MINISTÉRIO DA DEFESA EXÉRCITO BRASILEIRO DECEx - DEE - DEPA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DO EXÉRCITO E COLÉGIO MILITAR DE SALVADOR

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1 MINISTÉRIO DA DEFESA EXÉRCITO BRASILEIRO DECEx - DEE - DEPA ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DO EXÉRCITO E COLÉGIO MILITAR DE SALVADOR 1º Ten Al ALEX SOUZA CAMARGO A IMPORTÂNCIA DO CONTROLE DE CARRAPATOS (RHIPICEPHALUS SANGUINEUS) EM CÃES DE EMPREGO MILITAR Salvador 2009

2 1º Ten Al ALEX SOUZA CAMARGO A IMPORTÂNCIA DO CONTROLE DE CARRAPATOS (RHIPICEPHALUS SANGUINEUS) EM CÃES DE EMPREGO MILITAR Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Comissão de Avaliação de Trabalhos Científicos da Divisão de Ensino da Escola de Administração do Exército, como exigência parcial para a obtenção do título de Especialista em Aplicações Complementares às Ciências Militares. Orientador: Cap QCO Orlange Sodré Rocha Salvador 2009

3 1º Ten Al ALEX SOUZA CAMARGO A IMPORTÂNCIA DO CONTROLE DE CARRAPATOS (RHIPICEPHALUS SANGUINEUS) EM CÃES DE EMPREGO MILITAR Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Comissão de Avaliação de Trabalhos Científicos da Divisão de Ensino da Escola de Administração do Exército, como exigência parcial para a obtenção do título de Especialista em Aplicações Complementares às Ciências Militares. Aprovado em: 30/10/2009 ANADITÁLIA PINHEIRO VIANA ARAÚJO Capitão Presidente Escola de Administração do Exército ORLANGE SODRÉ ROCHA Capitão 1º Membro Escola de Administração do Exército NADJA DE ASSIS MENDONÇA Capitão 2º Membro Escola de Administração do Exército

4 RESUMO Os cães têm sido cada vez mais empregados pelo Exército Brasileiro e, devido ao contato com diversas áreas, estão sempre sujeitos a adquirirem diversos parasitas, entre eles carrapatos da espécie Rhipicephalus sanguineus. Esta é uma espécie de carrapato que possui ampla distribuição pelo território nacional e é um Ixodidae, que parasita principalmente os cães domésticos. Causador de espoliação, em razão do parasitismo, o parasita também é o transmissor da Erliquiose, da Babesiose e da Hepatozoonose caninas, graves doenças que acometem os cães. A presente pesquisa objetivou realizar uma revisão bibliográfica sobre as doenças veiculadas pelo Rhipicephalus sanguineus, mostrando as conseqüências das mesmas, justificando a adoção de medidas permanentes de controle, e sobre o ciclo de vida do parasita, ressaltando a alta infestação ambiental e o rápido crescimento da população do carrapato, mostrando a dificuldade de eliminar-se o parasita de uma instalação. Foram levantadas causas de falhas em programas de combate ao parasita, como resistência a produtos carrapaticidas, a falta de pulverização de carrapaticidas nos locais mais procurados como abrigo pelas formas de vida livre do carrapato e a capacidade do parasita colonizar áreas contíguas, devido ao hábito de procurar partes mais elevadas, atravessando muros e paredes. Foi feita uma revisão das formas de combate ao Rhipicephalus sanguineus e produtos utilizados. Propôs-se um programa de controle permanente do Rhipicephalus sanguineus, que pode ser empregado em canis militares, visando manter o estado de saúde dos cães e evitando gastos desnecessários com tratamento de doenças que podem ser prevenidas. Palavras-chave: Rhipicephalus sanguineus. Controle de Carrapatos. Canis Militares

