PELOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Relatório Anual

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1 PELOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Relatório Anual 2004

2 MISSÃO Promover a defesa dos direitos e o exercício da cidadania das crianças e dos adolescentes VISÃO Uma sociedade justa e responsável pela proteção e pleno desenvolvimento de suas crianças e adolescentes VALORES Ética Transparência Solidariedade Diversidade Foco na criança e no adolescente Autonomia e independência FOCOS DE AÇÃO Educação com ênfase na participação da família e da comunidade na educação Proteção especial Funcionamento do Sistema de Garantia de Direitos, com ênfase em Conselhos Tutelares ESTRATÉGIAS Propor e influenciar políticas públicas Disseminar concepções e metodologias Mobilizar e se articular com outros setores e atores da sociedade Atuar em rede Fortalecer a sociedade para exercer o controle social Atuar de forma inovadora Relatório Anual

3 PALAVRA DA DIRETORIA Dos primeiros 15 anos aos próximos 15 4 A Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente completa 15 anos em 2005 mesma idade que tem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Aqui está uma coincidência que muito nos agrada e que gostamos de frisar, pois o ECA é uma legislação progressista, que propõe a corresponsabilidade entre Estado, família e sociedade na proteção aos brasileiros que não completaram 18 anos. São seres em formação, cidadãos donos de direitos nem sempre observados, sobre os quais repousam nossas esperanças futuras. O ECA foi fruto de uma ampla mobilização da sociedade e no bojo desse movimento de cidadania e participação política nasceu a Fundação Abrinq. Durante o ano de 2004, tal qual um adolescente que faz planos para o futuro, a Fundação Abrinq também decidiu pensar no longo prazo, pensar longe, pensar grande. E no horizonte dos próximos 15 anos o que mais se destaca é a necessidade de atuarmos nos municípios. Nossa base de ação terá de ser a cidade, pois é nela que vive hoje a maioria das crianças e adolescentes. Esse estimulante, complexo e por vezes tortuoso processo de repensar nosso papel e nossa forma de atuação fez com que chegássemos a três grandes áreas de ação prioritárias: educação, com ênfase na participação da família e da comunidade na escola; proteção especial, com ênfase nas medidas socioeducativas previstas pelo ECA (e quase sempre não implementadas por completo); e funcionamento do Sistema de Garantia de Direitos, com especial atenção aos Conselhos Tutelares. Definir esses focos foi de grande valia para uma organização que aprendeu a abraçar múltiplas ações que tinham como fim último a proteção de nossas crianças. Intensos debates internos reforçaram nossa convicção de que as organizações do Terceiro Setor precisam, cada vez mais, saber claramente o que querem, como querem e por quê. A definição desses focos também implicou a escolha das melhores estratégias para atingi-los. Algumas já se encontram em execução, como a tentativa de influenciar as políticas públicas. O Programa Prefeito Amigo da Criança, estabelecido como um programa de acompanhamento e qualificação das gestões municipais, caminha nesse sentido. Da mesma forma, o Projeto Presidente Amigo da Criança, que gerou o relatório Um Brasil para a Criança e o Adolescente, elaborado pela Rede de Monitoramento Amiga da Criança. O documento é um verdadeiro marco zero da situação da infância e da adolescência, produto da ação conjunta de dezenas de organizações da sociedade civil, que avaliaram dados e as propostas do governo Federal para as áreas de Educação, Saúde, Proteção, combate ao HIV/Aids e o próprio orçamento da União. Outra estratégia definida em nosso planejamento de longo prazo foi a de disseminar concepções e metodologias que pudessem servir, pelo poder do exemplo, para governos, outras organizações não-governamentais e empresas. As quatro publicações dos vencedores do Prêmio Criança 2004 são prova e fruto disso.

