RECOMENDAÇÕES ERGONÔMICAS PARA O PROJETO DE PLATAFORMAS OFF-SHORE

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1 XXX ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO Maturidade e desafios da Engenharia de Produção: competitividade das empresas, condições de trabalho, meio ambiente. São Carlos, SP, Brasil, 12 a15 de outubro de RECOMENDAÇÕES ERGONÔMICAS PARA O PROJETO DE PLATAFORMAS OFF-SHORE Francisco José de Castro Moura Duarte (UFRJ) Luciano do Valle Garotti (PETROBRAS) Nora de Castro Maia (PETROBRAS) Gislaine Cyrino Capistrano da Silva (UFRJ) Carolina Souza da Conceição (UFRJ) Este artigo apresenta recomendações ergonômicas para o projeto de plataformas de petróleo. Baseados num estudo de caso, estas recomendações tem por objetivo considerar o trabalho dos futuros usuários desde o início do projeto, antecipando pproblemas relativos às condições de trabalho. As recomendações aqui apresentadas são relativas ao sistema de PIGs, válvulas, escadas, turbogeradores e movimentação de carga. Os Manuais de fatores humanos apresentam recomendações ergonômicas que são pouco utilizadas pelos projetistas. Eles não compreendem as regras produzidas e não sabem, muitas vezes, como utilizá-las nos projetos. Ao contrário destes manuais focados nas propriedades humanas e em tarefas abstratas, a abordagem utilizada para a construção das recomendações aqui apresentadas tem como base a experiência das diferentes equipes de operação (náutica, produção, facilidades e manutenção) em plataformas em operação. Palavras-chaves: ergonomia, projeto, petróleo, plataforma

2 1. Introdução Este artigo tem como base pesquisa realizada durante dois anos com o objetivo de construir recomendações técnicas (RTs) para o projeto básico de futuras plataformas de petróleo. Diferentemente da maior parte das recomendações em ergonomia, a proposta deste projeto de pesquisa era construir recomendações baseadas no uso ou, mais especificamente, na análise detalhada das situações existentes (plataformas offshore em operação). Dito de outra forma, o que se procurava era a transferência de experiência das plataformas em operação para o projeto de futuras plataformas. Essa transferência de conhecimento operacional e a reflexão sobre as experiências e projetos do passado se fazem necessários no atual contexto brasileiro de exploração e produção de petróleo. As descobertas recentes de novas áreas de produção, como o pré-sal demandarão diversos projetos e inovações tecnológicas que precisam se apoiar na reflexão sobre a prática atual. Os projetos de plataformas em águas ultra profundas, de alto custo de operação, situadas a grandes distâncias da costa marítima e com dificuldades inerentes de logística de transporte e manutenção, demandarão esforços de inovação consideráveis que deverão ter como base a realidade do trabalho de operação. Assim, os resultados deste projeto de pesquisa pretendem apoiar a intervenção da ergonomia em etapas iniciais do projeto onde as possibilidades de transformação são maiores. A compreensão do uso, base para elaboração das recomendações aqui apresentadas, não significa necessariamente ampliação de espaços e maiores custos para o projeto como um todo. As intervenções ergonômicas podem significar reduções de custos importantes, na medida em que elas ajudam a antecipar problemas de incompatibilidades entre as diferentes disciplinas de projeto, incompatibilidades estas que estão na origem dos principais problemas relacionados às condições de trabalho existentes nas plataformas atualmente em operação. Intervir na fase inicial do projeto, integrando princípios e recomendações ergonômicas oriundas da análise das situações atuais, visa a integrar desde o início do projeto a dimensão do trabalho. O conhecimento da realidade do trabalho em situações de referência, tal qual ela ocorre no momento da operação, é uma dimensão estratégica para o êxito dos projetos, na medida em que possibilita antecipar problemas que o futuro corpo técnico de operação poderá enfrentar. Devido ao elevado valor dos investimentos, é necessário que as novas