5 ABSTRACT The dogs have been increasingly employed by the Brazilian Army, and due to contact with sundry areas, are always subject to acquire several parasites, between them ticks of the sort Rhipicephalus sanguineus. This is a kind of tick is one that has wide distribution on the country and it is an Ixodidae, that parasite mainly domestic dogs. Cause of spoliation, owing of parasitism, the parasite is also the transmitter of Erliquiose, Babesiosis and Hepatozoonose canine, serious diseases that affect dogs. This research aimed to conduct a literature review on diseases transmitted by Rhipicephalus sanguineus showing the consequences of the same to justify the adoption of permanent measures to control, and the parasite's life cycle, emphasizing the highly infested environmental and the rapid growth of the tick population, showing the difficulty of eliminating the parasite in a place. Were researched causes of failures in programs to combat the parasite, such as resistance to products to kill ticks, the lack of spraying of products in places most sought to covert ways of living free of ticks and the ability of the parasite colonize adjacent areas due to the habit of seeking highest parts, through walls and walls. Was made a review of ways to combat Rhipicephalus sanguineus and products used. It was proposed a program of permanent control of Rhipicephalus sanguineus, which can be used in kennels military, to maintain the health of dogs and avoiding unnecessary expenses to treatment of diseases that can be prevented. Key-words: Rhipicephalus sanguineus. Ticks s Control. Kennels Military

6 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO DOENÇAS TRANSMITIDAS PELO PARASITA Erliquiose canina Babesiose canina Hepatozoonose canina BIOLOGIA DE RHIPICEPHALUS SANGUINEUS Ciclo de vida Ambiente Hospedeiros CONTROLE DE RHIPICEPHALUS SANGUINEUS CONCLUSÃO REFERÊNCIAS... 32

7 6 1 INTRODUÇÃO O uso militar de cães remonta à antiguidade, há relatos de casos de cães-de-guerra entre os egípcios, os sumérios e nos exércitos de Ciro e Alexandre Magno (EXÉRCITO BRASILEIRO, 2002). O emprego de cães pelo Exército Brasileiro é recente. Somente em 1967, é acatada a utilização de cães-de-guerra pelo Exército, com a aprovação do Manual de Adestramento e Emprego de Cães-de-Guerra, o que foi confirmado em 1970, quando houve a autorização do emprego de cães-de-guerra nas organizações de Polícia do Exército, no Curso de Operações na Selva e Ações de Comando e na Brigada de Infantaria Pára-quedista (EXÉRCITO BRASILEIRO, 2002). Atualmente, no Exército Brasileiro, os cães-de-guerra são utilizados em desfiles cívico-militares, na segurança de áreas sensíveis, aumentado a segurança dos aquartelamentos, na escolta e guarda de presos, na busca de drogas e explosivos, em operações de controle de distúrbios e da garantia da lei e da ordem, em revista de instalações e patrulhamento de áreas. A manutenção de um ótimo estado sanitário, com vacinações periódicas, o combate a endo e ectoparasitas, o fornecimento de alimentação adequada, entre outros, é de suma importância para o cumprimento pleno das missões atribuídas aos cães militares. O afastamento de animais do serviço por motivo de doença ou debilidade traz prejuízos por reduzir o efetivo para o cumprimento de missões, além de causar despesas e trabalho com o tratamento. Visando evitar tais perturbações, é necessário o cuidado com a saúde dos cães, incluindo, neste, o controle de carrapatos Rhipicephalus sanguineus, responsável direta ou indiretamente por diversos transtornos ocasionados aos cães. O Rhipicephalus sanguineus era considerado, no início do século XX, um carrapato de distribuição restrita a alguns estados brasileiros (ARAGÃO, 1936 apud PAZ; LABRUNA; LEITE, 2008). Com o decorrer dos anos, sua distribuição tornou se mais ampla e abundante, estando presente em praticamente todo território nacional, principalmente em áreas urbanas (LABRUNA, 2004). Atualmente, é considerado, juntamente com as pulgas, os principais ectoparasitas de cães em todo Brasil. Da família Ixodidae, o Rhipicephalus sanguineus apresenta três formas parasitárias no seu ciclo de vida: larva, ninfa e adulto. Cada estágio parasita o hospedeiro por alguns dias e a duração do desenvolvimento das fases de vida livre varia de poucas semanas a alguns meses, inversamente proporcional a temperatura ambiental (LABRUNA, 2004). As fêmeas adultas

