CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL JORNALISMO JOSÉ ANTINO DA SILVA FILHO DESENVOLVIMENTO DE SITE JORNALÍSTICO SOBRE A RESERVA EXTRATIVISTA DO BATOQUE

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1 CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL JORNALISMO JOSÉ ANTINO DA SILVA FILHO DESENVOLVIMENTO DE SITE JORNALÍSTICO SOBRE A RESERVA EXTRATIVISTA DO BATOQUE FORTALEZA 2011

2 JOSÉ ANTINO DA SILVA FILHO DESENVOLVIMENTO DE SITE JORNALÍSTICO SOBRE A RESERVA EXTRATIVISTA DO BATOQUE Projeto apresentado à coordenação do curso de Comunicação Social Jornalismo, como exigência final para conclusão do curso. Orientador: Prof. Ms. Dilson Alexandre Mendonça Bruno FORTALEZA 2011

3 Folha de aprovação

4 RESUMO Este trabalho é um relatório teórico e técnico sobre o desenvolvimento do site jornalístico sobre a Reserva Extrativista do Batoque (www.praiadobatoque.com.br). O presente estudo tem o intuito apresentar todas as etapas percorridas pelo pesquisador na elaboração de um conteúdo multimídia a respeito da história e cotidiano de uma comunidade marcada pela luta contra grandes grupos empresariais e o turismo de massa no litoral cearense. Entendendo que o desenvolvimento de um produto jornalístico web forjado na academia deve levar em consideração aspectos teóricos e práticos, referenciais teóricos são colocados em confronto com as experiências práticas vividas ao logo da criação do produto. Este relatório dialoga sobre os processos de elaboração e execução da pauta, das entrevistas, do layout, dos textos e dos mapas do site. Assim, o produto é o resultado do embate direto entre o pensar e o fazer jornalístico. Palavras-chave: Site. Jornalismo. Reserva Extrativista do Batoque. Multimídia. Turismo.

5 SUMÁRIO INTRODUÇÃO REFERÊNCIAL TEÓRICO METODOLOGIA DE PESQUISA O SITE Pauta Entrevistas Layout Texto Mapas CONCLUSÃO REFERÊNCIAS... 27

6 5 INTRODUÇÃO Apoiar o potencial turístico de uma área litorânea somente em seus atrativos naturais é uma prática comum. Palavras como praia, sol e mar servem de incentivos para o turismo de massa, o qual é [...] promovido pela mídia, tecnificado e colocado nas prateleiras do mercado da informática, mobilizando grandes fluxos de visitantes, para núcleos receptores especiais. (CORIOLANO, 2003, p. 42). Esse tipo de apelo tem grande força entre as classes mais abastardas, que possuem tempo e renda para financiar os gastos com deslocamentos e hospedagem. O turismo é uma forma de lazer praticada pela elite. É uma modalidade de entretenimento que exige viagem, deslocamento de pessoas, consumo do tempo livre e o uso de um equipamento por mínimo que seja como transporte e hotéis. (CORIOLANO, 2003, p. 115). No nordeste brasileiro, mais especificamente no Ceará, a exploração do turismo de massa vem gerando danos para pequenas comunidades que habitam os pontos turísticos. Com a transformação de comunidades pesqueiras em importantes polos turísticos do Ceará, os moradores perdem espaço para a implantação de um turismo que os exclui dos ganhos e benefícios trazidos pelos visitantes. Além de não ganhar, a população ainda perde as suas raízes culturais e, até mesmo, a posse da terra para a implantação de empreendimentos focados no turismo de massa. Estes megaprojetos dirigem a atual estruturação territorial ocupando grandes porções do solo dessas vilas. Instrumentos jurídicos estão nas mãos de proprietários estrangeiros, tendo estes, grandes facilidades jurídicas para adquirir imóveis que se destinam a construções de hotéis, condomínios privados, restaurantes, discotecas, bares, centros comerciais, centros de convenções, flats sendo que muitos deles situam-se em zonas proibidas do litoral. (CORIOLANO, 2008, p. 12) Mesmo diante do processo de exclusão, algumas comunidades do litoral cearense buscam se inserir na atividade turística por meio da prestação de pequenos serviços aos viajantes como, por exemplo, o aluguel de quartos nos domicílios, restaurantes e pousadas comunitárias, venda de artesanato e como guias de passeios locais. O turismo comunitário afasta-se do turismo de massa ao tentar dar prioridade à conservação da cultura e do meio ambiente local. Ele é [...] a alternativa encontrada pelas comunidades que buscam desenvolver o turismo, criando oportunidades de trabalho, complementando a renda dos moradores. As ações são tentativas de constituir uma política

