A POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO PENAL EXCLUSIVA DA PESSOA JURÍDICA EM CRIMES AMBIENTAIS

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1 A POSSIBILIDADE DE RESPONSABILIZAÇÃO PENAL EXCLUSIVA DA PESSOA JURÍDICA EM CRIMES AMBIENTAIS Gizele Luzia de Mello de Freitas 1 Adriana Maria Gomes de Souza Spengler 2 SUMÁRIO Introdução; 1. Teoria do crime sob a égide da doutrina penal clássica como principal fator impeditivo da responsabilização penal da pessoa jurídica; 2. Teoria da ficção e Teoria da realidade; 3 Responsabilidade penal da pessoa jurídica no Direito Comparado; 3.1. Portugal; 3.2. Inglaterra; 3.3. França; 3.4. Espanha; 4. Da responsabilização penal da pessoa jurídica em crimes ambientais no sistema jurídico brasileiro; 4.1. Dos principais argumentos desfavoráveis à responsabilização criminal do ente moral; 4.2. Dos principais argumentos favoráveis à responsabilização criminal do ente moral; 4.3. O entendimento do Superior Tribunal de Justiça e Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina; Considerações Finais; Referências das fontes citadas. RESUMO O objeto do presente artigo científico é verificar a possibilidade de responsabilização criminal da pessoa jurídica em crimes ambientais, mais especificamente de forma exclusiva. No ordenamento jurídico brasileiro, a possibilidade de imputação penal do ente empresarial encontra respaldo legal na Constituição Federal vigente do Brasil, notadamente no art. 173, 5º, o qual admite tal hipótese nos casos de crime contra a ordem econômica, financeira e contra economia popular e também no art. 225, 3º, este relativo aos crimes contra o meio ambiente, enfoque do artigo em apreço. Neste sentido, surgiu a Lei 9.605/98, que prevê em seu art. 3º, caput e 3º a responsabilidade criminal do ente moral para os delitos ambientais, além de outras legislações em vigor. Não bastasse isso, há entendimento adverso do que o texto legal impõe. Alguns doutrinadores e inclusive Tribunais seguidores da corrente clássica da Teoria do crime, a qual constrói o delito sobre a conduta humana, entendem ser inadmissível a responsabilidade penal da pessoa jurídica, ao menos, de forma direta. Assim, este artigo demonstra a problemática acerca da responsabilização do ente social no sistema jurídico brasileiro, trazendo os argumentos pertinentes ao assunto, bem como comparando com o sistema jurídico de outros Países. Por fim, utilizou-se o método indutivo para sua elaboração. Palavras-chave: Responsabilidade criminal exclusiva. Pessoa jurídica. Possibilidade. 1 Acadêmica do 10º período do curso de Direito da UNIVALI. 2 Mestre. Professora do curso de Direito da UNIVALI. 921

2 INTRODUÇÃO A presente pesquisa tem por objetivo analisar a possibilidade de responsabilidade criminal da pessoa jurídica, notadamente no âmbito dos crimes ambientais, em especial de forma direta, sem a presença da pessoa física como corresponsável pela infração penal. Para tanto, inicialmente, será abordado à teoria do crime adotada pelo Direito Penal clássico, a qual não aceita a responsabilização exclusiva dos entes morais, sob a principal justificativa de que estas não podem ser autoras de delito, uma vez que não são capazes de realizar ações ou omissões próprias. Seguidamente, pretender-se-á esclarecer a teoria da ficção e a teoria da realidade. Em síntese, aquela não admite a efetiva existência da pessoa jurídica e sua consequente imputação penal, ao passo que, esta compreende o ente jurídico dotado de personalidade, com direitos e deveres, também perante a esfera penal. Adiante, será demonstrado como funciona a responsabilização criminal da pessoa jurídica no Direito Comparado aos seguintes países: Portugal, Inglaterra, França, Venezuela. Assim, verificar-se-á a importância do presente artigo na esfera acadêmica utilizando o posicionamento doutrinário no direito penal e ambiental brasileiro, agregando-se o entendimento jurisprudencial acerca do tema, bem como a legislação vigente acerca da possibilidade ou não, da responsabilização penal da pessoa jurídica, em especial a exclusiva. Quanto à metodologia empregada no artigo científico, este se realizou pela base lógica Indutiva, e foram utilizadas as Técnicas do Referente, da Categoria, do Conceito Operacional e da Pesquisa Bibliográfica. 1 TEORIA DO CRIME SOB A ÉGIDE DA DOUTRINA PENAL CLÁSSICA COMO PRINCIPAL FATOR IMPEDITIVO DA RESPONSABILIZAÇÃO PENAL EXCLUSIVA DA PESSOA JURÍDICA Ao iniciar seu capítulo acerca do esboço estrutural da teoria do delito, Eugenio Raúl Zaffaroni e José Henrique Pierangeli dispõem que os delitos não podem ser nada diferentes de condutas humanas. Para eles, quando uma conduta se ajusta a algum dos tipos penais, seja previsto no Código Penal ou em leis 922

