Sentimento do mundo. Carlos Drummond de Andrade. Resumo de Obras Literárias

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1 Sentimento do mundo Carlos Drummond de Andrade Resumo de Obras Literárias

2 Sentimento do mundo [1940] Carlos Drummond de Andrade 1. Apresentação: Drummond encontra o mundo O sentimento do mundo é também uma tomada de consciência do universo histórico concreto. Sem ser absolutamente um texto de depoimento, este livro o primeiro que o poeta escreveu no contexto social mais vasto e mais complexo do Rio, leva a marca da consciência literária do final dos anos 30, sensibilizada pelas tensões e conflitos do período pré-guerra. Diante do aguçamento geral das contradições sociais, a crítica drummondiana das alienações burguesas passa por uma crispação radicalizante. (José Guilherme Merquior. Verso Universo em Drummond) Sentimento do mundo, terceiro livro de Carlos Drummond de Andrade, apresenta 28 poemas escritos, em sua maioria, durante a segunda metade da década de 1930, reunidos e publicados em Foi o primeiro livro escrito e publicado por Drummond no Rio de Janeiro, para onde se mudara em 1934, para trabalhar como chefe de gabinete do então ministro da Educação, seu amigo Gustavo Capanema. O crítico John Gledson chamou a atenção para o quanto os poemas do livro são dependentes de uma paisagem concreta a carioca. Trata-se de uma obra de transição: da poesia ainda presa a modelos do modernismo inicial, que dominou a primeira fase da obra drummondiana, para a poesia comprometida com questões históricas e sociais, com tendência a reflexões existenciais de cunho mais universal que meramente pessoal, características da segunda fase, da idade madura do poeta. Em linhas mais detalhadas: dos retratos humorísticos do cotidiano da vida burguesa para a reflexão crítica ou sentimental sobre os problemas do mundo; do humor tendente à piada típico da primeira geração para o humor tendente à provocação e até ao grotesco; dos retratos das paisagens geográficas e culturais mineiras para a paisagem urbana e praiana do Rio de Janeiro e uma visão ampla dos problemas e angústias do mundo em crise; da linguagem coloquial e do tom descompromissado para uma linguagem mais séria, frequentemente elevada, de tom reflexivo, às vezes dramático; dos poemas de formas breves e versos mais livres para outros em que é perceptível um maior domínio e variedade das formas de versificação, chegando a adotar modelos incomuns como o poema em prosa ou clássicos como a ode e a elegia. 2

3 Enfim, um livro em que ocorre a passagem da poesia centrada no eu para uma poesia que se abre para o mundo; um mundo, como veremos, dominado por uma realidade não muito animadora, a exigir o engajamento do poeta. 2. Negação do individualismo, busca da solidariedade Contexto histórico: cada vez mais dentro da noite O sentimento do mundo é também um sentimento de culpa, de onde uma certa tendência à autocrítica (...). (José Guilherme Merquior. Verso Universo em Drummond) A década de 1930 inicia-se sob o signo da Grande Depressão causada pela quebra da bolsa de Nova York em A recuperação americana virá com a política do New Deal implantada por Franklin Delano Roosevelt. Apesar dos problemas, o american way of life começa a se disseminar pelo mundo, levado pelos produtos da indústria cinematográfica hollywoodiana e pela música popular americana divulgada pelo rádio. Na Europa, as feridas não cicatrizadas da Primeira Guerra Mundial e as dificuldades econômicas do continente levam a uma radicalização política sem precedentes, com a ascensão e/ou consolidação de regimes totalitários de extrema esquerda ou extrema direita: o comunismo de Stalin na URSS, o nazismo de Hitler na Alemanha e diversos regimes de tintas fortes fascistas: Mussolini na Itália, Franco na Espanha, Salazar em Portugal. A Guerra Civil Espanhola ( ) torna-se um sangrento palco de ensaios para os horrores da Segunda Guerra Mundial, que parecia cada vez mais inevitável. Neste conflito, muitos intelectuais e artistas do mundo todo se engajam ferrenhamente, muitas vezes dispondo-se a lutar nas fileiras republicanas contra o avanço dos radicais conservadores adeptos de Francisco Franco, que afinal revelaram-se vitoriosos. No Brasil, a Revolução de 30 leva ao poder Getúlio Vargas, representante das oligarquias rurais do Rio Grande do Sul. A Revolução Constitucionalista de 1932, liderada por São Paulo, apesar de derrotada, força 3

