Comunicação LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO DE IMAGENS EM MÍDIAS DIGITAIS - ESPAÇO DE (RE)SIGNIFICAÇÃO DO OLHAR POR VIA DE IMAGENS TÉCNICAS

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1 Comunicação LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO DE IMAGENS EM MÍDIAS DIGITAIS - ESPAÇO DE (RE)SIGNIFICAÇÃO DO OLHAR POR VIA DE IMAGENS TÉCNICAS SANTOS, Noeli Batista dos 1 Palavras-chave: imagem, ensino, tecnologia. RESUMO O curso Laboratório de Criação de Imagens em Mídias Digitais nasceu com o propósito de discutir os diferentes espaços que as imagens técnicas ocupam em nossa contemporaneidade. Uma das propostas do curso ministrado no Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte no primeiro semestre do ano de 2007, foi de propor a (re)significação das imagens técnicas por via da sensibilização do olhar e processos de criação artística. O Ciranda da Arte configura-se em um espaço de formação continuada para professores da Rede Estadual de Ensino de Goiás, portanto, além dos processos citados, o olhar pedagógico foi somado às reflexões do grupo. A falta de familiaridade pela maioria dos cursistas com as chamadas novas tecnologias, com o universo de reflexão via imagem ou com processos de criação agregou à proposta um caráter de ateliê pensante e muitas vezes virtual. Neste espaço não apenas o fazer artístico, mas também a reflexão à cerca deste fazer estiveram presentes. Os conteúdos abordados neste processo trataram de questões referentes a conceitos de imagem, imagem técnica e aparelho tecnológico; leitura e análise de imagens; metodologia de projeto; processos de Criação técnica e poética e experimentação em processos de fotografia digital, scaneamento, reprografia, filmagem, softwares de edição e manipulação de imagem. O recorte proposto a ser apresentado nesta comunicação é o relato da construção reflexiva de um vídeo produzido por um grupo de professores integrantes do curso, já popularmente chamado de mídias. A escolha da temática abordada, bem como o processo de criação e reflexão nasceu com base em reflexões teóricas de textos de Vilém Flusser e Martine Joly. O processo de criação foi delineado pela metodologia de projeto do designer italiano Bruno Munari exposta em seu livro Das Coisas Nascem Coisas. Neste contexto, nasceu o vídeo Corpo: construção e desconstrução. O processo de escolha do tema partiu de um levantamento de possibilidades levantadas pelo grupo. Questões pessoais pesaram na escolha das propostas. A preocupação era discutir o corpo no sentido não apenas biológico, mas também social. Um corpo que se educa, um corpo que a cada momento é construído e reconstruído seja por ações internas ou externas. Neste processo, cada educador também produtor, artista, crítico, expectador encontrou nestes espaços (concretos e virtuais) de aprendizagem a possibilidade de também ser autor no processo de (re)significação do olhar por via das imagens, em específico, das imagens técnicas. 1 Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte

