Pombal Diplomata em Londres e Viena de Áustria

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1 Pombal Diplomata em Londres e Viena de Áustria Carlos Jaca Publicado a 17, 24 e 31 de Maio e 7 de Junho de 2006 Desde os finais do passado mês de Março e prolongando-se até 14 de Dezembro (data de reconhecimento do Douro, Património Mundial da Humanidade), organismos públicos e privados têm promovido e continuam a promover vários eventos integrados nas comemorações do 250º aniversário da fundação da Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro. Como não podia deixar de ser, tem sido enaltecido o pioneirismo da iniciativa do Governo do Ministro de D. José ao criar a 1ª Região Demarcada do Mundo, já que só muito depois, em 1855, a região de Bordéus foi instituída. A essas comemorações, provavelmente, deverá associar-se o Diário do Minho, através do seu suplemento Cultura, em tempo considerado oportuno. Assim, por agora, o objectivo é divulgar alguns dados biográficos do futuro Marquês de Pombal que, em determinados aspectos, julgo desconhecidos da grande maioria, nomeadamente a sua estadia em Londres e Viena de Áustria e que terão concorrido para o guindar ao Poder e dominar o país durante 27 anos. Alguns dados biográficos. Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1699 e foi baptizado a 6 de Junho na freguesia de Nossa Senhora das Mercês, conforme consta dos Baptizados ( ), livro 2 B, fol. 80, existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo: «Aos seis de Junho de seiscentos e noventa e nove baptizei a Sebastião, filho de Manuel Carvalho e Ataíde, e de sua mulher D. Tereza Luiza de Mendonça: padrinho (avô paterno) Sebastião José de Carvalho e Mello o cura Luiz de Lima». Descendente dos Carvalhos de Sernancelhe, vila da Beira duriense, seu pai era fidalgo da Casa Real, capitão de cavalaria, e sua mãe pertencia à família dos morgados dos Olivais e de Souto de El Rei. Seriam esses Carvalhos da pequena nobreza empobrecida? Os detractores de Pombal dirão que os antepassados do futuro primeiro-ministro «não passaram de uma corja de litigantes, que traziam no sangue uma peçonha de inquietação e ambição insofrida», e mesmo no tempo em que já dominava toda a política da Nação, não faltavam «difamadores impressos» que tivessem inventado a existência, entre os seus Carlos Jaca 1

2 antepassados, de um padre, Sebastião da Mata Escura, amancebado no Brasil com uma negra chamada Marta Fernandes. Carvalho e Melo era encarado com imensa suspeita pelos grandes do Reino e rotulado como um misto de «plebeísmo e fidalguia postiça, homem rústico de hábitos populescos e tendências intelectuais sem brilho». Sendo assim, logo à partida, se verificava que Sebastião José não era portador dos predicados indispensáveis para se alcandorar a uma posição de relevo, de acordo com os padrões convencionais: falta de nobreza, um título sonante e quanto a pergaminhos, nenhuns ou discutidos. Por conseguinte, Carvalho e Melo não dispunha dos requisitos para poder servir ao rei num posto importante da administração, porque esta era em geral feudo da nobreza de quatro costados, a nobreza bacteriologicamente pura. Hoje, tem-se como certo que não pertenceu a seu avô e homónimo o senhorio e morgado dos Carvalhos, de que Pombal, para melhor reabilitar a família se apropriou em 1759, por morte do conde de Atouguia. Mais tarde, os seus inimigos chamar-lhe-iam «fidalgote da rua Formosa», para assim deslustrarem a ascendência do Secretário de Estado que não entroncava na alta linhagem. Os dados que se conhecem levam-nos a situá-lo na zona de franja que separa a burguesia da nobreza ou, talvez, mais exactamente, colocam-no de pleno direito entre a nobreza de toga, situação a que parecia não querer resignar-se queria pertencer ao mundo da nobreza de sangue. Embora não pertencesse à primeira nobreza do Reino, não tinha, contudo, a ascendência baixa que os seus inimigos, com propósitos de o rebaixar, fizeram circular. Entre os seus antepassados incluíam-se alcaides-mores, capitães do exército