unidades de produção entrem em funcionamento estável nas datas previstas e com a qualidade e a quantidade da produção asseguradas. Conhecer o saber fazer é objetivo fundamental da Análise Ergonômica do Trabalho (AET). Esse saber é essencial não apenas para operar os sistemas tecnológicos, mas também, para projetá-los. Assim, seria uma contradição pretender projetar sem transferir a experiência operacional das plataformas existentes. Não se trata aqui de consultar usuários, o que mesmo Taylor praticava, em seus projetos de racionalização da produção. A análise ergonômica do trabalho amplia a ação dos operadores sobre o projeto, em especial quando a intervenção em projetos acontece desde suas etapas iniciais. Já se conhece a dialética do projeto enquanto desenvolvimento permanente da conversação entre projetista e a situação (Shön, 1983 e Béguin, 1994). Os desafios para a construção dessas recomendações técnicas são muitos e diversas questões se colocam: como navegar entre orientações sobre o trabalho futuro e o conhecimento específico das situações atuais existentes (paradoxo da ergonomia de concepção)? Até que ponto, o certo e o provável 2

3 determinam as situações que se efetivarão no futuro? Como assegurar que as recomendações oriundas de situações atuais sejam seguidas em novos projetos, se estes assumem novos compromissos e se o projeto inicial se transforma durante o ciclo de vida, dos estudos de base à execução e, posteriormente, no uso? Conforme já mencionado, a geração de recomendações técnicas em ergonomia visa apoiar projetistas e usuários desde o início do projeto de base, ou seja, ao nível de diretrizes de concepção (conceito do produto). O compromisso entre criar recomendações que não sejam completamente genéricas (ou pouco operacionais) e que não restrinjam a criatividade, deu origem ao conceito de configurações de uso, que serão apresentadas nesse artigo. 2. Metodologia Durante os dois anos de duração deste projeto, procedeu-se a avaliações ergonômicas de diferentes situações de trabalho, durante visitas curtas a plataformas definidas como situações de referência (a principal foi a P-43). Nestas visitas foram identificadas situações típicas de trabalho e estimou-se sua criticidade. A partir deste levantamento que equivale a um prédiagnóstico ergonômico (conforme Guérin et al.; 1991), foram utilizados diferentes métodos de análise e registro, em função das especificidades das situações analisadas: entrevistas, registros fotográficos e filmagens, análises de dados de saúde e das características da população de trabalhadores, análises de posturas, esforços, ambientes e espaços físicos, layout, organização do trabalho, dispositivos de informação e comando, mobiliário e equipamentos. Se a metodologia de base em todos os casos permaneceu sendo a análise ergonômica do trabalho, (que pressupõe o acompanhamento das situações típicas de trabalho consideradas críticas e a entrevista em auto-confrontação), diversas variantes foram introduzidas conforme permitido pela situação de trabalho. Como é sabido, em observações de campo, o pesquisador deve adaptar técnicas e procedimentos às circunstâncias que encontra, uma vez que não tem controle sobre a situação como em um laboratório. Em uma plataforma, as restrições são ainda mais fortes, seja em termos de tempo de observação (os dias de embarque são um recurso disputado devido às limitações de vagas ou do POB people on board), seja de ocorrência da atividade. Dessa forma as possibilidades de aprofundamento das situações críticas foram bastante variáveis, exigindo um leque diversificado de técnicas e procedimentos. As análises da atividade na principal situação de referência do projeto foram confrontadas a soluções de projeto adotadas em outras plataformas como forma de validar as análises, no sentido de generalizá-las ou de limitar sua pertinência a situações particulares. Dessa forma, puderam-se formular recomendações que abarcassem uma diversidade maior de experiências, ou indicar a relação entre certas filosofias de projeto e as recomendações de soluções específicas. O projeto foi desenvolvido por meio de diversas ações, distribuídas nas seguintes etapas, com ou sem superposição, dependendo das necessidades metodológicas: 1. Identificação e mapeamento das situações críticas de trabalho em termos de confiabilidade, segurança operacional e carga física (esforços e posturas) em diferentes áreas e ambientes de trabalho da plataforma P-43. Essa criticidade foi avaliada para operadores de produção e de manutenção. 