2 PRIMEIROS CONTATOS O curso foi iniciado com turmas em dois horários, vespertino e noturno (possibilidade de escolha para adequação aos possíveis interessados). O primeiro contato seguiu-se com uma conversa informal falando sobre o porquê da escolha do curso e sobre as expectativas de cada um. Como primeira atividade, foi apresentado o filme Janelas da Alma. Após a sessão do filme, discutiu-se a respeito das diversas questões que apresentadas no documentário. Para conhecer mais a respeito dos alunos, foi elaborado um questionário abordando as motivações de cada uma a respeito da escolha pela proposta do curso. Através do questionário foi possível delinear o perfil de cada uma das turmas. Na pergunta relativa à qual ou quais motivos influenciaram a escolha por este curso? 99% das respostas relacionaram o curso à oportunidade de aprender a desenvolver novas possibilidades de trabalho pedagógico, melhoria da prática entre outras de mesmo significado. Dentre os quinze integrantes, apenas um relatou ter buscado o curso pelo que segundo ele seria esclarecimento pessoal de outros horizontes artísticos. O grupo do vespertino foi integrado por professores regentes graduados nas seguintes áreas, Artes Visuais/Matemática, História, Física (perito em acidente de trânsito), Educação Física (sendo que um dos professores é arbitro de futebol), Ciências Biológicas, Administração de Empresas/Pedagogia/Matemática (pósgraduação em Planejamento Educacional) e Pedagogia. As barras indicam mais de uma graduação para o mesmo professor. No momento, dois integrantes deste grupo exerciam cargos administrativos e apenas três integrantes leciovam a disciplina de arte (apenas um é graduado na área). O grupo noturno foi integrado por professores regentes graduados nas seguintes áreas: Assistente Social/Letras (pós-graduação em Língua Portuguesa), Geografia, História, Licenciatura em Artes Visuais, Pedagogia, Artes Visuais /Geografia/História (pós-graduação em Arteterapia e Educação Infantil). Dentre os cinco professores, apenas o geógrafo (justamente o que buscou o curso para esclarecimento pessoal de outros horizontes artísticos.) não leciona a disciplina de Arte. Na aula seguinte foi feita a leitura do texto Imagem, Imagem Técnica e o Aparelho do livro Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da

3 fotografia de Flusser. As turmas foram divididas em grupos de estudo e cada grupo ao fazer a leitura anotava questões significativas a respeito do tema. Após a leitura, cada grupo apresentou aos demais integrantes questões consideradas relevantes para o estudo. Dentre as questões que chamaram atenção do grupo, destacaram-se o advento da fotografia, a dualidade a respeito da compreensão de imagens técnicas como realidades absolutas, a questão da quarta dimensão ou dimensão tempo e espaço presente na imagem, à questão da máquina como mediadora do olhar e sobre o controle na construção de imagens. Além de uma ponte de primeiro contato, o documentário Janelas da Alma foi de grande apoio nas discussões que seguiram a cerca dos textos estudados. O exemplo do fotógrafo cego que produz imagens a partir de uma câmera fotográfica foi marcante para o grupo. Os debates que seguiram tornaram-se motivados por exemplos vivenciados pelos próprios alunos. Na questão da quarta dimensão presente na imagem, um professor contou da sua decepção de quando ainda no ginásio, ao estudar sobre o Egito Antigo, percebeu que no canto da fotografia que ilustrava o texto havia um caminhão. Segundo ele a magia da imagem foi quebrada naquele instante. Outros exemplos entraram para a discussão, em sua maioria imagens publicitárias. Discutiu-se a respeito de como estas imagens são vendidas como realidades e sobre como compramos e incorporamos tais realidades. Nesta etapa de estudo também foi abordada discussões sobre mensagens subliminares embutidas em imagens publicitárias. Na aula seguinte, seguiu-se com o estudo do texto Arte-mídia: novos enfoques, novas possibilidades e características da produção artísticas, parte integrante do CADERNO Nº. 11. II Fórum de Debates do Prêmio Cultural Sergio Motta. O texto dá uma perspectiva histórica de como as Artes Visuais foram incorporando recursos tecnológicos em sua produção. O uso de vocabulário especifico, tal como instalação ou performance exigiu que a todo instante fossem feitas pontuações no sentido de esclarecer os significados de tais termos. A escolha por um texto em que artistas expõem suas dificuldades e facilidades nas escolhas por desenvolver um trabalho de criação utilizando a máquina como mediadora seja fisicamente, seja virtualmente foi de grande ajuda para a compreensão de tais conceitos.