4 Também buscamos fortalecer os instrumentos de controle que a Constituição Federal criou, como os Conselhos Tutelares e os Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCAs). Entendemos que quanto mais atuantes e presentes na vida do município eles forem, melhor as crianças ali viverão. Temos claro que o caminho a ser percorrido é longo. Um capítulo deste Relatório é dedicado a mostrar o quadro nada tranqüilizador da infância e da adolescência em nosso País. Mas as páginas que se seguem a ele pretendem mostrar que existem soluções. Também mostrarão depoimentos de vida, de esperança, de superação. Histórias de pessoas que, lá na ponta final da cadeia de ajuda, tiveram algum ganho, algum proveito, uma ação concreta de nossos 15 programas que tenta desmentir o cotidiano de descaso e abandono em que a maioria de nossas crianças e adolescentes se encontra. Este Relatório Anual de nossas atividades se dedica a elas, aos nossos parceiros e apoiadores e aos que nunca deixam de acreditar que um Brasil mais justo e solidário é possível, desde que deixemos de apenas sonhar e cada um tome para si a parte que lhe cabe nessa tarefa. E se essa tarefa parece ser tão gigantesca quanto nosso próprio País, gigantesca também deve ser a nossa força para executá-la. Rubens Naves Diretor-presidente 2004 Carlos Tilkian Relatório Anual 5 Presidente do Conselho de Administração

