REFLEXÕES SOBRE O LÉXICO E A MODA DO SÉCULO XIX Reflections on the lexicon and the fashion of the 19th century

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1 REFLEXÕES SOBRE O LÉXICO E A MODA DO SÉCULO XIX Reflections on the lexicon and the fashion of the 19th century Vivian ORSI 1 (UNESP/IBILCE) Leonardo CARMO 2 (UNESP/IBILCE) Resumo: A moda tem o poder de moldar a mentalidade de uma sociedade fazendo uso de uma linguagem própria. E, por conseguinte, o léxico adotado dentro desse universo é representado de acordo com as particularidades de uma cultura. Nesta pesquisa, amparando-nos na ciência da Lexicologia, investigamos o léxico e a moda do século XIX, e recolhemos alguns neologismos frequentes provindos da língua francesa para ilustrar a força social que tiveram dentro do cenário brasileiro daquele período. Palavras-chave: Léxico; Neologismo; Moda. Abstract: Fashion has the power to shape the mentality of a society using its own language. Therefore, the lexicon adopted within this universe is represented according to the particularities of a culture. In this research, using as basis the Lexicology science, we have investigated the lexicon and the fashion of the 19 th century, and we have collected some frequent neologisms from French to illustrate the social force that they had in the Brazilian scenario of that period. Keywords: Lexicon; Neologism; Fashion. Considerações iniciais Sempre que falamos sobre moda é possível perceber ao longo dos séculos toda a mudança, transformação e/ou revolução porque esta passou e ainda tem passado, e as influências que ditou e também sofreu. A moda tem sido apresentada cada vez mais como um grande acontecimento e por meio disso passou a ter forte influência nas mais diversas áreas. Com a capacidade de se inventar e reinventar-se em períodos cada vez mais curtos e o dom de trazer a história para os dias atuais 1 Vivian Orsi é pós-doutora pela UNITO (Università degli Studi di Torino, Itália) e é Professor Assistente Doutor no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas IBILCE, Universidade Estadual Paulista UNESP, Departamento de Letras Modernas, câmpus de São José do Rio Preto, SP, Brasil. Atua nas áreas de Lexicologia, Lexicografia, Moda, Blogs de Moda e Língua Italiana. Mais detalhes em: 2 Leonardo Carmo é aluno-pesquisador (ISB/IBILCE/UNESP) do Curso de Licenciatura em Letras com habilitação Português/Italiano, Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas IBILCE, Universidade Estadual Paulista UNESP, câmpus de São José do Rio Preto, SP, Brasil. Desenvolve projetos na área de Lexicologia estrangeira moderna e Letras, em especial no vocabulário de moda. Mais detalhes em:

2 num piscar de olhos, seja na inspiração de estilistas ou até mesmo em peças hits de outras épocas que retornam com uma cara nova, a moda é como um camaleão. Sua evolução no decorrer dos séculos é algo presente em nossas vidas e ainda mais forte nos dias de hoje, com a tecnologia. Graças a ela, criadores, grandes marcas, fashionista se todos ligados de certa maneira à moda, criaram um novo mundo, o mundo fashion, o que fez com que deixasse de ser restrita a pequenos grupos. E assim difundida, acabamos sujeitos a novas lexias. Isso não quer dizer que a moda dos séculos anteriores não tenha tido um léxico próprio, mas constantemente, somos surpreendidos e influenciados por um léxico que até então era utilizado pelos realizadores e consumidores da moda. Ao analisarmos o léxico corrente no século XXI, nos deparamos com novas palavras, sendo que, fashionista, übermodel, fashionblogger, make, stylist são só algumas delas. E antigamente, quando não dispúnhamos de tecnologia, como a moda se difundia? Como era formado o seu léxico? Como sofria influências? No intuito de refletir sobreas questões acima, apresentaremos um panorama da moda no do século XIX e a importância desse século tanto para a história da moda quanto para o seu léxico. O processo de construção do vestuário ao longo do século XIX A produção do vestuário ao fim do século XVIII mostra as dificuldades encontradas por alfaiates e costureiras, o progresso dos maquinários e sua contribuição para o mercado têxtil. Os franceses continuaram a ditar a moda na Europa até o início da Revolução Francesa, no final do século XVIII, quando a Inglaterra assumiu a dianteira, até o final da Revolução, a partir do qual a França retomou a liderança no cenário da moda europeia. Durante o século XVIII os alfaiates europeus tentavam usar formas geométricas e ideias de proporção e escalas, com a intenção de baratear o custo das peças. Já em meados do século XIX, o sistema de produção do vestuário mudou do feito sob medida para o pronto-para-vestir e estava disponível para a crescente massa da população urbana. O aumento da produção ocorreu devido ao desenvolvimento de máquinas de costuras, ferramentas e outros maquinários da indústria, mas outro fator teve uma grande participação nesse processo de desenvolvimento, a padronização das medidas do vestuário (ALDRICH, 2007). Ainda segundo Aldrich (2007, p.6), durante 30 anos de 1841 a 1871, o número de empregados no setor bancário, de seguros e administração pública subiu de para A crescente demanda por roupa pronta, consequentemente, aumentou o número de alfaiates

