Procedimento Administrativo IV / RECOMENDAÇÃO MPF/PRRJ/GAB/AMLC N 01/2012

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1 Procedimento Administrativo IV / RECOMENDAÇÃO MPF/PRRJ/GAB/AMLC N 01/2012 O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelos Procuradores da República abaixo firmados, no uso de suas atribuições constitucionais e legais, com base nos artigos 127 e segs. da Carta Magna e na Lei Orgânica do Ministério Público da União Lei Complementar n. 75/93, de 20 de maio de 1993, e ainda: CONSIDERANDO a regra estabelecida no art. 127, caput, da Constituição Federal de 1.988, que define o Ministério Público como uma "instituição permanente, essencial à função jurisdicional do estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis"; CONSIDERANDO que, dentre as funções institucionais do Ministério Público, estabelecidas no artigo 129, inciso II, da Constituição da República, analisado em cotejo com o artigo 2 da Lei Complementar n. 75/93, insere-se a de "zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados nesta Constituição, promovendo as medidas necessárias a sua garantia", o que lhe confere a legitimidade para atuar, em sede judicial ou extrajudicial, com vistas a garantir a observância pela Administração Federal Direta e Indireta das regras e princípios constitucionais que regem os concursos públicos; CONSIDERANDO que o dispositivo 6, inciso XX da Lei Complementar 75/93 prevê, dentre as atribuições do Ministério Público Federal,

2 "expedir recomendações, visando à melhoria dos serviços públicos e de relevância pública, bem como ao respeito, aos interesses, direitos e bens cuja defesa lhe cabe promover, fixando prazo razoável para a adoção das providências cabíveis"; CONSIDERANDO que ao Ministério Público Federal compete, nos termos do artigo 6, inciso VII, alínea "c", da Lei Complementar 75/93, promover o inquérito civil público e a ação civil pública para a proteção dos interesses individuais indisponíveis, difusos e coletivos; CONSIDERANDO ser o Ministério Público fiscal institucional por excelência, que torna possível o controle pelo Estado-Juiz das condutas administrativas que atentem contra os princípios constitucionais da Administração; CONSIDERANDO o objeto do presente procedimento administrativo n / , oriundo do desmembramento do inquérito civil / , consubstanciado na apuração do gerenciamento dos Resíduos de Serviços de Saúde RSS pelas unidades federais de saúde no Estado do Rio de Janeiro e sua adequação às exigências estabelecidas pela ANVISA, por meio da Resolução RDC n 306/2004 (DOC. 01); CONSIDERANDO que, no bojo do citado inquérito civil, foi requisitada à Coordenação de Vigilância Sanitária da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro órgão da administração estadual competente para divulgar, orientar e fiscalizar o cumprimento da Resolução 306/2004, nos termos do art. 2 do citado ato normativo a realização de vistoria técnica no Hospital Federal de Ipanema, com o escopo de verificar o gerenciamento de resíduos em suas etapas de manejo e, desta forma, apresentar o perfil do manejo dos RSS na unidade inspecionada, identificando eventuais inadequações;

3 CONSIDERANDO que, em vistoria efetuada no citado nosocômio em janeiro de 2008, restou atestada pela VISA/RJ a condição insatisfatória do manejo dos RSS do hospital, o que motivou a expedição de exigências por parte do órgão de controle (DOC. 02); CONSIDERANDO que, decorrido mais de 02 (dois) anos para que o nosocômio procedesse à adoção de medidas pertinentes para adequação do manejo do lixo hospitalar às normas sanitárias, foi efetuada em outubro de 2010 nova vistoria na referida unidade hospitalar, no curso da qual "foram observadas várias inconformidades nas etapas do manejo dos resíduos. Observamos que o Hospital Geral de Ipanema não realiza o adequado gerenciamento dos resíduos de serviços de saúde gerados em suas dependências (...)", sendo novamente atestada a condição insatisfatória do gerenciamento dos RSS da mencionada unidade hospitalar federal (DOC. 03); CONSIDERANDO que, nesse contexto, foram expedidas pela Vigilância Sanitária do Estado do Rio de Janeiro 23 (vinte e três) exigências técnicas voltadas à adequação do manejo do lixo hospitalar e sua necessária conformação às normas sanitárias da ANVISA; CONSIDERANDO que, a partir de processo de harmonização das normas federais do Ministério do Meio Ambiente pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente/CONAMA e do Ministério da Saúde pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária/ANVISA referentes ao gerenciamento de RSS, foi elaborado o Regulamento Técnico divulgado pela RDC ANVISA 306/2004, o qual define o gerenciamento dos RSS como um conjunto de procedimentos de gestão, planejados e implementados a partir de bases científicas e técnicas, normativas e legais, com o objetivo de minimizar a produção de resíduos e proporcionar aos resíduos gerados um encaminhamento seguro, visando à proteção dos trabalhadores, à preservação da saúde