7 6 comunitária e social, cujo objetivo é a permanência e sobrevivência no espaço litorâneo. (MENDES; CORIOLANO, 2006, p. 1). Para apoiar comunidades que desejam diminuir os impactos negativos do turismo de massa no Ceará, foi criada a Rede Tucum rede cearense de turismo comunitário. Trata-se de um projeto tem como objetivo desenvolver o turismo local, garantindo às populações tradicionais a permanência em seu território. Isso possibilita a continuidade das atividades econômicas tradicionais, em particular a pesca e a agricultura. Atualmente, a Rede Tucum auxilia doze localidades cearenses na promoção da sustentabilidade turística, que tem três fatores como base: O objetivo da sustentabilidade ecológica é assegurar que o desenvolvimento seja compatível com a manutenção do processo ecológico. A sustentabilidade sociocultural deve assegurar que o desenvolvimento seja compatível com a cultura e valores da comunidade e por fim a sustentabilidade econômica busque um desenvolvimento economicamente eficiente com recursos geridos de maneira que possam manter gerações futuras. (ROSE, 2002, p. 45) Entre as comunidades que integram a Rede Tucum, está a da praia do Batoque, que foi a primeira Reserva Extrativista (Resex) do Ceará. O local, localizado a 52 km de Fortaleza, tornou-se Unidade de Conservação em 5 de junho de 2003, após décadas de lutas contra ataques de grileiros (nome dado para quem falsifica documentos e de forma ilegal tornar-se dono por direito de terras devolutas ou de terceiros), que tentaram tomar posse da terra, pertencente aos pescadores e agricultores da região. Os primeiros ataques proferidos por Antônio Sales foram a proibição da venda de coco, plantação de vazante, proibição de cerca e finalmente, o controle rígido de construção de casas para os filhos dos nativos. A comunidade, por muito tempo, foi vigiada por capangas armados e muito violentos que ameaçavam de morte qualquer pessoa ou instituição que viesse tentar conscientizar os nativos das injustiças implantadas ali. Diante disso, outros especuladores apareceram se dizendo donos das terras, inclusive o Sr. Miguel Gazineu que apresentou até escritura. Mais tarde apareceu o milionário Ivens Dias Branco, se intitulando, também, dono das terras. (ORGANIZAÇÃO COMUNITÁRIALUTA PELA TERRA-CIDADANIA E MEIO AMBIENTE, 2003, s/pág. 1 ) Hoje, cerca de 320 famílias vivem na Reserva Extrativista (Resex) do Batoque, que, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis 1 Por se tratar de um documento disponível na internet não consta página. Sempre que isso ocorrer, colocaremos a expressão s/pág. daqui em diante.