3 esparsas, diz-se que se trata de uma conduta típica ou, o mesmo, que apresentar a característica de tipicidade. Neste sentido, descrevem as duas principais características do delito como: uma genérica (conduta) e outra específica (tipicidade), alegando que a conduta típica é uma espécie do gênero conduta 3. Embora descrevam em sua obra a teoria do crime unitário, a qual, em síntese, define o delito apenas como uma infração punível, Eugenio Raúl Zaffaroni e José Henrique Pierangeli sustentam que a teoria estratificada é a que mais se apresenta viável a definição de delito. Conforme esta, os elementos utilizados para conceituação de crime são os seguintes: conduta, entendida como ação ou omissão voluntária; tipicidade: proibição de conduta dolosa e culposa (fato típico); antijuridicidade, que é a contradição da conduta com a ordem jurídica estabelecida e a culpabilidade, vista como a reprovabilidade da conduta praticada pelo agente. Tais elementos surgiram mais precisamente com a concepção da teoria finalista da ação, estrutura da teoria do delito adotada pelo Brasil. Cesar Roberto Bitencourt explica que a partir dos anos trinta, em fases diferentes, os doutrinadores procuraram conduzir a ação humana ao conceito central da teoria do delito, considerado sob o prisma ontológico. Com isso, Welzel elaborou o conceito finalista, conhecido como teoria final da ação. A contribuição mais marcante desta foi a retirada dos elementos subjetivos que integravam a culpabilidade dolo e culpa - os quais foram deslocados para o injusto penal. Dessa forma, também para o finalismo, crime continua sendo representado pela ação típica, ilícita e culpável 4. Luiz Regis Prado sustenta que se tem amplamente dominado no Direito Penal brasileiro, a tese da irresponsabilidade penal da pessoa jurídica, eis que se fundamenta nos postulados da culpabilidade e da personalidade das penas. Isso quer dizer que os delitos praticados no âmbito da pessoa jurídica só podem ser imputados criminalmente às pessoas físicas 5. Fato é que, em idêntico raciocínio ao demonstrado acima, grande parte dos penalistas entendem que o primeiro elemento do crime, qual seja a ação ou omissão 3 ZAFFARONI, R. Eugênio; PIERANGELI, Henrique José. Manual de Direito Penal brasileiro, v. 1: Parte Geral. 9ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte Geral Ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p

4 típica (fato típico), somente pode ser efetivado por meio da conduta humana. Importante questão relaciona-se com a culpabilidade, outro elemento, o qual está intimamente atrelado à conduta humana considerada reprovável. Daí surge a problemática da responsabilização penal da pessoa jurídica, em especial isoladamente. 2 TEORIA DA FICÇÃO E TEORIA DA REALIDADE Historicamente, o Direito Romano negou a capacidade delitiva das pessoas jurídicas, entendendo que somente um cidadão livre podia ser titular de direitos e deveres. De outro lado, o Direito Germânico, o qual entendeu o indivíduo como titular de direitos e obrigações enquanto membro de uma comunidade aceitou como consequência que as pessoas jurídicas respondessem pelos fatos puníveis realizados por um dos que a ela pertenciam 6. A concepção jurídica romanista foi um dos fundamentos da teoria da ficção, criada por Savigny, a qual afirma que as pessoas jurídicas têm existência fictícia, irreal ou de pura abstração, sendo incapazes de delinquir, pois carecem de vontade e ação. A sua existência se funda sobre as decisões de certo número de representantes que, em virtude de uma ficção, são consideradas como suas; é uma representação semelhante, que exclui a vontade, podendo ter efeito civil, mas nunca em relação à ordem penal 7. Segundo a teoria da ficção, somente o ser humano seria capaz de titularizar relações jurídicas, visto ser o único dotado de vontade real e capacidade de ação ou omissão. A personificação de grupos humanos ou patrimoniais não passaria de uma criação legal, sem qualquer aplicação prática 8. Por seu turno, a teoria da realidade, da personalidade real ou orgânica, cujo principal precursor foi Otto Gierke, fundamenta-se em pressupostos totalmente diversos. A pessoa moral, não é um ser artificial, criado pelo Estado, mas sim um ente real (vivo e ativo), independente dos indivíduos que a compõem. Igualmente a pessoa física, atuando como um indivíduo, ainda que diante de procedimentos diferentes e, por conseguinte, podendo atuar mal, delinquir e ser punida. A pessoa 6 PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v.1, p PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v.1, p ALVES, Rodrigo Ribeiro de Magalhães. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica por crimes ambientais. Monografia. Faculdade de Direito. Universidade de Brasília, Brasília, 2009, p

