UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBARLÂNDIA UFU INSTITUTO DE GEOGRAFIA IG LABORATÓRIO DE GEOGRAFIA AGRÁRIA LAGEA

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1 1 AS TRANSFORMAÇÕES TERRITORIAIS E SEUS AGENTES COMO ELEMENTOS GERADORES DE MOBILIDADE POPULACIONAL: um olhar sobre a reestruturação fundiária no bairro Vila Nova em Porto Alegre/RS 1 Ana Stumpf Mitchell Daniel Mallmann Vallerius Éverton de Moraes Kozenieski Felipe Velho Azevedo Costa Fernando Dreissig de Moraes Heitor Alexandre Brandão Júnior Judeci da Silva Karen Aline Heberle Matheus Haizenreder Schaf Neudy Alexandro Demichei Rafael Zilio Fernandes Renata Ferreira da Silveira Rodrigo Bennett Rosa Maria Vieira Medeiros 2 Stefan Szczesny Rout Tiago Bassani Rech Tiago Oliveira Nicoloso Resumo O bairro Vila Nova, localizado em Porto Alegre/RS, vem sofrendo mudanças territoriais nas últimas décadas, tendo o capital, o simbólico e o Estado como agentes transformadores desse espaço. A estas mudanças, estão associados os fluxos de mobilidade populacional, o que provocou uma diminuição no número de propriedades onde se desenvolvem atividades agrícolas, bem como nas suas áreas. O objetivo dessa pesquisa é identificar as 1 Pesquisa em andamento realizada pelo grupo do Programa de Educação Tutorial da Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PET-GEA/UFRGS). 2 Professora Tutora do grupo PET-GEA/UFRGS.

2 2 transformações territoriais ocorridas neste bairro a partir de 1970, analisando o papel dos agentes supracitados considerados como elementos geradores de mobilidade populacional. Também está sendo analisado o reflexo do crescimento da cidade na dinâmica social, política e econômica da área de estudo; o impacto do PDDUA 3 ; o período de instalação das principais infraestruturas nos âmbitos público e privado. Para tanto estão sendo mapeadas as mudanças fundiárias e funcionais ocorridas no bairro utilizando-se fotografias aéreas, documentos administrativos da prefeitura, censos demográficos. Foram aplicadas entrevistas qualitativas junto aos antigos agricultores do bairro que ainda resistem às transformações buscando assim compreender a razão de sua permanência e a nova mobilidade populacional que se instala no bairro. Desta forma será possível a construção de uma tipologia específica relacionada à mobilidade populacional. Palavras-Chave: mobilidade espacial, transformações territoriais, identidade. 1. Introdução No decorrer das últimas décadas, a dinâmica dos grandes centros urbanos brasileiros tem seguido às tendências de concentração populacional. Com isso, as estruturas preexistentes nas médias e grandes cidades tiveram que se adaptar a essa tendência forçando um processo de refuncionalização dos espaços públicos e privados; de valorização de áreas outrora desvalorizadas; e de reorganização/reavaliação das infraestruturas disponíveis. Dessa forma, os instrumentos de planejamento e gestão urbanos também tiveram de passar por uma atualização. 3 Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental

3 3 O município de Porto Alegre não é exceção. As transformações territoriais ocorridas no Bairro Vila Nova trazem consigo os impactos da urbanização pela ação de agentes como o poder estatal, a sociedade civil, o capital, etc. sobre um espaço historicamente destinado à produção agrícola. Disto surgem contradições, não apenas de uma nova configuração da paisagem e da discussão sobre a tendência de supressão dos espaços rurais nas metrópoles, mas também do modo de vida e das relações sociais, então estabelecidas. Clarear essas transformações, distinguindo seus agentes condicionantes, torna-se então tarefa necessária para a compreensão das mudanças ocorridas nas últimas décadas dentro das grandes metrópoles brasileiras, enfocando o caráter subjetivo, próprio a cada indivíduo. O caso do bairro Vila Nova, na Zona Sul da capital gaúcha, exemplifica estes fatos, assim, merecendo uma análise mais detalhada sobre o papel do valor simbólico, do valor de mercado e do poder público como elementos condicionantes de mobilidade populacional associada a um novo padrão de ocupação e uso da terra a partir de Década essa a qual encontramos suporte material para realizarmos nossa pesquisa, além de ser um período significativo para o processo de urbanização brasileiro. 2. Procedimentos metodológicos Através da utilização e interpretação temporal de fotografias aéreas (posteriormente vetorizadas, que resultaram na elaboração de um mapa temático) e de documentos administrativos da prefeitura, bem