5 6 DIRETORIA EXECUTIVA Diretor-presidente: Rubens Naves Diretora Vice-presidente: Isa Maria Guará Diretor-tesoureiro: Synésio Batista da Costa CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Presidente: Carlos Antonio Tilkian Secretário: Ismar Lissner Membros efetivos: Aloísio Wolff,Audir Queixa Giovani, Carlos Rocha Ribeiro da Silva, Daniel Trevisan, Emerson Kapaz, Guilherme Peirão Leal, Hans Becker, José Berenguer, José Eduardo P. Pañella, Lourival Kiçula, Maria Ignês Bierrenbach, Oded Grajew, Ricardo Sayon, Sérgio E. Mindlin e Therezinha Fram Membros suplentes: Antônio Carlos Ronca, João Nagano Júnior, Márcio Ponzini, Natânia do Carmo Sequeira e Ricardo Vacaro CONSELHO FISCAL Membros efetivos: José Francisco Gresenberg Neto, Mauro Antônio Ré e Vitor Aruk Garcia Membros suplentes: Alfredo Sette, Érika Quesada Passos e Rubem Paulo Kipper CONSELHO CONSULTIVO Presidente: Therezinha Fram Vice-presidente: Isa Maria Guará Membros efetivos: Aldaíza Sposati, Aloísio Mercadante Oliva, Âmbar de Oliveira Barros, Antônio Carlos Gomes da Costa, Araceli Martins Elman, Benedito Rodrigues dos Santos, Dalmo de Abreu Dallari, Edda Bomtempo, Helena M. Oliveira Yazbeck, Hélio Pereira Bicudo, Ilo Krugli, João Benedicto de Azevedo Marques, Joelmir Beting, Jorge Broide, Lélio Bentes Corrêa, Lídia Izecson de Carvalho, Magnólia Gripp Bastos, Mara Cardeal, Marcelo Pedroso Goulart, Maria Cecília C. Aranha Lima, Maria Cecília Ziliotto, Maria Cristina de Barros Carvalho, Maria Cristina S.M. Capobianco, Maria de Lourdes Trassi Teixeira, Maria Machado Malta Campos, Marlova Jovchelovitch Noleto, Marta Silva Campos, Melanie Farkas, Munir Cury, Newton A. Paciulli Bryan, Norma Jorge Kyriakos, Oris de Oliveira, Pedro Dallari, Rachel Gevertz, Ronald Kapaz, Rosa Lúcia Moysés, Ruth Rocha, Sandra Juliana Sinicco, Sílvia Gomara Daffre,Tatiana Belinky,Valdemar de Oliveira Neto e Vital Didonet SECRETARIA EXECUTIVA GERÊNCIA EXECUTIVA OPERACIONAL Gerente: Ely Harasawa Equipe: Cristiane de Oliveira Aureliano GERÊNCIA EXECUTIVA DE RELACIONAMENTO Gerente: Luis Vieira Rocha Equipe: Ana Rita Peres da Silveira, Eliane Helena de Souza e Fernanda Guarita ÁREA ADMINISTRATIVO-FINANCEIRA Gerente: Victor Alcântara da Graça Equipe: Cosmo dos Santos, Élida Gomes, Jefferson Lopes Viana, Maria Cristina Brito, Maria Dolores de Oliveira, Mariane Konder Comparato, Marli Bispo de Oliveira, Paulo Rogério Pires e Valéria do Nascimento G. Borazo ÁREA DE COMUNICAÇÃO Gerente: Renata Cook Equipe: Ricardo Prado (Coordenador), Amanda Kartanas, Andrea Sarubby, Fernanda Favaro, Larissa Martins, Solange Tassotti e Vilma Amaro ÁREA DE INFORMAÇÃO Gerente: Walter Meyer Karl Equipe: Daniela Maria Fonseca, Erina Yoshizawa, Fabiana de Lima Loures, Felipe Martins Pereira, Marcelo Martins, Marco Antonio Martins Jr., Pablo Finotti e Christina Almeida (consultora) ÁREA DE MOBILIZAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS Gerente: Itamar Batista Gonçalves Equipe: Alejandra Meraz Velasco, Daniela Rodriguez de Castro, Maria de Lourdes Rodrigues e Nádia Alves ÁREA DE MOBILIZAÇÃO DE RECURSOS Gerente: Lygia Fontanella-Deadman Equipe: Agnes Miyuki Nakyama, Danillo Kott, Fernando Dourado Costa, Milene de Oliveira Sousa Silva, Pricila Yamada e Silvia Rosa ÁREA DE PLANEJAMENTO E AVALIAÇÃO Coordenador: José Cláudio da Costa Barros Equipe: Edson Maurício Cabral e Silvia Kawata ASSESSORIA DA PRESIDÊNCIA Assessora: Ana Maria Wilheim PROGRAMAS E PROJETOS Programa Adotei um Sorriso Equipe: Denise Cesário (Coordenadora), Isabel Rego e Márcia Thomazinho Programa Biblioteca Viva Coordenadora: Ely Harasawa Execução: A Cor da Letra - Centro de Estudos, Assessoria e Pesquisa em Leitura e Literatura Infantil Programa Crer Para Ver Equipe: Celso Seabra Santiago (Coordenador), Amélia Isabeth Bampi Paines, Catiane Gomes Silva e Tatiana M.Viana da Silva Programa de Educação Infantil Equipe: Márcia Quintino (Coordenadora) e Nelma dos Santos Silva Execução: Instituto Avisalá Programa Empresa Amiga da Criança Equipe: Marisa Tardelli de Azevedo (Coordenadora), Andrea Santoro Silveira, Daniela Queiroz Lino, Edmilson Selarin Jr., Elaine Cristina Rodrigues Barros e Flávia Lotito Cardoso Programa Garagem Digital Equipe: Roseni Aparecida dos Santos Reigota (Coordenadora), Arlete Felício Graciano Fernandes, Fátima Aparecida da Silva, Hérica dos Santos Aires, Karen Alonso Horn e Renata Lopes Projeto Geração Jovem Equipe: Márcia Quintino (Coordenadora), Maria do Carmo Krehan e Nelma dos Santos Silva Projeto Mudando a História Equipe: Márcia Quintino (Coordenadora) e Nelma dos Santos Silva Execução: A Cor da Letra - Centro de Estudos, Assessoria e Pesquisa em Leitura e Literatura Infantil Programa Nossas Crianças Equipe: Denise Cesário (Coordenadora), Angela Matoso, Angélica Domingues e Daniela Florio Projeto De Olho no Orçamento Criança Equipe: Itamar Batista Gonçalves (Coordenador) e Alejandra Meraz Velasco Programa Prefeito Amigo da Criança Equipe: Raul de Carvalho (Coordenador), Abgail Silvestre Torres, Ana Valim, Ivone Silva, José Carlos Bimbatte Jr., Mônica Takeda, e Rosana Paula Orlando Programa Prêmio Criança Equipe: Leila Midlej (Coordenadora), Maria do Carmo Krehan e Nelma dos Santos Silva Projeto Presidente Amigo da Criança Equipe: Itamar Batista Gonçalves (Coordenador), Alejandra Meraz Velasco, Amanda Kartanas, Ana Maria Wilheim e Daniela Rodriguez de Castro Projeto Virada de Futuro Equipe: Márcia Quintino (Coordenadora), Maria do Carmo Krehan e Nelma dos Santos Silva