8 7 (IBAMA), abrange uma área de 617 hectares e tem na pesca a sua principal fonte de renda. Desde 2007, a Resex é gerenciada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que administra, fiscaliza e auxilia na implementação de projetos para o desenvolvimento local junto aos moradores. A história da comunidade do Batoque pela posse da terra é passada oralmente para as novas gerações de pescadores e está registrada em estudos realizados pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Antes da criação da reserva, foi publicado um site sobre a praia. No entanto, ele foi desativado e o conteúdo só pode ser acessado por meio de buscas com ferramentas especiais. Por isso, é importante o desenvolvimento de um projeto que registre a história do local de uma maneira mais ampla e acessível. O objetivo deste trabalho é desenvolver e publicar um conteúdo multimídia para web sobre a história, costumes e cotidiano da comunidade que habita a Reserva Extrativista do Batoque. O repórter atuou analisando a rotina dos moradores; entrevistando as lideranças e estudiosos; registrando com imagens, texto, áudio e vídeo; editando o material; e publicando o resultado em um site da internet. O site terá como foco os internautas interessados em visitar a praia do Batoque. A luta da comunidade da praia do Batoque pela posse da terra e pela conservação de suas raízes culturais é um exemplo de mobilização em torno de um bem comum. No entanto, a falta de reportagens ou registros sobre essa história pode fazer com que o esforço de décadas seja esquecido pelas próximas gerações. Por suas características multimídias, a web demonstra ser a melhor plataforma para a publicação de um conteúdo que deve registrar em texto, imagens e áudio a história e o cotidiano dos moradores daquela região, levando em consideração aspectos humanos, econômicos e sociais. A Reserva Extrativista do Batoque não possui nenhum site ou qualquer outra forma de comunicação via internet. Como a comunidade desenvolve um trabalho de turismo sustentável, ter uma visibilidade na rede mundial de computadores pode ajudar na divulgação do estilo de vida local e atrair ainda mais visitantes interessados em conhecer a reserva dentro da proposta de turismo comunitário. Com os espaços para interação com os usuários que devem ser desenvolvidos no site, o conteúdo gerado poderá ser comentado, compartilhado e estendido nas caixas para comentários. Dessa forma, além de acessar as informações, os leitores poderão contribuir com

9 8 a divulgação e aumento do que será postado, criando um centro online difusor de conteúdo sobre a praia do Batoque. No capítulo a seguir, apresentamos uma pesquisa bibliográfica que serviu de base para o desenvolvimento das ações do pesquisador.

10 9 1 REFERÊNCIAL TEÓRICO De acordo com Lévy (1999), novas tecnologias inseridas no cotidiano social implicam em mudanças significativas no meio. As transformações não partem da tecnologia em si, pois elas não agem sobre o homem de maneira autônoma. As alterações da práxis social partem dos valores que o próprio homem agrega à tecnologia. [...] a técnica é um ângulo de análise dos sistemas sócio-técnicos globais, um ponto de vista que enfatiza a parte material e artificial dos fenômenos humanos, e não uma entidade real, que existiria independentemente do resto, que teria efeitos distintos e agiria por vontade própria. (LÉVY, 1999, p. 22). A técnica descrita por Lévy (1999) não veio de outros planetas ou surgiu sozinha do frio mundo das máquinas. Ela não foi dada ao homem pronta e com um fim em si mesmo. De acordo com o autor as [...] técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante seu uso pelos homens. (p. 21). E é o uso das ferramentas que compõe a humanidade enquanto tal. Ao lançarmos nosso olhar sobre a história da comunicação encontraremos diversos pontos de convergência entre o fazer jornalístico e o desenvolvimento tecnológico. A invenção revolucionária da prensa e dos tipos móveis por Gutenberg puderam dar vazão ao rio de informações que inundavam a Europa nos séculos XVI e XVII. A procura de livros, nas cortes do Renascimento e nas universidades, atingiu proporções tais que os copistas não tinham condições para atender todas as solicitações. (MELO, 2003, p. 41). Com a prensa, a materialização de pensamentos em letras e páginas tornou-se mais rápido e possibilitou a publicação de material com temas mais efêmeros. De acordo com Steingberg (1963, p ), estava nascendo nesse momento a [...] moderna publicidade impressa, que se baseia na produção massiva de material idêntico e na livre combinação de tipos, em uma quase infinita variedade de composição. No século XIX, o desenvolvimento industrial agrega aperfeiçoamentos para a já ultrapassada invenção de Gutenberg. Os parques gráficos ajudam na massificação dos jornais ao permitir a produção em larga escala. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de outra ferramenta influenciará diretamente em como os jornais serão escritos: o telégrafo. Para Furtado (2005, p. 73), [...] os jornais rapidamente perceberam a preciosidade dessa nova fonte. No momento em que se realiza a