e da armada lentes da Universidade, desembargadores, médicos e eclesiásticos. Portanto, a família do poderoso ministro não era tão importante como poderia parecer pelo título, nem tão modesta como os inimigos dele nos pretendem fazer crer As honrarias só lhe foram concedidas em idade já madura, o título de Marquês de Pombal foi-lhe outorgado em 1769, quando tinha 71 anos de idade e, em 1759, tinha sido nomeado Conde de Oeiras. Sebastião José era o mais velho de doze irmãos, quatro dos quais morreram ainda jovens. As irmãs entraram para as ordens eclesiásticas. Geralmente, apenas são referidos os seus dois irmãos mais conhecidos: Francisco Xavier de Mendonça Furtado, que veio a ser Governador de Grão Pará e Maranhão e Secretário de Estado e o doutor Paulo António de Carvalho Carlos Jaca 2

3 Mendonça, Cónego da Sé Patriarcal e membro influente do Santo Ofício. Existia entre eles uma forte coesão. Os recursos financeiros e as propriedades eram geridas de acordo com o interesse comum, pois nem Francisco Xavier nem Paulo de Carvalho se casaram. Os três irmãos estão representados numa pintura, que junta os três e as respectivas armas no tecto do palácio de Oeiras. Tem por título «Concordia Fratrum», «uma representação alegórica que também serve para demonstrar que os três irmãos dominavam o Estado, a Igreja e o Império». Ignora-se onde teria feito os estudos menores, mas tudo leva a crer que foi no Convento franciscano de Nossa Senhora de Jesus, próximo do Solar dos Carvalhos e onde é, hoje, a sede da Academia das Ciências de Lisboa. Há quem afirme peremptoriamente ter Carvalho e Melo frequentado a Universidade de Coimbra, mas tal versão carece de fundamento e a verdade é que no arquivo da prestigiada Universidade não há registos de matrícula e de exame de um aluno com esse nome. E mais: parece de algum modo estranho, o facto de em 1772, quando da entrega dos Estatutos da Reforma Universitária Pombalina, Carvalho e Melo tivesse permanecido em Coimbra cerca de um mês (22 de Setembro a 24 de Outubro), como consta de um Diário manuscrito existente na Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, e não haja do próprio, ou de quem quer que seja, qualquer referência à sua passagem como escolar pela vetusta instituição. Com Coimbra ou sem Coimbra, pouco interessa ao caso. Sebastião José revelaria através da sua carreira uma cultura de nível bastante elevado, talvez superior à de muitos seus contemporâneos. No Palácio de Oeiras teve uma biblioteca de autores portugueses, espanhóis, franceses e alguns ingleses; obras de direito, história e clássicos. E parece não haver dúvida que tivesse espírito arejado, não contaminado pelo academismo do tempo, adquirindo pelo seu esforço de autodidacta uma sólida preparação basilar. No entanto, alguns autores portugueses sustentam que Pombal teria sido «um homem de visão intelectual estreita, leitor de poucas coisas, cultura cercada por preconceitos, e mais nada». Essa opinião é desmentida pelo que Pombal escreveu privada e oficialmente. Acrescente-se, ainda, que na casa da rua Formosa, entre 1717 e 1720, esteve sediada a Academia dos Ilustrados, sob o patrocínio do avô paterno, que se dedicava a dissertações de filosofia e literatura, sendo provável que o jovem Sebastião José estivesse algumas vezes presente nas reuniões periódicas do pequeno grémio. Os seus princípios de vida não foram fáceis. Por volta dos vinte anos de idade, e no espaço de alguns meses, a morte ceifou-lhe o avô paterno, o pai e a avó materna. O Arcipreste Paulo de Carvalho tornava-se agora o sustentáculo da mãe, da cunhada e dos sobrinhos. Carlos Jaca 3