4 4 como censos demográficos, perceberemos a evolução urbana do bairro Vila Nova, comparando os perfis de uso da terra, na área de estudo, no período Inicialmente realizamos entrevistas com os expositores da Festa do Pêssego da Vila Nova, também com lideranças do bairro, moradores e com os órgãos de fomento e desenvolvimento da agricultura no mesmo. Procuraremos, ainda, detectar as conseqüências da implantação do Plano Diretor municipal com a extinção das áreas rurais de Porto Alegre, no cotidiano do bairro Vila Nova. Como produto final, pretendemos identificar e mapear as tipologias de mobilidade populacional ocorridas na área de estudo. 3. Porto Alegre e a Vila Nova Porto Alegre começou a ser povoada no século XVII e, em 1772, possuía uma população de 1500 habitantes. A partir desse momento, percebe-se um aumento de população e conseqüentemente de importância da atual capital do Rio Grande do Sul. Ao longo da evolução - cujos principais agentes transformadores são fatores demográficos, econômicos, socioculturais e locacionais, além da ação do Estado - ocorre uma grande diversificação de funções econômicas e políticas do local. O crescimento, decorrente dos fatores já citados, ocasionou uma inevitável ampliação do centro urbano, ou seja, uma propagação em direção à periferia, já que, preferencialmente essas áreas são pouco populosas e desvalorizadas em comparação ao centro urbano; fenômeno muito comum, inclusive, em outros países subdesenvolvidos. Somando-se a isso, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA) prevê um crescimento dos bairros mais distantes

5 5 do centro, objetivando descentralizar, principalmente, a função comercial e populacional. Segundo De Souza e Müller (1997), a evolução urbana de Porto Alegre pode ser dividida em cinco períodos: o primeiro, comportando o período de 1680 a 1772, corresponde ao início da ocupação do território e a formação do povoado. Concomitantemente, há o surgimento do porto. O segundo ( ) é marcado pelo aumento da importância do porto devido ao escoamento do trigo plantado pelos colonos. No terceiro ( ), ocorre a imigração de colonos alemães e italianos e a afirmação de Porto Alegre na condição de centro comercial, administrativo e militar. O quarto período ( ) é caracterizado pelo desenvolvimento industrial, ocasionando o crescimento do comércio. No quinto período (1945 até hoje), observa-se, entre muitos fenômenos, o crescimento da região metropolitana com o aumento de populações de baixa renda residentes em subabitações. A história do bairro Vila Nova 4 começa a partir da colônia particular formada por famílias de imigrantes italianos, chamada inicialmente de Vila Nova D Itália. As primeiras famílias a se estabeleceram ali foram Passuelo e Dallariva, por volta de 1894, seguidos dos Monteggia, em A esses moradores seguiram-se outros que foram adquirindo novas glebas de terra. As relações entre os moradores da Vila Nova eram típicas de colônias, marcadas por uma rede de reciprocidade. Baseavam-se em reuniões familiares e comemorações religiosas. Aspectos que refletem o bucolismo e o grau de isolamento em relação ao centro de Porto Alegre, nesse momento histórico. A população do bairro era composta 4 Vide figura 1.

6 6 por poucas famílias que, com o passar do tempo, dividiram suas terras com seus descendentes. O bairro se dedicava, basicamente, à plantação de videiras e de árvores frutíferas (pêssegos, parreiras e ameixas). Sua produção se destinava principalmente ao mercado gaúcho chegando a atingir os mercados de São Paulo e Rio de Janeiro. As primeiras obras de caráter coletivo do bairro datam de 1897, com a construção da Escola Elementar Villanova 5, ainda hoje em funcionamento. Podemos destacar também a construção da capela 6, em 1906, que acabaria por ser o ponto de encontro entre os colonos; e a criação da Cooperativa Agrícola em 1911, que tinha como finalidade a venda dos vinhos ali produzidos. Em 1918 foi realizada pela primeira vez a Festa da Uva de Porto Alegre no bairro Vila Nova, que contou com a presença de autoridades, entre elas, o Real Embaixador D Itália. A partir de então a festa começou a ser realizada anualmente com a participação de um grande número de moradores de Porto Alegre. Os produtos agrícolas da Vila Nova passam a se destacar na preferência da população portoalegrense devido a suas qualidades. Entretanto, com a diminuição das áreas destinadas à plantação de uvas e conseqüentemente da produção, essa festa foi substituída pela Festa do Pêssego. A razão desta substituição foi a produção de pêssego ter superado a produção de uvas. A Festa do Pêssego tradicionalmente continua sendo realizada no bairro. As dificuldades com o transporte dos produtos agrícolas eram um empecilho para o escoamento da produção. Em 1912, o poder público 5 Hoje com o nome de Escola Estadual de Ensino Médio Alberto Torres. 6 Hoje com o nome de Igreja São José da Vila Nova.