3 nesse período. Além disso, a construção de padrões de medidas pelos alfaiates foi marcada pela construção das primeiras tabelas de medidas do corpo. Não podemos deixar de mencionar que a Revolução Industrial, que começara no Reino Unido no século XIX, revolucionou totalmente os meios de fabricação de roupas. Até então, os tecidos e as roupas eram produzidos manualmente, e por meios artesanais. A criação das máquinas de fiar na década de 1760, por britânicos foi uma das bases da Revolução Industrial. Com elas passou a ser possível fabricar tecido usando pouca mão de obra. Na metade do século XIX, com a sociedade em mudança, a diferença entre as formas do vestuário feminino e masculino afetava o ritmo de produção de roupas prontas para usar. Com o avanço das tecnologias dos maquinários têxteis, foi possível uma grande redução nos preços dos produtos, aumentando suas vendas e desenvolvendo o mercado. Porém todo esse crescimento do processo foi facilmente aplicado para as roupas masculinas, assim se tornando industrializadas. Ainda no século XIX a produção em massa de roupas masculinas foi acelerada. Esse crescimento se deveu à exigência de uniformes militares pelo governo em função da Guerra da Criméia e a Guerra Civil Americana. Já as roupas femininas, bem ajustadas ao corpo, dificultavam a produção industrial e ficaram centradas no âmbito doméstico, pois apenas os alfaiates e costureiras pessoais conseguiam fazer os ajustes. Contudo, no final do século XIX, a produção em massa de roupa feminina na América, ultrapassou a produção de costureiras caseiras. O avanço foi mais acelerado na América e mais lento na conservadora Europa. A produção industrial cresceu neste período, houve a expansão de lojas de roupa, alfaiatarias e lojas de departamento, cabendo ressaltar que assim deu às mulheres acesso a inúmeras variedades de roupas (ALDRICH, 2007). Dessa forma, os alfaiates começaram a dedicar seções ou livros inteiros para o corte de roupas femininas, baseados nas medidas do peito e altura. Embora fossem obras desenvolvidas para alfaiates, forneciam informações para a produção em massa de vestuário. As costureiras pessoais começaram a publicar métodos de moldes, escalas de graduação e tabelas de medidas, entretanto, sem muita padronização. Com tantas divergências de tamanhos, houve a ideia de produzir um modelo básico de modelo para adaptação, que é a origem dos blocos de moldes usados pela indústria do vestuário atualmente. Ao longo do século XIX, a industrialização na produção de roupas e tecidos espalhou-se para outros cantos do mundo. A indústria têxtil ficou firmemente estabelecida nos Estados Unidos, França, e, posteriormente, na Alemanha e no Japão. No último, roupas ocidentais lentamente substituíam roupas tradicionais. Porém, muitas pessoas ainda preferiam usar roupas feitas por um