4 Aos vinte e três anos casava com uma senhora muito mais velha, tinha trinta e cinco anos, viúva de um sobrinho, D. Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, pertencente ao primeiro estrato da nobreza. Possuidora de muitos bens e sobrinha do 5º Conde dos Arcos, era dama da Rainha D. Maria Ana de Áustria (esposa de D. João V) dispondo, por conseguinte, de valimento cortesão, pelo que representava um bom partido para Carvalho e Melo. A família de D. Teresa de Noronha não deu o acordo, sendo versão corrente que Sebastião José a raptou do palácio dos Almadas e casou com ela por procuração, a 23 de Janeiro de 1723, levando depois a esposa para o «campo do Mondego». Há quem pretenda localizar a estadia do casal, durante este período, na Quinta da Capa Rota, integrada no lugar de Casconho, na vila de Soure. Já depois da sua queda do Governo, e com residência fixa em Pombal, escrevia daqui da vila, a seu filho Henrique, em Junho de 1777: «Quando estive nestas terras morador, com mais gosto daquele que hoje tenho». Ora, esta declaração parece suficientemente elucidativa para situar a estadia do futuro Conde de Oeiras, na Quinta da Gramela, próxima a Pombal, e que pertencia a Gaspar da Costa Ataíde, ainda familiar dos Carvalhos da Rua Formosa. Sebastião José afeiçoou-se de tal modo à Gramela que, antes de partir para Viena como embaixador, procurou obter a quota por compra ou doação, conseguindo que uma provisão régia de 24 de Fevereiro de 1744 (e que consta do tombo da propriedade) lhe concedesse o senhorio da referida quinta e as suas pertenças. Carvalho e Melo tinha em tal consideração o título de Senhor do território da Gramela, que em 1745, em Viena de Áustria, o vai invocar no contrato de casamento com a Condessa de Daun. Passados que foram sete anos, com o duplo aproveitamento agrícola e literário, volta Sebastião de Carvalho ao convívio da sua família da Rua Formosa, iniciando os esforços para a conquista de uma posição. Ao regressar a Lisboa, Carvalho e Melo volta a participar na vida literária, reunindo-se com muitos dos antigos membros da Academia dos Ilustrados, tendo sido patrono da pequena e renascida tertúlia e transportando consigo «um bom cabedal de erudição, formado na calma do viver campestre». Em 24 de Outubro de 1733, na presença de D. João V, é recebido na Academia Real da História como sócio de número. Ainda sem obra histórica, pode admitir-se que dons de ilustração e de convívio lhe tivessem proporcionado a distinção. Barbosa Machado ( Biblioteca Lusitana ) atribui tal distinção ao facto de Pombal «ser ordenado de notícias enciclopédicas», não sendo, porém, de rejeitar algumas influências de seu tio Paulo de Carvalho e Ataíde, lente da Carlos Jaca 4

5 Universidade, Cónego da Sé Patriarcal de Lisboa, homem bem relacionado nas altas esferas do Poder. Foi aqui na Real Academia, que Carvalho e Melo começou a tornar-se conhecido, com uma comunicação sobre o panegírico do 5º Conde da Ericeira, 1º Marquês do Louriçal, notável vice rei da Índia. Aproxima-se dos quarenta anos quando conseguiu que lhe fosse confiada a primeira missão pública, iniciando-se a sua trajectória política pela carreira diplomática exercida em Londres e Viena de Áustria, entre 1738 e Tão extensa quanto polémica, a bibliografia sobre Sebastião José de Carvalho e Melo tem-se circunscrito praticamente à análise do período em que foi ministro de D. José. Mas o que geralmente se desconhece, creio, é que o futuro Marquês de Pombal(1) protagonizou uma acção diplomática anterior acerca da qual as informações são, na realidade, muito escassas. Obviamente, também neste aspecto os juízos formulados não deixam de ser controversos, tal como o período em que esteve à cabeça da administração do País. E nada há de estranho nisso, se considerarmos Pombal como uma das figuras mais polémicas, senão a mais polémica, de toda a História de Portugal e até talvez da história sua contemporânea. Se bem que não exista ainda um perfeito conhecimento da sua presença nas cortes de Londres e Viena, terá de rejeitar-se, por inconsistente, a opinião do Prof. Jorge Borges de Macedo quando sustenta que «a missão não o prestigiou e não parece que o tenha preparado em espírito crítico ou capacidade de organização», acrescentando, mesmo, que a biblioteca de Carvalho e Melo não é muito elucidativa e é preciso provar que foi lida. Completamente oposta, e bem fundamentada, é a opinião do Prof. J. S. da Silva Dias, cuja