6 SUMÁRIO 1. MISSÃO,VISÃO,VALORES, FOCOS E ESTRATÉGIAS...pg PALAVRA DA DIRETORIA...pg CENÁRIO DA INFÂNCIA NO BRASIL...pg RESULTADOS DA FUNDAÇÃO ABRINQ EM PROGRAMAS E PROJETOS...pg AÇÃO POLÍTICA......pg COMUNICAÇÃO...pg DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL......pg SUSTENTABILIDADE......pg DEMONSTRATIVO FINANCEIRO...,......pg Relatório Anual 7

7 CENÁRIO DA INFÂNCIA NO BRASIL O controle social e a criança 8 Uma análise sobre o alcance das Metas do Milênio para a Infância e a Adolescência no Brasil

8 Relatório Anual

9 CENÁRIO DA INFÂNCIA NO BRASIL Prioridade orçamentária no centro das discussões E m maio de 2002, durante a Sessão Especial da Assembléia Geral das Nações Unidas sobre a Criança, mais de 180 países se comprometeram com as 21 metas do documento Um Mundo para as Crianças. Inspiradas nos Objetivos do Milênio, da ONU, estas metas trouxeram para os países o desafio de melhorar, significativamente, até 2010, os indicadores de saúde, proteção e educação das crianças e adolescentes. Com base neste documento, no segundo semestre de 2002, a Fundação Abrinq iniciou o Projeto Presidente Amigo da Criança, com o qual os quatro principais candidatos à presidência de então se comprometeram com uma gestão que desse absoluta prioridade a estas 21 metas. Formalizando esse compromisso, todos os candidatos assinaram um termo que, além de comprometê-los com a elaboração de um plano com metas anuais, previa a inclusão, nas leis orçamentárias, dos recursos necessários para o cumprimento das ações e o não-contingenciamento desses recursos. Em 2003, o presidente Luis Inácio Lula da Silva, que assinou o termo enquanto candidato, entregou o seu Plano Presidente Amigo da Criança, com um orçamento de R$ 56 bilhões de reais para executar cerca de 200 ações que envolvem as crianças e os adolescentes. A Fundação Abrinq, então, propõe a formação da Rede de Monitoramento Amiga da Criança (RMAC),* composta por organizações não-governamentais nacionais e internacionais especialistas em saúde, educação, proteção especial, entre outros temas, para acompanhar as ações 10 *Rede formada por mais de 30 organizações não-governamentais brasileiras e internacionais para monitorar o cumprimento das metas do milênio para a infância pelo governo brasileiro.

10 governamentais. Em 2004, a RMAC lançou seu primeiro relatório, analisando a situação das crianças e adolescentes brasileiros por meio de quase 60 indicadores nos eixos Saúde, Educação, Proteção e HIV/Aids. Nele, a RMAC apresenta um prognóstico em relação ao cumprimento das metas, tendo como referência o Plano Presidente Amigo da Criança. Os resultados principais são apresentados a seguir: SAÚDE Na área da saúde o relatório mostra que, sem dúvida, o destaque na última década é a redução de 41% sobre a taxa de mortalidade infantil. Entretanto, fortes desigualdades regionais ainda são identificadas no combate à mortalidade infantil, como no caso do Alagoas, onde a taxa de 58 por mil nascidos vivos é bem superior a média nacional de 28. A meta estabelecida pelo governo Federal é reduzir a taxa para 24 por mil nascidos vivos até 2007, metade do caminho em direção a meta estabelecida pelo Um Mundo para as Crianças, de 19,8 para ser atingida em Com relação às políticas previstas, o Plano destina 40% do orçamento da saúde e 95% dos recursos de segurança alimentar e combate à fome para programas de transferência de renda para famílias em situação de pobreza extrema e para a distribuição da merenda escolar. Entretanto, a RMAC considera que essas ações não compõem uma estratégia eficaz no combate à desnutrição, que pode ter sua origem em outros fatores além da fome, como o desmame precoce e dieta e higiene inadequadas. Acreditamos ainda que a desnutrição deve estar no centro das discussões sobre saúde por ser a base de várias causas de mortalidade infantil que envolvem questões relativamente simples como infecções respiratórias ou parasitárias. EDUCAÇÃO De acordo com o relatório, o Brasil avançou significativamente, promovendo o acesso ao ensino fundamental. O percentual de crianças de 7 a 14 anos fora da escola entre 1992 e 2002 caiu de 13,4% para 3,1%. Entretanto, o acesso não é igual para todos: 14,2% das crianças indígenas nessa faixa etária estão fora da escola. O Plano Presidente Amigo da Criança prevê uma meta de universalização do ensino fundamental e infantil para 2007, que só será possível com estratégias diferenciadas para as populações menos favorecidas. Apesar do maior acesso à educação, a evolução das notas nas provas de proficiência do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) é preocupante. Entre 1995 e 2001, o percentual de crianças na 4ª série do ensino 11