4 artesão, quando podiam pagar por ela. Outras pessoas, especialmente aquelas de lugares isolados e com menos acesso ao comércio, continuaram a fabricar tecidos e roupas em casa. A moda do século XIX O século XIX ( ) foi o primeiro século em que a moda teve grandes mudanças em curtos espaços de tempo, e uma das mais ricas esteticamente. Não podemos deixar de enfatizar que a França e a Inglaterra foram ícones da moda neste período, devido às suas conquistas econômico-militares e ao poder que exerciam em muitas das nações do mundo. Dentre os vários estilos adotados pela moda do século XIX, podemos destacar alguns: I. Primeiro Império (1804) A moda império ou neoclássica tem influência francesa e peças confortáveis inspiradas na antiguidade clássica; II. Romântico (aprox. 1820) Ainda com forte referência da França, traz as mangas bufantes e mãos cobertas; III. Vitoriano (1850) Inspirado na monarca da Inglaterra, a Rainha Vitória, era caracterizado por volumes e excessos; IV. Belle Époque (1895) - Influenciado pela Art Nouveau e formas curvilíneas, era caracterizado por saias em formato de sino; O primeiro grande estilo, a Moda Império ou Neoclássica, foi inspirado na Grécia antiga e teve seu ápice com a coroação de Napoleão Bonaparte. Bonaparte promovia a economia francesa por meio da moda. Sua esposa, a Imperatriz Josephine, era um ícone de estilo sempre copiado pelas mulheres. As principais características do estilo Império eram os vestidos que iam até os tornozelos, com a saia em formato A, cintura alta cortada sob o busto e mangas fofas e curtas. As roupas diurnas não podiam ter nenhum enfeite, já as para o período da noite ganhavam enfeites de renda, decote e um volume extra na parte de trás. As jovens usavam tons pastéis e as senhoras cores mais sérias como o preto, roxo, vermelho, amarelo e azul. A cor branca indicava certo status social. As mulheres usavam um tipo de calça pantalona em tom nude para disfarçar a transparência dos vestidos. O corset já estava presente nessa época para as que desejavam parecer mais magras, e também o divórcio uma espécie de sutiã que servia para separar os seios.

5 Estilo Império - Fonte: Google Imagens O Romantismo foi o segundo período mais marcante do século XIX. O vestuário das mulheres era composto de vestidos até as canelas, mais adornados, brilhantes e embelezados do que os que no Império, a forma cilíndrica passou para uma forma mais cônica, os ombros e os decotes eram mais altos e as mangas tornaram-se compridas e justas ao pulso. Ao contrário das senhoras, a moda masculina evoluiu bastante, processo iniciado desde o Império, tendo sua maior visibilidade na Inglaterra, que estabelecia as regras da moda masculina enquanto a França definia a moda feminina. Para os homens, a casimira tecido que pode ser bem esticado e bem moldado, tornouse febre entre os alfaiates ingleses. Esse tecido e as roupas ajustadas ao corpo tornaram essência para a elegância, dando origem aos dândis 3, em Paris e em Londres. Considerado o precursor desse estilo, George Bryan Brummel foi o responsável pela mudança de estilo do futuro Rei George IV da Inglaterra. Suas roupas eram compostas por camisa com golas altas e uma espécie de lenço com nós sofisticados, casaco, colete, calça comprida ou calção. Ademais, as vestes não podiam ter uma ruga, sendo seu usuário apresentado de forma exemplar. A favor de peças mais justas e sóbrias, os modismos como as perucas, pós e joias extravagantes saíram de cena: não se usava nada que fosse excessivo, apenas um acessório se tornou indispensável na moda masculina, a cartola. Esta tornou-se fundamental em todo o século XIX marcando o pertencimento, daqueles que a usavam, a um status social elevado. Assim, o dandismo que se tornou uma grande referência para a moda masculina, não era só uma forma de vestir, mas também uma forma de ser e de agir. 3 Homem que se veste com muito requinte. Referência ao indivíduo que se apresentava elegantemente, dando origem o dandismo (estilo de se vestir dos dândis).

6 Estilo Romântico - Fonte: Google Imagens Vestimenta inspirada no dandismo - Fonte: Google Imagens A era Vitoriana foi marcada pelo grande prestígio da burguesia e devido a uma grande prosperidade econômica e do comercio, a moda foi beneficiada. Para a moda feminina, por volta dos anos 1850, era usado um tecido rijo e flexível ao mesmo tempo, feito de crina de cavalo incorporado no algodão ou no linho que se chamava crinolina, empregado em saias com uma grande armação de metal dando um aspecto cônico e com volume (sinal de grande prestígio). As mulheres usavam várias camadas de corpetes, mais de quatro camadas de anáguas, a crinolina e vestidos que chegavam a ter 20 metros de tecido, reforçados com barbatanas. Ao sair de casa acrescentava-se um xale pesado e uma touca adornada, chegando a carregar sobre si, ao todo, até 15 quilos de roupas.