4 pública, dos recursos naturais e do meio ambiente, abrangendo, assim, todas as etapas de planejamento dos recursos físicos, dos recursos materiais e da capacitação dos recursos humanos envolvidos no manejo dos RSS; CONSIDERANDO que, por força do citado ato normativo, são considerados geradores de RSS todos os serviços relacionados com o atendimento à saúde humana ou animal, inclusive os serviços de assistência domiciliar e de trabalhos de campo; laboratórios analíticos de produtos para saúde; necrotérios, funerárias e serviços onde se realizem atividades de embalsamamento; serviços de medicina legal; drogarias e farmácias inclusive as de manipulação; estabelecimentos de ensino e pesquisa na área de saúde; centros de controle de zoonoses; distribuidores de produtos farmacêuticos, importadores, distribuidores e produtores de materiais e controles para diagnóstico in vitro; unidades móveis de atendimento à saúde; serviços de acupuntura; serviços de tatuagem, dentre outros similares; CONSIDERANDO que o conceito acima definido abrange o Hospital Federal de Ipanema, na condição de hospital geral, público que desenvolve atividades de atenção básica, médica e alta complexidade em diferentes especialidades, gerando quatro grupos distintos de Resíduos de Serviço de Saúde, mencionados na legislação regulatória como grupos "A" (potencialmente infectante), "B" (químico), "D" (comum) e "E" (perfurocortantes); CONSIDERANDO que os serviços de saúde são os responsáveis pelo correto gerenciamento de todos os RSS por eles gerados, atendendo às normas e exigências legais, desde o momento de sua geração até a sua destinação final; CONSIDERANDO que a segregação dos RSS, no momento e local de sua geração, permite reduzir o volume de resíduos perigosos e a incidência de acidentes ocupacionais, dentre outros benefícios à saúde pública e ao meio ambiente;

5 CONSIDERANDO que a negligência quanto à gestão do lixo hospitalar pode gerar, em tese, risco à saúde dos pacientes, funcionários e usuários dos serviços públicos de saúde em geral, bem como à população como um todo, havendo a possibilidade de esta má gestão, inclusive, ocasionar risco ambiental; CONSIDERANDO, ademais, que "o Poder Público, qualquer que seja a esfera institucional de sua atuação no plano da organização federativa brasileira, não pode mostrar-se indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que por censurável omissão, em grave comportamento inconstitucional", consoante decidido pelo Supremo Tribunal Federal STF, nos RE-AgR e RE- AgR , com relatoria do Ministro Celso de Mello; CONSIDERANDO, por conseguinte, que tais medidas não estão circunscritas à esfera de discricionariedade administrativa quanto à melhor forma de prestação de um serviço público de saúde, porquanto afetam diretamente direitos e interesses extremamente relevantes como a saúde da população como um todo e o meio ambiente, não dispondo o Administrador Público da possibilidade de deixar a descoberto os valores maiores albergados na Constituição da República de 1988; CONSIDERANDO que o insatisfatório gerenciamento dos resíduos gerados nos serviços de saúde pelo Hospital Federal de Ipanema atestado no caso concreto a partir dos relatórios da VISA/RJ gera potenciais impactos negativos na saúde pública e na qualidade do meio ambiente, em decorrência da não observância dos princípios da biossegurança de empregar medidas técnicas, administrativas e normativas para prevenir acidentes e, desta forma, preservar a saúde pública e o meio ambiente; 5

6 CONSIDERANDO, por fim, a obrigatoriedade da adoção das providências cabíveis para melhorar a gestão do lixo hospitalar, adequando-a à norma de regência, RESOLVE: I. nos termos do art. 6, inciso XX, da Lei Complementar n 75/93, RECOMENDAR à Diretora do Hospital Federal de Ipanema, Selene Maria Rendeiro Bezerra, que adote as medidas administrativas necessárias para que sejam cumpridas todas as exigências formuladas por parte da Superintendência de Vigilância Sanitária da Subsecretaria de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde/RJ nos Termo de Visita n e Termos de Intimação n s e 35248, conforme relatado no Relatório de Inspeção Manejo dos Resíduos de Serviço de Saúde (DOC. 03). II. nos termos do art. 8, inc. II e parágrafo 5, da Lei Complementar n 75/93, e considerando a recomendação acima declinada com base nas exigências da VISA/RJ, REQUISITAR à Diretora do Hospital Federal de Ipanema, Selene Maria Rendeiro Bezerra, no prazo de 30 (trinta) dias contados do recebimento desta recomendação: a) a apresentação do Plano de Gerenciamento de Resíduos de Serviços de Saúde - PGRSS dessa unidade hospitalar e indicação do servidor responsável pela coordenação a execução do PGRSS, exigidos pela RDC ANVISA 306, de 07 de dezembro de 2004, bem como a apresentação do Plano de Controle Médico de Saúde Ocupacional PCMSO, do Programa de Prevenção de Riscos Ambientais PPRA, do contrato de prestação de serviços terceirizados de coleta, transporte, tratamento e destino final dos resíduos, conforme o caso, com as respectivas licenças e credenciamentos necessários; b) a apresentação de informações circunstanciadas relativas às medidas administrativas já adotadas ou planejadas com vistas ao cumprimento das recomendações do órgão técnico da SES/RJ ou apresentação de cronograma para o seu efetivo e integral cumprimento; e c) apresentação de outras

7 informações pertinentes, relativas às medidas adotadas por essa Direção para assegurar o regular e adequado gerenciamento dos RSS dessa unidade hospitalar. A presente recomendação dá ciência e constitui em mora o destinatário quanto às providências solicitadas pelo Ministério Público Federal e poderá provocar a adoção das medida judiciais cabíveis caso caracterizada hipótese de reiteração à violação dos dispositivos acima mencionados. Encaminhe-se cópia, para ciência, à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão e à Lla Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal. Rio de Janeiro, 14 de março ALINE MANCIN i 1 A LUZ CAIXETA Procurada a da República DANIEI DE A CA A PRAZERES Procurador da República ROBERTA TRAJANO S. Procuradora da República OTO RELAÇÃO DE DOCUMENTOS DOC. 01 Resolução RDC n 306/2004 da ANVISA; DOC. 02 Relatório de Inspeção Manejo dos Resíduos de Serviço de Saúde da Coordenação de Vigilância Sanitária SES/RJ, de janeiro de 2008; DOC. 03 Relatório de Inspeção Manejo dos Resíduos de Serviço de Saúde da Coordenação de Vigilância Sanitária SES/RJ, de outubro de 2010.

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