4 a convocação de uma Assembleia Constituinte, instaurada em 1933 e que promulga uma nova Constituição em Mas o regime varguista, de nítida inspiração fascista, ao mesmo tempo em que se esforçava para promover uma modernização econômica do país, inclusive assegurando direitos básicos para os trabalhadores (o que valeu ao líder o epíteto de Pai dos Pobres ) e fazendo avançar a industrialização, radicaliza no campo político, avançando sobre as liberdades individuais, perseguindo opositores, muitos deles artistas e intelectuais simpatizantes de ideias socialistas. Em 1937, o governo Vargas endurece, promulga o Estado Novo e instaura uma ditadura no país, que só terminaria com sua deposição, em Carlos Drummond de Andrade, vivendo no Rio de Janeiro desde XXX, acompanha da capital do país os fatos que transtornam o país e o mundo. O jovem mineiro tímido, um tanto orgulhoso e irônico, aos poucos sente necessidade de abandonar a poesia ensimesmada, em que expressava seu sentimento de desconforto egoísta com a vida, para expressar em versos uma nova postura, um novo sentimento do mundo. Sentimento do mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso, anterior a fronteiras, humildemente vos peço que me perdoeis. 4

5 Quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho desafiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. Neste poema, que abre e intitula o livro, percebe-se uma constante de vários poemas da obra: uma autocrítica do poeta sobre sua poesia anteriormente publicada e uma declaração de compromisso com a realidade crua que o rodeia. Na primeira estrofe, o poeta confessa certa impotência perante essa realidade (tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo). Os escravos talvez sejam os pecados cotidianos, os atos desonestos, as pequenas e grandes mentiras e falsidades às quais cedemos na nossa vida; as lembranças que escorrem, a incapacidade de livrar-se de um passado seguro e/ou alienante; o corpo cede (transige), então, no momento em que lhe é ofertado o prazer do amor. Quando se livrar (segunda estrofe) dos escravos, lembranças e desejos que o dominam e prostram, talvez seja tarde demais, a vida terá passado (eu mesmo estarei morto) e o mundo será terra arrasada (o pântano sem acordes). Mas na terceira estrofe o poeta, enfim, desperta (Os camaradas não disseram / que havia uma guerra / e era necessário / trazer fogo e alimento) e o sentimento do mundo revela-se, também, sentimento de culpa : humildemente vos peço / que me perdoeis. Na quarta estrofe, assume-se a missão de, mesmo na solidão (eu ficarei sozinho), guardar a memória (desafiando a recordação) dos que desapareceram na guerra citada anteriormente: do sineiro, da viúva e do microscopista / que habitavam a barraca / e não foram encontrados / ao amanhecer. O final do poema é desalentador: o amanhecer, que a princípio poderia trazer a esperança (a luz que iluminaria a amedrontadora escuridão), anuncia-se apenas como negro porvir: esse amanhecer / mais noite que a noite. (Mais adiante, analisaremos como as metáforas da noite e do amanhecer são usadas repetidamente ao longo dos poemas do livro, sendo que a segunda, às vezes, assume conotações positivas, outras vezes, negativas.) 5