11 10 ligação entre cidades, países e continentes amplia-se consideravelmente o campo dos conhecimentos dos fatos, das notícias e dos acontecimentos. Para tomar posse das novas possibilidades advindas do telégrafo, os jornais tiveram que se adaptar às limitações técnicas da ferramenta. Os cabos telegráficos espalhados pelo mundo não eram completamente confiáveis, por isso as informações mais relevantes eram escritas logo no primeiro parágrafo do texto. Assim nasceu o lead. Atualmente, vivemos outra mudança, talvez a mais profunda delas. A internet nos brinda com um mundo de novas possibilidades de publicação e apuração de informações. No mundo, além das prensas, o texto é uma das maneiras de informar e não mais a única. Sendo assim, é necessário ter em mãos as novas ferramentas oferecidas pela web. A internet é um produto tecnológico da nossa sociedade que implicou em significativas mudanças culturais. A evolução da rede foi além dos nichos tecnológicos e dos muros acadêmicos. A internet provocou modificações profundas em áreas como produção, educação, política e comunicação. O seu toque é tão profundo que Castells (2003, p. 15) compara sua importância com a da própria eletricidade: Se a tecnologia da informação é o equivalente histórico do que foi a eletricidade na era industrial, em nossa era poderíamos comparar a Internet com a rede elétrica e o motor elétrico, dado sua capacidade para distribuir o poder da informação por todos os âmbitos da atividade humana. O desenvolvimento da rede mundial de computadores não se deu do dia para a noite. A internet, como a conhecemos, é o resultado da evolução de comunidades que deram início à cultura de troca de informação em rede. Segundo Castells (2003), essa nova forma de comunicação se espalhou pelo mundo contemporâneo e está influenciando diretamente na nossa cultura. Todos os domínios da vida social estão sendo modificados pelos usos disseminados da internet. (p. 225). Um desses domínios é o jornalismo impresso. O primeiro passo do jornalismo dentro do novo mundo digital foi o da transposição integral do conteúdo veiculado no papel para a internet. Cabrera González (2000) chama esse modelo de Fac-simile. Os jornais foram digitalizados e publicados na rede com o mesmo formato que iam para as ruas. Em um segundo momento, os sites dos jornais impressos passaram a transpor as matérias do papel para um layout diferente e mais adaptado ao online. No entanto, ainda não eram gerados conteúdos próprios.

12 11 Somente na terceira fase de adaptação, os jornais incorporaram um modelo digital mais concreto. Aqui, o design é completamente pensado de acordo com as necessidades do leitor da internet. Com o uso de links, o conteúdo passa a ser hipertextualizado, o que possibilita a expansão da informação. Também foi expandida a experiência do usuário com o conteúdo a partir do momento em que foram abertos canais para que ele pudesse comentar e contribuir com a informação. Cabrera González (2000) ainda destaca um quarto modelo do jornal na internet, o multimídia. Nesta fase, os sites utilizam ao máximo todos os recursos que o meio online possibilita. Além da interatividade com o público, os jornais se preocupam em complementar as informações com vídeos, áudios e animações. Esses diversos modelos ainda coexistem na internet. É possível encontrar em alguns veículos a digitalização do conteúdo impresso na integra e conteúdos multimídia. Pois, apesar da evolução de sua versão online, os sites de notícia ainda necessitam de suas edições impressas. La aceptación de la situación actual como etapa transitoria de la prensa en línea, da razón de la necesaria dependencia de ésta de los medios tradicionales, en concreto, de la prensa escrita. Resulta innegable la necesidad de coexistencia del medio on line con la prensa convencional por varios motivos, entre los que podemos señalar: la necesidad de una infraestructura organizativa que todavía no existe de modo independiente en la edición digital, la falta de contenidos informativos suficientemente elaborados, y la urgente demanda de profesionales cualificados. (CABRERA GONZÁLEZ, 2000, s/pág.). Essa dependência fica ainda mais evidente quando observamos os sites de notícia ligados aos grupos regionais de comunicação. Nesses casos, o portal foi implementado como mais um veículo de comunicação da empresa, mas não recebe os mesmos investimentos que as outras empresas do grupo. As bases para o desenvolvimento de notícias online ainda está crescendo nas raízes dos antigos veículos. Conteúdos jornalísticos na web, que tenham nascido diretamente para a internet, ainda podem ser considerados raridades. Isso nos faz pensar o que realmente é o jornalismo digital. En una definición sintética el periodismo digital es todo el producto discursivo que construye la realidad por medio de la singularidad de los eventos, que tiene como soporte de circulación las redes telemáticas o cualquier otro tipo de tecnología por donde se transmita señales numéricas