8 7 que foram fertilizadas podem colocar de 1000 a 3000 ovos no ambiente. Isso causa uma grande infestação ambiental do parasita, que segundo Labruna (2004), pode ser de 95% da população em determinado instante, enquanto apenas 5% encontram-se no hospedeiro no mesmo instante. A ampla distribuição pelo território nacional e a alta infestação fazem do Rhipicephalus sanguineus um parasita de difícil controle e erradicação. O parasita em questão é considerado um dos carrapatos de maior importância médicoveterinária do mundo (PAZ; LABRUNA; LEITE, 2008). Além da espoliação causada diretamente pelo parasitismo, o Rhipicephalus sanguineus é responsável pela transmissão de importantes parasitas para os cães, como a Ehrlichia canis, a Babesia canis e o Hepatozoon canis, que são causadores de severas infecções, as quais podem ser fatais. O Rhipicephalus sanguineus é um carrapato de hábito nidícola, ou seja, passa as fases de vida livre nos locais de repouso do hospedeiro. Em se tratando de cães, estes locais são os canis e quintais onde repousam os animais. Essa característica garante que os estágios subsequentes do carrapato não tenham dificuldade de encontrar um hospedeiro para dar sequência ao ciclo. Os estágios ingurgitados do Rhipicephalus sanguineus apresentam geotropismo negativo, ou seja, tendem a subir acima do nível do solo, onde vive o cão, para postura dos ovos. Isso faz com que uma população de carrapatos colonize áreas contíguas e que grande parte dos parasitas esteja em paredes e teto dos ambientes (LABRUNA, 2004). De acordo com Paz, Labruna e Leite (2008), a maioria das fêmeas ingurgitadas desprende-se do hospedeiro durante a noite o que explica a maior incidência de parasitas no local de repouso dos cães. Tendo em vista que é de suma importância o combate à fase de vida livre do parasita, devido à grande infestação ambiental, a escolha de métodos e locais errados e a negligência deste combate dificulta, e muito, o controle da população de Rhipicephalus sanguineus nos canis, causando insucesso no referido controle. Outro fator que obsta o controle de carrapatos é o uso de produtos de baixa eficácia. Fernandes (2000) já demonstrou, por exemplo, a resistência do parasita à deltametrina. O uso de carrapaticidas deve respeitar o período de persistência terapêutica nos cães para que as aplicações do produto sejam realizadas em intervalos corretos e não haja falha no controle. A presença de carrapatos esta sempre associada à presença de cães, pois estes são os hospedeiros de importância primária para a manutenção das populações de Rhipicephalus sanguineus. Um único cão pode, por tempo indeterminado, servir de hospedeiro adequado

9 8 para todos os estágios parasitários do carrapato, já que os cães não desenvolvem imunidade contra infestações pelo Rhipicephalus sanguineus (LABRUNA; PEREIRA, 2001). O parasita apresenta uma rápida capacidade de crescimento da população, pois tem um curto intervalo entre as gerações, sendo capaz de completar até 2,5 gerações por ano (LABRUNA; PEREIRA, 2001). Esse fator e a falta de reação do ponto de vista imunitário deixam os cães sempre sujeitos a grandes infestações pelo Rhipicephalus sanguineus. Portanto, as infestações por este parasita devem sofrer intervenções humanas no sentido de controlá-las, evitando o aumento natural da população do carrapato e a debilidade os hospedeiros. A elaboração de um programa de controle eficaz de Rhipicephalus sanguineus baseado no ciclo biológico do parasita e no tempo de efeito dos fármacos pode ser uma maneira de evitar os transtornos provocados pela infestação. Os carrapatos (Rhipicephalus sanguineus) são transmissores de algumas doenças para os cães que podem ser fatais, portanto um controle regular destes ectoparasitas faz-se necessário, tendo em vista as vantagens de aplicar-se medidas profiláticas a realizar tratamentos curativos e o risco de perda dos animais por óbito. Dentre tais vantagens, estão o menor custo em prevenção comparado aos tratamentos terapêuticos, o não afastamento dos animais de suas funções diárias por motivos de saúde, além do próprio bem estar dos animais. A metodologia utilizada no presente trabalho consistiu de uma revisão bibliográfica sobre o parasita e os danos causados à saúde dos cães pela sua infestação e das formas de combate e controle. O objetivo desta revisão foi demonstrar o problema que o carrapato pode representar para cães militares e a alta infestação que tal parasita pode causar em um canil militar. A revisão sobre as formas de controle visou dar embasamento para análise das possibilidades de atuação contra infestações do carrapato, que somadas aos conhecimentos do autor serviu para se desenvolver uma sugestão de programa de controle. A pesquisa bibliográfica fundamentou-se na consulta de diversas fontes secundárias como livros, teses, artigos científicos e publicações em periódicos. No Capítulo 2, será feita uma revisão sobre as formas de transmissão da Erliquiose (sub-capítulo 2.1), Babesiose (sub-capítulo 2.2) e da Hepatozoonose (sub-capítulo 2.3) para os cães, a epidemiologia dessas doenças, patogenia, sintomas clínicos, forma de diagnóstico e tratamento. O objetivo deste capítulo é demonstrar a gravidade de tais enfermidades para os cães expondo os riscos e consequências da infecção por cada uma delas, justificando a importância de se preocupar com o controle do parasita Rhipicephalus sanguineus, o transmissor das referidas doenças.