6 A negação do individualismo, o sentimento de arrependimento pela postura alienada e burguesa do passado (que causa no poeta um mal estar moral como bem definiu José Guilherme Merquior), o desejo de solidarizar-se com os homens e de fazer parte da luta contra as forças da opressão aparecem em muitos dos mais conhecidos poemas do livro. Privilégio do mar Neste terraço mediocremente confortável, bebemos cerveja e olhamos o mar. Sabemos que nada nos acontecerá. O edifício é sólido e o mundo também. Sabemos que cada edifício abriga mil corpos Labutando em mil compartimentos iguais. Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador e vem cá em cima respirar a brisa do oceano, que é privilégio dos edifícios. O mundo é mesmo de cimento armado. Certamente, se houvesse um cruzador louco, fundeado na baía em frente da cidade, a vida seria incerta... improvável... mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis. Como a esquadra é cordial! Podemos beber honradamente nossa cerveja. Em Privilégio do mar, Drummond retrata e, implicitamente, critica a ilusão de segurança da vida tranquila e alienada da burguesia. No terraço mediocremente confortável do edifício sólido, alguns homens fatigados (entre os quais se inclui o eu lírico) desfrutam da cerveja, do privilégio do mar e sua brisa e da segurança ( sabemos que nada nos acontecerá). Sente-se o mundo como algo seguro, sólido e cheio de certezas: O edifício é sólido e o mundo também, O mundo é mesmo de cimento armado. Daí que os privilegiados podem beber honradamente sua cerveja, tendo seu mar e sua brisa protegidos pela esquadra cordial e seus marinheiros fiéis. Mas essa insistência na solidez do mundo parece apenas disfarçar um sentimento de apreensão pelo perigo cuja possibilidade se enuncia na penúltima estrofe: se houvesse um cruzador louco / fundeado na baía. A distância entre o real e o improvável, a contradição da vida alienada e em segurança em um mundo cujo mar está verdadeiramente coalhado de cruzadores loucos, revela-se no contraditório jogo de palavras: Certamente, [...] a vida seria incerta. 6

7 Recusando a alienação, o poeta reconhece o quanto se sente pequeno em face dos acontecimentos do mundo e busca engajar-se na luta e a união com seus companheiros. Mundo grande Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo, por isso me grito, por isso frequento os jornais, me exponho [cruamente nas livrarias: preciso de todos. Sim, meu coração é muito pequeno. Só agora vejo que nele não cabem os homens. Os homens estão cá fora, estão na rua. A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava. Mas também a rua não cabe todos os homens. A rua é menor que o mundo. O mundo é grande. Tu sabes como é grande o mundo. Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão. Viste as diferentes cores dos homens, as diferentes dores dos homens, sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso num só peito de homem... sem que ele estale. Fecha os olhos e esquece. Escuta a água nos vidros, tão calma, não anuncia nada. Entretanto escorre nas mãos, tão calma! Vai inundando tudo... Renascerão as cidades submersas? Os homens submersos voltarão? Meu coração não sabe. Estúpido, ridículo e frágil é meu coração. Só agora descubro 7

8 como é triste ignorar certas coisas. (Na solidão de indivíduo desaprendi a linguagem com que homens se comunicam.) Outrora escutei os anjos, as sonatas, os poemas, as confissões patéticas. Nunca escutei voz de gente. Em verdade sou muito pobre. Outrora viajei países imaginários, fáceis de habitar, ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio. Meus amigos foram às ilhas. Ilhas perdem o homem. Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias, entre o fogo e o amor. Então, meu coração também pode crescer. Entre o amor e o fogo, entre a vida e o fogo, meu coração cresce dez metros e explode. Ó vida futura! Nós te criaremos. Neste poema encontram-se os versos Não, meu coração não é maior que o mundo / É muito menor que ecoam e rejeitam a afirmação da penúltima estrofe do Poema de sete faces, talvez o mais importante da primeira obra de Drummond, Alguma poesia (1930): Mundo mundo vasto mundo / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração. Ao se ver tão pequeno diante da enormidade de uma realidade difícil de suportar ( sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso / num só peito de homem... sem que ele estale ), o poeta decide abandonar o isolamento egocêntrico do passado, sai de si para a rua e da rua para o mundo. Sua nova poesia abre-se à expressão e comunhão com os outros homens: por isso me dispo / por isso me grito, / por isso frequento os jornais e me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos. Há uma vigorosa autocrítica no poema: o coração maior que o mundo do passado agora é definido como estúpido, ridículo e frágil. O desaprendizado da linguagem com que homens se comunicam, consequência da alienação ( Outrora escutei os anjos, / as sonatas, os poemas, as confissões patéticas. / Nunca escutei voz de gente ; Outrora 8

