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1 Pensamento do Dia Economistas analisam a Economia, o Brasil e o mundo, na mídia diária Valor Econômico - 01/12/2009 Para salvar a teoria econômica Antonio Delfim Netto Creio que pelo menos alguns economistas que dominam brilhantemente as "modelagens" matemáticas (se forem um pouco menos cínicos do que o prêmio Nobel Robert Lucas) devem repetir para si mesmos a pergunta que a rainha Elizabeth II fez aos professores da famosa London School of Economics em novembro de 2008: "Como foi possível que, depois de mais de um século de estudos, os senhores foram incapazes de prever a crise que colocou em risco a economia mundial?" O fracasso da macroeconomia em matéria de "previsão" é fato passado em julgado. E (com razão ou não) muitos acadêmicos garantem que "prever" não é obrigação dos economistas e não é a finalidade da teoria econômica "científica", o que não parece fora de propósito. O fato curioso é que eles mesmos, quando assumem o papel de "analistas" no mercado financeiro (a serviço de bancos, fundos e "tutti quanti"), não fazem outra coisa a não ser "prever", para induzir "cientificamente" os compradores de seus papéis. Aquela atitude defensiva, entretanto, não poupa a teoria econômica. De um "cientifismo equivocado" que lhe deu imensa visibilidade e prestígio, há pouco mais de uma década, ela hoje é vista com desconfiança, quando não desmoralizada. O sentimento de frustração é geral. Todas as tribos que constituem a confederação dos economistas sentem esse rebaixamento da opinião pública com relação às suas aspirações de sugerir políticas capazes de manter a economia num estado de equilíbrio dinâmico interno e externo. Em resposta à sua incômoda pergunta, a rainha recebeu duas cartas. Uma assinada por um grupo de economistas "neoclássicos", encabeçada pelo professor Tim Besley, da British Academy. Outra de economistas relativamente fora do "mainstream", encabeçada pela professora Sheila Dow, da University of Stirling. A primeira é um relato das conclusões de um fórum realizado em 17/6/2009 na British Academy (especialmente para responder à perplexidade da rainha). Dele participaram homens de negócios, especialistas do mercado financeiro (da City), reguladores, professores de economia e membros do governo. Ela desfila uma longa lista de dificuldades e justificativas. Em resumo diz a carta: 1) muitos economistas previram a possibilidade da crise, mas não o momento de sua eclosão. O BIS, entretanto, chamou sistematicamente a atenção dos governos e do mercado para tal risco;

2 2) apesar da imensidão de analistas (apenas um banco inglês que hoje é do governo tinha um time de 4.000!), os riscos eram considerados isoladamente usando "as melhores mentes matemáticas nacionais e estrangeiras", mas ignorando uma visão global; 3) apesar dos avisos, a maioria estava convencida de que "os bancos sabiam o que estavam fazendo". Estavam crentes que o "mercado" mudara. Banqueiros e economistas estavam encantados por ele. Os modelos pareciam prever os pequenos riscos no curto prazo, mas poucos economistas estavam equipados para dizer o que aconteceria se as coisas dessem erradas como deram; 4) havia um consenso que seria melhor lidar com as "bolhas" depois que houvessem ocorrido do que explodi-las preventivamente. Como a inflação permanecia baixa, a taxa de juros foi mantida muito baixa por muito tempo, estimulando a ação dos agentes. Prometendo um novo Fórum da Academia no futuro, a primeira carta termina dizendo: "Tudo isso, combinado com uma psicologia de rebanho e o mantra dos gurus financeiros e governamentais, conduziu a uma receita perigosa. Pequenos riscos individuais podem ter sido estimados corretamente, mas os riscos (não percebidos) do sistema global eram imensos." A segunda carta ratifica essas críticas, mas sugere que "a preferência pelas técnicas matemáticas com relação à substância do mundo real desviou os economistas da análise do todo". Termina dizendo que o que fez falta foi "uma sabedoria profissional informada por seguros conhecimentos de psicologia, das estruturas institucionais e dos precedentes históricos". A mesma discussão se processa no mundo inteiro. Não se trata, entretanto, de abolir a matemática. Pelo contrário, ela