13 12 y que incorpore la interacción con los usuarios a lo largo del proceso productivo. (GONÇALVES, 2000, p. 19). Os sinais numéricos (señales numéricas) mencionados por Gonçalves (2000) são as bases das informações trocadas via internet. Por causa do código binário, todo e qualquer dado pode ser convertido em infinitas sequências de 0 e 1, transmitidos por meio de cabos ou sinais eletrônicos e processadas por um computador. Assim, texto, imagem, áudio e vídeo podem ser experimentados em uma mesma plataforma, o que caracteriza a multimidialidade do jornalismo na web. Ser capaz de disponibilizar em uma mesma plataforma diversas mídias não é privilégio somente do jornalismo feito para web. A televisão também é capaz de veicular gráfico, imagens, áudio e texto em sua narrativa. A internet não deve ser encarada com uma plataforma que sintetiza aquilo que o impresso, rádio e televisão já fazem. Ela não é a simples junção do que já é realizado nos outros veículos. A web não pode ser entendida da mesma maneira que as mídias de massa. Lemos e Cunha (2003, p. 15) exemplificam a diferença crucial entre a internet e os outros meios de comunicação: [...] quando falo que estou lendo um livro, assistindo TV ou ouvindo rádio, todos sabem o que estou fazendo. Mas quando digo que estou na internet, posso estar fazendo todas essas coisas ao mesmo tempo, além de enviar , escrever em blogs ou conversar em um chat. Aqui não há vínculo entre o instrumento e a prática. A internet é um ambiente, uma incubadora de instrumentos de comunicação e não uma mídia de massa, no sentido corrente do termo. Portanto, um dos diferenciais da internet está no nível de interação que o usuário tem com o conteúdo. Mesmo sendo capaz de transmitir diversos tipos de dados, a narrativa feita na televisão é rígida. Na web, os hiperlinks permitem que o usuário escolha por onde vai começar e como vai terminar o consumo de um conteúdo. A flexibilidade dos meios online permite organizar as informações de acordo com as diversas estruturas hipertextuais. Cada informação, de acordo com as suas peculiaridades e os elementos multimédia disponíveis, exige uma estrutura própria. (SALAVERRIA, 2005, p. 108). Com a interação na web, o usuário deixa de ser um simples receptor da informação e, junto com o jornalista, passa a ser autor do conteúdo. Por suas características de sistema hipertextual, como vimos anteriormente, a internet permite que esta audiência trace seu

14 13 próprio caminho para o acesso aos conteúdos, determinando quando e quais informações quer receber. A sua postura deixa de ser a do receptor passivo. (MONTEIRO, 2001, p. 32). A participação do usuário vai muito além da reconfiguração no modo de ler vai muito além do texto hiperlincado. Hoje, o leitor não só consome a informação da maneira que deseja, ele também é capaz de disseminar conteúdos. Acima de tudo ele é também co-autor, já sendo conhecido nos meios internacionais como prosumer, que é formado pelas palavras produtor + consumidor (producer e consumer em inglês). Esse novo consumidor presente na internet, chamado de usuário, tem vez e tem voz. (MARQUES, 2009, p. 4). Diante de um usuário ativo que faz a sua própria narrativa da notícia por meio de uma navegação multimídia, torna-se necessária uma mudança no perfil do profissional de jornalismo. O repórter deve ser capaz de desenvolver conteúdo o conteúdo multimídia. Segundo Magaly Prado (2011), redigir bem ainda é fundamental, mas não é mais o suficiente para um profissional que queira ser bem-sucedido no século XXI. Não basta mais só saber redigir, o mercado carece e prefere que o jornalista saiba, de forma extremamente profissional (porque amadores são pantópicos), gerar páginas na internet, fazer locução, mexer em câmeras e, em muitos casos, editar também; tudo isso com uma visão aguçada, claro. (p. 3). É com esse perfil de repórter que deve ser produzido um produto jornalístico multimídia capaz de interagir e permitir que o próprio usuário construa a sua narrativa, sem as amarrações dos veículos mais tradicionais de comunicação. A proposta ainda é desenvolver conteúdo que apesar de estar ancorado em um meio conhecido pela instantaneidade seja capaz de fazer o leitor aprofundar-se na navegação. Achar que o mais importante é oferecer as últimas notícias o mais rápido possível é um grande equívoco do meio. Os leitores raramente percebem quem foi o primeiro a dar a notícia e, na verdade, nem se importam com isso. Uma notícia superficial, incompleta ou descontextualizada causa péssima impressão. É sempre melhor colocá-la no ar com qualidade [...]. (FERRARI, 2003, p. 49).

