniões equivocadas. Poderíamos falar, no que concerne a esse conhecimento, de uma leitura objetivista do mundo, de um realismo naturalista, cujo critério de verdade é a correspondência: dizer das coisas que são, que são; e das que não são, que não são. Ou seja, as coisas são, na natureza e em si, e é preciso conhecê-las para cuidar da alma. Ainda em Hermenêutica do Sujeito, Foucault aponta o histórico do conhecimento e do cuidado de si, sobre o qual destacamos o por ele denominado momento cartesiano, que com seu giro epistemológico reconfigura a questão nos termos do problema da verdade e da história da verdade. Creio que a idade moderna da história da verdade começa no momento em que o que permite aceder ao verdadeiro é o próprio conhecimento e somente ele. Isto é, 3 A ataraxia ou imperturbabilidade da escola epicurista. Ver em EPICURO. Carta a Meneceu. São Paulo: UNESP, 2002.

3 no momento em que o filósofo (ou o sábio, ou simplesmente aquele que busca a verdade), sem que mais nada lhe seja solicitado, sem que seu ser de sujeito deva ser modificado ou alterado, é capaz, em si mesmo e unicamente por seus atos de conhecimento, de reconhecer a verdade e a ela ter acesso. O que não significa, é claro, que a verdade seja obtida sem condição. Contudo, estas condições são agora de duas ordens e nenhuma delas concerne à espiritualidade. Por um lado, há condições internas do ato de conhecimento e regras a serem por ele seguidas para ter acesso à verdade: condições formais, condições objetivas, regras formais do método, estrutura do objeto a conhecer. De todo modo porém, é do interior do conhecimento que são definidas as condições de acesso do sujeito à verdade. As outras condições são extrínsecas. Condições tais como: não se pode conhecer a verdade quando se é louco (...) Condições culturais também: para ter acesso à verdade é preciso ter realizado estudos, ter uma formação, inscrever-se em algum consenso científico. E condições morais: para conhecer a verdade é bem preciso esforçar-se, não tentar enganar seus pares, é preciso que os interesses financeiros, de carreira ou de status ajustem-se de modo inteiramente aceitável com as normas da pesquisa desinteressada, etc. (FOUCAULT, 2004: 22-23) A verdade, sendo inata, possui ainda um caráter universal, mas agora é conhecida pela razão. Com a suposição de uma razão capaz de conhecer, interferir e dominar o universo segundo uma perspectiva de um sujeito que ocupa um lugar privilegiado neste universo, a modernidade oferece condições para o pensar autônomo. Entre essas condições, apontadas por Foucault conforme o trecho acima, uma estrutura do pensar, um padrão de normalidade ( não se pode conhecer a verdade quando se é louco ), condições de acesso ao conhecimento e aspectos morais. O homem, um animal doente Na antiguidade clássica, a integração corpo e mente, e destes com a natureza e a sociedade, exigia que a saúde fosse integral. O conceito de saúde proposto no período antropológico correspondia ao equilíbrio entre corpo-mente-sociedade-natureza. Na modernidade, há uma dissociação entre esses aspectos, em parte já observada na cultura cristã, que valoriza e privilegia o cuidado da alma; mas devida, principalmente, ao dualismo cartesiano, que permite compreender uma mente sã em um corpo doente, ou uma mente doentia habitando um corpo saudável. A proposta socrática é uma primeira aposta no domínio racional das paixões, dos instintos, mas não como uma atividade repressora, tirânica e sim integrada com as necessidades do corpo. O conhece-te a ti mesmo implicaria numa sabedoria da natureza, da natureza do corpo, para preservar sua harmonia natural. As virtudes todas que Sócrates analisa seriam, no espírito de um grego, inconcebíveis se não estivessem enraizadas num estado corporal de saúde (MELLO, 1993: 192). Nesse sentido, Sócrates seria um médico da alma, que associa conhecimento à saúde, formulando a seguinte equação: conhecimento é saúde e saúde é conhecimento. Assim se produzem as doenças do corpo. As da alma, que sobrevêm por conseqüência de disposições do corpo, têm os seguintes caracteres. Deve-se admitir que a doença própria da alma é a demência. Mas há duas espécies de demência: uma é a loucura, outra é a ignorância. Por conseguinte, toda afecção que comporta um ou outro destes distúrbios, deve ser chamada doença, e deve-se admitir que os prazeres e as dores excessivas são, para a alma, as mais graves das doenças. Pois,