2. Realização da Análise Ergonômica do Trabalho (AET) em ambientes definidos com base no mapeamento de criticidade realizado. Conforme mencionado, as análises 3

4 detalhadas foram todas realizadas em uma determinada plataforma (P-43) em 14 visitas realizadas de maio de 2007 a fevereiro de Avaliação das condições de trabalho em outras plataformas (P-50, P-52, P-38, P-53 e PRA-1) para se conhecer outras situações de referência e as soluções implementadas nestas situações. 4. Redação das recomendações técnicas RTs em ergonomia (guidelines) para o projeto básico dos diferentes ambientes analisados (princípios ergonômicos básicos de projeto). 5. Validação das recomendações junto aos projetistas. As visitas e observações do trabalho em plataformas offshore, tiveram o objetivo de compreender o trabalho de operação. Procurou-se durante as análises realizadas identificar os elementos e os determinantes das atuais condições de trabalho e de uso que poderiam ser objeto de melhorias em futuros projetos. A observação e o registro das diversas atividades ligadas à operação, aliados às verbalizações dos operadores e aos dados técnicos do funcionamento das plataformas formaram a base para a construção do diagnóstico ergonômico e das recomendações para transformação destas condições de trabalho. Ao responder a uma demanda de concepção de novas situações de trabalho, as análises realizadas se apoiaram em conceitos articulados na construção da abordagem da atividade futura possível AFP (Daniellou, 1988 e 2002, Maline, 1994). Em particular a noção de situação de referência e a noção de situação de ação característica (SAC) ajudam a compreender como as análises foram conduzidas. Situações de referência são situações existentes com características semelhantes às futuras situações de trabalho a serem projetadas. Nestas situações são realizadas as AETs e as observações sistemáticas da atividade. Tais análises são realizadas em situações típicas de trabalho conhecidas como Situações de Ação Características SAC, definidas por Daniellou (1992) como um conjunto de determinantes cuja presença simultânea vai condicionar a estruturação da atividade. Esses determinantes são notadamente: os objetivos a atingir, as pessoas engajadas na ação, as exigências de tempo e qualidade, a disponibilidade de meios de trabalho e os fatores susceptíveis de influenciar o estado interno dos operadores (por exemplo, o trabalho noturno). Para Maline (1994), as SACs são as unidades elementares da ergonomia de concepção, constituindo o traço de união irredutível e operacional que permite a instrução do futuro a partir do existente (Maline, 1994). Trata-se, neste caso, de evidenciar as dificuldades vivenciadas na prática profissional, tais como a expressão de percepções e sensações corporais, intuições e experiências vivenciadas, o que exige a problematização na noção de participação (deixa de ser espontânea) e o desenvolvimento correlato de teorias da prática (teorias da ação e da atividade) e da cognição situada. Devidamente estimulada e orientada, a experiência vivida consegue antecipar situações de trabalho futuras, validando ou alertando os projetistas para possíveis inadequações ergonômicas. Partindo da AET de situações concretas (plataformas em operação) e de especificações de projeto mais ou menos genéricas, avaliadas criticamente à luz das observações das situações de referência, foram formuladas recomendações na forma de especificações técnicas para diversos ambientes, áreas e equipamentos da planta. Para apresentação nesse artigo foram escolhidas cinco áreas do estudo: 1. Sistema de lançamento e recebimento de pig ; 4