competência no campo da investigação é de há muito justamente reconhecida. Diz o ilustre investigador que o diplomata português apesar de absorvido pelas missões profissionais no estrangeiro, conseguiu «lazeres para voos mais amplos, em termos de formação para se realizar como político E ainda: o catálogo da biblioteca pessoal constituída em Londres revela-nos um conjunto de obras que «não foram adquiridas como ornamento residencial. Carvalho utilizou frequentemente o seu magistério, e cita-as ou alega-as, de maneira directa ou indirecta, em vários dos seus relatórios, representações ou pareceres, ilustrando com elas a sua doutrina ou reforçando os seus argumentos». Carlos Jaca 5

6 Atendendo às circunstâncias em que actuou, a acção diplomática de Pombal não pode considerar-se pior do que a dos seus predecessores, e há mesmo quem a considere lisonjeira dados os difíceis e até insuperáveis obstáculos que se lhe depararam. Nota: (1) Embora só em 1769 tivesse sido atribuído a Carvalho e Melo o título de Marquês de Pombal, o uso enraizado dessa nomenclatura para o referir, permite utilizá-la mesmo para situações anteriores à atribuição do celebrizado título. Pombal diplomata: apoios recebidos. A trajectória política de Carvalho e Melo iniciou-se pela carreira diplomática em 1738, com a missão de enviado extraordinário a Inglaterra. Houve quem ficasse surpreendido e até... despeitado (outros terão sido preteridos), pela nomeação de Pombal para um lugar que era dos mais difíceis, mas simultaneamente, dos mais honrosos da vida pública portuguesa. Haja em conta que uma boa posição na diplomacia funcionava, por via de regra, como trampolim para alcançar o Poder, sendo certo que alguns embaixadores atingiram a elevada posição de titular dos Negócios Estrangeiros; e daí a primeiro-ministro era uma questão de... oportunidade. Efectivamente, Londres era ponto de singular importância política para Portugal e, como era habitual, D. João V despachava para os mais importantes postos diplomáticos, quase sempre, fidalgos de título sonante, o que não era na circunstância o caso de Sebastião de Carvalho. Ora, por volta desse ano de 1738, Carvalho e Melo não tinha pergaminhos de nobreza, diplomas universitários, memórias históricas publicadas ou quaisquer outros serviços prestados. Como explicar que um «fidalgote» obscuro ou um «plebeu com fumaças de nobreza» e sem qualquer experiência no estrangeiro, surgisse imprevistamente representante de Portugal na cidade do Tamisa? Não parece crível que D. João V estivesse a dar pouca importância à missão diplomática portuguesa na Inglaterra. Teria sido a sua escolha consequência de alguma indicação feita por burgueses ricos de Lisboa, com larga influência na Corte? Carlos Jaca 6

7 O mais provável é que a escolha se prenda à luta das «camarilhas» em torno de D. João V, e que Sebastião José estivesse bem ligado ao grupo que integrava o Cardeal D. João da Mota e Silva, Padre João Baptista Carbone e Marco António de Azevedo Coutinho; a «clique» ligada à rainha era chefiada pelo jesuíta José Ritter (austríaco, confessor de D. Maria Ana), com quem Pombal mantinha excelentes relações. O facto é que Carvalho e Melo iria suceder na embaixada de Londres a Marco António de Azevedo Coutinho, chamado a Lisboa para ocupar a Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Apadrinhamento poderoso foi o que foi, ou deve ter sido. Pombal teria sido ajudado e lançado na carreira diplomática, muito provavelmente, pela indicação de seu tio Paulo de Carvalho e Ataíde, lente da Universidade e que o deve ter apresentado e recomendado com interesse ao Cardeal D. João da Mota, então primeiro-ministro de D. João V. Homem de destaque e com certa influência na Corte, gozava de audiência junto de Frei Gaspar da Encarnação, antigo reitor da Universidade de Coimbra e homem de bom conselho junto de D. João V. Assim, dentro deste quadro, não seria difícil a Paulo de Carvalho mover influências nas altas esferas e colocar o sobrinho junto da Corte de S. James. Outra circunstância que