7 As cores das vestimentas eram claras. A silhueta tinha ombros mais estreitos, a cintura baixou alguns centímetros e os espartilhos ficaram pontudos comparados à Era Romântica. O corpete e a saia formavam uma só peça abotoada atrás, cobertos por uma jaqueta curta. As mangas dos vestidos diurnos desceram até a mão e eram bufantes no antebraço e justas até o pulso. Os vestidos de noite apresentavam grandes decotes até os ombros decorados com rendas, laços e babados. Os tecidos utilizados eram a seda, cetim, fina lã, tafetá, brocado, crepe. Já a moda masculina teve influência do Príncipe Albert, o consorte da Rainha Vitória da Inglaterra, que era jovem e vaidoso. Estilo bastante parecido com a do período romântico: ombros e peito cheios e cintura minúscula. A calça tornou-se levemente tubular e reta. Na época da Revolução Industrial, os homens necessitavam de roupas que facilitassem os movimentos, portanto, surgiram trajes sóbrios, sérios e impessoais. Tecidos de cores escuras, listradas ou em xadrez grande ou pequeno. Os únicos enfeites eram a gravata ou um lenço de seda branco em torno do pescoço, a cartola que cobria todo o cabelo e a corrente do relógio de bolso que ficava aparente sobre o colete. Usavam bigode com ou sem cavanhaque. Para uso à noite, ficou em voga o casaco trespassado com corte reto. O fraque com gravata branca também era traje formal para os cavalheiros. Estilo Vitoriano - Fonte: Google Imagens

8 Estilo Vitoriano - Fonte: Google Imagens Por fim, a Belle Époque, em que a moda sofreu grande influência do estilo e gosto pessoal do Rei Eduardo VII da Inglaterra. A silhueta em forma de ampulheta ou S foi amplamente adotada pelas mulheres da época, que usavam o espartilho tão apertado que a medida da cintura chegava a 40 centímetros. As saias tinham menos volume e formato de sino, geralmente na parte traseira e possuíam uma leve cauda. O volume da parte superior do corpo era exagerado, com uso de decotes e babados. As mangas eram mais ajustadas ou curtas e o volume dos ombros exagerado. Durante o dia não se usavam decotes. O corpo ficava escondido dos pés até as orelhas. Usavam-se botas para cobrir as canelas, e as golas dos vestidos ou blusas eram muito altas, com babados. Os cabelos ficavam presos no alto da cabeça e os chapéus eram quase sempre adornados com plumas. À noite, nos sofisticados jantares ou nos grandes bailes, os decotes apareciam e os vestidos eram extravagantes e extremamente glamorosos. Luvas compridas podiam cobrir os braços e os cabelos eram presos em coques e adornados com pequenas joias. Aos poucos as mulheres conquistavam seu espaço, as mais ousadas já dirigiam e trabalhavam fora, o terno aos poucos foi introduzido ao vestuário feminino, sendo inicialmente usado o paletó com uma saia drapeada.

9 La Belle Époque - Fonte: Google Imagens O estilo brasileiro Como acenamos anteriormente, a Revolução Francesa e os conflitos napoleônicos fizeram com que ocorressem transformações por toda a Europa. No Brasil não foi diferente, após D. João transferir toda a corte portuguesa para cá, e decidir pela abertura dos portos para os países amigos, houve um aumento substancial de nosso comércio internacional, o que era somente restrito às trocas com Portugal. Apesar do lado positivo para o crescimento das atividades, a abertura dos portos contribuiu também para a indústria da pirataria, ou seja, cópias de originais trazidas por navios de diversas procedências. Em todas as áreas artística, cultural, científica, etc., começaram a surgir novos projetos, inaugurações, construções e importações das últimas novidades da moda europeia. Depois de alguns anos de aqui estabelecido, D. João muda o status de Brasil colônia para reino unido a Portugal e Algarves. E partir daí, observamos que as transformações mais expressivas que aqui ocorreram dizem respeito à moda (CHATAIGNIER, 2010). Como Paris lançava as tendências, o estilo Império marcou presença, com sua cintura alta cortada sob o busto, o decote profundo e mangas fofas e curtas. Derivado do Diretório, época que antecedeu à Revolução Francesa, tornou-se logo o modelo para os habitantes do Rio de Janeiro que utilizavam tanto para festas religiosas ou familiares como para saídas breves. Essa foi a primeira manifestação legítima de moda no Brasil, logo copiada por mulheres brancas de todas as idades e consequentemente mais tarde pelas escravas alforriadas ou aquelas que recebiam roupas de suas amas para que vestissem o traje do momento.