10 9 O Capítulo 3 consta da descrição da biologia do Rhipicephalus sanguineus, abordando o ciclo de vida (desenvolvimento do parasita), ambiente, distribuição geográfica e hospedeiros parasitados. Justificando, novamente, a importância do controle do parasita e também para ressaltar determinadas características do ciclo de vida e do ambiente que influenciam no controle. O Capítulo 4 é uma revisão bibliográfica sobre formas de controle do parasita em questão, tratando do combate da infestação ambiental e da infestação dos cães pelo carrapato. No combate a infestação ambiental, foram abordados métodos químicos, com a utilização de produtos carrapaticidas, e métodos físicos, com o uso de "vassoura de fogo" e o uso de jato de vapor quente, como alternativas ao uso dos produtos químicos. Foram ressaltadas as principais falhas no combate ao parasita, como a não aplicação do produto nos locais de maior concentração das formas de vida livre do parasita e o uso errado de produtos resultando em desenvolvimento de resistência pelos carrapatos. Em relação ao combate dos carrapatos que estão parasitando os cães, foram destacados os principais princípios ativos que tem boa eficácia contra o parasita e a necessidade de se escolher um produto com boa persistência terapêutica, visando prevenir novas infestações. Por fim, foi elaborada uma proposta de esquema de combate para a população de Rhipicephalus sanguineus em um canil, visando à eliminação e a manutenção do controle sobre a infestação ambiental.

11 10 2 DOENÇAS TRANSMITIDAS PELO PARASITA O Rhipicephalus sanguineus é um ectoparasita que causa grande desconforto e espoliação em seus hospedeiros (SANT ANNA et al., 2002), além de poder causar anemia e transmitir diversos patógenos, como a Babesia canis, a Ehrlichia canis e o Hepatozoon canis, responsáveis por ocasionar severas doenças em cães. A anemia pode ocorrer nas grandes infestações, uma vez que o carrapato se alimenta do sangue do animal, provocando espoliação do hospedeiro. Entretanto, não é necessária uma grande infestação de carrapatos para que a Babesiose, a Erliquiose e a Hepatozoonose sejam transmitidas. Às vezes, basta que um carrapato esteja carregando as formas infectantes para que essas enfermidades sejam veiculadas ao cão. Tais enfermidades têm aumentado significativamente no Brasil. Moraes, Almosny e Labarthe. (2004) e Guimarães et al. (2002) demonstraram a grande prevalência daqueles patógenos em todas as regiões brasileiras, variando entre 34,1% e 66,9%. 2.1 Erliquiose canina A erliquiose canina é uma doença ricketsial provocada pela Ehrlichia canis (Figura 1), uma bactéria Gram negativa, intracelular obrigatória e pleomórfica, pertencente à Ordem Rickttisiales, família Anaplasmataceae, que parasita as células brancas do hospedeiro (MACHADO, 2004). É transmitida aos cães por todos os estágios de desenvolvimento do Rhipicephalus sanguineus, conhecido vulgarmente como carrapato marrom. O microorganismo não é transmitido via transovariana ao carrapato, mas é por via transestadial, ou seja, após a infecção de um estágio de desenvolvimento do carrapato este transmite o parasita para o estágio seguinte (de larva para ninfa e de ninfa para adulto), mas não ocorre a transmissão para novas gerações da fêmea para os ovos. As larvas e ninfas são infectadas ao se alimentarem do sangue de cães que estão na fase aguda da doença (TILLEY; SMITH JÚNIOR, 2003). Estas ricketsias se disseminam pelo organismo do carrapato, indo para a glândula salivar. A infecção canina ocorre quando as secreções salivares do carrapato contaminam o ponto de fixação durante um repasto sanguíneo. Todos os três estágios (larva, ninfa e adulto)