5 2. Válvulas 3. Escadas e Acessos 4. Turbogerador 5. Movimentação de Cargas 3. Recomendações baseadas no uso Uma das maiores dificuldades encontradas neste projeto para elaboração das RTs foi extrair as configurações de uso (Duarte et al., 2008 e 2009) a partir dos casos diversos, evitando se prender ao caso da situação de referência ou às opções adotadas em outras plataformas. Mesmo quando uma situação de referência oferecia um bom exemplo a ser copiado, a recomendação assumiu um tom mais geral, para não se prender ao caso específico. Tentamos, assim, evitar que a recomendação assumisse o status de um padrão obrigatório, ao invés de servir como referência, como pretendemos, deixando margem de manobra para a equipe de projeto inovar e, mesmo, melhorar em relação ao estado da arte. A noção de configuração de uso (Duarte et al., 2008 e 2009) permite entender melhor como as RTs foram construídas e, também, como devem ser utilizadas. O que define uma configuração de uso é sempre a reunião entre, de um lado, aspectos físico-tecnológicos (ambiente, espaço, instrumento, objeto, equipamento...), contexto social e orientações cognitivas (exemplo: abrir uma válvula para... ) e, de outro lado, um esquema prático, que está subjacente a uma dada atividade. Como exemplo, podemos citar: como verificar a posição do PIG, como checar a pressão nos sistemas de lançamento e recebimento de PIGs etc. Adotando as configurações de uso como unidade mínima de análise e base das recomendações, foi possível abstrair detalhes e especificidades observadas durante a análise ergonômica do trabalho que não precisam constar das configurações de uso apesar destas terem se originado desse material. Por serem de caráter mais geral, as configurações de uso podem abstrair de variabilidades e especificidades de cada plataforma, de detalhes dos procedimentos e modos operatórios e de problemas específicos. As situações de trabalho consideradas típicas, abstraídas da análise ergonômica do trabalho, assim como as recomendações que nelas se inspiram, podem ser agrupadas em 2 tipos: um que inclui a atividade, outro que considera apenas relações entre elementos materiais. Incluem-se no primeiro grupo, situações como: extração de disjuntor em painéis elétricos limpeza de filtros recepção de aeronaves Manipulação de válvulas Transporte de carga (materiais e equipamentos) No segundo grupo podem ser incluídas as situações de projeto do espaço, equipamentos e instalações que também interessam aos projetistas, como interferências entre variáveis de projeto e incompatibilidades de projeto. Por exemplo: padronização do tamanho de degraus material da área de estoque de produtos químicos utilizações de tubulações de PVC no sistema de sewage 5

6 O critério que distingue esses grupos é a atividade: num caso, o que cria a situação, as relações entre as coisas e/ou pessoas presentes, é uma ação humana, um sujeito desenvolvendo uma atividade; noutro, as relações se resolvem entre as próprias coisas. No momento do projeto de um sistema, ambas as relações (que, para simplificar, denominamos de configurações de uso e de configurações técnicas) devem ser consideradas pelos engenheiros. Também não é improvável que certas configurações técnicas se transmutem para o grupo de configurações de uso assim que a presença humana se manifeste em uma ação (podemos imaginar a manutenção ou limpeza de um material corrosível no banheiro). Esta é precisamente a definição de uma configuração de uso: o encontro entre um certo padrão de comportamento humano e um dado padrão espacial (Alexander, 1981). No entanto, em termos de rigor metodológico, faz sentido distinguir configurações técnicas de configurações de uso. A rigor, a análise ergonômica do trabalho se presta à identificação de configurações de uso, via atividade e experiência dos operadores/usuários. Já as configurações técnicas ou parte delas são percebidas apenas pela presença desses atores em um dado espaço, sem necessidade de conhecimentos especializados. Nesse sentido, a ergonomia da atividade está em condições, ao menos