10 A influência francesa tornou-se tão forte na moda usada no Brasil que revistas de Paris eram vendidas numa rua específica do Rio de Janeiro, além de encartes nas mesmas publicações, que serviam de quadros nos ateliês de costura. Ainda, segundo Chataignier (2010), as mulheres oriundas de outros estados também tinham seu estilo próprio. As paulistas, por exemplo, elegeram o preto para a cor dos vestidos, tanto para o dia quanto para a noite, em tecido de seda. Quando saíam à rua usavam véu rendado e um longo manto sobre o vestido. No inverno preferiam casacos de lã ou pele e nos bailes o tafetá mostrava seu brilho e poder. Durante o ciclo do café, as ricas fazendeiras adotaram um look chique rural composto por saias e blusas nacionais ou europeias e a usavam chapéus de paglia d Italia. Com a falta de joalherias em São Paulo, muitas vezes, encomendava-se peças nas lojas cariocas. Já as mineiras preferiam os tecidos ingleses e influenciadas pela Rainha Vitória (que jamais deixou o luto após a morte do marido) na cor preta e o uso múltiplo de anéis em quase todos os dedos. Os xales eram usados por todas, mas os chapéus eram somente usados pelas idosas. As baianas por sua vez, usavam trajes brancos de tecido de algodão cheios de renda e fitas, tanto no dia a dia como em festas religiosas. Foram elas as primeiras brasileiras a usarem berloques e penduricalhos diversos, misturando imagens católicas e símbolos africanos, além de muitas pulseiras e os brincos de argola. As maranhenses, que tiveram parte do território colonizado pelos franceses, receberam suas influências e também das culturas indígena e africana. A paixão por rendas e leques veio de Paris, e os bordados do tipo richelieu provenientes do reino de Daomé. Outra figura maranhense foi a chamada preta mina, que durante a noite usava saia de linho branco bordado, blusa justa e decotada, lenço de cambraia bordada e muitas joias, como colares de várias voltas, argolas nas orelhas, pulseiras em ambos os braços e anéis. Sinhás e iaiás pernambucanas gostavam de cores muito vivas, era presente o roxo, rosa, vermelho, bordados em formas de arabescos e ramos flores feitos com linhas de ouro ou prata. Devido ao calor sempre intenso na região, os decotes eram profundos, mangas curtas e fofas, chapéu de seda em cores neutras, xales em seda estampados, lenços de cambraia brancos e bordados, e sempre muitas joias. E por fim, num estilo múltiplo, com a junção de várias peças e adereços, as paraenses elegeram a saia comprida com babado, corpete e, por cima uma blusa decotada com mangas curtas e fofas, xale estampado. No cabelo enfeites de flores (jasmins eram os preferidos) e também muitas joias, principalmente ouro e coral. O reflexo da industrialização no vestuário do século XIX

11 Como vimos anteriormente, já no século XIX, o conceito de moda é subsidiado pela produção de pequenas indústrias adjacentes que geram uma reformulação industrial e de mercado. Empresas de extração de metal, de produção de tintas para tecidos, fábricas de crinolinas, uma nova indústria de produção de mídia impressa especializada em revistas femininas, entre outras, geram um complexo de pequenas indústrias específicas, especializadas na produção de materiais para a confecção de vestes com expressão de moda. Com a cintura e as mangas dos vestidos femininos que se estreitavam, ao passo que as saias aumentavam ao máximo em diâmetro, a jovem consumidora de moda tornava-se oposta ao modelo de mulher dos anos Até 1861, crinolinas ainda eram feitas manualmente. A partir de 1862, a produção de crinolina de metal já era responsável por mais de um sétimo de extração de ferro na mina de Sheffield, na Inglaterra. Isso simbolizou a união entre aplicação de novas tecnologias e organização sistemática do processo industrial na reforma da natureza e do caráter da veste com expressão de moda e o design no século XIX. Em 1856, o químico William Pekin inventou a anilina de coloração púrpura, o que serviu ao aumento das extravagâncias na então emergente indústria da moda. Com os efeitos das novas cores e a adoção da crinolina pelas mulheres da época, o exibicionismo tornou-se a decorrência da relação modernidade/moda. O aparecimento das lojas de departamentos e das revistas femininas de costura alterou a rotina das mulheres, agora mais atuantes na esfera da vida pública. Se nos anos 1830 as mulheres comunicavam publicamente o status social e moral de suas famílias, adotando trajes de resignação em aparições públicas, a partir de elas foram disciplinadas pelo capitalismo agressivo do mundo masculino, tornando-se representações vivas da condição social de seus homens e daquilo que estes ofereciam a suas famílias. O exibicionismo público nos trajes da mulher tornou-se o medidor de forças do poder econômico e influência social masculinos. Já em 1864, ano em que as saias assumiram o máximo de circunferência e servia bem ao propósito de exposição de novos enfeites, adereços ou cores cuja produção aumentava vertiginosamente graças ao desenvolvimento tecnológico e industrial. Nos anos , as saias enviesadas com painéis pintados, em forma S, eram enaltecidas pela tecnologia. Enquanto, na Inglaterra e França, a forma S cedeu gradualmente lugar à versão feminina do terno de montaria, com saia mais justa e casaco. As últimas décadas do século XIX foram períodos de confusão estilística quando as imensas saias sustentadas pela crinolina de metal desfilavam pelas ruas ao lado de tailleurs que imitavam os sóbrios ternos masculinos.