é indispensável, mas deve ser combinada com a história, a geografia, a psicologia etc., com inteligência, moderação e respeito à realidade. Esta não é a primeira vez que o desencanto com as promessas da ciência econômica acontece. Já em março de 1892, W. Cunnigham, num artigo publicado no "Economic Journal", dizia que "se existe uma coisa que mais do que qualquer outra tem imposto sofrimento à economia política (o velho, sério e modesto nome da atual teoria econômica) é o fato que o público formou uma opinião exagerada do que ela pode realmente fazer e, portanto, desapontou-se porque ela não foi capaz de satisfazer tais expectativas". A despeito disso é mais do que evidente que o conhecimento econômico é fundamental para uma administração pública que deseje estimular o crescimento com alguma Justiça social e equilibrios interno e externo, e que ignorá-lo tem custos sociais imensos. O exemplo mais claro é a obediência às identidades da Contabilidade Nacional que governos mais sanguíneos tentam frequente e inutilmente violar e pagam caro por isso Valor Econômico - 01/12/2009 Os erros do Banco Central na gestão da crise financeira José Luis Oreiro e Eliane Araújo Passado um ano da eclosão da crise econômica mundial sobre o Brasil, começam a se observar os primeiros sinais consistentes de retomada do nível de atividade

3 econômica. Após dois trimestres consecutivos de queda, no segundo trimestre de 2009, o PIB brasileiro apresentou uma variação positiva com respeito ao trimestre anterior, de tal forma que do ponto de vista técnico a economia brasileira não está mais em recessão. No entanto, o resultado positivo do PIB no segundo trimestre não será suficiente para impedir que a economia brasileira apresente uma taxa de crescimento apenas levemente positiva ao longo do ano de 2009; resultado esse que contrasta fortemente com o crescimento superior a 5% no ano anterior. O saber convencional prevalecente entre os economistas brasileiros atribui essa queda da produção da indústria aos efeitos da crise econômica mundial sobre as exportações de produtos manufaturados. Nesse contexto, teria sido impossível impedir o colapso da produção industrial por intermédio de medidas de política econômica, mais especificamente, por intermédio de uma redução forte da taxa de juros no final de Por outro lado, a forte desvalorização da taxa de câmbio ocorrida entre outubro e dezembro do ano passado justificaria uma atitude mais prudente por parte da autoridade monetária com respeito ao início do ciclo de redução da taxa básica de juros. Com efeito, argumenta-se que o repasse do câmbio para os preços poderia por em risco a obtenção da meta de inflação para o ano de 2010, de tal forma que o compromisso com a obtenção da meta inflacionária não só impediria a redução da taxa de juros, como ainda poderia levar o Banco Central (BC) a ter que aumentar a taxa básica de juros para conter o efeito "pass-through". Esse raciocínio, no entanto, desconsidera dois elementos fundamentais no caso brasileiro. Em primeiro lugar, a crise econômica mundial chegou ao Brasil em função da "evaporação de crédito" induzida pelos grandes prejuízos que as empresas exportadoras brasileiras tiveram com as operações de derivativos cambiais. Com efeito, o Bank of International Settlements (BIS) estima que os prejuízos acumulados com essas operações alcançaram a cifra de US$ 25 bilhões, ou seja, quase 2% do PIB brasileiro (Valor, 08/06/2009). O aumento do risco de contra-parte decorrente dos prejuízos com os derivativos de câmbio levou os bancos brasileiros a reduzir as suas operações de crédito, o que atuou no sentido de ampliar de forma significativa o spread bancário. Esse "choque de crédito" causou a redução da produção industrial em função não tanto da queda da demanda por produtos manufaturados, mas da incapacidade das empresas de obter crédito no volume e nas condições necessárias para manter o nível de produção. A queda das exportações de manufaturados certamente agravou esse quadro, mas não foi o fator responsável pela contração da produção industrial verificada no final de Conforme apontam dados do Ipea Data, as exportações de manufaturados apresentaram queda de 20% entre setembro e dezembro de 2008 e outra de 37,5% entre