15 14 2 METODOLOGIA DE PESQUISA Com o intuito de produzir um conteúdo jornalístico multimídia a respeito da história e do cotidiano da comunidade de pescadores e agricultores que vivem na Reserva Extrativista do Batoque foi preciso primeiramente realizar um levantamento de todo o material publicado a respeito do local. A pesquisa em arquivos públicos, bibliotecas e acervos de jornais impressos foi a base para o desenvolvimento da pauta que norteou as ações do projeto. Após a fase de pesquisa, a pauta foi construída levando em consideração a busca de fontes que confirmaram ou esclareceram os fatos levantados em pesquisa. Entrevistas com líderes comunitários, pescadores, acadêmicos e gestores públicos foram realizadas e gravadas em áudio e vídeo, sendo utilizadas para o desenvolvimento do site. Com a produção e edição do conteúdo, iniciamos a fase de desenvolvimento do site e de postagem do material na web. Nessa etapa, criamos e implementamos o layout onde estão publicadas as matérias, fotos, áudios e vídeos de modo que houvesse um diálogo coerente e coeso dos temas por meio de hiperlinks. O quadro abaixo mostra o cronograma de como o projeto foi realizado. Quadro 1 Cronograma de realização do projeto ABRIL MAIO JUNHO Pesquisa X Produção conteúdo X X Edição conteúdo X Desenvolvimento site X Publicação do site X Fonte: Elaboração do autor.

16 15 3 O SITE 3.1 Pauta A construção da pauta foi o primeiro passo dado para nortear o desenvolvimento do conteúdo do site sobre a Reserva Extrativista do Batoque (www.praiadobatoque.com.br). A pauta é uma ferramenta relativamente recente do jornalismo. Kotscho (2001), por exemplo, afirma que ela não existia na década de 60. Segundo ele, o chefe de reportagem designava os repórteres de acordo com as demandas que despencavam sobre sua mesa. O autor afirma que a pauta nasceu com o objetivo de organizar. O crescimento dos jornais e das redações tornou necessária a instituição da pauta, principal elo de ligação entre a produção e a edição das matérias. Em outras palavras, era preciso organizar a bagunça para saber quem estava fazendo o quê. (KOTSCHO, 2001, p. 11). Diferente do cenário descrito por Kotscho (2001), não existia nenhuma grande equipe para ser comandada na produção do site. Sendo assim, o objetivo da pauta foi levantar o histórico do local, os objetivos do trabalho e os recursos utilizados. Ela foi desenvolvida em parceria com o orientador do projeto e teve como base o conceito descrito no Manual da Redação utilizado pelo jornal Folha de S. Paulo (2001). Segundo a publicação, a pauta é gerada por meio de investigação e não é feita somente em uma iniciativa técnica. Também não nasce apenas da imaginação, mas do trabalho exaustivo com as fontes de informação, da leitura diária de vária publicações impressas e eletrônicas, [ ] da observação da vida da cidade, da reflexão sobre os acontecimentos em processo no mundo, da capacidade de manter o olhar atento e curioso, da suspeição permanente em relação a tudo que seja consensual ou habitual e da percepção do que seja útil ou válido para a informação e o entendimento do leito. (FOLHA DE SÃO PAULO, 2001, p. 21). A primeira etapa da construção da pauta foi a mesma utilizada atualmente em quase todas as redações: uma busca na internet por praia do Batoque. A atitude, que parece simples, foi importante para levantarmos o que já havia sido publicado sobre o local. Diante de artigos acadêmicos, matérias de jornais, posts em blogs e discussões em fóruns, foram feitas as perguntas que iriam compor a pauta. Após a pesquisa na web, fizemos o levantamento dos nomes das fontes que seriam entrevistadas: líderes comunitários, representantes de instituições federais, professores