5 coletiva tem uma personalidade real, dotada de vontade própria, com capacidade de agir e de praticar ilícitos penais. O ente corporativo existe, é uma realidade social, um sujeito de direitos e deveres e, em consequência, é capaz de dupla responsabilidade: civil e penal 9. Nesse sentido, tem-se uma comparação entre o organismo humano e a estrutura organizacional da pessoa jurídica no tocante à independência do todo em relação às partes que o compõe. Segundo esta teoria, a pessoa jurídica é um ente dotado de interesses próprios, realizando atividades no meio social para consecução dos seus objetivos 10. Nas palavras de Fernando da Costa Tourinho Filho, os que aceitam a tese de que as pessoas jurídicas são tão reais quanto os homens, raciocinam da seguinte maneira: se a pessoa jurídica tem uma personalidade autônoma e se tem direito e obrigações distintos dos direitos e obrigações dos associados, porque não poderia cometer um crime e incorrer em obrigações penais próprias? Se pode negar suas dívidas, por que não pode cometer um estelionato e por esse crime ser castigada? 11 Por oportuno, transcreve-se a lógica relativa à personalidade dos entes morais defendida por Bevilaqua e utilizada por Alves: O direito é alguma coisa de vivo, que consiste em transformações constantes e que necessita de renovações ininterruptas, pois que a natureza se evolve, mudam as necessidades e, com estas, o direito. Daí resulta que o sujeito de direito deve ser formado de modo que possa acompanhar as mutações do movimento, de modo que possa entrar nesse movimento de uma maneira correspondentemente racional, isto é, conforme as determinações do direito. Por isso, a ordem jurídica exige que sujeitos de direito sejam, ao menos em sua generalidade, capazes de agir racionalmente. Na primeira linha, aparece o homem, que é um ser dotado de razão, e, depois, os seres aos quais se podem fornecer a razão humana pela anexação de órgãos. Assim, naturalmente, se constituem dois gêneros de pessoas: as corpóreas ou físicas e as morais ou jurídicas. Umas e outras são igualmente reais; a distinção está em que umas são dotadas naturalmente, de razão, ao passo que, às outras, a racionalidade é parcialmente adquirida, mediante um arranjo especial do homem [...] 12 Importa ressaltar que tanto uma quanto outra teoria foi alvo de críticas. No caso da teoria da ficção a crítica mais relevante se refere à própria existência do 9 PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v.1, p ALVES, Rodrigo Ribeiro de Magalhães. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica por crimes ambientais. Monografia. Faculdade de Direito. Universidade de Brasília, Brasília, 2009, p FILHO TOURINHO, Fernando da Costa. Processo Penal 2. 33ª Ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2011, p ALVES, Rodrigo Ribeiro de Magalhães. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica por crimes ambientais. Monografia. Faculdade de Direito. Universidade de Brasília, Brasília, 2009, p. 23. Retirado de: BEVILAQUA, Clóvis. Teoria Geral do Direito Civil. 4a ed. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1972, p