12 Para Brandini (2009), o século XIX foi um momento de ruptura, transformação e adoção de novos valores e referências. A moda se uniu à industrialização, e esse avanço técnico fez com que ela fosse disseminada rapidamente. Segundo Breward (1995), as inovações tecnológicas, a reorganização do comércio e a industrialização, ocorridas na modernidade, geraram mudanças profundas na concepção e expressão de moda na segunda metade do século XIX. A ideia de modernidade simbolizando o futuro, o progresso, o novo motivou a disseminação do gosto pela moda, códigos sociais baseados na hierarquia do poder tradicional cederam lugar ao interesse de consumo da expressão de moda. O léxico Diante do preâmbulo que apresentamos percorrendo a moda do século XIX, é perceptível que houve um incremento do léxico. Vale lembrar que léxico é constituído pela soma de todos os vocabulários, que formam a massa das palavras existentes e atestadas nos textos e nos discursos realizados em uma língua. Segundo Biderman (1996), o léxico é, em vista disso, o acervo de todo o saber vocabular de um grupo sociolinguístico e cultural; é o lugar em que se deposita toda a informação sobre o mundo condensada em unidades, pois nele se encontram nomenclatura e a interpretação da realidade. O estudo do léxico fica a cargo da Lexicologia que procura definir a forma, a história, o significado e o uso dos lexemas que formam o sistema lexical de uma língua bem como o seu uso na comunidade dos falantes. Sendo construído socialmente, diversas áreas possuem seu próprio léxico e moda não poderia se diferente. Seu léxico nos familiariza com as lexias criadas para designar o que a moda nos proporciona, desde peças de vestuários e acessórios até modelos, idealizadores e estilos. O século XIX contribuiu com uma gama de itens lexicais estrangeiros e nacionais para o léxico da moda, como por exemplo: I. grelots- aviamento confeccionado com bolinhas presentes nas sombrinhas; II. châtelaines - espécie de cinto feito com correntes; III. manga presunto manga justa desde o pulso até o cotovelo, avoluma-se do cotovelo ao ombro, onde é franzida ou pregueadas e presa ao vestido ou blusa.

13 Não podemos deixar de enfatizar que o francês tem destaque maior quando se fala em influência no léxico da moda. Como dito anteriormente, Paris, juntamente com Londres, foi uma capital copiada em termos de vestimenta pelas mulheres brasileiras e por aquela que também vestia a corte trazida para o Brasil por D. João. O que ocorreu também na passagem do século XIX para o XX com o estilo da Belle Époque. Além de estarem registrados em obras históricas e em revistas de moda da época, os elementos lexicais em francês, os chamados galicismos, exercem grande influência na língua portuguesa brasileira, e se estende por todo o século XIX, até o final da Segunda Guerra Mundial, quando a França cede seu posto de expoente cultural, político e econômico para os Estados Unidos da América. Voltando nosso olhar à Lexicologia, dada a sua completude, o léxico é o elemento capaz de traduzir, dentro das línguas, as relações de ordem econômica, social e política que existem entre as diversas classes sociais. Concordamos com Carvalho (1989, p. 22) em relação ao fato de que (...) o léxico de uma língua é como uma galáxia, vive em expansão permanente por incorporar as experiências pessoais e sociais da comunidade que a fala. Assim, o léxico de um idioma, independente do momento histórico, não se amplia somente por meio do acervo já existente: os contatos entre as comunidades linguísticas se refletem em novas criações lexicais, os chamados neologismos, que resvalam no desenvolvimento do conjunto lexical de uma língua. Neologismo é uma nova unidade introduzida num idioma, podendo ser, para Carvalho (1989), uma nova forma (neologismo formal) ou um significado novo (neologismo semântico), que surge devido à necessidade de nomear novos conhecimentos e situações o que propicia que a língua se torne mais rica e expressiva. Dentre esses neologismos encontram-se os processos de adoção ou empréstimo (CARVALHO, 1989). Diante disso, concordamos com Fiorin (2001, p. 119) acerca do fato de que o léxico de uma língua é (...) um conglomerado de formas provindas de fontes diversas e não se pode evitar o empréstimo linguístico, um dos meios de renovação lexical. O léxico é resultado da história de um povo, de seus contatos, da divisão do trabalho num dado momento, da correlação de forças entre os diferentes países numa dada época. Para Fischer (2008, p. 4), o empréstimo lexical é um processo natural que acontece desde que há contato entre línguas. O léxico espelha o resultado da história de um povo, de seus contatos e da força de alguns países em uma determinada época.