12 11 podem transmitir a doença (ETTINGER; FELDMAN, 1997). Figura 1 Mórula (aglomerados resultantes da multiplicação) intracelular de Ehrlichia canis em monócito Fonte: CAVALCANTE, 2005 (p. 56) A erliquiose (Quadro 1) apresenta três estágios: a fase aguda (início da infecção), fase subclínica (geralmente assintomática) e a fase crônica (nas infecções persistentes). O período de incubação da Ehrlichia canis pode variar de 8 a 21 dias (COUTO, 2003). Após o período de incubação, o cão infectado entra na fase aguda da doença (ETTINGER; FELDMAN, 1997), que dura de 2 a 4 semanas. Durante esta fase, as células mononucleares infectadas margeiam os pequenos vasos ou migram para os tecidos endoteliais induzindo a vasculite (LAPPIN, 2001). A patogenia da Erliquiose se dá principalmente por essa vasculite que acaba provocando nefrite intersticial, meningo-encefalite, esplenomegalia, inflamação no fígado com presença de degeneração (ALBERNAZ et al., 2007), ascite, edema pulmonar. O microorganismo se replica nas células mononucleares, principalmente no sistema fagocitário mononuclear (linfonodos, baço e fígado), resultando em hiperplasia dessa linhagem celular e organomegalia (linfadenopatia, esplenomegalia e hepatomegalia). (COUTO, 2003). As anormalidades hematológicas mais frequentemente observadas são:

13 12 anemia não regenerativa, trombocitopenia (devido à destruição periférica de plaquetas) e leucopenia (ALBERNAZ et al., 2007). Os sinais clínicos durante a fase aguda da doença variam desde depressão, anorexia, febre, perda de peso, corrimentos oculares e nasais, dispnéia, linfadenopatia e edemas (ETTINGER; FELDMAN, 1997). Segundo Couto (2003), os sinais clínicos desta fase incluem dispnéia ou intolerância a exercícios, devidas a pneumonite, sinais neurológicos causados por menigoencefalite, uveíte e coriorretinite. Com o desenvolvimento da trombocitopenia e vasculite, os cães podem apresentar tendências hemorrágicas, principalmente petéquias e equimoses na pele e membranas mucosas (LAPPIN, 2001). Após a fase aguda, o animal pode entrar na fase subclínica, na qual os sinais clínicos são pouco evidentes. Esta fase pode perdurar por vários anos, acarretando apenas leves alterações hematológicas. Durante a fase subclínica, o comum é que os animais fiquem assintomáticos. No entanto, podem ser encontradas algumas complicações como depressão, hemorragias discretas, edema de membros, perda de apetite e palidez de mucosas, além de alterações hematológicas e bioquímicas leves. Quando o sistema imune é ineficaz e não consegue eliminar o microorganismo, irá ocorrer a fase crônica (COUTO, 2003). O resultado é uma enfermidade crônica com perda de peso e disfunção da medula óssea. Na fase crônica, os sinais clínicos podem ser suaves ou severos e se desenvolvem de 1 a 4 meses após a inoculação da Ehrlichia canis, refletindo hiperplasias do sistema fagocítico monocitário e anormalidades hematológicas (COUTO, 2003). São observados perda de peso, pirexia, sangramento espontâneo, palidez devido à anemia, linfadenopatia generalizada, hepatoesplenomegalia, uveíte, sinais neurológicos e edemas. Em decorrência da imunossupressão, pode se desenvolver infecções bacterianas secundárias (ETTINGER; FELDMAN, 1997). Ainda pode ocorrer pneumonia intersticial, falência renal e deposição de imunocomplexos nas articulações causando poliartrites assépticas, como resultado da estimulação imune crônica (LAPPIN, 2001). O prognóstico para os animais que estão na fase crônica da doença é mau, devido às lesões provocadas em importantes órgãos, como os rins, e da debilidade provocada pela espoliação resultante das perdas de sangue e de peso.