7 7 se sensibiliza com as reivindicações dos produtores e cria uma estrada para facilitar o deslocamento desses produtos, ligando a Vila Nova ao bairro Cavalhada. Em 1926, foi inaugurada a linha de ferro que ligava a Vila Nova ao centro da cidade e que foi extinta em Para que essa obra fosse realizada foi necessário que a Vila Nova passasse a ser uma zona suburbana de Porto Alegre. Essa necessidade da melhoria dos meios para o transporte dos produtos agrícola trouxe, como conseqüência, outras inovações. Começam a surgir armazéns, parques, restaurantes - novidades na paisagem do bairro, juntamente com a valorização das propriedades próximas as vias de acesso. A partir da década de 50, uma nova realidade paira sobre a Vila Nova. Começa a ficar evidente a redução da produção agrícola; o declínio econômico de algumas chácaras; o loteamento de muitas delas; a migração de agricultores; além da chegada de novos moradores com finalidades distintas da agricultura. Em suma, começam a ficar perceptíveis as transformações no bairro, principalmente a perda das características tipicamente coloniais da Vila Nova.

8 8 Figura 1 - Localização do Bairro Vila Nova e principais ruas 4. Análise temporal das fotografias aéreas A análise das fotografias aéreas dos anos 1972, 1991 e 2002 permitiu verificar as transformações no uso da terra no bairro, destacando uma significativa redução da área agrícola e uma expansão da área residencial. Figura 2 Mudanças no uso do solo Ainda podemos observar na imagem de 1972 a presença das principais características que originalmente compunham a paisagem do bairro decorrentes do predomínio da agricultura. A partir de então, as mudanças foram acontecendo e as áreas residenciais passaram a

9 9 predominar em relação às áreas agrícolas. É um processo de reconfiguração da paisagem que, no entanto, ainda mantém algumas das características originais que até hoje são referências para a comunidade tais como os produtos agrícolas e os cenários bucólicos do bairro. As alterações das características do bairro, conforme as primeiras entrevistas, provocaram uma progressiva mudança no perfil dos moradores, bem como, nos seus hábitos e nos seus costumes. Apesar de ter havido uma redução na área agrícola, ainda há remanescentes da mesma. Na figura 2, a ocupação referente ao ano de 1991 mostra que houve uma intensa ocupação de áreas outrora cultivadas, nos remetendo a uma tendência de crescente substituição dos espaços rurais para os próximos anos. Todavia o recorte entre o período indica uma relativa estagnação dessa dinâmica, observada através das fotos onde é identificada a permanência de áreas agrícolas em contraposição à tendência presente de urbanização. Nos pontos onde se identificou visualmente a manutenção de atividades agrícolas, serão feitas as entrevistas de caráter qualitativo, posteriormente. Esta atividade proporcionará a qualificação da pesquisa. 5. Algumas transformações já observadas no bairro O espaço geográfico é fruto de inúmeras relações que permeiam o simbólico, o poder do capital e o do Estado. Claude Raffestin já afirmava que (...) A produção de um espaço, o território nacional, espaço físico, balizado, modificado, transformado pelas redes, circuitos e fluxos que aí se instalam: rodovias, canais, estradas de ferro, circuitos comerciais e bancários,

10 10 auto-estradas e rotas aéreas etc. O território, nessa perspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por conseqüência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a prisão original, o território é a prisão quer os homens constroem para si (RAFFESTIN, 1993:144). O caso do bairro Vila Nova não foge desta regra. Ao longo de sua história, foi percebida a instalação dos serviços e meios descritos pelo autor. Nas três últimas décadas, com o avanço da área residencial sobre a agrícola, estes serviços foram expandidos. O comércio é um exemplo de expansão visando atender à demanda crescente, conforme dados coletados da Secretaria Municipal da Indústria e do Comércio de Porto Alegre. Este aumento da demanda por comércio, escolas, saúde, deveu-se à valorização que o bairro passou a ter pelo avanço da área urbana em Porto Alegre, observada no período. Como o bairro dispunha de áreas livres, tornou-se alvo de loteamentos, muitos dos quais irregulares, e de assentamentos urbanos. Como conseqüência direta observou-se, através das fotografias aéreas, uma expressiva redução da área agrícola na década de Figura 3 Aspecto atual do bairro