9 viajei / países imaginários, fáceis de habitar, / ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio ) leva à confissão de um sentimento de pobreza quanto a sua produção poética anterior ( Só agora descubro / como é triste ignorar certas coisas ; Nunca escutei voz de gente. / Em verdade sou muito pobre ). Mas a mensagem final é de esperança e renovação. Se alguns amigos foram às ilhas e se perderam ( ilhas aqui são uma metáfora para o isolamento, a alienação, a fuga da realidade), alguns se salvaram e / trouxeram a notícia de um mundo que cresce cada vez mais entre o fogo e o amor. Em sintonia com esse mundo, o coração do poeta também pode crescer / Entre o amor e o fogo, / entre a vida e o fogo e explodir, estilhaçando-se e penetrando na realidade para ajudar a criar um novo mundo: - Ó vida futura Nós te criaremos. Mas como criar essa vida futura? A solidariedade entre os homens é a saída proposta pelo poeta, como podemos ver em outro poema antológico, a seguir: Mãos dadas Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. O poeta recusa prender-se ao mundo do passado ( caduco ) ou do futuro; seu compromisso é com a vida e os companheiros. Novamente a realidade é descrita como enorme, o presente como grande, para o homem, bicho da terra tão pequeno (como o define Camões em Os Lusíadas), como resistir? A saída é a solidariedade: Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas Na segunda estrofe, vemos novamente a recusa da alienação romântica ( não serei o cantor de uma mulher (...) / não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela, / não distribuirei entorpecentes ou 9

10 cartas de suicida e/ou simbolista ( não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins ). Repete-se aqui, inclusive, a imagem das ilhas como símbolos de alienação. Por fim, na última estrofe, o eu lírico reitera o compromisso da sua poesia com o tempo, os homens e a vida do presente. Por outro lado, o poeta desconfiado e solitário que Drummond nunca deixou de ser sabe que se a solidariedade entre os homens para enfrentar esses tempos difíceis é um imperativo moral a solidariedade total é impossível. Sem maniqueísmos, Drummond reconhece, no poema em prosa O operário no mar, as dificuldades de romper as barreiras entre as classes e ser reconhecido como um igual pelos mais oprimidos. O poeta descreve um olhar trocado com o operário que vê caminhar em direção ao mar; desde o início, o poeta gostaria de aproximar-se do operário, solidarizar-se com ele, pelo menos naquele olhar, mas reconhece que a distância que a realidade interpõe entre eles torna isso impossível: Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos. No limite, o que o poema expressa é uma persistência daquela postura tipicamente drummondiana: uma consciência individual que acaba por isolar-se do mundo ao seu redor. Ocorre que, como vimos, esse isolamento é praticamente impossível e moralmente inaceitável na conjuntura desta enorme realidade do presente tão grande, marcado por tensões e conflitos incontornáveis. Aflora então esse paradoxal individualismo participante: um agudo sentimento individual dos dramas coletivos associado a uma necessidade moral de participar deles. Daí a condenação direta da alienação em versos de poemas como Inocentes do Leblon : Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem. ou Madrigal lúgubre, em que a burguesia (ou talvez a poesia) alienada é personificada na imagem de uma donzela encastelada em uma casa feita de cadáveres, cujas escadas vão sendo cobertas de sangue ( sutil flui o sangue nas escadarias ). São os cadáveres e o sangue dos que morrem cotidianamente em um mundo que está velho, em ruínas, coberto de lagartas mortas e ervas crescendo. 3. Dentro da noite, esperança do amanhecer A noite é, de longe, a mais importante das imagens que tem esse papel central na estrutura dos poemas. [...] A noite é coisa que separa e aniquila os homens, mas dentro da qual podem comunicar-se. [...] A noite dissolve os homens, unindo-os, portanto, ao mesmo tempo que os separa espalhando o medo e a incompreensão. [...] Leva consigo uma atmosfera poética mais que um significado preciso e inequívoco. (John Gledson. Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade) 10