potencialmente, de fazer um levantamento exaustivo de inadequações do espaço a partir de sua utilização, apoiando-se na vivência subjetiva dos usuários. Por esta via, pode também ter acesso a problemas de configurações essencialmente técnicas que os trabalhadores reportam a partir de sua experiência profissional ou enquanto observadores leigos, apoiados no senso comum. Nas recomendações técnicas, as análises e recomendações evitam misturar em um mesmo momento esses dois tipos de configurações por razões de coerência metodológica. O levantamento e o diagnóstico de configurações técnicas, por exemplo, as patologias de edificações ou incompatibilidades de projeto, exigem metodologias específicas que a análise ergonômica do trabalho não domina nem utiliza, por não ser este o seu campo de atuação. Evidentemente, se percebidas pelo ergonomista ou relatadas pelos trabalhadores, essas configurações técnicas foram mantidas na medida em que contribuem para melhorar os novos projetos, mas possuem um status diferente, apenas como recomendações adicionais, não sistemáticas. Não se pode entender as RTs em ergonomia para uma instalação ou espaço como uma norma técnica que aborda todos os determinantes do projeto, evitando diluir sua contribuição específica no campo das normas técnicas. O conteúdo das recomendações também foi objeto de uma adequação à atividade dos projetistas. Nas recomendações tradicionais, nem sempre se procura explicitar a razão de uma proposição, como se sua justificativa fosse auto-evidente. A noção de configurações de uso ajuda a situar uma recomendação no contexto de uma atividade, que também se procurou preservar na formulação das recomendações que, além do conteúdo técnico, propositivo, explicita seu objetivo/finalidade ou problema a resolver. Sempre que possível, foram detalhados parâmetros de projeto, explicando o porquê e como foram calculados e/ou exemplificando-os com situações de referência visitadas ou conhecidas. Assim, as recomendações procuraram conter o que fazer, o porquê e, em certa medida, o como. Abaixo serão apresentados alguns exemplos das configurações de uso e recomendações técnicas geradas. 4. Sistema de lançamento e recebimento de pig para operação de limpeza em poços produtores 6

7 O objetivo da passagem de pig é remover a parafina e outros resíduos aderidos acumulados nas linhas de produção. Como dito anteriormente, as configurações de uso descrevem como são realizadas as diversas etapas que compõem a operação em questão. Como exemplos são citados duas das oito configurações de uso propostas para esse sistema: Inserção e retirada da cesta de recebimento - o operador insere manualmente a cesta no recebedor de pig, evitando que a espuma se desvie em direção às linhas de produção, dreno ou bypass na sua chegada. Após o recebimento, o operador faz a retirada da cesta para retirar o pig. Alinhamento (ou realinhamento) dos recebedores e lançadores de pig - direcionamento do óleo ou gás para a câmara realizado através da atuação manual sobre válvulas. O propósito é desviar o fluxo nos momentos adequados, viabilizando o lançamento e o recebimento do pig Com base nas configurações de uso, nas condicionantes e variáveis de projeto e nas normas e regulamentações, aplicáveis a esse sistema, foram geradas recomendações técnicas como essas abaixo: A área em frente à portinhola das câmaras deve ficar o mais livre possível de dispositivos como tubulações ou volantes de válvulas. Prever espaço mínimo de 2,00 m livre de obstrução, diante da necessidade de utilização de instrumentos que demandem espaço, tais como bastões e cestas para recebimento (Figura 1). Figura 1 Utilização de bastão para colocação do pig e inserção de cesta de recebimento É importante que o manômetro da câmara esteja disposto de forma visível para o operador no momento em que manuseia a válvula de bypass da PSV, de forma a evitar deslocamentos desnecessários entre as estações e a área das PSVs. 5. Válvulas São os principais mecanismos de controle de uma planta de processo. Há grande diversidade de tipos e modelos e enorme representatividade em uma instalação de processo químico, cuja quantidade é da ordem de milhares na maioria das instalações, tanto onshore quanto offshore. Nesse caso não foram geradas as configurações de uso, mas uma tabela com os principais problemas relacionados à atuação manual de válvulas e seus fatores. Foi também gerada uma categorização, de acordo com o grau de criticidade, funções e freqüência de utilização das válvulas. Exemplos de recomendações técnicas: 7