dezembro de 2008 e fevereiro de Esses números mostram que a redução mais forte das exportações ocorreu depois da queda mais pronunciada da produção industrial. Dessa forma, as causas do forte recuo da produção industrial no último trimestre de 2008 são de natureza eminentemente financeira. Em segundo lugar, o saber convencional desconsidera o fato de que antes da ação da crise internacional sobre a economia brasileira já estava em curso um processo de deflação dos preços das commodities no mercado internacional, que atuaria no sentido de contra-arrestar a influência sobre os preços domésticos de uma desvalorização da taxa nominal de câmbio. Assim, os temores de que uma redução da taxa de juros no final de 2008 pudesse comprometer a obtenção da meta de inflação em 2009 eram, no melhor dos casos, exagerados. Nesse contexto, a desconsideração do caráter eminentemente financeiro (via crédito bancário) da crise que se abateu sobre a economia brasileira no final de 2008 pode ter levado o BC a fazer um julgamento equivocado a respeito da

4 necessidade de uma redução rápida e forte da taxa de juros. Com efeito, tal como argumentamos em artigo apresentado recentemente no VI Fórum de Economia de São Paulo, os modelos de previsão utilizados pela autoridade monetária brasileira, ao desconsiderarem o assim chamado "canal do crédito", podem ter induzido a diretoria do Copom não só a avaliar de maneira equivocada o timing e a magnitude do efeito de uma redução forte da taxa de juros sobre a produção industrial como ainda pode tê-los induzido a sobre-estimar o impacto da desvalorização do câmbio sobre os preços. Daqui se segue que o uso de modelos inadequados pode ter retardado o ciclo de redução da taxa básica de juros e levado o BC a optar por uma estratégia gradualista ao invés de um "tratamento de choque". O BC errou, e muito, na condução da política monetária nos primeiros meses da crise. A insistência em manter os juros inalterados permitiu a ocorrência de uma queda bastante forte na liquidez do sistema bancário brasileiro, reforçando assim o fenômeno da evaporação do crédito, que teve um papel decisivo na queda da produção industrial. A liberação parcial dos depósitos compulsórios em novembro e dezembro não foi eficaz em restaurar as reservas do sistema bancário face à contração da base monetária induzida pela venda não-esterilizada de reservas internacionais durante esse período. O BC tentou fazer o que era aritmeticamente impossível: restaurar as reservas do setor bancário como um todo num contexto no qual os juros eram mantidos inalterados e a autoridade monetária vendia dólares no mercado a vista (com e sem compromissos de recompra) para conter a elevação da taxa nominal de câmbio. Os efeitos dessa "trindade impossível" se mostraram devastadores: a liquidez do setor bancário foi reduzida, o crédito desapareceu e a produção industrial despencou. Se o BC tivesse feito uma redução forte da taxa de juros na reunião de outubro de 2008 do Copom, então é possível que os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira fossem significativamente menores. Mais concretamente, demonstramos no artigo anteriormente citado, que uma redução de 4 pontos percentuais da Selic em outubro poderia ter reduzido de forma bastante significativa a queda da produção industrial nos dez meses seguintes. Dessa forma, a política gradualista adotada pelo BC em janeiro de 2009 não só foi iniciada "muito tarde" como também não foi a resposta adequada à crise. A política mais adequada nesse contexto teria sido a realização de um "choque monetário" no qual o Banco Central realizasse, de uma vez só, parte relevante do ajuste necessário da taxa de juros. José Luis Oreiro é professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília e diretor da Associação Keynesiana Brasileira Miriam Leitão - O Globo - 01/12/2009 Os mensalões As cenas são demolidoras da confiança de qualquer pessoa na política. O país se espanta, depois de achar que nada mais o espantaria. Não que se pudesse dar crédito aos protestos éticos do Democratas, mas as imagens do que houve em Brasília superaram as piores expectativas. Agora, cada partido tem seu escândalo. Existe o mensalão do PT, o do PSDB e o do DEM. São todos, tristemente, iguais.