11 Como bem notou o crítico citado acima, a palavra noite (que aparecera em 2 dos 46 poemas do primeiro livro de Drummond [Alguma poesia] e em 3 dos 26 poemas do segundo [Brejo das Almas]) aparece em 10 dos 28 poemas de Sentimento do Mundo. Ao lado do mar, é a imagem que mais se repete, e com múltiplos significados. Três poemas do livro trazem a ideia de noite no título. O primeiro é uma obra-prima intitulada Menino chorando na noite. Menino chorando na noite Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora. O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas. E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher. Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua, longe um menino chora, em outra cidade talvez, talvez em outro mundo. E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça e vejo o fio oleoso que escorre do queixo do menino, escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas). E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando. Na noite lenta e morna (arrastada), morta e sem ruído, a atenção é atraída pelo choro de uma criança da qual o eu lírico se sente completamente alienado ( chora na noite, atrás da parede, atrás da rua / longe [...], em outra cidade talvez, / talvez em outro mundo ). Mas é impossível desvencilhar-se desse choro; ele se impõe com uma força que domina todo o ambiente da noite: se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher, torna-se tão forte que é como se o eu lírico estivesse vendo a cena: E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça / e vejo o fio oleoso que escorre do queixo do menino. Por fim, o choro, como o fio oleoso que escorre do queixo do menino e aos poucos inunda os espaços ( escorre pela rua, escorre pela cidade ), toma conta de tudo: E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando. O poema capta primorosamente o progressivo domínio da cena do menino chorando sobre a imaginação e atenção do poeta. O polissíndeto (repetição da conjunção E ) nos versos 4, 8 e 11 parece ecoar e ampliar o choro do menino sobre o ambiente da noite. 11

12 Esse choro talvez seja uma representação da solidão do eu lírico (ou de qualquer homem) que cresce a ponto de abarcar o mundo, ou do sofrimento humano que já não é possível deixar de escutar. A noite, essa situação de profunda alienação ou o delicado e opressivo momento que o mundo atravessa. Se nesse poema o sentido da noite ainda pode ser ambíguo e sua caracterização remete a recolhimento e alienação ( lenta, morna, sem ruído ), no segundo poema que traz a palavra no título está claramente associada ao momento histórico tenebroso em que os poemas foram escritos. A noite dissolve os homens A Portinari A noite desceu. Que noite! Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate, nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão. A noite caiu. Tremenda, sem esperança...os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros. E o amor não abre caminho na noite. A noite é mortal, completa, sem reticências, a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio... Os suicidas tinham razão. Aurora, entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais acender 12

13 e dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos, teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório. Minha fadiga encontrará em ti o seu termo, minha carne estremece na certeza de tua vinda. O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam, os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio... Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tintas da antemanhã e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora. As duas estrofes do poema demarcam duas posturas, dois estados de espírito e dois tempos diferentes. A primeira parte (primeira estrofe) descreve o mundo do presente, marcado por uma noite absoluta, cuja magnitude é reiterada ao longo de toda a estrofe: A noite desceu. Que noite! ; A noite caiu. Tremenda, / sem esperança ; A noite é mortal, / completa, sem reticências ; e a sentença final, em forma de pleonasmo hiperbólico: A noite anoiteceu tudo.... Esta noite é metáfora, provavelmente, para o contexto histórico da ditadura do Estado Novo, do avanço do fascismo no mundo e da guerra mundial que então já parecia iminente. É uma noite que impede mesmo a comunicação e a solidariedade entre os homens ( Já não enxergo meus irmãos, a noite espalhou (...) / a total incompreensão ; o amor não abre caminho ), que espalha o medo ( a noite espalhou o medo, paralisa os guerreiros ) e acaba por conduzir a uma postura de completa desesperança, de nihilismo avassalador: a noite dissolve os homens ; O mundo não tem remédio... / Os suicidas tinham razão. A segunda parte do poema constrói-se como uma longa epanadiplose, figura de estilo que consiste na repetição de uma palavra no início e no fim de uma sequência de versos: Aurora, / (...) / para colorir tuas pálidas faces, aurora. A intenção clara é reforçar a ideia expressa por essa palavra, metáfora para o tempo do futuro, o amanhecer carregado de esperança e mudanças que sucederá a noite. Apesar de tímida, inexperiente, escondida sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, a aurora é inevitável. A certa altura, ela é personificada na deusa da mitologia grecoromana, irmã de Hélios (o Sol) e de Selene (a Lua), que todos os dias abria os portões das estrebarias do Olimpo com seus dedos rosados e voava rápida e suavemente pelos céus, anunciando a passagem do carro de seu irmão (o círculo de fogo do sol). Daí as referências ao vapor róseo que expulsa a treva noturna e aos dedos frios, que ainda não 13