6 Estado. Isso porque ao considerar que toda pessoa jurídica é uma criação sem respaldo na realidade, esta teoria acaba por negar também a existência do Estado, tendo por consequência o entendimento de que a lei, como expressão máxima de sua soberania, também é fruto de mera ficção 13. Por tal razão entre outras é que, na atualidade prepondera o entendimento de que as pessoas jurídicas não são apenas mera ficção e sim possuem realidade própria, entretanto, totalmente diversa das pessoas físicas ou naturais RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA NO DIREITO COMPARADO No XIII Congresso da Associação Internacional de Direito Penal, realizado no Cairo-Egito em 1984, foi confirmado que a responsabilidade penal das sociedades e de outros agrupamentos jurídicos é reconhecida em um número crescente de países como uma forma apropriada de controlar os delitos econômicos e aqueles provenientes de negócios. Neste diapasão, observa-se a adesão de vários países no que se refere à responsabilização criminal da pessoa jurídica Portugal Portugal adotou a responsabilidade dos entes morais de forma mais discreta, por meio do Decreto-lei 28, de , sob a justificativa de que, sem dúvidas, as maiores ofensas ao meio ambiente provem não da pessoa individual, mas da pessoa coletiva. Paulo Affonso Leme Machado, ao explicar acerca da concepção jurídica de Portugal, destaca as seguintes palavras de Figueiredo Dias: Na ação como na culpabilidade visualiza-se um ser livre como centro éticosocial da imputação jurídico-penal, e isto é próprio do ser humano. Mas não se deve esquecer que a organização humano-social é, assim como o próprio indivíduo humano, obra de liberdade ou realização do ser livre e, por isso, parece aceitável que em certos setores especiais e bem delimitados, ao indivíduo humano seja possível substituir-se como centro ético-social da imputação jurídico-penal, a sua obra ou realização coletiva e, 13 ALVES, Rodrigo Ribeiro de Magalhães. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica por crimes ambientais. Monografia. Faculdade de Direito. Universidade de Brasília, Brasília, 2009, p SÁNCHEZ, Jesús María e outros. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica: Em defesa do princípio da imputação penal subjetiva. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 12ª Ed. São Paulo: Malheiros, 2004, p

7 3.2 Inglaterra portanto, a pessoa jurídica, associação, grupo ou corporação na qual exprime-se o ser livre 16. O sistema Inglês, e os demais países pertencentes à família do common Law, de estrutura totalmente diversa do sistema romano-germânico, vigora o princípio da societas delinquere potest, o que quer dizer que a responsabilidade penal da pessoa jurídica é reconhecida, fruto de uma construção jurisprudencial do início do século XIX, também nas infrações não ambientais. A partir de 1940, os ingleses ampliaram a responsabilização alcançando crimes de qualquer natureza. A pessoa jurídica pôde ser responsabilizada por toda infração penal que sua condição lhe permitisse realizar, sendo possível a responsabilização de forma objetiva e subjetiva 17. A responsabilidade subjetiva, nos casos em que se faz necessário a presença de culpa para a configuração do crime e, por conseguinte, tem-se como indispensável uma ação ou omissão do ser humano, os ingleses utilizam como fundamento penal a teoria da identificação, originária da jurisprudência cível que alcançou a esfera penal. Por esta teoria, o juiz ou tribunal deve procurar identificar a pessoa que não seja um empregado ou agente, cuja sociedade seja responsável pelo fato em decorrência de uma relação hierárquica, mas qualquer um que a torne responsável porque o ato incriminado é o próprio ato da sociedade. Assim, a pessoa natural não fala, nem atua para a sociedade, ela atua enquanto sociedade e a vontade que dirige suas ações é a vontade da própria sociedade. A pessoa física torna-se a personificação do ente coletivo, sua vontade é a vontade dele, numa verdadeira e total identificação França Em 1992, a França aderiu à responsabilidade penal das pessoas jurídicas, sem excluir a responsabilidade da pessoa física de quem partiu a decisão, de forma bastante ampla. No Código Penal Francês, diz o art , alínea 3, que a 16 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro, p SÁNCHEZ, Jesús María. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica: Em defesa do princípio da imputação penal subjetiva, p SÁNCHEZ, Jesús María. Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica: Em defesa do princípio da imputação penal subjetiva, p. 117/