11 CENÁRIO DA INFÂNCIA NO BRASIL fundamental em um nível muito crítico de proficiência, ou seja, praticamente analfabetos, passou de 9,1% para 22,2%. Apesar de a Constituição não atribuir ao governo Federal a responsabilidade pelo ensino fundamental, espera-se que use sua liderança para coordenar esforços junto aos governos estaduais e municipais para melhorar esses indicadores. Os principais investimentos previstos no Plano Presidente Amigo da Criança no eixo educação se destinarão à produção de livros didáticos (17%) e à transferência de renda condicionada à freqüência escolar (44%). PROTEÇÃO ESPECIAL A proteção de crianças e adolescentes contra todo tipo de violência e abuso estabelece um desafio adicional para o monitoramento devido à deficiência de dados que permitam estabelecer metas. No entanto, o avanço do Brasil no combate ao trabalho infantil merece destaque. O percentual de crianças com idade entre 10 e 15 anos trabalhando caiu de 23,6% para 13,5% (dos 20 milhões nessa faixa etária, ou seja, 2,7 milhões de crianças e adolescentes) entre 1992 e Porém, as perspectivas para a área da proteção, como um todo, não são alentadoras, considerando o reduzido número de recursos públicos disponíveis. O orçamento dedicado às ações de proteção para o quadriênio corresponde a apenas 2% do orçamento total do Plano Presidente Amigo da Criança, com preponderância de gasto no combate ao trabalho infantil. A atual situação de violações no Brasil, onde a taxa de mortalidade por homicídio de crianças e adolescentes passou de 3,9 por 100 mil habitantes em 1990, para 7,1 em 2002, aponta para uma necessidade cada vez maior de investir em políticas de prevenção e atendimento. HIV / AIDS Nessa área, o efetivo combate à doença no Brasil deve ainda alcançar crianças e adolescentes vítimas do vírus ou cujas famílias foram vitimadas pela doença, e que ainda não têm programas que atendam suas necessidades específicas. Entre 1990 e 2001, a taxa de novos casos de Aids notificados passou de 4,2 para 8 por 100 mil habitantes na faixa etária de 15 a 24 anos. 12 RECURSOS ORÇAMENTÁRIOS Para um país com aproximadamente 64 milhões de crianças e adolescentes, o Plano apresenta ações com um orçamento total de 55,9 bilhões de reais para o quadriênio , dos quais mais de 30% se destinam a programas de transferência de renda vinculados principalmente à atenção à saúde e à