17 16 universitários e moradores da praia do Batoque foram contatados via telefone e préentrevistados. Dessa forma, complementamos as informações colhidas na pesquisa. A pauta também mostra quais são os itens mais relevantes do tema, ao deixar claro quem é o público-alvo do site: internautas interessados em conhecer mais sobre o Batoque. Além disso, ela lista o material multimídia que deve ser colhido, já visualizando as mídias que iriam compor o site. A pauta continha os seguintes pontos: a) Histórico dos acontecimentos em questão A Reserva Extrativista (Resex) do Batoque abrange uma área de 617 hectares e tem por objetivo assegurar a conservação e dos recursos naturais renováveis da área, protegendo a cultura e os meios de vida da população local. A praia tornou-se unidade de conservação em 5 de junho de 2003, após décadas de lutas contra ataques de grileiros, que tentaram tomar posse da área pertencente aos pescadores e agricultores da região. A iniciativa da criação da reserva foi tomada pela própria comunidade e teve apoio do o IBAMA/CE, por meio do seu Núcleo de Educação Ambiental. Hoje, a Resex é gerencia da pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Além da pesca e da agricultura, os habitantes do Batoque também gerenciam pequenos empreendimentos ligados ao turismo como, por exemplo, pousadas, restaurantes com a culinária local e passeios. Essas atividades econômicas levam em consideração o menor impacto no meio ambiente e o crescimento sustentável da comunidade. b) Roteiro de perguntas essenciais que o texto deve responder Quem foram os primeiros habitantes do Batoque? Quando foram iniciadas as atividades dos grileiros na região? Como a comunidade agiu diante dos ataques? Como foi criada a Reserva Extrativista? O que caracteriza uma Reserva Extrativista? Quais são as atividades econômicas praticadas pela comunidade do Batoque? O que é turismo comunitário?

18 17 Como essa forma de turismo é praticada no Batoque? Quais as atrações turísticas existentes no local? Como elas podem ser aproveitadas? Existe algum manual para o visitante? Onde o turista pode se hospedar, comer e se divertir no Batoque? Quantas pousadas e restaurantes existem no local? c) Itens mais relevantes do assunto na perspectiva da linha editorial adotada O público-alvo do site é composto por turistas que pretendam conhecer o Batoque e ao mesmo tempo, ter um contato mais profundo com os habitantes do local. Por isso, além da história da comunidade é importante destacar quais atividades podem ser praticadas no Batoque. Itens como Como chegar, Onde ficar e o O que fazer devem conter informações precisas para que o futuro visitante não se sinta desestimulado. Deve ficar claro em todo o material como funciona o turismo comunitário e a diferença entre essa modalidade e o de massa, que é o mais praticado no litoral do Ceará. d) Fontes que devem ser procuradas para o levantamento das informações Presidente da Associação de Moradores do Batoque Dona Elma; Chefe do Instituto Chico Mendes, responsável pela Reserva Marcel Machado; Professora Luzia Neide Coriolano; Professor Fábio Perdigão; Dono da Pousada do Gil Gilmar; Responsável pela pousada comunitária Raimundo; No local, pescadores, agricultores e comerciantes devem ser ouvidos. e) Previsão de box com personagem envolvido no tema da reportagem etc. curiosas Busca de um personagem que esteja ligado à história do local ou com características