5 Tão iguais que já se pode dizer que existe uma tecnologia conhecida, causas identificadas e um caminho previsível da corrupção no Brasil. Se há um padrão, pode-se ter uma metodologia de combate ao crime. Nos três mensalões, o dinheiro ilegal foi alimentado por empresas fornecedoras do governo ou de estatais, o que foi possível pela falta de transparência nos contratos. O remédio é aumentar o acesso da sociedade às informações diz o jornalista Fabiano Angélico, diretor de projetos da Transparência Brasil. Claudio Weber Abramo, que falou ontem aqui no jornal na campanha São dois gritando, acha que uma das causas já identificadas dos desvios é o excesso de cargos em comissão e a ocupação da máquina pública por estes nomeados, ainda que não haja garantia de que isso não ocorra com funcionário de carreira. Fabiano Angélico explicou que no Brasil o número dos cargos que o presidente pode distribuir é desproporcional ao que acontece em outros países: O presidente americano nomeia pessoas para novecentos cargos. No Brasil, o presidente nomeia mais de sessenta mil cargos. É uma verdadeira usina de corrupção. Nos Estados Unidos, a pessoa indicada é investigada antes de ser confirmada. Na montagem do governo Obama houve casos de pessoas que não puderam ser nomeadas por dúvidas quanto ao seu passado. Na opinião de Fabiano Angélico, o país precisaria de mais ONGs especializadas em combate à corrupção, e a imprensa deveria tratar menos da briga política e mais de como combater o crime. O novo presidente do PT, José Eduardo Dutra, disse que em toda eleição há risco de caixa dois, porque isso é inerente ao modelo de financiamento eleitoral. O argumento é que se houver financiamento público exclusivo de campanha isso não acontecerá. O financiamento público exclusivo não garante nada. O que poderia ajudar seria o incentivo do governo às doações de pequena quantia por pessoas como existe na Costa Rica o que aumentaria a relação do eleitorado com o partido, e deixaria os partidos mais independentes em relação às empresas. Um erro que está ocorrendo é a naturalização do caixa dois, como se fosse um crime menor. Ao garantir que não houve pagamentos mensais à base para votar com o governo, José Eduardo Dutra disse ao Estado de S.Paulo : O fato da existência do caixa dois é notório e comprovado. O atual escândalo é mais corrosivo porque é possível ver as cenas, mas não há mensalão melhor ou menor. Todos são inaceitáveis. No federal, há 39 denunciados e ele movimentou pelo menos R$ 55 milhões. No do PSDB de Minas Gerais saíram das empresas públicas R$ 3,5 milhões e houve empréstimos de R$ 11 milhões feitos por Marcos Valério no Banco Rural para irrigar o sistema. O mesmo esquema com o mesmo personagem e no mesmo banco ocorreu no mensalão do governo Lula. No mensalão do DEM, o país está vendo uma quantidade industrial de cenas de corrupção através dos vídeos gravados por Durval Barbosa. No federal, houve também uma farta distribuição de recursos em quartos de hotéis ou na boca do caixa.

6 Estava tudo na contabilidade da diretora financeira do SMP&B ou nos registros do Banco Rural. Só não foi visto. No federal, o país foi informado do dinheiro na cueca do assessor do deputado estadual José Nobre Guimarães, irmão do então presidente do PT; mas agora, o país viu o dinheiro abarrotando os bolsos e as meias do presidente da Câmara Distrital, Leonardo Prudente. E a cueca voltou a aparecer como local-depósito, num vídeo exibido pelo site IG ontem à tarde. Essa trágica equalização confirma a impressão de que política é assim mesmo: de que isso é feito sistematicamente neste país. Diante da notícia do que aconteceu em Brasília, José Eduardo Dutra disse: Quem com mensalão fere, com mensalão será ferido. A frase é muito ruim. Sugere que ninguém denuncie ninguém? Ou sugere que isso é a vingança de quem foi ferido no primeiro mensalão? Outra causa da repetição dos mesmos crimes é a falta de punição. No Peru, o homem de confiança de Alberto Fujimori gravou a si mesmo distribuindo dinheiro para os deputados. O governo caiu, Fujimori fugiu, Vladimiro Montesinos está preso e agora Fujimori foi condenado. O Peru criou regras de mais transparência e um judiciário especializado em crimes de corrupção. Os escândalos vão, em camadas, se sobrepondo. Diante de um novo caso se esquece o anterior. Esta semana deve voltar ao Supremo o caso do senador Eduardo Azeredo, no mensalão mineiro, ofuscado pelo novo escândalo. Do mensalão federal nem se fala, e o PT faz esforço para apagá-lo da história. E os três são terrivelmente parecidos Celso Ming - O Estado de S.Paulo - 01/12/2009 ''Cuidado com a especulação'' Intermeadas por períodos de aparente desinteresse pelo tema, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tem feito advertências contra práticas especulativas no mercado. Na semana passada ele voltou ao assunto com a observação de que a moratória do emirado de Dubai, em consequência de seus negócios imobiliários mirabolantes, é o tipo de bolha que os investidores devem evitar. O Brasil não é Dubai e não há por aqui nenhum xeque das Arábias que venha se notabilizando por aventuras parecidas. Meirelles parece avisar que nem todas as perdas financeiras provocadas pela crise são conhecidas. Mas o investidor não tem muito o que fazer com a advertência. O ministro Guido Mantega já foi mais específico, mas às vezes mais confunde do que esclarece, porque suas ações são contraditórias. Para ele, as aplicações em Bolsa chegaram a um nível tal que exigem intervenção das autoridades. Foi a justificativa que deu quando do início da cobrança de um IOF de 2% sobre aplicações de estrangeiros em renda variável no Brasil. No entanto, Mantega não entendeu que devesse desestimular também as operações de brasileiros em Bolsa, talvez porque precisa atrair o dinheiro do aplicador para esse segmento.