12 freqüência escolar. Sirva como referência que, segundo estimativas do governo Federal, o gasto social no Brasil alcançou 14% do PIB em 2001, sendo que, desse total, apenas 7,6% se gasta com crianças e adolescentes. Assim, para alcançar as metas até 2010, a RMAC, com base em metodologia do Unicef e Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), estima que na primeira década do século XXI serão gastos apenas 56% dos recursos necessários para alcançar as metas. Identificou-se ainda que a maior brecha de gasto, de 1% do PIB ao ano, está na educação infantil e no ensino médio onde, durante o período , o governo federal gastará apenas 20% dos recursos necessários. Vale lembrar que no Brasil, em 2002, 47% das crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos viviam em famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo. Esse percentual se manteve praticamente inalterado desde 1992, quando era 50,4%. Esse dado mostra o quanto é importante uma melhor distribuição dos recursos públicos para o efetivo alcance das metas. Verificamos assim que, se não forem tomadas medidas específicas, o Brasil alcançará apenas três metas: acesso a saneamento básico, redução da mortalidade infantil e acesso ao ensino fundamental. A Fundação Abrinq, por meio do Projeto Presidente Amigo da Criança e do Projeto de Olho no Orçamento Criança, atua ao lado de outros parceiros no necessário controle social, monitorando e cobrando do governo Federal ações e recursos que conduzam ao cumprimento dos Objetivos do Milênio relativos a crianças e adolescentes. Esperamos, assim, contribuir para que o governo Federal se esmere não apenas na execução das políticas públicas da sua competência, mas também no seu papel fundamental de articulador e incentivador das unidades da Federação, da sociedade civil e da comunidade internacional para somar esforços e alcançar as metas até

13 RESULTADOS DA FUNDAÇÃO ABRINQ Programas e projetos 14 Canais de participação da sociedade na defesa dos direitos da criança e do adolescente

14 2004 Relatório Anual 15

15 ADOTEI UM SORRISO programas E PROJETOS CAPACITAÇÃO DE VOLUNTÁRIOS E EXPANSÃO PELO BRASIL SÃO DESTAQUES Primeiro, a doutora Ednice fez uma limpeza nos meus dentes e eles ficaram muito mais clarinhos... todo mundo percebeu. Depois, me ensinou a escovar os dentes direitinho e, então, eu ensinei para o meu pai, minha mãe e outro irmão meu, que fazia tudo errado. Quero ser médica porque deve ser muito legal ver uma pessoa ficar alegre quando fica boa de uma doença. E quero ser igual à doutora Ednice. Mayara de Cássia Lins, 9 anos, da Associação Cristã de Moços, atendida pela Dra. Ednice Boscaratto, voluntária do Programa Adotei um Sorriso. A Fundação Abrinq acredita que, assim como a Mayara, todas as crianças e os adolescentes do nosso país deveriam ter seus sorrisos adotados por pessoas como a Dra. Ednice. Esse é o trabalho do Programa Adotei um Sorriso: fazer com que cada vez mais voluntários adotem os sorrisos de cada vez mais crianças. Para isso, o programa mobiliza profissionais de oito categorias (dentistas, médicos pediatras, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, advogados e arquitetos) para que assumam um compromisso com a melhoria da qualidade de vida de crianças vindas de organizações sociais. Por suas condições de vida, muitos desses meninos e meninas nunca tiveram acesso aos cuidados que precisam e têm direito: tratamento odontológico, acompanhamento pediátrico, orientação psicológica e nutricional etc. Quando integram o programa, os voluntários passam a oferecer-lhes todos esses direitos, seja atendendo no consultório, realizando palestras educativas sobre saúde ou repassando orientações técnicas para organizações sociais ligadas ao programa. PARCERIA FINANCEIRA 16

