O Solista (The Soloist), O Alienista e outras divagações sobre as representações de loucura e normalidade APRESENTAÇÃO E PROBLEMÁTICA DESENVOLVIDA

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1 O Solista (The Soloist), O Alienista e outras divagações sobre as representações de loucura e normalidade Fernanda Gabriela Soares dos Santos 1 Eu posso até parecer careta De perto ninguém é normal... Vaca Profana- Caetano Veloso APRESENTAÇÃO E PROBLEMÁTICA DESENVOLVIDA Quem nos legou o conceito de normalidade? A quem devemos a ideia do que é ser normal ou anormal? Os parâmetros são sempre os mesmos, ou mudam de acordo com o tempo/ambiente vivido/pensado? Quais os parâmetros, na Idade das Trevas que permitiram que algumas pessoas fossem jogadas a fogueira ao passo que outras podiam deliberar sobre quem ia ou não ser arremessado ao fogo? Quem nos ensinou as fronteiras do certo e do errado? Questões essas que perpassam a História e foram magistralmente descritas pelo gênio Machado de Assis, em seu ilustre O Alienista. Nesse conto, o protagonista, após inúmeros títulos angariados na Europa, onde estudou, estabelece-se na cidade brasileira de Itaguaí para criar um manicômio (Casa Verde). Nesse lugar, o protagonista teria um meio de estudar os limites entre a razão e a loucura. 1 Professora de Filosofia da Rede Pública Municipal de Formigueiro/RS e da Fisma (Faculdade Integrada de Santa Maria), Mestre em Educação pelo PPGE/UFSM, membro do Gepeis (Grupo de Pesquisa em Educação e Imaginário Social).

2 Simão Bacamarte, o protagonista em questão, revela falhas em seu método, pois com o passar do tempo mostra sua inflexibilidade e aspereza, às quais repercutem na maior parte dos habitantes de Itaguaí, os quais precisam ficar internados no manicômio, pois cada qual possui peculiaridades que fugiriam às regras deterministas estabelecidas pelo conceito de normalidade. É visível a ironia machadiana para os parâmetros de sua época, no que tange as questões de normalidade e, possivelmente, influenciado pelo Psicologismo, corrente discutida em seu século. Tal afirmação fica evidente nas seguintes linhas: Os ânimos se serenaram quando o Dr. Bacamarte recolheu à Casa Verde a própria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. (Assis, 2007, p.221) A própria esposa de Simão Bacamarte precisou ser recolhida à Casa Verde, pois fez algo que também o fez duvidar de sua lucidez. Nem seu amor por ela o fez mudar de ideia. Obviamente também Machado de Assis está se valendo da escola literária que já inicia a se sobrepor em sua época, o Realismo, marcadamente acentuando as características da realidade. Já é a chamada segunda fase machadiana, na qual o autor abandona em certo sentido o Romantismo e passa a fazer parte do então Realismo. Pulemos então alguns séculos e passemos a sétima arte, na qual, em outra dimensão e com a linguagem contemporânea o filme O solista também está incrustado de tal perspectiva. Baseado em uma história verídica, o músico Nathaniel desenvolveu esquizofrenia em seu segundo ano da escola de artes Juilliard. Nathaniel era negro, filho de família humilde, que fazia muito esforço para manter seus estudos e investia em sem talento musical. Após a doença e a impossibilidade de frequentar a faculdade, o protagonista adota as ruas como seu lar. Já não consegue viver em uma casa e alterna momentos de lucidez e devaneios. Carrega sempre consigo um carrinho de coletor de materiais recicláveis, pois segundo suas palavras, um homem deve poder carregar a sua própria casa. Casualmente o jornalista Steve Lopez o descobre pelas ruas, iniciando então a busca da identidade de Nathaniel, pois ele se denominava muitas coisas e uma maneira

3 de o auxiliar, procura a sua família e descobre então a história envolta na vida do prodígio. A primeira vez que o jornalista ouviu, por obra do acaso, o músico tocando, ele tocava um violino com maestria, embora esse violino tivesse apenas duas cordas. O jornalista impressionou-se com a habilidade do morador de rua e, a partir de então começam uma longa amizade. Após descobrir sua identidade e história, o que fazer para ajuda-lo? O protagonista não consegue adequar-se aos padrões estabelecidos, sofre de devaneios, tem dificuldades de adaptação e quer carregar consigo seus instrumentos, apesar do perigo dos assaltos nas ruas. Não raro é assaltado ou sofre algum tipo de violência. É quando o jornalista, já amigo e cuidador de Nathaniel vê-se em um dilema: como ajuda-lo se Nathaniel não consegue adaptar-se a dita normalidade. Como ofertar um apartamento para o músico ensaiar, ainda que popular e subsidiado pela prefeitura, sendo imenso o risco de Nathaniel, em seus devaneios quebrar tudo a sua volta ou gritar até que seja insuportável para seus vizinhos ouví-lo? Como ajudá-lo? O jornalista percorre abrigos e instituições que poderiam auxiliar Nathaniel e se dá conta então dos cerceamentos do mundo em que vivemos: ou ele vai para um lugar para desabrigados e terá dificuldades de se adequar em função de sua doença, ou quem sabe vai a uma clínica de reabilitação, na qual boa parte do tempo ficará medicado. Qual seria a melhor escolha para o músico? E, como o jornalista, quase em um labirinto como os personagens existencialistas de Sartre em A Idade da Razão, deve/tem que se responsabilizar pelo amigo? Até onde deve ir sua responsabilidade com Nathaniel, quando, ele mesmo, tem dificuldades de lidar com o filho? Questões que vão tomando corpo a medida em que assistimos o filme e vemos as cobranças de sua ex-mulher por conta do filho que eles têm, apesar da amizade existente entre ambos, o filho que o jornalista quase não vê e que sequer aparece no filme. Faz-nos também refletir sobre as tantas vezes em que auxiliamos outras pessoas e que, infelizmente, temos dificuldade de auxiliar as próprias pessoas próximas. Problemas que cada um de nós enfrentamos algum dia...

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Mais louco é quem me diz que não é feliz. Balada do Louco- Mutantes Qual a barreira da loucura e da sanidade? Qual o limiar desse ou daquele? Em diferentes épocas estabelecemos parâmetros que, acreditando ou não, em alguma medida, os legitimamos. Quem de nós nunca utilizou para definir alguém os termos: tantã, dezoito, pinel, louco da cabeça, não é bem certo, maluco, doido, não regula bem? Basta as pessoas não se adequarem as normas estabelecidas, vestirem-se diferentes ou usar um outro tipo de linguagem, por vezes até mesmo inventada. Quantos Qorpos Santos não existiram e também foram incompreendidos em seu tempo? Cada época produz sua própria loucura, não raro aqueles que não se adequam ao momento vivido ou a cultura dominante são considerados loucos, na ausência de outros adjetivos. Ou seja, fabricamos nossa própria loucura pós-moderna e depois temos dificuldade de lidar com aqueles que se entregaram demais a ela. Quem de nós, lá no fundo, não traz consigo uma loucura não dita? Quem um dia não explodiu ou teve seu momento loucura?

5 REFERÊNCIAS ASSIS, J. M. M. de. O Alienista. São Paulo: Agir, 2007.

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