4 Pensando nas questões que o texto traria, considerando a máquina ora suporte de criação e manipulação de imagens, ora suporte de exposição, foi feito um levantamento de imagens de artistas contemporâneos que trabalham a imagem técnica por uma destas propostas criação ou exposição (o que acabou tornandose uma recriação) para serem apresentadas ao grupo. No decorrer da aula de exposição das imagens, diálogos a respeito dos usos tecnológicos e dos processos de construção das imagens foram propostos, com especial atenção ao vocabulário específico e às temáticas desenvolvidas. Para muitos integrantes do grupo este foi o primeiro contato com obras de artistas contemporâneos. Como muitas das imagens projetadas estiveram presentes em exposições do Salão Nacional de Arte Contemporânea do Estado de Goiás (que aconteceu durante cinco anos ininterruptos, sempre nos mês de julho no Shopping Flamboyant na cidade de Goiânia), alguns integrantes comentaram sobre as impressões do olhar ao vivo, e sobre as impressões de observar via outro suporte, no caso, data show. Considerando que neste momento o grupo estaria consciente a cerca de conceitos de imagens e das possibilidades comunicativas das mesmas, foi proposto um levantamento de recursos digitais que pudessem servir como instrumento de criação de imagens. A busca neste processo foi encontrar um caminho para não sugestionar a técnica ou recursos para a construção do projeto proposto, tendo em vista que cada projeto teria suas necessidades de recursos de construção e exposição. Na aula seguinte, foi apresentada a metodologia de projeto do designer italiano Bruno Munari. A intenção foi através do uso da metodologia possibilitar que os professores integrantes do grupo vivenciassem o processo de criação, partindo da escolha do tema até a solução do problema pré definido ao inicio do processo. A partir deste momento, o curso subdividiu-se naturalmente em dois caminhos: o projeto do vespertino e o projeto do noturno. Na medida em que as discussões teóricas avançaram, a proposta de desenvolvimento de projeto foi ganhando corpo. O grupo do vespertino optou por desenvolver o trabalho dentro da temática Educação: que ponte é essa? e o grupo do noturno optou por desenvolver o trabalho dentro da temática Corpo: construção e desconstrução. A escolha pelos temas, a princípio partiu da motivação individual de integrantes dos grupos que na busca por encontrarem uma temática em comum,

5 foram expondo através de um brainstorm (tempestade de idéias) os assuntos ou temáticas que se relacionavam. Após análises e conversações sobre os temas expostos foi iniciado o desenvolvimento da metodologia de projeto do designer Bruno Munari. PROJETOS DE CRIAÇÃO / EXPERIMENTAÇÃO A partir da abordagem da metodologia de criação, os dois grupos vespertino e noturno caminharam em sentidos distintos. Neste momento, dois cursos foram sendo delineados. Até o momento os grupos seguiram por um caminho delimitado por textos e imagens. O início do processo de criação marcou também as delimitações de identidades e núcleos de interesse. Em um ponto os grupos foram unânimes. Ao serem questionados sobre a natureza das imagens que iriam produzir, responderam: imagem em movimento. Queremos um filme.. Questões no processo proposto que à princípio foram consideradas obscuras, a partir do desenvolvimento da metodologia de projeto ganhou visibilidade. Para eles era inconcebível que não fosse definido desde o princípio qual seria o trabalho e como este seria desenvolvido. Na medida em que os encontros foram acontecendo, as expectativas a respeito do que e sobre o como fazer foram perdendo espaço para as reflexões a cerca dos temas e imagens a serem trabalhadas. Após a apresentação da metodologia de projeto, seguiu-se o momento da definição e escolha do tema. O problema já estava definido: construir uma narrativa visual a respeito de um tema a ser definido pelo grupo. Tal narrativa deveria ser constituída por imagens em movimento. Como o projeto seria desenvolvido em grupo, o tema necessitaria de ser conseqüência de uma escolha unânime: sobre que tema vocês gostariam de desenvolver um projeto de criação artística? CORPO: CONSTRUÇÃO E DESCONSTRUÇÃO O processo de escolha do tema do grupo do noturno partiu de um levantamento de possibilidades levantadas pelo grupo. Questões pessoais e trabalhos anteriores pesaram na escolha das propostas. A preocupação era discutir o corpo no sentido não apenas biológico, mas também social. Um corpo que se