16 RESULTADOS DE 2004 Em 2004, voluntários do Adotei um Sorriso, entre dentistas, advogados, fonoaudiólogos, médicos pediatras, arquitetos, enfermeiros, psicólogos e nutricionistas adotaram o sorriso de crianças e adolescentes vindos de organizações sociais de 127 cidades em 20 estados do País. Para fortalecer o impacto dessa ação, durante o ano o Adotei um Sorriso capacitou voluntários e organizações sociais para atualizar constantemente suas informações no sistema eletrônico do programa, rede virtual que conecta demandas e ofertas de trabalho voluntário. As organizações passaram a identificar de forma muito mais rápida os voluntários disponíveis e, por conseguinte, o encaminhamento das crianças aos atendimentos tornou-se mais ágil e eficiente. NÚMEROS DE voluntários crianças e adolescentes atendidos com ações clínicas crianças e adolescentes atendidos com ações institucionais 200 organizações sociais 127 cidades em 20 estados do País (AM, AP, BA, CE, DF, ES, MG, MS, MT, PA, PB, PE, PI, PR, RJ, RO, RS, SC, SE e SP) Também buscou a valorização do voluntário por meio de encontros para troca de experiências e eventos de reconhecimento em que pais, educadores e crianças puderam mostrar sua gratidão a esses profissionais. No dia do reconhecimento, muitos voluntários relataram que nunca haviam tido uma sensação tão intensa de gratificação. Em entrevista ao Informativo Adotei um Sorriso, a médica pediatra Solange Maria de Sabóia resumiu esse sentimento: De repente, a gente se sente fundamental para a criança. A mobilização de novos voluntários e a expansão do programa pelo Brasil também foram focos de trabalho. Os coordenadores locais voluntários que representam o Adotei um Sorriso em várias regiões do país conseguiram parcerias com veículos de imprensa, que publicaram matérias sobre o programa, e lideraram eventos locais, conseguindo a adesão de mais profissionais à iniciativa. Por fim, uma primeira experiência de expansão de sete categorias profissionais para outras cidades do país, além da região metropolitana de São Paulo, foi iniciada em Araxá (MG), a partir da parceria com dois profissionais da região, um deles ligado ao Programa Empresa Amiga da Criança. 17

17 CRER PARA VER programas E PROJETOS EDUCAÇÃO DE JOVENS GANHA ESPAÇO ENTRE OS BONS PROJETOS JÁ APOIADOS Gosto do programa porque com ele temos acesso a filmes que não passam na TV, nem no cinema. Agora, minha escola faz mostras de cinema e os professores utilizam filmes em classe. Outro dia, por exemplo, eu assisti a um documentário muito legal sobre lixo e preservação ambiental. Foi participando desse projeto que comecei a sonhar em ser diretora de cinema. É um mundo fascinante. Participei do curso de leitura audiovisual e no ano que vem vou participar de um curso de produção. Não vejo a hora. Depois vou tentar prestar um vestibular para cinema. Tabata Ribeiro Lemes, 17 anos, aluna da Escola Estadual Madre Paulina, Itaim Paulista, e participante do Projeto Cinema e Vídeo Brasileiro nas Escolas, apoiado pelo Programa Crer para Ver, São Paulo (SP) Todas as crianças e adolescentes têm o direito de freqüentar uma escola pública boa de aprender, brincar, crescer e conviver. Uma escola que tenha professores preparados e que gostem de ensinar, com instalações e equipamentos limpos e completos, com conteúdos e pedagogia adequados às necessidades e à realidade dos seus alunos e com recursos modernos para as aulas. Em 1995, a Fundação Abrinq e a Natura Cosméticos decidiram fazer a sua parte para que esse direito se torne realidade para mais crianças e adolescentes a cada dia. Juntas, iniciaram o Programa Crer para Ver, que oferece apoio técnico e financeiro a projetos de educação que contribuam para melhorar a qualidade do ensino público no país. Para fazer isso, o programa mobiliza profissionais de escolas, comunidades e organizações não-governamentais para que mostrem seus projetos de melhoria da educação, e então seleciona e apóia estes projetos. Mais de 300 mil consultoras Natura são envolvidas na divulgação do programa e de suas idéias, bem como na venda dos produtos com a marca Crer para Ver, como camisetas, embalagens e cartões, cuja renda é destinada ao financiamento dos projetos. PARCERIA ESTRATÉGICA 18