14 se modelaram, mas já tem força suficiente para avançar na escuridão e iniciar a decomposição do triste mundo fascista. Com a chegada da aurora, deste novo tempo, a fadiga terminará, os corpos hirtos estremecerão e adquirirão fluidez, as mãos dos sobreviventes se enlaçam imagens que revelam um relaxamento sensual que substituirá o medo paralisante destacado na primeira estrofe. Nos versos finais, ocorre a completa mutação: o sangue que se derrama na noite do presente é doce de tão necessário para colorir as pálidas faces da aurora do amanhã de onde se deduz que o sangue derramado na resistência às forças sombrias da história as ditaduras, o fascismo - não será em vão. A noite ambígua, como uma grande esfera que envolve o poeta e sua solidão, os enigmas do mundo e os fluidos vitais, aparece no último poema do livro, em que novamente Drummond capta de maneira impressionante a atmosfera de integração na noite e contemplação. Noturno à janela do apartamento Silencioso cubo de treva: um salto, e seria a morte. Mas é apenas, sob o vento, a integração na noite. Nenhum pensamento de infância, nem saudade nem vão propósito. Somente a contemplação de um mundo enorme e parado A soma da vida é nula. Mas a vida tem tal poder: na escuridão absoluta, como líquido, circula. 14

15 Suicídio, riqueza, ciência... A alma severa se interroga e logo se cala. E não sabe se é noite, mar ou distância. Triste farol da Ilha Rasa. O poema tem uma estrutura circular. Inicia-se de modo melancólico: em seu apartamento, o eu lírico sentese envolvido pela solidão, que não deixa de ser também uma atitude de isolamento e alienação do mundo: silencioso cubo de treva. Tal solidão conduz ao pessimismo niilista e à ideia de suicídio: um salto, e seria a morte. A conjunção adversativa ( Mas ) que inicia o verso 3 expressa a recusa, porém, à saída extrema: o que resulta da solidão não é o suicídio, mas a integração ao mundo misterioso ( Mas é apenas, sob o vento, / a integração na noite ), mesmo que nele o poeta não encontre mais o seu passado nem vislumbre o seu futuro ( Nenhum pensamento de infância, / nem saudade nem vão propósito ), mesmo que reste apenas a indagação sem respostas: Somente a contemplação / de um mundo enorme e parado. // A soma da vida é nula. A repetição da conjunção adversativa no verso 10 ( Mas ) faz girar novamente a roda e expressa a resistência da vida: Mas a vida tem tal poder: / na escuridão absoluta, / como líquido circula. Na última estrofe, outro giro retoma a melancólica incerteza quanto ao sentido de todas as coisas na vida: Suicídio, riqueza, ciência... / A alma severa se interroga / e logo se cala. E não sabe / se é noite, mar ou distância. O verso solitário que fecha o poema, aparentemente mera descrição da visão à janela do apartamento (o farol da Ilha Rasa ) associada ao estado de espírito dominante no poema ( triste ), resume de modo brilhante esta personalidade dividida entre a angústia e a esperança. Personalidade, aliás, tão bem escondida pela impessoalidade dos versos, nos quais não aparece em nenhum momento referência direta ao eu do poeta. Um farol é uma fonte de luz que serve de orientação aos navegantes para que não naufraguem. Mas, no farol da Ilha Rasa, o que o poeta vê é apenas tristeza A angústia perante a passagem do tempo; a força da memória Ora o conteúdo sociológico do lirismo drummondiano é tanto mais rico pelo fato de sua aventura pessoal o filho do fazendeiro tornado burocrata na grande cidade coincidir com a evolução social do Brasil. É, com efeito, em torno da década que se inicia a modernização da sociedade brasileira; só nessa época as estruturas sociais e culturais do velho colosso agrário e patriarcal 15