terá contribuído para acelerar o processo de nomeação, pode ter sido a reforma que se verificou nas secretarias de Estado, em 1736, o que implicou o chamamento de diplomatas para os cargos de governo e, ainda, o falecimento de António Guedes Pereira, secretário dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Esta mexida a nível de governo, acabou por favorecer Pombal, permitindo que o primeiro-ministro, D. João da Mota, aproveitasse a oportunidade para investir o sobrinho do seu amigo Paulo de Carvalho como enviado extraordinário em Londres. Os anos de Londres: observação e adaptação. Embora a nomeação estivesse preparada desde meados de 1737, Carvalho e Meio só deixou Lisboa a 8 de Outubro do ano seguinte, a bordo da nau inglesa «King of Portugal», vindo a desembarcar em Londres no dia 19 onde o aguardava o primo e antecessor Marco António de Azevedo Coutinho. Como relata a «Gazeta de França», só a 29 de Novembro é recebido em solene e pública audiência pelo Rei Jorge II, o que quer dizer que não assumiu o lugar imediatamente após a chegada. Marco António permaneceu em Londres até Junho de 1739, sob pretexto de resolver Carlos Jaca 7

8 situações pendentes, mas na realidade o que ele pretendia era orientar o primo, homem sem percurso diplomático e por consequência inexperiente nos assuntos com que iria lidar na Inglaterra industriando-o nas subtilezas e dificuldades da política internacional. Essa ajuda foi incontestavelmente proveitosa e até decisiva para nortear a enviatura londrina de Carvalho e Melo, como se pode inferir pela leitura de uma carta, datada de Viena de Áustria, que oito anos depois dirigia a Marco António testemunhando-lhe a sua gratidão pela aprendizagem diplomática que fizera em Londres sob a sua orientação. Transbordando em agradecimentos ao seu amigo e conselheiro diz, textualmente: «Alumiado pelos exemplos e instruções de V. Ex., fiz o meu noviciado, e prossegui depois d'elle o meu ministério em Londres.» Durante cerca de oito meses, Azevedo Coutinho funcionando como mentor do novo enviado, ensinara-lhe tudo o que pudera e considerara essencial. Mais tarde, os factos subsequentes vieram demonstrar que o discípulo aproveitara bem as lições do mestre, assimilando rapidamente os segredos e os processos da diplomacia, ao menos no que toca à Corte de S. James. Aprender e observar constituíram, sem dúvida, os aspectos fundamentais do programa de acção de um homem que em experiência diplomática partia do ponto zero. Justamente por isso, «procurou interpretar bem a psicologia inglesa, bem como a maneira por que a Inglaterra defendia os seus interesses na órbita internacional. As informações de Carvalho e Melo denotam dedicação escrupulosa ao fenómeno económico britânico. Por isso mesmo, as suas informações à Corte a respeito da economia inglesa são altamente interessantes, revelando personalidade e observação. Sabendo dos inimigos que deixara em Lisboa, Carvalho e Melo porfiava em impor-se, brilhar, sobressairse num extraordinário esforço de superação de personalidade. A sua missão diplomática adquiria aos seus olhos um carácter excepcional». A passagem diplomática de Carvalho por Londres podia ser uma cartada de vida ou de morte, um momento decisivo e único, já que uma acção meritória no desempenho da sua missão projectar-se-ia, certamente, no seu futuro político, concedendo-lhe mais cedo ou mais tarde o estatuto de ministeriável. Bastava, pois, que Carvalho e Melo alcançasse uma certa reputação na sua enviatura para que, mais tarde, o capricho do monarca ou o favor dos protectores, o chamasse na primeira Carlos Jaca 8