11 11 Até o momento, observamos que o poder do Estado é o agente fundamental para estas modificações ocorridas no bairro. De acordo com nossos levantamentos, uma nova legislação tributária foi criada para atender as demandas dos residentes do bairro, tanto aqueles ligados à agricultura como os que desenvolvem atividades não agrícolas. A LC 396/96 7 estabeleceu alíquotas para os imóveis rurais, diferentemente da LC 07/73 que não os citava ainda. Até esta data, os imóveis rurais pagavam ITR 8 (um imposto que não era totalmente destinado à prefeitura). Em virtude da Lei Orgânica 434/99, foi criada a LC 482/02, que concedeu isenção de pagamento de IPTU 9 para as propriedades que comprovassem exploração econômica primária em áreas iguais ou inferiores a trinta hectares. Para as propriedades com área superior, o pagamento do IPTU foi atrelado à alíquota do ITR. O PDDUA foi o regulador daquelas áreas, que antes possuíam outras funções além da agrária, como loteamentos irregulares, pois determinou a extinção da área rural de Porto Alegre. Com esta resolução, não é possível atrelar o pagamento de ITR, pois nenhuma área é rural e esta LC apenas foi sancionada por pressão dos moradores do bairro. Cabe ressaltar que as isenções, remissões e benefícios adquiridos pelos agricultores foram frutos de reivindicações junto à Prefeitura. Portanto, o poder do Estado procura reorganizar os espaços, a fim de proporcionar sustentação ao mesmo. Raffesttin (1991) já dizia que (...) do Estado ao indivíduo, passando por todas as organizações pequenas ou grandes, encontram-se atores 7 Lei Complementar 8 Imposto Territorial Rural 9 Imposto Predial Territorial Urbano

12 12 sintagmáticos que produzem o território. De fato, o Estado está sempre organizando o território nacional por intermédio de novos recortes, de novas implantações e de novas ligações (p. 152). O simbólico aparece significativamente nas entrevistas realizadas com os expositores da Festa do Pêssego. O referido evento adquiriu um caráter de confraternização entre antigos moradores, com lembranças, retomada dos laços identitários e dos espaços vividos pelos moradores mais antigos do bairro. Para eles, que estão vivenciando as transformações do bairro, a mudança nas dinâmicas sociais é fruto da presença de novos moradores que não possuem a mesma identificação com o local. Por conta disso, há um conflito nas relações sociais entre os antigos e os novos residentes. A manutenção de áreas agrícolas justifica-se, em parte, pelo caráter simbólico inerente a tal atividade. Castells (2001) afirmava: As comunidades locais, constituídas por meio da ação memória coletiva, constituem fontes específicas de identidades. Essas identidades, no entanto, consistem em reações defensivas contra as condições impostas pela desordem global e pelas transformações, incontroláveis e em ritmo acelerado. Elas constroem abrigos, mas não paraísos.(p. 84). Esses fatores interagem entre si e conseqüentemente com o capital, forçando a reorganização do bairro frente a estas modificações. O poder do capital influencia o Estado, tanto por parte dos agricultores que reivindicam melhores condições de plantio e de vida, quanto por parte dos setores que estão vinculados a esta nova espacialidade, uma vez que o bairro passou a ter mais quatro loteamentos a partir de 1998.

13 13 A análise das relações existentes entre estes condicionantes (capital, estado e valor simbólico) se dará no próximo momento desta pesquisa, uma vez que o grupo já realizou parte da entrevistas onde estas relações se expressam. Cabe ressaltar a pretensão de desnudar os fatores que respondem pela desaceleração do fenômeno de redução do espaço rural na área pesquisada. 6. Referências Bibliográficas CASTELLS, Manuel. O Poder da identidade. 3ª ed. São Paulo: Paz e Terra, p. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. 2ª ed. Porto Alegre: Ed. Da Universidade/UFRGS, P MALLMANN, Ana Maria Monteggia. Vila Nova: Depoimentos. Porto Alegre: SMIC, MENEGAT, Rualdo e outros. Atlas ambiental de Porto Alegre. 2. ed. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1999., 228 p RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, p. SANTOS, Milton. Espaço e Método. São Paulo: Nobel, p. SOUZA, Célia Ferraz de; MÜLLER, Dóris Maria. Porto Alegre e sua Evolução Urbana. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, p.

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