8 Os volantes devem ser acessíveis permanentemente no nível do deck ou através de superfície elevada. Caso essas duas alternativas não sejam viáveis, é aceitável o acesso através de escada. Regiões de acesso a volantes de válvulas que possivelmente requeiram amaciamento (Figura2) devem ter pelo menos 0,50 m 2 de espaço livre. 6. Escadas e acessos Figura 2 Amaciamento de válvulas em um lançador de pig A construção de uma plataforma de petróleo ocorre geralmente com a fragmentação das áreas/módulos, como, por exemplo, módulo de geração, módulo de compressão etc. Cada um dos módulos passa a ser construído por um fornecedor, que fica responsável por todos os equipamentos e dispositivos presentes nele, considerando restrições de área e a distribuição de pesos pelos diferentes pontos da embarcação. Diante da limitação dos espaços, a alternativa muitas vezes utilizada pelos fornecedores é a verticalização dos módulos, acarretando a existência de inúmeras escadas de acesso aos diferentes equipamentos/sistemas. Foram observados problemas frequentes como a falta de acesso a locais onde ocorrem manutenções gerando necessidade de montagem de andaimes e utilização de acessos alternativos e posicionamento inadequado de escadas dificultando a operação (Figura 3). A sequência de tarefas relacionadas com uma única atividade de trabalho deve ser considerada em projeto de modo a evitar deslocamentos excessivos do operador. 8

9 Figura 3 Posicionamento de escada dificultando manutenção de válvula Exemplos de recomendações: Projetar vias ou plataformas de ligação entre as diferentes elevações dos módulos evitando deslocamentos por escadas. É importante prever estas ligações durante as etapas de construção dos módulos, homogeneizando as alturas dos diferentes níveis de cada módulo. Prever acessos (escada e plataforma que substituiriam andaimes) a pontes rolantes e equipamentos suspensos que necessitam de manutenção. 7. Turbogerador Sistema responsável por manter o abastecimento de energia da plataforma. Configurações de uso (exemplos): Lavagem do TG Nesta lavagem é preciso abastecer o sistema de água destilada e sabão e, em seguida, acionar os painéis para dar partida à lavagem. Ao final da lavagem, é necessário acessar as válvulas de dreno que geralmente ficam localizadas abaixo do HOOD, a fim de verificar se a água está límpida, após o que se faz necessária a secagem dos instrumentos abaixo da turbina. Inspeção da palheta A inspeção das palhetas da turbina (Figura 4) é realizada a fim de diagnosticar a existência de algum princípio de falha ou dano permanente nas palhetas. Esta inspeção ocorre em média a cada 4000 horas de operação do TG (aproximadamente a cada 6 meses), antes e depois da lavagem, podendo ser realizada de forma visual ou com a utilização de equipamentos como boroscópios, sendo necessária a entrada do operador no plenum para girar as palhetas do eixo interno, objetivando melhorar o resultado das inspeções boroscópicas. Figura 4 Limpeza das palhetas do TG 9

10 Exemplos de recomendações geradas: Prever porta de acesso ao plenum, uma vez que se faz necessária a entrada para inspeção e giro das palhetas, com o objetivo de melhoria da boroscopia nas inspeções rotineiras, evitando esforços na entrada de um espaço confinado e facilitando o resgate de um operador em caso de acidente. Prever porta de acesso à descarga da geradora de gás (GG) da turbina para inspeção dos struts, uma vez que este é um local considerado confinado, permitindo a entrada do mantenedor de forma segura. A inspeção dos struts das turbinas é uma manutenção preventiva realizada a fim de diminuir a possibilidade de danos ao equipamento. Outra alternativa é a instalação de uma janela de visita de onde o operador possa ter acesso direto, ou seja, sem a necessidade de montagem de dispositivos para sua entrada. 