9 vacatura ao tão desejado posto de conselheiro e ministro do rei. Sebastião José sentiu, desde logo, a importância da missão que lhe fora confiada, assim como o valor das lições que diariamente aprendia em contacto com as realidades britânicas. No seu posto de Londres teria de lidar com problemas políticos, económicos e comerciais, mas ao mesmo tempo a Inglaterra constituía um magnífico campo nessa área para adquirir a experiência que mais tarde tanto viria a influir na sua passagem pela administração «Josefina». Espírito sedento de novas ideias, depressa se adaptou a um ambiente totalmente diverso que era a sociedade culta, inteligente, progressiva e liberal britânica contrastante com o obscurantismo e rotina peninsular. Tudo pretendia ver e observar: «As sessões do Parlamento em que se discutia a política internacional e onde, por vezes, se ditava o destino dos outros povos; a laboração das fábricas que exportavam para todas as colónias e para tantos países, cuja economia, como a nossa, dependia da Inglaterra: os hábitos e a estrutura da aristocracia britânica, que ainda guardava tanta energia da nobreza medieval e que, sem perder uma perfeita distinção de maneiras se ia adaptando às novas condições de existência; os organismos que regulavam o comércio e a indústria. Tentava surpreender o segredo do êxito inglês. Tudo anotava, tudo analisava miudamente e, sobre as suas observações, elaborava extensos relatórios para o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e para o Rei D. João V, já velho e doente, que os afastava da vista enfadado, pois nunca mostrara interesse por outros negócios que não fossem os do ouro e os dos diamantes do Brasil e alguns amores mais ou menos clandestinos. Mas, se os relatórios não aproveitavam, nesse melindroso momento histórico, aos homens do governo, aproveitavam-lhe a ele, particularmente, apetrechando-o para a gerência dos negócios do Estado com uma bagagem tão rica como nunca, até então, secretário ou ministro algum possuíram em Portugal. Além da vida inglesa, podia observar, do seu magnífico posto de Londres, toda a política da Europa, que ali tinha o seu eco mais puro e mais nítido. E tudo lhe servia de lição». Dificuldades e objectivos da embaixada londrina. Não poderiam ser mais difíceis os primeiros passos de Carvalho e Melo ao chegar à legação portuguesa de Golden Square. Para além de não possuir um pomposo título de nobreza que sobre si chamasse a atenção da fidalguia britânica, Carvalho e Melo representava um país Carlos Jaca 9

10 que muito decaíra e ao qual apenas o ouro e os diamantes do Brasil iam dando algum prestígio internacional. Efectivamente, a época desta embaixada foi uma das mais agitadas na história política da Europa, com a Inglaterra e a França, as duas maiores potências de então, em constante rivalidade, colocando a Portugal as maiores dificuldades e envolvendo-o, inequivocamente, em situações de alto risco. Pombal não deixaria de acompanhar, a par e passo, as questões que se debatiam acerca da política mundial, informando a Corte de Lisboa, «com toda a individuação, das sessões do Parlamento, das intrigas da diplomacia, dos movimentos de tropas, do aparelhar das esquadras, e até das anedotas correntes no paço e nas embaixadas». Essa fase agitadíssima em que a trama dos acontecimentos lançaria Portugal, para o tabuleiro do xadrez político europeu, iria pôr à prova o altíssimo tacto diplomático de Carvalho e Melo. A missão, segundo ele próprio o deixou escrito, tinha por assuntos principais «Inquirir as causas, pelas quais era activo e opulento o comércio dos estrangeiros em Portugal, e passivo e miserável o dos nossos nacionais; ocorrer à desigualdade, com que eram tratados em Londres os portugueses em câmbio dos amplos e valiosos privilégios, que fruíram os ingleses em Portugal; pôr um termo às insolências cometidas em nossos portos pelos comandantes dos navios de guerra da Grã Bretanha». Concretamente, a matéria diplomática com que o representante português teria de se haver em Londres incluía dois objectivos específicos: conseguir uma solução favorável para Portugal no contencioso anglo luso respeitante ao comércio e navegação e apreender, na própria Albion, os métodos e meios adequados relativamente a estes dois sectores, no sentido da implantação de uma política nacional de desenvolvimento. O referido contencioso agravara-se particularmente durante a última fase do reinado de D. João V e, tanto o Cardeal da Mota, como Alexandre de Gusmão e Marco António de Azevedo Coutinho, reconheciam a necessidade imperiosa de se conseguir uma plataforma de entendimento. Porém, a astúcia do duque de Newcastle, então secretário de Estado do Departamento Meridional, e a convicção generalizada entre os ingleses de que Portugal seria um aliado facilmente manobrável bloquearam praticamente as negociações, circunscrevendo-se às questões pontuais. Mesmo assim, o decorrer dos contactos depressa veio demonstrar que o Foreign Office não dava mostras de abertura para considerar Carlos Jaca 10