4 feliz em extremo, ou sofrendo pelo efeito da dor, a paixão contrária, o homem, quando se apressa inoportunamente a atingir um objeto ou fugir de outro, é incapaz de ver bem ou de escutar bem seja lá o que for: torna-se desesperado e impróprio para o menor raciocínio. Ora, aquele no qual a semente é abundante e corre aos borbotões pela medula assemelha-se a uma árvore por demais carregada de frutos. Experimenta, a respeito de tudo, dores intensas e grandes prazeres, em seus desejos e nos produtos que daí nascem. Assim, enlouquece, durante a maior parte de sua vida, pelo excesso de seus prazeres e de suas dores; tem a alma enferma e apaixonada pela ação do corpo. Não obstante, não se o tem por doente, mas por perverso voluntariamente. E portanto, em realidade, a sensualidade imoderada é, em grande parte, uma doença da alma, provocada pelas propriedades de uma certa substância que se escoa pelo corpo e o umecta através da porosidade dos ossos (...) Contra essas duas doenças só há um remédio: não mover nunca a alma sem o corpo, nem o corpo sem a alma, a fim de que, defendendo-se uma contra a outra, essas duas partes guardem seu equilíbrio e sua saúde. (PLATÃO, 2002: ) A loucura, nesta concepção, seria o excesso, o desequilíbrio. A cura estaria em restaurar o equilíbrio. Para fazê-lo é preciso um conhecimento de si, de seu corpo, de sua alma e das proporções existentes entre eles, necessitando, por vezes, desenvolver algumas características ou habilidades da alma ou do corpo. É preciso também conhecer o universo e equilibrar o conjunto corpo-alma ao entorno desse universo. Assim, a loucura é o excesso, é o desequilíbrio, é o estar a alma apaixonada e enferma pela ação do corpo. Na perspectiva nietzschiana, a concepção platônica leva a razão a assumir o papel de dominadora dos instintos, das paixões, como se estes pertencessem a um outro domínio. A leitura cristã desta idéia, na qual os instintos e paixões devem ser refreados por uma alma racional e não consegui-lo equivale a pecado e subseqüente culpa, leva a razão a exercer um papel de domínio efetivo, podendo, em alguns casos, desprezar o corpo. No modelo cartesiano, no qual corpo e mente são substâncias distintas apesar de uma relação de causalidade estabelecida entre eles, a mente deve dominar o corpo, pois a racionalidade passa a ocupar o lugar privilegiado, e deve dominar uma natureza material, corpórea, o que implica em um olhar para o corpo e tudo o que lhe afeta e diz respeito como se não pertencesse ao essencialmente humano: sua alma. Daí a expressão submetido, condicionado às próprias paixões, como se o corpo fosse externo àquela que decide: a mente. Ao questionar a excessiva valorização da razão, Nietzsche propõe como composição do ser humano a razão (o apolíneo) e os instintos, desejos, paixões (o dionisíaco). Ambos são elementos estéticos, responsáveis pelo equilíbrio e subseqüente saúde do ser humano. Ao propor o equilíbrio entre apolíneo e dionisíaco como a natureza vital do ser humano, e a valorização desta natureza como meio para atingir o estado de saúde, Nietzsche, como Sócrates, nos apresentaria a equação: saúde é pensamento e pensamento é saúde. Na perspectiva nietzschiana, o humano é um animal doente na medida em que se impõe um equilíbrio racional inatingível, enquanto, ao mesmo tempo, sofre a natural inquietação dionisíaca. Se sua doença é a inquietação, é ela que caracteriza o humano e o torna um animal interessante. Trata-se de um desequilíbrio no equilíbrio, de um equilíbrio em movimento, de um devir.