14 13 Formas clínicas Aguda Crônica Subclínica Depressão, anorexia, febre, perda de peso Anemia Dispnéia Hepatoesplenomegalia Assintomática Corrimentos oculares e nasais Uveíte Lifadenopatia e edemas Linfadenopatia e edemas Petéquias equimoses Sangramento espontâneo Epistaxe Falência renal Quadro 1. Principais sinais clínicos da Erliquiose canina Fonte: Elaborado pelo autor O diagnóstico da enfermidade é feito através de achados laboratoriais e pesquisa do parasita na circulação. Os sinais clínicos apresentados pelo animal, também, devem ser levados em consideração, pois, segundo Moraes, Almosny e Labarthe (2004), a pesquisa de parasitas em esfregaços sanguíneos corados tem baixa sensibilidade, sendo negativa em muitos casos de Erliquiose. Este exame é confirmatório e são observadas mórulas de Ehrlichia canis no citoplasma de leucócitos, pode ser detectado também o parasita Babesia canis, quando há infecção concomitante. O hemograma é um exame complementar que deve ser utilizado para auxiliar o diagnóstico. As alterações hematológicas incluem pancitopenia, anemia arregenerativa, neutropenia e trobocitopenia (ETTINGER; FELDMAN, 1997), podendo ocorrer, também, monocitose à medida que a doença fica crônica (TILLEY; SMITH JÚNIOR, 2003). O tratamento da enfermidade consiste no uso de drogas antiricketisiais e terapia de suporte. São empregadas as tetraciclinas e o dipropionato de imidocarb. A doxiciclina é a tetraciclina mais usada devido à sua praticidade e baixa toxicidade (MORAES; ALMOSNY; LABARTHE, 2004) e é administrada na dose de 5mg/kg via oral, duas vezes ao dia de 7 a 21 dias (SPINOSA; GORNIAK; BERNADI 1999). O dipropionato de imidocarb é utilizado na dose de 5mg/kg por via subcutânea, em duas aplicações com intervalo de 15 dias (MORAES; ALMOSNY; LABARTHE 2004). Deve ser frequentemente fornecido tratamento de suporte para os animais, principalmente nos casos crônicos. Neste tratamento, são incluídos fluidoterapia, para corrigir a desidratação, suplementos vitamínicos e minerais, para suprir a hematopoiese e, em casos muito graves, transfusão sanguínea (ETTINGER; FELDMAN, 1997). Por vezes, é necessária a internação do animal para realização de tal tratamento.

15 Babesiose canina A babesiose canina, que, segundo Fortes (1997), também é conhecida como piroplasmose canina e peste de sangrar, é uma doença causada por hematoprotozoários do gênero Babesia (Figura 2), que parasitam eritrócitos e são transmitidos por carrapatos através da saliva infectada, principalmente o Rhipicephalus sanguineus. As duas espécies capazes de infectar o cão são a Babesia canis e a Babesia gibsoni (BRANDÃO; HAGIWARA, 2002). Ocorre uma parasitemia inicial um a dois dias após a transmissão da Babesia spp. ao hospedeiro, que dura por volta de dez a quatorze dias. Ao alcançarem a circulação, os parasitas penetram, por meio de endocitose, nos eritrócitos após, terem se aderido à membrana dos mesmos (BRANDÃO; HAGIWARA, 2002). No interior dos eritrócitos, a Babesia spp. divide-se assexuadamente por fissão binária, formando dois ou quatro indivíduos, a célula hospedeira, então, rompe-se e os parasitas contidos em seu interior são liberados na circulação, penetrando em outros eritrócitos (URQUHART; ARMOUR; DUNCAN, 1998). Figura 2 - Fotomicrografia de esfregaço sanguíneo de cão mostrando a presença de 2, 4 e 8 merozoítos de Babesia canis intraeritrocitários e merozoítos extraeirtrocitários (Coloração de Giemsa; aumento 840 X). Fonte: VIDOTTO; TRAPP, 2004 (p. 60)