11 como justas as nossas reclamações. Ao mesmo tempo que vão decorrendo longas conversações com Newcastle e outros ministros, Pombal aplica-se assiduamente a estudar tudo quanto se referia à Grã-bretanha e, muito especialmente, no que dizia respeito aos mecanismos do seu poderio económico. Debruçava-se sobre Montesquieu e os jusnaturalistas, documentava-se com os novos historiadores e os novos economistas, dialogava com políticos, funcionários e empresários e, «meditando sobre a sua experiência pessoal de diplomata descobriu, com uma lucidez impressionante, em menos de dois anos, o porquê da prosperidade inglesa e o onde do verdadeiro contencioso entre Portugal com a Inglaterra». Apoio militar para a Índia. O primeiro problema que lhe cabia resolver com o Gabinete de S. James e, na sequência das negociações iniciadas pelo seu, antecessor, dizia respeito ao Estado Português da Índia: obter socorro militar do rei Jorge II para reconquista da ilha de Salsete, situada perto de Bombaim, onde os Maratas invasores tinham posto em apertada situação as forças portuguesas. A própria Bombaim fora colónia de Portugal, mas havia sido cedida à Inglaterra no dote de D. Catarina de Bragança e, posteriormente, alugada à Companhia das Índias. A ilha de Salsete estava constantemente sujeita ao ataque dos Maratas do continente, e o governo português instruíra o seu enviado em Londres para obter auxílio dos ingleses. Instalados ali desde Abril de 1737, depois de forte arremetida que o governador D. Pedro de Mascarenhas não conseguira rechaçar, os Maratas constituíam nessa posição um perigo latente para as praças de Chaúl e Baçaim, sobretudo esta última considerada uma rival de Goa pela grandeza urbana e valor comercial. Nesta emergência, o governo português invocando a secular aliança procurava obter o apoio militar da Inglaterra, só que os esforços desenvolvidos por Carvalho encontraram a mais viva oposição. Por esta altura estava, em pleno crescimento a Companhia das Índias Ocidentais, sediada em Baçaim, e que em face das nossas pretensões adoptou um comportamento estranho ou... talvez não! O primeiro-ministro britânico, Sir Robert Walpole, ao receber as representações portuguesas sondou a City e pediu à Companhia das Índias a sua opinião naquele assunto, o que de facto veio a suceder com o envio de um memorando ao duque de Newcastle. Esse memorando foi enviado à nossa legação e nele se revelava a existência de arrastadas disputas entre as Carlos Jaca 11

12 feitorias inglesa e portuguesa de Bombaim e Salsete. A resposta de Pombal ao memorando salientava a necessidade de uma colaboração recíproca no Oriente, e informava que pedira esclarecimento a Lisboa sobre as queixas apresentadas. Em conclusão, poderá dizer-se que o ministro Walpole ia protelando a resposta dando tempo a que os britânicos consolidassem os seus espaços de comércio, pois o «declínio comercial dos portugueses servia plenamente os interesses da Companhia de Bombaim, desejosa de obter para a Inglaterra posições chave, como Baçaim e Chaúl, que faziam parte do nosso Império Oriental». O Governo de Jorge II alegava que para nos conceder o auxílio de tropas era indispensável a anuência da Companhia das Índias, enquanto que esta, por sua vez, ia evocando pretextos em série para não permitir a colaboração britânica. Ao Enviado português, que estava atento e suficientemente envolvido na trama dos acontecimentos, parece não lhe ter sido difícil detectar os motivos porque a garantia