16 começam a ceder, irreversivelmente, à pressão das classes urbanas, concentradas nas cidades cada vez mais povoadas e poderosas. (José Guilherme Merquior. Verso Universo em Drummond) Em Sentimento do Mundo, percebe-se que o encontro com a sociedade urbana moderna (no Rio de Janeiro) e com os dramas nacionais e internacionais, sentidos nas ruas e estampados nos jornais, provocaram na poesia de Drummond um movimento em direção a temas mais históricos, políticos e sociais, que atendessem ao seu sentimento moral de necessidade de participação. Mas, como já vimos, isso não significa que o desassossego e a timidez de sua vida interior, bem como suas raízes mineiras, tenham simplesmente desaparecido de sua poesia. Esse cordão umbilical que teimava em ligá-lo a Minas Gerais e ao passado aparece de maneira direta ou indireta em vários poemas, mas especialmente no que segue: Confidência do Itabirano Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana. De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço: esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil, este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval; este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas; este orgulho, esta cabeça baixa... Tive ouro, tive gado, tive fazendas. Hoje sou funcionário público. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói! Apenas o fato de nascer em Itabira já seria o suficiente para marcar indelevelmente a personalidade do poeta ( Principalmente nasci em Itabira ), que incorpora da cidade os proverbiais recatos e timidez dos mineiros, representados pela cerceadora paisagem montanhosa e pelo minério de ferro abundante na cidade: Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. / (...) / E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. / A vontade de amar, que me paralisa o trabalho / vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes. 16

17 A cidade está a sua volta, nas prendas diversas (a pedra de ferro, o São Benedito, o couro de anta) que enfeitam sua casa, mas também incrustada em sua personalidade: este orgulho, esta cabeça baixa.... Observe-se aqui o traço típico do estilo de Drummond, ao mesclar, na enumeração das prendas, elementos concretos (a pedra, o couro, a estátua de santo) a abstratos (orgulho, cabeça baixa). Ao final, Drummond repassa a história da família, cujo sobrenome tem origem nos ingleses que vieram para Minas no tempo da mineração, tornando-se depois fazendeiros para desaguar nele: o poeta funcionário público, exilado no Rio de Janeiro, sem contacto físico com seu passado, que lateja doído em seu sangue: Itabira é apenas uma fotografia na parede. / Mas como dói!. O hábito de sofrer, que tanto me diverte é um exemplo da autoironia drummondiana, que recusa o derramamento emotivo típico dos românticos. Mas, mesmo sem sentimentalismo, poemas como esse revelam a profunda ligação de Drummond a suas origens interioranas, agrárias e patriarcais. O filho de fazendeiro que se estabeleceu no Rio de Janeiro nunca mais voltou a Minas Gerais, mas Minas Gerais nunca saíram dele. E sua desconfiança do progresso e dos tempos modernos (veja análise do poema Dentaduras duplas ) traço marcante de sua personalidade reflete bem sua trajetória pessoal, como analisou José Guilherme Merquior na epígrafe a esta seção. A questão da memória e do passado aparece também em outro poema importante do livro, que analisamos a seguir: Os mortos de sobrecasaca Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis, alto de muitos metros e velho de infinitos minutos, em que todos se debruçavam na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca. Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos. Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava que rebentava daquelas páginas. Na primeira estrofe do poema, o tom é irônico, beirando o sarcástico, contra aquilo que significa o passado: as fotografias do álbum velho de infinitos minutos são intoleráveis ; os que se debruçam sobre ele fazem isso para zombar dos mortos de sobrecasaca. Mas, as sobrecasacas (metonímia para os que a vestiam quando vivos) eram indiferentes a essa zombaria e a tudo mais (verso 5), inclusive ao verme (metáfora para o tempo que tudo apodrece) que devora as páginas do álbum, sua poeira e seus retratos. E, no entanto, a nota final é de uma melancolia ímpar: o verme tudo pode roer, menos o imortal soluço de vida que rebentava / que rebentava daquelas páginas (a essa repetição, no início de um verso, de palavra 17