7 O próprio governo brasileiro parece diretamente interessado num mercado de ações empinado e cheio de apetite. O Banco do Brasil anunciou emissões de cerca de R$ 10 bilhões em ADRs (American Depositary Receipts), o instrumento pelo qual as ações de empresas brasileiras podem ser negociadas na Bolsa de Nova York. E prepara alentada subscrição de ações em 2010 (veja o Confira). A Petrobrás também anunciou para até julho do ano que vem gigantesca subscrição de ações, a maior da história, provavelmente em torno de R$ 120 bilhões (US$ 70 bilhões), que, em princípio, só terá sucesso se o mercado de ações continuar sadio. No final dos anos 90, quando denunciou a "exuberância irracional dos mercados", o então presidente do banco central americano (Fed), Alan Greenspan, não chegou a tomar nenhuma providência para coibir essas ou outras práticas congêneres. Manteve os juros lá em baixo, próximos a 1% ao ano durante bom período e algo acima disso em períodos seguintes. Mas, pelo menos, ficou claro que se referia ao mercado de ações e não propriamente ao de imóveis ou de moedas. No momento, o presidente do Fed, Ben Bernanke, não se mostra particularmente preocupado com os mercados de risco. Pelo menos, não consta nenhuma advertência nessa direção. No entanto, alguns analistas não param de avisar que o lobo está preparando um ataque ao rebanho. O mais insistente é Nouriel Roubini, que se notabilizou por prever enorme destruição de riqueza com o estouro da bolha que viria em Ele só não aconteceu em plenitude porque houve a forte intervenção dos governos e dos bancos centrais. Roubini avisa que as condições para a formação das bolhas continuam aí. Não fica claro a que práticas especulativas Meirelles e, principalmente, Mantega se referem e quais pretendem desestimular. Deveria o investidor entender que subscrever ações do Banco do Brasil ou da Petrobrás será enorme risco? Confira Grande demanda - O vice-presidente do Banco do Brasil, Ivan de Souza Monteiro, informa que é surpreendente o interesse que a colocação de ADRs do Banco do Brasil está despertando em Nova York. Ele garante também que o Tesouro Nacional está fortemente empenhado na montagem do plano de subscrição de ações do Banco do Brasil, previsto para "Vamos ultrapassar as condições das ações do Itaú e do Bradesco hoje apresentadas em Nova York", avisa Souza Monteiro. O lançamento das ADRs do Banco do Brasil está previsto para amanhã Isto É Dinheiro Entrevista Delfim Netto, economista "Pré-sal é a agenda do século 20, não do 21" por Leonardo Attuch

8 Dias atrás, Delfim Netto sofreu um baque. Teve dores e colocou dois stents no coração. Aos 81 anos, foi a primeira vez que se internou num hospital. "Nunca fiz check-ups por uma razão simples: quem procura, acha", disse ele à DINHEIRO. O susto, ao menos, serviu para que Delfim renovasse seu sentido de urgência. O ex-ministro, que já foi o czar da economia brasileira, diz que o País deve buscar uma nova agenda de desenvolvimento e sustenta que ela não deve estar ancorada nas descobertas do pré-sal. "A idade da pedra não acabou por falta de pedra e a do petróleo não vai terminar por falta de petróleo", afirma o professor, que aposta numa revolução energética. Leia a seguir sua entrevista. DINHEIRO - Como o sr. avalia o momento atual da economia global? DELFIM NETTO - A crise está passando e eu acredito que os Estados Unidos sairão dela melhor do que entraram. Estou cada vez mais convencido de que o objetivo básico do presidente Barack Obama é reconquistar a autonomia energética americana. E isso abre uma nova agenda industrial. A agenda das inovações do século 21. O erro é imaginar que os Estados Unidos estão morrendo. Na verdade, eles estão renascendo. Basta olhar a dimensão do programa de energia deles. DINHEIRO - Se a era do petróleo