18 Pedro Rubens e Sendi Moraes Casa do Aprender Até 2004, 148 projetos aplicados em escolas públicas do país haviam recebido apoio do programa, totalizando alunos beneficiados. Alguns deles, como o Projeto Chapada, desenvolvido em 911 escolas rurais e urbanas de 12 municípios da Chapada Diamantina (BA), tornaram-se referência e provocaram uma mudança de estratégia no programa: apoiar projetos com maior abrangência e duração, criando as condições para se transformarem em políticas públicas. RESULTADOS DE 2004 EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Em 2004, o programa iniciou uma campanha pela melhoria da qualidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). A campanha nasceu de um levantamento sobre a situação da EJA no país. Cerca de 16 milhões de jovens pararam seus estudos, ou nunca chegaram a freqüentar a escola, em grande parte, para poder trabalhar em atividades subqualificadas, comprometendo sua formação e seu futuro. Fazem parte da campanha três ações A primeira envolve o apoio a cinco projetos de formação de professores de EJA. O primeiro, Compartilhando Experiências, Organizando Propostas Educativas, desenvolvido pela Ação Educativa Assessoria Pesquisa e Informação em Cajamar (SP), é um projeto-piloto iniciado em 2004 que beneficia jovens entre 15 e 24 anos. Os outros quatro terão início em 2005: Educadores em EJA em Ação, será desenvolvido pelo Centro de Formação Profissional de Ribeirão Preto (SP); Em Cada Saber um Jeito de Ser, será realizado pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada em Juazeiro (BA); Projeto CAAPIÁ, desenvolvido pela Associação Latino-Americana de Pesquisa e Ação Cultural no Rio de Janeiro (RJ); e o Roda Gaúcha, que será realizado pelo Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Ijuí (RS). 19

19 CRER PARA VER programas E PROJETOS 20 A segunda ação é o Prêmio Crer para Ver Inovando a EJA, realizado em parceria com o Ministério da Educação (MEC), que vai identificar e premiar, em 2005, práticas inovadoras de escolas e professores pela boa qualidade do ensino supletivo de jovens e adultos. E a terceira é uma ação em que as consultoras Natura identificarão e encaminharão, de volta à escola, jovens que não terminaram seu ciclo de escolarização. ENSINO FUNDAMENTAL Em 2004, três projetos de ensino fundamental, selecionados em anos anteriores, continuaram sendo apoiados pelo Crer para Ver. São eles: Projeto Janelas Cruzadas Fruto de uma parceria com o Instituto Pé no Chão e a Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, o projeto tem como eixo central o resgate e a valorização da memória. O desenvolvimento e a valorização da formação dos professores em diferentes linguagens artísticas é um dos destaques do projeto. O público beneficiado pela iniciativa abrange alunos e 190 professores. Escolas Indígenas na Floresta Apoiado pelo Crer para Ver desde 2003, o projeto, desenvolvido pela ONG Comissão Pró-Índio (CPI), vem aprimorando o acompanhamento pedagógico de 31 escolas localizadas em 16 terras indígenas de oito municípios do interior do Acre, propiciando a capacidade de reflexão do professor indígena sobre sua prática escolar e a elaboração dos projetos políticos pedagógicos das escolas indígenas. A população indígena e estudantil beneficiada até hoje soma pessoas. Cinema e Vídeo Brasileiro nas Escolas O projeto em parceria com a ONG Ação Educativa utiliza a produção audiovisual brasileira para contribuir com a aprendizagem em escolas públicas do município de São Paulo. Iniciado em 2003, o projeto tem como público-alvo professores, supervisores e técnicos das secretarias de educação de escolas da zona leste de São Paulo e aproximadamente alunos. DESTAQUE: PROJETO CHAPADA Além das ações de apoio financeiro, o programa realizou uma avaliação externa dos quatro anos do Projeto Chapada. Entre os principais resultados, estão: Melhorou consideravelmente o desempenho escolar dos alunos, passando de um dos piores índices da região para um dos melhores do país; Obteve índice de quase 100% de alfabetização de crianças de 1ª a 4ª séries; Reduziu a praticamente zero o índice de evasão escolar; Possibilitou que todas as escolas participantes do projeto estabelecessem um processo de formação continuada dos professores, que passaram a ser regularmente acompanhados em sala de aula por coordenadores; Incentivou a participação da população (pais e comunidade) nas escolas. Junto com os idealizadores do Projeto Chapada e o Programa Prefeito Amigo da Criança, o Crer para Ver participou da campanha Chapada pela Educação, que comprometeu os candidatos a prefeito da região, durante o processo eleitoral, com a melhoria da qualidade da educação oferecida por suas gestões.

20 NÚMEROS DE projetos apoiados alunos escolas adolescentes beneficiados pelo Projeto EJA 21

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