8 responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das pessoas físicas, autoras ou cúmplices dos mesmos fatos. A exposição de motivos acentuou que tal disposição tem por objetivo que a responsabilidade criminal dos entes morais não constitua uma cortina para mascarar as responsabilidades pessoais. No entanto, a tendência é que a responsabilidade penal da pessoa jurídica seja somente da pessoa jurídica nos casos de infrações de negligência e de imprudência, principalmente quando o ato resultar de um defeito de concepção da empresa, em que o ato seja imputável a decisões múltiplas ou tomadas a diversos níveis, ou seja, consequência de decisão coletiva, ou seja, tomada por diversas pessoas em um nível determinado 19. Todas as pessoas jurídicas são objeto do novo Código Penal francês, inclusive sindicatos e associações, tendo como exceção apenas o Estado e as coletividades territoriais. Em respeito ao princípio da especialidade, o legislador francês decidiu infração por infração se a pessoa jurídica poderia ser responsabilizada. Assim, no âmbito ambiental foi reconhecida tal responsabilização em determinados crimes, quais sejam: abandono de veículos em via pública, poluição atmosférica, eliminação de dejetos sobre a água, entre outros. Na França, o fundamento da responsabilidade dos grupos é a realidade da existência, sob todos os aspectos, da pessoa moral, modo de expressão de um autêntico querer coletivo, capaz de interdição, de ação, portanto de culpa. Desta forma, o legislador criou uma penologia apropriada aos entes sociais. Enquanto as penas aplicadas aos indivíduos visam, ao menos, em parte, à ressocialização, as penas previstas para as pessoas jurídicas visam somente à prevenção e à dissuasão 20. Além disso, para justificar a responsabilização criminal da pessoa jurídica a França utilizou o conceito de responsabilidade por ricochete (via reflexa), o qual assim dispõe: Trata-se de responsabilidade penal por ricochete, de empréstimo, subsequente ou por procuração, que é explicada através do mecanismo denominado "emprunt de criminalite", feito à pessoa física pela jurídica, e que tem como suporte obrigatório a intervenção humana. Noutro dizer: a responsabilidade penal da pessoa moral está condicionada à prática de um fato punível suscetível de ser reprovado a uma pessoa física. Desse caráter subsequente ou de empréstimo resulta importante consequência: a infração penal imputada a uma pessoa jurídica será quase sempre igualmente imputável a uma pessoa física MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro, p MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro, p CARNEIRO, Herbert José Almeida. Aspectos processuais da responsabilidade penal da pessoa jurídica. Monografia. Faculdade de Direito. Universidade de Milton Campos, Nova Lima, Minas Gerais, 2008, p

9 3.4 Espanha A Espanha inovou ao adotar uma espécie sui generis da imputação de responsabilidade penal dos entes morais, satisfazendo-se com a simples realização de um injusto típico como fundamento da pena. Com efeito, admite-se a possibilidade de responsabilização exclusiva da pessoa jurídica, imputando-lhe um fato criminoso, com a pena correspondente, sem que seja necessário indagar sobre a concreta posição individual daquele que teria infringido a norma penal DA RESPONSABILIZAÇÃO PENAL DA PESSOA JURÍDICA EM CRIMES AMBIENTAIS NO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO Na legislação pátria a possibilidade de responsabilização penal da pessoa jurídica surgiu com a Constituição Federal de Vislumbrou-se esta possibilidade no art. 173, 5º, ao impor que a Lei, sem prejuízo da responsabilidade individual do dirigente, estabelecerá a responsabilização da pessoa jurídica, sujeitando-a as punições compatíveis a sua natureza, quando praticado ato contra a ordem econômica e financeira e contra a economia popular 23. No que diz respeito ao meio ambiente, tal responsabilização está expressamente prevista no art. 225, 3º, de nossa Carta Magna, o qual assim dispõe: As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. Além destas previsões constitucionais, surgiu a Lei n /98, a qual estatuiu no seu art. 3º, caput, que as pessoas jurídicas serão responsabilizadas, administrativa, civil e penalmente, nos casos em que a conduta delitiva seja cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da entidade empresarial. No parágrafo único 22 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: Parte Geral Ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF. Senado,