16 15 A babesiose canina (Quadro 2) apresenta quatro formas de manifestação: subclínica, aguda, hiperaguda ou crônica (NELSON; COUTO, 1998), sendo que a gravidade dos sinais clínicos varia de acordo com a espécie de Babesia envolvida na doença, com a idade e a resposta imune do hospedeiro (VIDOTTO; TRAPP, 2004). Na forma subclínica, não são observados sinais clínicos, no entanto, um cão com infecção subclínica pode vir a desenvolver as outras formas da doença, além de ser um reservatório do parasita. Lesão tecidual intensa, estase vascular, hipóxia e choque hipovolêmico caracterizam a forma hiperaguda da doença. Ocorre em filhotes e não é comum (VIDOTTO; TRAPP, 2004). Normalmente, choque, coma ou morte são observados em menos de um dia, podendo ocorrer hematúria (ETTINGER; FELDMAN, 1997) e coagulação intravascular disseminada (CID) (VIDOTTO; TRAPP, 2004). Na forma aguda são observados: trombocitopenia, anemia hemolítica e esplenomegalia (ETTINGER; FELDMAN, 1997). Podendo ser notado, ainda, hematúria, icterícia e linfadenomegalia (VIDOTTO; TRAPP, 2004). É comum a observação de anorexia e letargia. Ettinger e Feldman (1997) ressaltam que a Babesiose deve ser diferenciada de anemia hemolítica imunomediada. As infecções crônicas são caracterizadas por diminuição do apetite, febre intermitente e depleção do estado físico do animal (ETTINGER; FELDMAN, 1997; VIDOTTO; TRAPP, 2004), prejudicando consideravelmente suas atividades. Littlewood (2001) relatou que, em estado terminal, tornam-se evidentes insuficiências renal e hepática. Pode ocorrer uma anemia progressiva como principal sinal da doença crônica (LEATCH, 2001). Formas clínicas Hiperaguda Aguda Crônica Acidose metabólica Anemia hemolítica Diminuição do apetite Choque Anorexia Febre intermitente Coagulação intravascular disseminada Esplenomegalia Febre, hematúria, icterícia Depleção do estado físico Estase vascular Hipóxia Quadro 2. Sinais clínicos da Babesiose canina Fonte: Elaborado pelo autor Letargia, linfadenomegalia A babesiose canina pode se manifestar também como uma infecção atípica, apresentando uma diversidade de sinais clínicos, como sinais gastrintestinais, ascite, doença

17 16 no Sistema Nervoso Central (SNC), edema e evidência de distúrbios respiratórios (NELSON; COUTO, 1998). Os sinais gastrintestinais que podem ser observados são vômito, constipação, diarréia e estomatite. Dispnéia e sinais do trato respiratório superior podem ocorrer. Secundariamente à chamada babesiose cerebral, forma atípica, ocorrem ataxia, astenia e convulsões (ETTINGER; FELDMAN, 1997), manifestações graves que podem acarretar sequelas ou mesmo levar o animal a óbito. Os sintomas clínicos e um histórico de infestação por carrapatos (Rhipicephalus sanguineus) podem ser suficientes para justificar um diagnóstico de babesiose (URQUHART; ARMOUR; DUNCAN, 1998). No entanto, a confirmação é feita pela demonstração da presença do protozoário no interior de eritrócitos (ETTINGER; FELDMAN, 1997), em esfregaços sanguíneos feitos com sangue periférico. Em animais com infecção aguda, é fácil encontrar o parasita, já nos cronicamente infectados ou assintomáticos, raramente, é evidente (ETTINGER; FELDMAN, 1997). Na forma aguda ou nas fases precoces é grande a presença de eritrócitos parasitados, que tendem a concentrar-se em capilares sangüíneos (SEARCY, 1998), nos casos crônicos ou cessada a fase febril aguda, é difícil encontrar o parasita (URQUHART; ARMOUR; DUNCAN, 1998). Assim, esfregaço sanguíneo feito de sangue dos capilares periféricos, como os da ponta da orelha, pode demonstrar maior número de parasitas dentro de eritrócitos (ETTINGER; FELDMAN, 1997). O tratamento da babesiose canina é feito com a utilização de drogas babesicidas, sendo as mais empregadas, o aceturato de diminazeno e o dipropionato de imidocarb (VIDOTTO; TRAPP, 2004). O aceturato de diminazeno é usado na dose de 3,5 mg/kg, por via intramuscular (SPINOSA; GORNIAK; BERNADI, 1999), em dose única para infecções por Babesia canis e para infecções por Babesia gibsone deve ser repetida a dose após 24 horas (OLICHESKI, 2003). O dipropionato de imidocarb é na dosagem de 5 a 7 mg/kg, por via intramuscular, duas aplicações com intervalo de quatorze dias (OLICHESKI, 2003). Antes da aplicação do imidocarb pode ser usado sulfato de atropina na dosagem de 0,04 mg/kg, para reduzir efeitos colinérgicos (salivação, diarréia, lacrimejamento e depressão) colaterais (BRANDÃO; HAGIWARA, 2002). Tratamento suporte é importante para a recuperação do animal doente, especialmente nos casos mais graves. Frequentemente, é necessária a administração de líquidos intravenosos para corrigir estados de desidratação ou choque. Em animais gravemente anêmicos, pode ser preciso realizar transfusão sangüínea (SHAW; IHLE, 1999; ETTINGER; FELDMAN, 1997). Quando ocorrerem manifestações neurológicas pode, ser necessário a utilização de diazepan para controlar convulsões. Animais gravemente doentes podem necessitar de internação até