18 ou expressão que finaliza o verso anterior, chamamos de anadiplose; aqui, ela serve para expressar magistralmente o soluço mesmo de que falam os versos). O que começou irônico termina tristemente reflexivo: a passagem do tempo tudo pode devorar, mas o passado teima em soluçar (repercutir) de alguma maneira no presente da memória. 5. Humor: entre o escracho e o refinamento O humor, quase sempre a partir da prática da ironia, é outra constante da poesia de Carlos Drummond de Andrade. Até Sentimento do Mundo, predomina na poesia do Autor um humor mais direto, até mesmo escancarado, afinado com o escracho com que os modernistas da primeira geração (principalmente Oswald de Andrade) castigavam nossa herança parnasiana, os bons modos burgueses e a história do Brasil. Dois exemplos são mostrados a seguir: Brinde no juízo final Poetas de camiseiro, chegou vossa hora, poetas de elixir de inhame e de tonofosfã, chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio, poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil. Em vão assassinaram a poesia nos livros, em vão houve putschs, tropas de assalto, depurações. Os sobreviventes aqui estão, poetas honrados, poetas diretos da Rua Larga. (As outras ruas são muito estreitas, só nesta cabem a poeira, o amor e a Light.) Aqui são homenageados os poetas populares: poetas de camiseiro, poetas de elixir de inhame e de tonofosfã, poetas do bonde e do rádio, poetas diretos da rua larga. (John Gledson aventa a possibilidade de Drummond, ao escrever o poema, estar pensando em Noel Rosa ( ), excepcional compositor brasileiro que assimilou os costumes, condições de vida e os sentimentos da gente da Zona Norte do Rio às suas obras ). 18

19 Ao fazer um brinde aos poetas que conseguem conciliar em sua poesia a poeira, / o amor / e a Light (isto é, aproximar a poesia da vida, preenchê-la com temas aparentemente banais), Drummond critica os poetas acadêmicos, particularmente os parnasianos, distantes da vida e do cotidiano que os cerca. Tristeza do Império Os conselheiros angustiados ante o colo ebúrneo das donzelas opulentas que ao piano abemolavam bus-co a cam-pi-na se-re-na pa-ra li-vre sus-pi-rar, esqueciam a guerra do Paraguai, o enfado bolorento de São Cristóvão, a dor cada vez mais forte dos negros e sorvendo mecânicos uma pitada de rapé, sonhavam a futura libertação dos instintos e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus de Copacabana, com rádio e telefone automático. O passado do Brasil aparece aqui retratado em uma cena tristemente cômica: os conselheiros, no tempo do Império, da guerra do Paraguai e da escravidão ( a dor cada vez mais forte dos negros que desaguaria na Abolição da Escravatura e, em seguida, no fim do Império), entediam-se até a angústia naquele mundo paralisado, caquético, onde o prazer se resume às donzelas opulentas de colo ebúrneo e à pitada de rapé. De maneira súbita (como numa libertação dos instintos ), o poema transporta-se para uma cena do presente: no sonho anacrônico dos conselheiros, aparecem os ninhos de amor nos arranha-céus de Copacabana, com rádio e telefone automáticos. A partir de Sentimento do mundo, o humor em Drummond se torna cada vez mais refinado e amargo: às vezes, sutilmente irônico, outras vezes apelando para o cinismo ou o grotesco, em imagens de significado agressivo que surpreendem o leitor. O humor aparece em vários poemas do livro, umas vezes melancólico, outras ambíguo, outras provocador. Ele pode ser encontrado em poemas como Indecisão do Méier, La possession du monde. Mas, na nossa opinião, o poema do livro em que o humor é mais evidente (já a partir do título) e bem realizado é Dentaduras duplas. 19

20 Dentaduras duplas A Onestaldo de Pennafort Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos... Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca romântica?...) extraídos sem dor. E a boca liberta das funções poético sofístico-dramáticas de que rezam filmes e velhos autores. Dentaduras duplas: dai-me enfim a calma que Bilac não teve para envelhecer. Desfibrarei convosco doces alimentos, serei casto, sóbrio, não vos aplicando na deleitação convulsa de uma carne triste em que tantas vezes me eu perdi. Resovin! Hecolite! Nomes de países? Fantasmas femininos? Nunca: dentaduras, engenhos modernos, práticos, higiênicos, a vida habitável: a boca mordendo, os delirantes lábios apenas entreabertos num sorriso técnico, e a língua especiosa através dos dentes buscando outra língua, afinal sossegada... A serra mecânica não tritura amor. E todos os dentes Largas dentaduras, vosso riso largo me consolará não sei quantas fomes ferozes, secretas no fundo de mim. Não sei quantas fomes jamais compensadas. Dentaduras alvas, antes amarelas e por que não cromadas e por que não de âmbar? de âmbar! de âmbar! feéricas dentaduras, admiráveis presas, mastigando lestas e indiferentes a carne da vida! 20

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