pode chegar ao fim, o Brasil erra ao concentrar todas as suas fichas nas descobertas do pré-sal? DELFIM - Imagine como um governo teria que ser virtuoso para descobrir o pré-sal e ainda assim não bater tambor. Seria exigir demais. Se o papa descobrisse um poço dessa dimensão faria a mesma coisa. Mas o pré-sal não pode ser a concentração de todos os nossos investimentos. E por quê? Porque a agenda do futuro é a da transformação energética. E o fato é que uma boa parte da energia fóssil será substituída pela renovável. DINHEIRO - O sr. acredita que a origem da crise possa ter sido o rombo externo dos Estados Unidos, causado pelas importações maciças de petróleo? DELFIM - Na verdade, a causa maior foi o extraordinário desenvolvimento desses

9 instrumentos financeiros, sem que os bancos centrais soubessem o que estava acontecendo. Outro ponto foi o fato de os Estados Unidos terem virado lata de lixo do mundo, comprando tudo o que os outros produziam. Durante seis anos, eles fizeram um rombo externo de US$ 5,4 trilhões. E eles importam dez bilhões de barris de petróleo por ano. Isso foi um dos detonadores da crise. DINHEIRO - Se os Estados Unidos serão capazes de se renovar, a aposta num mundo pós-americano e multipolar deve ser desconsiderada? DELFIM - Na minha opinião, eles continuarão na liderança por muito tempo. Potência tem que ter três atributos: autonomia alimentar, autonomia energética e autonomia militar. Qual é o único país que pode reunir as três condições? Só eles. Veja a Rússia. Tem autonomia energética, uma autonomia militar meia-boca e não tem autossuficiência alimentar. A China está bem no campo militar e tem limitações nas outras duas áreas. A Europa não tem mais nada. DINHEIRO - E o Brasil? DELFIM - Apesar da limitação militar, o Brasil está na dianteira em duas frentes: a de alimentos e a de energia. E não deve perder isso por conta do pré-sal. A idade da pedra não acabou por falta de pedra. E a idade do petróleo não vai acabar por falta de petróleo. DINHEIRO - O sr. aposta na retomada do crescimento nos Estados Unidos? DELFIM - Aposto que, em dois anos, eles já estarão crescendo mais do que o resto do mundo. A possibilidade de inflação lá é mínima. E os que falam em risco de solvência do Tesouro americano podem comprar papel chinês, papel brasileiro, se quiserem. DINHEIRO - Mas não parece que a saída está sendo simples demais, como se bastasse imprimir dinheiro? DELFIM - O erro é imaginar que eles sairão da crise pelo estímulo monetário e fiscal. O que fará os Estados Unidos sair do buraco é a mudança da agenda industrial, que passa pelo campo energético. Crescimento é inovação mais crédito. E isso acontecerá predominantemente lá, ajudando a resolver o problema fiscal americano. Com energia limpa, eles poderão reduzir a conta da importação de petróleo e também a conta militar. DINHEIRO - O sr. então é um entusiasta do etanol? DELFIM - Cada vez mais. De acordo com o Scientific National Bureau, só as florestas americanas, se fossem adaptadas para produzir etanol a partir de tecnologias de vanguarda, poderiam responder por 65% de todo o combustível líquido dos Estados

10 Unidos. Eles vão transformar carvão em combustível líquido, sem emitir gás carbônico. Até os árabes estão comprando terras no Brasil para produzir etanol. Fora isso, o carro elétrico está cada vez mais próximo. DINHEIRO - Como o Brasil deve se posicionar? DELFIM - Se nós usarmos só o pré-sal, vamos ficar no século 20. Se formos capazes de compreender a nova agenda, entraremos no século 21 com os quatro motores ligados. DINHEIRO - O pré-sal, na sua opinião, estaria reforçando tendências estatizantes deste governo? DELFIM - Estado que presta é o Estado indutor. Estado produtor é uma porcaria. Ponto. DINHEIRO - E como fica então o novo modelo do