14 O empréstimo acontece, então, quando novas formas são levadas a uma língua estrangeira. O empréstimo é uma unidade de origem estrangeira adotada em um contexto nacional. A isso dá-se o nome específico de estrangeirismo: a adoção, na língua de uma comunidade, de elementos provindos de outras línguas. Entre os empréstimos distinguem-se aqueles que não são adaptados e aqueles que são adaptados. Segundo Farias (2001), os empréstimos mais frequentes são os lexicais, com particular presença de substantivos e adjetivos. Vemos que no século XIX o mais comum eram empréstimos não adaptados, já que indicavam refinamento daquele que pronunciava o nome, por exemplo, da peça de vestuário em francês, demonstrando que havia o conhecimento da língua estrangeira em questão. O convívio com outras nações e línguas leva, então, ao empréstimo de novas unidades que podem ser adotadas com frequência e ser incorporadas ao uso geral, firmando seu espaço no sistema lexical da língua que as recebe. O simples empréstimo de um item, no entanto, não é condição necessária para que integre o acervo lexical de uma língua. O que vale a dizer que, após algum tempo, pode desaparecer. São os participantes da comunidade linguística que detêm o direito, por meio do uso, de incluir ou não a nova forma ao seu idioma. É possível notar que alguns dos galicismos adotados no período aqui sob análise ainda fazem parte do léxico da moda atual. Com o intuito de recolher e apresentar alguns dos galicismos mais usados na época em solo brasileiro, oferecemos abaixo uma listagem, com a respectiva definição, conforme Chataignier (2010, p. 98). Lescouleurs: as cores argenté: prateado; blanc:branco; bleu: azul; doré:dourado; écru: cru; gris: cinza; ivoire: marfim; jaune: amarelo; lilás: lilás; marron ou brun:marron; Lestissus: os tecidos coton: algodão; dentelle: renda; laine: lã; lin:linho; satin: cetim; soie: seda; velours: veludo.

15 noir: preto; orange: laranja; rose: rosa; rouge: vermelho; vert: verde; violet: roxo. Acessoires: acessórios bague: anel; bas: meia; bijou:joia; botte: bota; boucle d oreille: brinco; bracelet: pulseira; ceinture: cinto; chausurre: sapato; chapeau: chapéu; collier:colar; escarpin: sapato clássico de salto alto; éventail: leque; fleur: flor; gant: luva; lunettes: óculos; montre: relógio; ombrelle: sombrinha; parapluie: guarda-chuva; sac: bolsa. L habillementféminin: a vestimenta feminina blouse: blusa; chemise: camisa; chemise de nuit: camisola; corsage: qualquer roupa da cintura para cima, como o top; corset: espartilho; culotte, mutandine ou slip: calcinha; jupe:saia; jupon: anágua; lingerie: roupa íntima; pantalon: calça comprida; peignoir: quimono; robe: vestido; soutien-gorge: sutiã; tablier: avental. aigulle: agulha; bouton: botão; broderie: bordado; chace-col: echarpe; ciseaux: tesoura; col: gola; Lespetitsmotsimportants: palavrinhas importantes

16 carré: quadriculado; confecction: confecção; coudre: costurar; couper: cortar; couturière: costureira; décolleté: decote; épingle: alfinete; fil à coudre: linha para costurar; frou-frou: babadinho; griffe: assinatura de alguém importante; imprimé: estampado; manche: manga; manequin: modelo; ourlet: bainha; patron: molde; poche: bolso; pois: bolinhas; rayures: listras; styliste: estilista. Considerações finais Após todas as reflexões anteriormente descritas, percebemos que o século XIX foi muito importante para a indústria do vestuário. O desenvolvimento industrial, à ascensão do capitalismo e o reflexo dos costumes que a moda incorporou são elementos essenciais para a construção da história do vestuário do século XIX. A noção de progresso foi importante na constituição das transformações materiais e sociais ocorridas na época. O século XIX se incumbiu de inserir novas formas no processo de criação das roupas, criadores e também na composição do estilo dessa época. A figura feminina não só pode se espelhar no estilo das mulheres de outros países, como também pode viver como as outras, reproduzindo as roupas. Podemos dizer que, os homens tiveram esse momento com o dandismo.