19 18 f) Material iconográfico (fotos, gráficos, tabelas e outros) Fotos das atividades; Vídeos das entrevistas; Vídeos para inserções; Mapa dos estabelecimentos do local; Rota de como chegar ao Batoque; Gráfico com linha do tempo da história do Batoque. 3.2 Entrevistas Lage (2008) classifica a entrevista, do ponto de vista do objetivo, em quatro categorias: ritual é mais centrada na divulgação do entrevistado do que no que ele realmente tem a dizer; temática aborda um assunto no qual o entrevistado, supostamente, domina; testemunhal quando o entrevistado relata algo que participou ou assistiu; e em profundidade aquela em que os objetos principais são as histórias e opiniões do próprio entrevistado. Usando a classificação de Lage (2008), podemos caracterizar as entrevistas realizadas neste trabalho como temáticas, pois as fontes dialogaram sempre a respeito do mesmo assunto (a reserva extrativista do Batoque). No entanto, o tema foi abordado com cada um dos entrevistados de acordo com a sua relação com o objeto. As entrevistas não foram realizadas como o simples propósito de confirmar os fatos levantados em pesquisa. Mais do que registrar afirmações já esperadas, elas deveriam ser um encontro entre o repórter e o entrevistado. O contato buscado foi o mais pessoal possível, como descreve Medina (1995, p. 6): [...] quando, em um desses raros momentos, ambos entrevistado e entrevistador saem alterados do encontro, a técnica foi ultrapassada pela intimidade entre o EU e o TU. Levando em consideração que a plataforma final do conteúdo é capaz de suportar diversas mídias, todas as entrevistas foram realizadas de modo que pudessem ser aproveitadas em texto, vídeo ou áudio. O problema é que a prática levanta uma questão comum em redações: usar ou não gravadores em entrevistas?

20 19 Oyama (2008, p. 18) explica que [...] o gravador muitas vezes ajuda a inibir o entrevistado. Se isso acontece com um pequeno gravador, a situação fica ainda mais complexa quando acrescentamos uma câmera com um tripé para registrar tudo. O mesmo problema é enfrentado por repórteres de TV. Por isso, foi utilizada uma dica dada para profissionais dessa área: Quem não está acostumado a falar para a televisão costuma ficar intimidado com o microfone e a câmera. O bate-papo com o repórter serve também para descontrair o entrevistado, deixá-lo mais à vontade. (BACELLAR; BISTANE, 2005, p. 17). Mesmo com o uso dessa técnica, ficou claro que manter a interação do diálogo e, ao mesmo tempo, gerenciar diversos equipamentos eletrônicos é uma tarefa que exige muito do repórter. Outra dificuldade estava na condução do processo. Em entrevistas voltadas para o impresso, é realmente possível dialogar com o entrevistado e estimulá-lo por meio de intervenções. Para meios eletrônicos, a técnica é oposta. Oyama (2008, p. 56) dá a seguinte dica para os repórteres: Não ficar repetindo hãhã, mmm ou ahh, enquanto o entrevistado fala. Esses sons [ ] podem funcionar como um estímulo para o entrevistado em conversas destinadas a publicação de jornais e revistas. No rádio (e na TV) servem apenas para sujar a transmissão e irritar o ouvinte. Se a entrevista deveria ser utilizada nos três formatos, o que fazer diante do dilema? A solução foi sujar o mínimo possível a gravação, fazendo interrupções pontuais e buscando estimular o entrevistado por meio de expressões faciais. Tudo isso sem perder de vista o bom funcionamento dos equipamentos e, claro, o que os sujeitos estavam falando. Segundo Ferrari (2003, p. 48), os vídeos para web [...] são mais facilmente assistidos se o fundo for plano e as imagens estiverem o mais próximas possível. Por isso, foi priorizado o uso do primeiro plano, que [...] mostra do peito para cima. Frequentemente usado no meio de uma narrativa feita por repórter ou por apresentado. (CURADO, 2002, p. 108). O uso do primeiro plano também ajudou na captação de áudio, já que não foram utilizados microfones de lapela. Todas as entrevistas foram decupadas para facilitar eventuais consultas. As falas das fontes foram utilizadas no corpo do texto e nos vídeos postados. Para a edição, foi utilizado o software imove. O programa não é profissional, mas permitiu o corte das imagens captadas, inserção de legendas e transições. Ou seja, o necessário para a edição básica de um vídeo para web.

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