10 estabeleceu que a responsabilidade das pessoas jurídicas, não exclui a das pessoas físicas, autoras, coautoras ou partícipes do mesmo fato 24. Por outro lado, a Lei n /2011, que dispõe sobre as infrações quanto à ordem econômica, prevê em seu art. 31 que seu texto legal terá aplicação às pessoas físicas ou jurídicas de direito público ou privado, bem como quaisquer associações de entidades ou pessoas, constituídas de fato ou de direito, ainda que sem personalidade jurídica e temporariamente e mesmo que exerçam atividade sob regime de monopólio. E, em seu art. 32 dispõe que as diversas formas de infração a ordem econômica ensejam a responsabilidade da empresa e a responsabilidade individual de seus dirigentes ou administradores, solidariamente 25. Em que pese existir tais previsões legais, reconhecendo a responsabilização da pessoa jurídica, o tema apresenta certa resistência, principalmente com relação a responsabilidade exclusiva. Isso porque, sempre que se analisa a responsabilidade penal da pessoa jurídica, vêm à tona várias questões relacionadas à Teoria do Delito clássica, a qual foi construída sob o enfoque do ser humano, questões estas que serão demonstradas a seguir em contraposição com o entendimento favorável a tal responsabilização. 4.1 Dos principais argumentos desfavoráveis à responsabilização criminal do ente moral O primeiro argumento é o relativo à culpabilidade, em que os que são contra, ponderam que a pessoa jurídica pensa por meio das pessoas que a compõem. Como ela não tem vontade própria, ânimo de delinquir, não há que se falar em juízo de reprovação desta vontade, de modo que qualquer condenação seria baseada na responsabilidade objetiva 26, a qual cumpre observar, não é admitida pelo sistema penal brasileiro BRASIL. Lei 9.605, de 12 de fevereiro de Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências. Diário Oficial [da República Federativa do Brasil], Brasília, 12 fev BRASIL. Lei , de 30 de novembro de Estrutura o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência; dispõe sobre a prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica; [...]; e dá outras providências. Diário Oficial [da República Federativa do Brasil], Brasília, 30 nov FREITAS, Vladimir Passos. FREITAS, Gilberto Passos. Crimes Contra a Natureza. 8 Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006, p PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v.1, p

11 A culpabilidade penal, somente poderia ser inserida como juízo de censura, pela realização de um injusto típico perpetrado pela conduta humana livre (culpabilidade da vontade), na reprovabilidade pessoal, formada pela imputabilidade (capacidade de culpa), consciência potencial da ilicitude e exigibilidade de conduta diversa. Isso porque, a culpabilidade entendida como a reprovabilidade da conduta ilícita somente pode recair àquele que tem capacidade genérica de entender e querer, podendo, nas circunstâncias em que o fato ocorreu conhecer a ilicitude e ser-lhe exigível comportamento que se ajuste ao direito, o que não poderia ser estendido às sociedades 28. De outro norte, tem-se a ausência de capacidade de ação ou omissão da pessoa jurídica, a qual se refere à falta de consciência e vontade (em sentido psicológico) desta e, com isso, a falta de capacidade de autodeterminação, diferentemente da pessoa física, de modo que seria necessário o empréstimo de tais faculdades pertencentes somente aos homens. Consequentemente, faltaria às pessoas jurídicas a ação ou omissão típica consistente no exercício voluntário de uma atividade finalista 29. Por seu turno, Fernando da Costa Tourinho Filho argumenta que nossa legislação pátria não admite o reconhecimento da capacidade penal das pessoas jurídicas. Em suas palavras, se o crime pressupõe uma conduta, cabe afirmar, que a pessoa jurídica não pode delinquir, pois falta-lhe a capacidade de conduta. Se ela não pode praticar uma ação ou omissão, como poderia atribuir conduta a esse ente fictício 30. Assim, a conduta revelada por meio da ação ou omissão, como primeiro elemento estrutural do crime, é produto apenas do homem, repudiando a hipótese desta ser atribuída ao ente moral, vez que a conduta delituosa exige a manifestação da vontade conscientemente dirigida a um fim e somente o ser humano poderia atuar voluntariamente 31. Para Luiz Regis Prado, tal responsabilização constituiria violação aos seguintes princípios: igualdade, pois com a identificação do ente moral como 28 PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v.1, p. 165 e PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v.1, p FILHO TOURINHO, Fernando da Costa. Processo Penal 2, p PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v.1, p