petróleo? DELFIM - Não tenho a menor dúvida de que seria possível fazer tudo o que nós queremos, que é reforçar o interesse nacional e o papel da empresa brasileira, com a legislação em vigor. A mudança é política, mas eu digo isso sem demonizar a política. O dever de todo governo, que acredita estar cumprindo um bom papel, é continuar sendo governo. Mas o fato é que, quando a lei for aprovada, todas as empresas do mundo virão para cá, porque o Brasil tem o mais importante, que é o respeito aos contratos. DINHEIRO - Se o Brasil está resolvendo problemas de energia, contas externas e inflação, o sr. vislumbra um longo ciclo de crescimento? DELFIM - Vejo o Brasil crescendo de 5% a 7% nos próximos 20 anos. O Brasil tem a nova agenda. Só não pode jogá-la fora porque descobriu a agenda velha. O Brasil tem que liderar o futuro. Veja o caso do etanol. Hoje, os americanos se protegem com uma tarifa. Daqui a dez anos, se não fizermos nada, nós nos protegeremos deles. DINHEIRO - Como o sr. avalia a disputa eleitoral de 2010? DELFIM - Nós vamos fazer a eleição crescendo 4,5%. Essa é uma garantia de que os vendedores de óleo de cobra terão pouco sucesso. Temos duas ou três possibilidades, mas nenhuma delas vai alterar a nossa dinâmica estrutural de crescimento. DINHEIRO - E o fator Marina? DELFIM - Vejo como um fator positivo. Mas, no mundo, não há produção de PIB sem produção de gás carbônico, assim como não há produção de carne, sem produção de

11 couro. O fato é que o pobre gosta de crescimento. Ele não tem uma consciência muito clara do custo ambiental do que se produz. Ele quer o bem-estar material. DINHEIRO - O risco de uma recaída internacional não comprometeria o ciclo de crescimento brasileiro? DELFIM - O Brasil tem coisas extraordinárias. Se a gente pudesse pegar exemplos de quatro grandes empresas internacionais e quatro grandes empresas brasileiras, as reações à crise foram muito diferentes. Quem estava nos Estados Unidos, chamou a rapaziada e disse: Vocês vão para o seguro-desemprego e passem bem. No Brasil, as pessoas sentaram à mesa e começaram a dialogar. DINHEIRO - Que riscos então o sr. enxerga no horizonte? DELFIM - Não existem. O Brasil é, de longe, o melhor dos BRICs. Nós temos uma vantagem biológica, que é a miscigenação. O que é a evolução? A mudança do meio ambiente e a capacidade do indivíduo de se adaptar. A nossa adaptabilidade é a maior do mundo. Somos o quinto maior país do mundo em território, o quinto em população e o nono em PIB absoluto. E temos um mercado interno que provou ser sustentável. Temos ainda um sistema institucional estabilizado. E o Brasil é o único dos BRICs que tem um Supremo Tribunal Federal que garante as liberdades individuais - e muitas vezes é incompreendido. DINHEIRO - O que o sr. acha dos empresários e juristas que falam em Estado policial? DELFIM - O que houve no Brasil foi uma sociedade secreta, de inspiração robespierriana, que saiu desmoralizada na sua tentativa de implantar um Estado policial no Brasil. Eles perderam essa batalha. E o presidente Gilmar Mendes, bem como os outros ministros do STF, tiveram um papel fundamental. Se eles tivessem sido covardes, o Brasil estaria frito. DINHEIRO - O sr. não teme mesmo a onda estatizante? DELFIM - Isso é terrorismo. Nos EUA, o que houve foi o fracasso do Estado. Depois, o mesmo Estado veio em socorro de si mesmo. Eu repito: Estado indutor é necessário e Estado produtor é uma porcaria. Se o Brasil decidir caminhar na linha do Estado produtor, ele vai paralisar o crescimento lá na frente. Mas essa é a vantagem do sufrágio universal. Se isso ficar visível, as coisas mudarão. Existem dois sistemas: o mercado e a urna. O eleitor é a intersecção dos dois. DINHEIRO - Quem critica então faz terrorismo?

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