8. Movimentação de cargas Dentre as atividades mais intensas, sob o ponto de vista de esforço e postura, desenvolvidas na plataforma estão as atividades de movimentação de cargas. Os operadores recebem e enviam cargas, além de transportá-las dentro da plataforma. Configurações de uso (exemplos): Movimentação de cargas pela plataforma Consiste no transporte de cargas espalhadas pela plataforma. Por exemplo, quando uma válvula está com defeito no processo e deve ser retirada para manutenção. A equipe de movimentação de cargas é chamada para transportar a válvula defeituosa do ponto de desmontagem até a área onde sofrerá manutenção e para transporte de uma válvula nova para o local onde será montada. Recepção de rebocadores Consiste na retirada da carga do rebocador com a ajuda do guindaste e o seu posicionamento na plataforma. O guindasteiro conta com a ajuda de homens de área que aplicam sua força e assumem posturas inadequadas durante o posicionamento das embalagens paletizadas/contêineres na área de recepção de cargas ou na área de produtos químicos. Exemplos de recomendações geradas para plataformas tipo navio: Sugere-se o posicionamento dos guindastes de forma a alcançar todas as extremidades das plataformas evitando deslocamentos com manipulação de cargas, como, por exemplo, guindastes a popa, meia nau e proa, sendo o guindaste a meia-nau para apoio a equipamentos da produção e guindastes na proa e na popa para auxílio em sistemas de offloading e de ancoragem. Posicionar os guindastes da popa (boreste e bombordo) junto à área de movimentação de cargas e dimensioná-los para suportar as cargas mais pesadas como, por exemplo, bomba de injeção, fecho tubular de permutador, turbogeradores e geradores de emergência. 9. Conclusão 10

11 As recomendações técnicas (RTs) e as configurações de uso propostas neste estudo não substituem os futuros ergonomistas e as recomendações detalhadas, a serem elaboradas em cooperação com projetistas e com os futuros usuários que participarão dos projetos. As RTs oferecem apenas orientações básicas para que o trabalho dos futuros usuários seja considerado desde o início do projeto básico. Desta forma pode-se antecipar problemas em termos de: esforços e posturas inadequadas, dificuldades de acesso e deslocamentos, dificuldade de execução (ou operacionalidade/funcionalidade), riscos de acidentes, necessidade de aumento do número de operadores envolvidos com a execução da tarefa etc. A continuidade desses estudos demanda a aplicação dessas recomendações em um projeto em andamento, ou ainda sua confrontação com outras situações de referência como plataformas projetadas sob outras filosofias de operação (ex.: contratadas por afretamento) para que se possa verificar a sua eficácia, bem como aprimorá-las quando necessário. Referências ALEXANDER, C. (1981). El modo intemporal de construir. Barcelona: Gustavo Gili. DANIELLOU, F. (1987). Les modalités d'une ergonomie de conception: introduction dans la conduite de projets industriels. Note documentaire. ND Paris: INRS. DANIELLOU, F. (1988). Ergonomie et démarche de conception dans les industries de process continus, quelques étapes clefs. Le Travail Humain, 51, 2, pp DANIELLOU, F. E GARRIGOU, A. (1991). Human factors in design : sociotechnics or ergonomics? In M. Helander, (Ed.), Design for Manufactorability and Process Planning. pp Londres: Taylor & Francis. DUARTE, F; LIMA, F.A,L E RENÉ, R. & MAIA, N. (2009) Settings of usage for the design process, Anais do IEA, China. DUARTE, F; LIMA, F.A,L E RENE, R. & MAIA, N. (2008) Situations d action caracteristiques et configurations d usage pour la conception, 43º Congresso da SELF, França. GUERIN, F. ET AL. (1991). Comprende le travail pour le transformer. ANACT, Paris. MALINE, J. (1994). Simuler le travail. Paris: Editions de l ANACT. 11

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