18 17 que desapareçam os sinais mais graves. 2.3 Hepatozoonose canina A hepatozoonose canina é uma doença causada pelos protozoários Hepatozoon canis (Figura 3) e Hepatozoon americanum, que são transmitidos por carrapatos Rhipicephalus sanguineus (MELO JÚNIOR et al., 2008) e que parasitam monócitos e neutrófilos. A transmissão ocorre quando o cão ingere carrapatos contendo oocistos de Hepatozoon spp., durante o hábito de se coçar (AGUIAR et al., 2004). Figura 3 - Fotomicrografia de Hepatozoon canis em neutrófilo (Giemsa, 1000X). Fonte: AGUIAR et al., 2004 (p. 412) A infecção por Hepatozoon spp. não apresenta importância como doença primária, visto que a maioria dos casos são assintomáticos (FONSECA, 2006). Quando o animal apresenta sinais clínicos, estes são característicos de doença crônica como perda de peso, anorexia, febre, fraqueza muscular e anemia (FONSECA, 2006). No entanto, ganha

19 18 importância devido ao fato de provocar severo quadro clínico quando associada com outros parasitas ou em caso de imunossupressão (O DWYER; MASSARD, 2001). Nestes casos, há uma sintomatologia inespecífica com anorexia, perda de peso, pirexia, corrimento ocular, poliúria e polidipsia, acompanhada de grave anemia (O DWYER; MASSARD, 2001). Após o cão ingerir um carrapato infectado, esporozoítos são liberados e infectam os fagócitos mononucleares e as células endoteliais do baço, do fígado, do músculo, dos pulmões e da medula óssea e, finalmente, formam cistos contendo macromerontes e micromerontes. Os micromerontes evoluem para micromerozoítos, que infectam os leucócitos e se desenvolvem em gamontes (NELSON; COUTO, 1998). O diagnóstico é feito pela análise de esfregaços sanguíneos de sangue periférico e identificação do parasita em leucócitos (AGUIAR et al., 2004). Nos hospedeiros vertebrados, ocorre o desenvolvimento de macrogametas e microgametas no interior de neutrófilos e monócitos (NELSON; COUTO, 1998). O tratamento da Hepatozoonose canina é realizado por diversas drogas (O DWYER; MASSARD, 2001). Almenara et al. (2008) citam que o dipropionato de imidocarb apresenta resultados inconsistentes, mas quando associado à tetraciclina ou à doxiciclina tem mostrado resultados satisfatórios. A combinação de trimetropim e sulfadiazina (15 mg/kg, a cada 12 horas), a piremetamina (0,25 mg/kg/dia) e a clindamicina (10 mg/kg, a cada 8 horas) administrados por 14 dias podem ser úteis (ALMENARA, et al., 2008). Podem ocorrer recidivas, pois nenhum medicamento permite a eliminação completa do parasita (NELSON; COUTO, 1998). Portanto, a prevenção da doença é o mais indicado e o controle de carrapatos é a melhor forma de alcançar tal objetivo.

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