da ajuda inglesa permanecesse em situação de impasse: a Companhia recearia a possível oportunidade de contrabando que seria proporcionada aos navios de guerra participantes na expedição, para além de que a animosidade dos indígenas servia com vantagem os desígnios da referida Companhia, na esperança de que os portugueses viessem a ser definitivamente expulsos da Índia. «A estas razões dizia Carvalho, ajunta força incontestável a grande dependência que Roberto Walpole tem daquela Companhia e a condescendência com que obra pelos seus ditames». Paralelamente, em Lisboa o Governo português fizera diligências junto do embaixador Tirawley, diligências essas que não tiveram melhor sucesso do que as do nosso representante em Londres, embora este fosse sempre enérgico na sua argumentação como se conclui da sua correspondência sobre o assunto. Como a situação de impasse se mantivesse D. João V viu-se obrigado, em Abril de 1740, a enviar para o Oriente o 1º Marquês do Louriçal e que durante os anos de período em que foi vice-rei, conseguiu alguns êxitos militares sobre os Maratas, tendo ficado o caso resolvido, por então Situação de Portugal perante a Espanha e a Inglaterra: a Colónia de Sacramento. A guerra que por volta de 1738 estoirou entre a Espanha e a Inglaterra criava a Portugal uma posição difícil, apesar da política intransigente de D. João V em manter-se neutro. Carlos Jaca 12

13 O conflito aberto com a Espanha prejudicava a navegação desta com Portugal, porquanto navios de guerra britânicos apresavam navios mercantes espanhóis em águas nacionais, criando situações que se repercutiam na política externa de D. João V. Pombal recebia instruções para protestar contra a violação de neutralidade mas, ainda que o fizesse com energia, o governo de Madrid não deixava de apresentar protestos a Lisboa, de modo que as relações entre as duas cortes peninsulares iam esfriando. O representante português fora informado de que os ingleses pretendiam assaltar domínios espanhóis na América do Sul, parecendo sua intenção apossar-se de Buenos Aires, vizinha da nossa colónia de Sacramento, e estabelecendo-se definitivamente nas margens do rio da Prata. As pretensões da Inglaterra aos territórios do Prata alarmaram a Espanha e, apesar de nossa velha aliada, também com justa razão a sua presença nas proximidades de Sacramento causava sérias apreensões a Portugal. A colónia de Sacramento, à beira do Prata e frente a Buenos Aires, constituía desde a sua fundação em 1678, um foco gerador de hostilidade constante com a Espanha, tendo sido retomada e restituída diversas vezes pelas forças castelhanas. Perdida, uma vez mais foi restituída ao senhorio português em1713 por disposição do Tratado de Utrech. A rivalidade entre os dois povos peninsulares nesta região da América devia-se ao facto da colónia gozar de notável prosperidade, proveniente do contrabando que se fazia para o interior dos domínios de el-rei de Espanha. A fim de conseguir a posse efectiva do território, cujo fundamento assentava em convenções anteriores, o Gabinete de Lisboa desenvolvia infatigável actividade negociando, em simultâneo, com Paris, Londres e Madrid. Ao mesmo tempo que pretendia atrair para a sua roda o Cardeal Fleury com as vantagens de um tratado comercial, dava a entender ao Governo de Jorge II a possibilidade de uma aliança com a França e a Espanha o que constituiria séria ameaça, já que a sua concretização implicava para as esquadras britânicas a perda de uma base indispensável de apoio na Península Ibérica. Ora, D. João V desejava não só conservar Sacramento, mas também recuperar territórios adjacentes à colónia que os espanhóis nos tinham arrebatado nessa zona, sem contudo chegar a um conflito armado que, a consumar-se, seria sempre de consequências imprevisíveis. O Gabinete britânico pressionava Portugal a envolver-se na contenda acenando-lhe com a possibilidade de vir a recolher vantagens na América, só que essas vantagens nem de longe nem Carlos Jaca 13

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