12 responsável, os possíveis coautores e partícipes poderiam ser beneficiados. Também restaria prejudicada à humanização das penas, por considerar que o referencial exclusivo de tal princípio é a condição humana, inerente somente às pessoas naturais. Outra violação refere-se ao princípio da personalidade da pena, o qual impede a aplicação de sanção penal contra quem não seja o autor ou partícipe. Por tais argumentos, o grande problema apontado como consequência da pena à pessoa jurídica que não tiver condições materiais ou morais para sobreviver, seria o alcance de tal evento a todas as pessoas físicas e jurídicas que vivem sob sua dependência 32. De outro lado, a admissão da responsabilidade da pessoa jurídica implicaria em esvaziar o princípio da causalidade, inserto no art. 13 do Código Penal. Se a responsabilidade é imputável a quem lhe deu causa e considera-se a causa como ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido, não seria sábio imputar uma conduta ao ente moral, vez que incapaz de realizar conduta própria 33. Tais argumentos expostos seriam, em tese, os principais impeditivos à aplicação de eventual sanção penal direcionada somente aos entes morais. Portanto, verifica-se que há grande resistência de muitos penalistas em aceitar a responsabilização penal da pessoa jurídica. 4.2 Dos principais argumentos favoráveis à responsabilização criminal do ente moral Nos dizeres de Ney de Barros Bello Filho e José Rubens Morato Leite não há violação ao princípio da pessoalidade da pena (previsto no art. 5º, inciso XLV da Constituição Federal de 1988), pois quando o dirigente de uma sociedade pratica um fato típico e a responsabilidade é sustentada pela empresa, em verdade, o ato foi perpetrado por esta. Ao contrário, haveria ruptura do princípio constitucional se o ato do ente moral fosse suportado pela pessoa física, pois atuou investida na condição da própria pessoa jurídica. Por sua vez, o princípio da responsabilidade pessoal não resta agredido quando se admite tal hipótese. É que apenas quem pratica o ato deve ser por ele responsabilizado. E se o ato é da pessoa jurídica, por ela deve ser sustentado. Igualmente, o princípio da individualização da pena não resta ofendido, pois este diz respeito à sanção imposta às peculiaridades do condenado. Caso o 32 PRADO, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral, v.1, p. 151/ FILHO TOURINHO, Fernando da Costa. Processo Penal 2, p

13 condenado seja uma pessoa jurídica, terá de serem atendidas suas peculiaridades para tornar efetiva a pena imposta 34. Ainda, sustentam que não há desrespeito ao princípio da culpabilidade. Isso porque, o conceito de tal princípio não é humanístico e sim construído historicamente. Assim, a culpabilidade presente na atitude da pessoa jurídica surge da certeza de que culpa não é algo que se pode comprovar cientificamente e sim um conceito de natureza filosófica, que pode ser revisto de acordo com o fenômeno que se quer estudar 35. Assim, Ney de Barros Bello Filho e José Rubens Morato Leite entendem que à ideia de vontade não está limitada apenas ao ser humano, ou seja, a vontade poderia ser buscada no plano sociológico, como predisposição da pessoa física ou jurídica de praticar um fim. Neste sentido, a formação de vontade dentro da empresa caracteriza a vontade empresarial que sustenta a culpabilidade do ente moral frente aos seus atos praticados, eis que o conceito de vontade não seria adstrito às pessoas físicas. Segundo este entendimento, a pessoa coletiva é plenamente capaz de vontade, pois nasce e vive do encontro das vontades individuais dos seus membros. A vontade que a anima é coletiva, caracterizando-se em cada etapa de sua vida, pela reunião, deliberação, votação da Assembleia, de modo que essa vontade coletiva é capaz de cometer crimes tanto quanto a vontade individual. A culpabilidade deve ser vista como culpabilidade social, partindo-se do pressuposto que resta presente tal elemento, quando a pessoa jurídica deixa de cumprir a sua função esperada pelo ordenamento jurídico, a qual é exigível de todas as demais sociedades em igualdade de condições. Além disso, se a pessoa jurídica é passível de culpa na seara cível e administrativa, deve também ser na esfera criminal, vez que o ato é o mesmo e, por isso, a culpa necessariamente é a mesma 36. Paulo Affonso Leme Machado defende que o acolhimento da responsabilidade penal da pessoa jurídica na Lei n /98, mostra que houve atualização na percepção do papel das empresas no mundo contemporâneo. Isso porque, nas últimas décadas, a poluição, o desmatamento intensivo, a caça e a 34 LEITE, José Rubens Morato. BELLO FILHO, Ney de Barros. Direito Ambiental Contemporâneo. São Paulo: Manole, 2004, p LEITE, José Rubens Morato. BELLO FILHO, Ney de Barros. Direito Ambiental Contemporâneo, p LEITE, José Rubens Morato. BELLO FILHO, Ney de Barros. Direito Ambiental Contemporâneo, p. 158/

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