5 Após avaliar as observações de Karl Jaspers sobre a doença de Nietzsche, constatando um fator biológico, Mello (1993) aponta a vida de Nietzsche, a sua forma de lidar com a doença, como seu conceito de saúde, a grande saúde, e o papel do filósofo como médico da cultura. O que Jaspers considera um fator biológico parece ser, portanto, um autêntico ingrediente do desenvolvimento espiritual de Nietzsche. O preconceito manifestado por Jaspers nesse particular é o preconceito inerente à mentalidade moderna no que diz respeito às relações entre o corpo e o espírito do homem. O corpo é um aspecto da vida humana com o qual a filosofia não tem que se preocupar. Entre a filosofia e a medicina, entre a ética e a medicina, não há nenhuma relação digna de interesse. Nietzsche foi o primeiro e o único pensador dos tempos modernos que ousou examinar os diversos sistemas filosóficos do ponto de vista dos sintomas de vida que eles revelavam. Foi o primeiro e o único a perguntar se uma idéia era útil à vida. (MELLO, 1993: ) Mello considera Nietzsche como uma grande referência a um olhar monista para o problema mente-cérebro, ao valorizar uma fisiologia, o bios, a vida do ser humano como um animal doente que de sua doença traz a força para a construção de si mesmo, para a interação com as forças naturais que se movimentam constantemente. Se corpo e mente não são realidades distintas, então ética e medicina não podem estar dissociadas. Por esse motivo, a filosofia nietzschiana nos provoca a voltar o olhar ao corpo e aproxima a medicina das questões éticas. Compreendendo corpo e mente como uma única substância, a composição de nossa própria natureza, a loucura seria nosso estado natural de inquietação diante de um universo e de uma humanidade em devir, seria a potência de nosso ser, o que nos move à evolução, à criação. A tentativa de reprimir racionalmente essa força natural seria o motivo de nossa fraqueza e declínio. Assim, o que até então era compreendido como cura, deixa de ter sentido de equilíbrio para ser visto como a causa do desequilíbrio. A questão não é curar restaurando uma normalidade tão ilusória quanto o poder da razão, mas conhecer a própria natureza, respeitá-la e descobrir ou criar formas de vida possíveis a partir desta natureza. A isso poderíamos chamar de transmutação dos valores. Ao invés de forçar a existência, a vida, a partir de padrões racionais não naturais, criados em um plano de realidade não condizente com nossa natureza, conhecer os valores vitais de nosso plano de realidade, nossas potencialidades e exercê-las de maneira criativa, seria saúde. A filosofia, como a provocação, a inquietação diante do mundo, de si mesmo e do outro, teria como papel fundamental a construção de modos de ser saudáveis. A ética, que não é normativa, mas consiste numa reflexão acerca da construção de tais modos de ser, teria um papel fundamental na existência humana. A proposta nietzschiana parte de uma crítica à hipocrisia que exige a anulação do que se é. Ele questiona a tese darwinista apontando que, nesse sentido, sobrevive o fraco, a moral de

6 rebanho, que pautada numa ilusão da verdade, anula a natureza humana. Sendo a natureza do humano o equilíbrio entre apolíneo e dionisíaco, entre mente e corpo, o caminho indicado para a vida saudável é conhecer e respeitar esta natureza, permitir uma existência estética, valorizando tudo o que produz vida. Referências Bibliográficas EPICURO. Carta sobre a felicidade: a Meneceu. São Paulo, UNESP, FOUCAULT, M. Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, MELLO, M. Nietzsche: o Sócrates. São Paulo: EDUSP, NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral. São Paulo: Cia das Letras, PLATÃO. Timeu e Crítias ou a Atlântida. Curitiba: Hemus, 2002.

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