6 educa, um corpo que a cada momento é construído e reconstruído seja por ações internas ou externas. Após a definição da temática de trabalho, o grupo passou para a fase da coleta de dados. Na aula agendada para que o grupo apresentasse as imagens coletadas, apenas um integrante cumpriu com a atividade. As imagens coletadas apresentavam corpos em anúncios publicitários. Diferentes propostas de venda, para diferentes produtos. As imagens foram selecionadas partindo das que mais se aproximavam conceitualmente do discurso proposto pelo grupo, corpos em construção e desconstrução. O interessante é que no decorrer da análise das imagens, outras imagens lembranças foram sendo acionadas e associadas. O grupo ficou responsável em trazer para o próximo encontro as imagens sugeridas pela análise dos anúncios publicitários. As idéias e propostas de criação sugeridas solicitavam dos integrantes do próprio grupo a imersão no desenvolvimento do trabalho, não apenas como produtores de narrativas visuais, mas também como atores neste processo. Neste contexto, dinâmicas foram sugeridas para delinear propostas de criação artística e experimentação de equipamentos. O grupo nas aulas que se seguiram passou a desenvolver propostas de criação que ilustrassem os conceitos levantados por via das discussões e das análises imagéticas. Este grupo trabalhou com dois processos de registro, a câmera filmadora e a fotografia. Após cada aula, novas análises somaram-se na busca por um caminho mais próximo conceitualmente do que havia sido definido. Interessante foi que neste processo diferentes imagens passaram a dialogar com a proposta do grupo. Desde referências visuais de artistas renascentistas a textos que invocavam imagens, como exemplo, o poema Elefante de Carlos Drummond de Andrade. O diálogo gerado entre tais conteúdos acabou por mediar ações de performances e reconstrução de imagens via fotografia e imagem em movimento. Após a construção das imagens por vias digitais, passou-se para o processo de manipulação de imagens. Neste momento, a falta de equipamento em condições de trabalho inviabilizou que cada cursista individualmente pudesse construir e reconstruir suas ações via máquina, no caso o computador, já que o produto final tinha como objetivo ser imagem em movimento.

7 Contamos então com o interesse e a possibilidade dos integrantes do curso trazer a cada aula equipamentos para que as imagens construídas anteriormente pudessem ser trabalhadas via mídia eletrônica. O processo de escolhas e de finalização contou sempre com a participação do grupo, inclusive nas decisões a respeito de quais alterações ou manipulações seriam efetivadas nas imagens. Importante destacar que neste processo, as imagens geradas além de incluírem movimento também dialogam com sons. A proposta do curso não foi de trabalhar questões sonoras, no entanto esta possibilidade de trabalho em parceria com profissionais da área de música não foi descartada. Neste trabalho em específico, Corpo: Construção e Desconstrução a esposa de um dos cursistas com graduação em música, viabilizou este diálogo possibilitando um trabalho somatório relacionando vozes, ruídos e diversos sons na composição das narrativas. Apesar das dificuldades enfrentadas durante o processo, entre elas questões de infra-estrutura, o curso: Laboratório de Criação de Imagens em Mídias Digitais foi em sua primeira edição um processo rico em aprendizagem e troca de experiências. As vivências do grupo revelaram um processo minucioso que abrangeu questões relacionadas ao universo da educação, da arte e da produção nas chamadas novas mídias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino de arte. São Paulo: Perspectiva, FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, GRENZ, Stanley J. Pós Modernismo. Um guia para entender a Filosofia do nosso tempo. São Paulo: Vida Nova HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Tradução: Jussara Haubert Rodrigues. P. Alegre: Artes Médicas Sul, JOLY, Martine. Introdução a analise da imagem. Tradução Marina Appenzeller. Campinas, São Paulo: Papirus, MARTINS, Duprat. Territórios Recombinantes Arte e Tecnologia/Debates e Laboratórios. Coleção Instituto Sérgio Motta 3. Coleção Cultural. São Paulo, MUNARI, Bruno. Das Coisas Nascem Coisas. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1998.

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