17 Vemos, portanto, que a moda do século XIX acompanhou a inserção do indivíduo na vida industrial e fez com que ele se adaptasse às novas tecnologias e à moda tecnológica como uma extensão da sua própria vida. As roupas são símbolos de processos históricos e de cultura de uma sociedade. As roupas fazem parte da nossa identidade e refletem o momento em que vivemos. Por isso, conforme lembra Braga (2011, apud GUERREIRO, 2012, p. 28), as roupas têm a capacidade de decifrar códigos e mensagens que, ainda não verbalizadas, estão sendo passadas adiante. A ideia não é exatamente nova. Barthes no seu livro Sistema da Moda, publicado originalmente na França em 1967, faz análise semântica, a partir do estudo da imprensa da época, sobre como as pessoas atribuem sentido, a partir das palavras, àquilo que vestem. E mesmo com grandes referências, as fontes sobre a história da moda são escassas e qualquer livro, artigo ou resenha que trate do assunto está sujeito a omissões e as repetições são inevitáveis já que, a categorização e a classificação dos estilos é bastante complexa. Mas graças a esses poucos historiadores e sociológicos da moda, pudemos elucidar alguns aspectos das maneiras e influências do vestir no século XIX e relacioná-las como Brasil desta mesma época, onde a moda foi instrumento de identificação num país recém descolonizado. E devido à moda e sua história contamos com a criação de um léxico próprio, o léxico da moda. O universo lexical do campo da moda, muito receptivo à neologia, também passou por fases e formas de adaptação para integrar-se ao seu vocabulário. O léxico da moda não é somente um aglomerado de palavras, sejam elas empréstimos ou não, que se referem à área da moda, mas sim, um léxico que acompanha e compõe uma parcela considerável da história dessa indústria que é a moda. Por fim, podemos inferir que o léxico da moda é capítulo à parte nas relações entre linguagem e moda, e que se cresce a cada dia em um universo carente de proteção de influências. Referências bibliográficas: ALDRICH, Winifred. History of sizing systems and ready-to-wear garments. ASHDOWN, S.P. (Org.). Sizing in clothing. The Textile Institute, p BARTHES, Roland. Sistema da moda. São Paulo: Nacional, 1979 BRANDINI, Valéria. Cultura de Consumo e Modernidade no Século XIX. Signos do Consumo, v. 1, p , BREWARD, Christopher. The Culture of Fashion. Manchester, Manchester University Press, 1995.

18 CALANCA, Daniela. História Social da Moda. Traduzido por Renato Ambrosio. Ed. Senac. São Paulo, CHATAIGNIER, Gilda. História da Moda no Brasil. São Paulo: Estação das Letras e Cores, CARDOSO, Carmen. Mensagens de um sutiã. In: Revista Língua Portuguesa, São Paulo, n. 83, p , set FREYRE, Gilberto. Modos de Homem e Modas de Mulher. Rio de Janeiro, Editora Record, GIDDENS, Antony. As Consequências da Modernidade. São Paulo, Editora da UNESP, 1992 HOLLANDER, Anne. O Sexo e as Roupas, A evolução do traje moderno. Rio de Janeiro, Rocco KÖLER, Carl. História do Vestuário. Editado e atualizado por Emma Von Sichart; tradução Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, LAVER, James. A roupa e a moda: uma história concisa. São Paulo: Companhia das Letras, LURIE, Alison. A Linguagem das Roupas. Rio de Janeiro, Rocco, 1997 SOUZA, Gilda de M. O Espírito das Roupas: a moda no século dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, Fontes Eletrônicas: acesso em 02 fev acesso em 02 fev acesso em 02 fev acesso em 02 fev acesso em 02 fev acesso em 02 fev acesso em 02 fev https://omundovestido.wordpress.com/tag/seculo-xix/, acesso em fevereiro de 2015.

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