MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

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1 Exmo. Sr. Juiz Federal da.ª Vara da Seção Judiciária Federal de São Paulo O Ministério Público Federal, por seu Procurador que ao final assina e com base no artigo 129, II e III da Constituição Federal, e do artigo 1.º e seguintes da Lei n.º 7.437/85, vem ajuizar a presente AÇÃO CIVIL PÚBLICA em face da UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO-UNIFESP, autarquia federal, com endereço na Rua Botucatu, 740, CEP , nesta Capital; Pelos seguintes fundamentos de fato e de direito: I. Introdução É proposta a presente ação pelo Ministério Público Federal tendo em vista irregularidades constatadas no concurso público para o cargo de Nutricionista da Universidade Federal de São Paulo- UNIFESP, regulado pelo Edital nº 62 de 18 de novembro de

2 A pretensão que por esta se traz é de ver declarada a nulidade do resultado da 2ª fase do referido concurso público, especificamente para o cargo de Nutricionista, a fim de que a ré publique nova divulgação de resultado a incluir apenas os candidatos classificados conforme os critérios constantes do Edital, quais sejam, item 8, letra d e e. II. Preliminarmente Competente a Justiça Federal nos termos do artigo 109, I, da Constituição Federal pela presença da Universidade Federal de São Paulo, autarquia federal, no pólo passivo. Competente a presente Seção Judiciária conquanto não meramente local o dano, nos termos do CDC, art. 93, II. Legítima a presença do Ministério Público Federal no pólo ativo. A moralidade administrativa, assegurando a obediência aos princípios constitucionais nos concursos públicos federais, constitui inequívoco interesse difuso da sociedade. Com efeito, a referida legitimidade ativa do Ministério Público Federal é conferida de forma expressa pelo artigo 129, III, da Constituição Federal e pelo artigo 5º da Lei nº 7.347/85. Por outro lado, no mesmo artigo, inciso II, o Texto Maior prevê, ainda, a atribuição ministerial de zelo aos direitos assegurados na Constituição Federal, função esta que traz ao âmbito de atuação do Ministério Público a busca da medida cabível para a defesa da moralidade administrativa. Assim, a legitimidade do Ministério Público Federal decorre tanto do já referido art. 129, III, da CF, como, em base infraconstitucional, do artigo 5.º da Lei da Ação Civil Pública e do Capítulo I da Lei Orgânica Nacional do Ministério Público Federal (Lei Complementar no. 75), que prevê as atribuições pertinentes à proteção dos direitos difusos já enunciados. 2

3 Ainda, como já decidiu o Superior Tribunal de Justiça, em acórdão da lavra do Ministro José Delgado (RESP / RO): 2. A carta de 1988, ao evidenciar a importância da cidadania no controle dos atos da administração, com a eleição dos valores imateriais do art. 37 da CF como tuteláveis judicialmente, coadjuvados por uma série de instrumentos processuais de defesa dos interesses transindividuais, criou um microsistema de tutela de interesses difusos referentes à probidade da administração pública, nele encartando-se a Ação Popular, a Ação Civil Pública e o Mandado de Segurança Coletivo, como instrumentos concorrentes na defesa desses direitos eclipsados por cláusulas pétreas. 3. Em conseqüência, legitima-se o Ministério Público a toda e qualquer demanda que vise à defesa do patrimônio público sob o ângulo material (perdas e danos) ou imaterial (lesão à moralidade). Federal para composição deste feito. Tem-se, portanto, evidenciada a legitimidade ativa do Ministério Público III. Da responsabilidade da ré A Universidade Federal de São Paulo, conquanto pessoa pública que realizou o concurso público eivado de ilegalidade, objetivando o provimento de cargo de nutricionista para seu quadro permanente, está devidamente legitimada a configurar no pólo passivo desta Ação. IV. Dos Fatos Foi instaurada representação nesta Procuradoria da República, sob o nº / , visando apurar denúncia de irregularidades no concurso em questão. 3

4 Em síntese, apurou-se que, não obstante tenha sido publicada lista aprovando somente 9 (nove) candidatos na 1ª fase, quando da realização da 2ª fase, constatou-se que estavam presentes na sala 11 (onze) pessoas, em total desrespeito ao intem 8, letra e, do Edital, o qual dispõe que serão convocados para realizar a Prova Prática e/ou dissertativa os candidatos habilitados e melhor classificados nas provas escritas (1ª fase) em até 3 (três) vezes o número de vagas de cada cargo, mediante Edital de Convocação a ser publicado no site Nesse sentido, frise-se que consta no Edital a disponibilidade de 3 (três) vagas para o cargo de nutricionista em questão. (fls. 28 e fls. 40) Instada a se manifestar quanto ao descumprimento da referida norma do Edital, a Ré informou que publicaram erroneamente a lista de aprovados na 1ª fase, pois haviam calculado a média sem se atentarem para o critério de correção e classificação especificado na letra d do item 8. Assim, após nova correção utilizando-se o critério estabelecido no citado item do Edital, verificaram que outros candidatos deveriam constar na primeira lista, motivo pelo qual, visando não prejudicá-los, a Universidade procedeu suas respectivas convocações para também realizarem a prova referente a 2ª etapa. (fls. 34 e 73) Ocorre que a Universidade, ao invés de republicar uma nova lista, retificando a anterior e habilitando somente 9 (nove) candidatos para a segunda fase do certame, tão somente somou à primeira lista outros três candidatos, permitindo por conseguinte que também realizassem a prova escrita. Assim, além de violar as normas do Edital do concurso, inequivocadamente violou, dentre outros princípios administrativos, o princípio da isonomia, impessoalidade e moralidade. Senão vejamos. V- Da Violação aos Termos do Edital É cediço que o concurso público destina-se a garantir a observância do princípio constitucional da isonomia e a selecionar o candidato mais qualificado e deverá ser processado em estrita conformidade com os princípios básicos da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade, da probidade administrativa e da vinculação ao instrumento convocatório. 4

5 Nos termos desta norma, tem-se que o edital é a lei interna do certame, impondo-se a observância de suas regras à Administração Pública e aos candidatos, nada podendo ser exigido, aceito ou permitido além ou aquém de suas cláusulas e condições. Neste sentido, dispõe o art. 41 da lei nº 8.666/93 que a Administração não pode descumprir as normas e condições do edital, ao qual se acha estritamente vinculada. Ora, estabelece o item 8, letra e, do Edital do concurso em questão, que somente seriam convocados para realizar a Prova Prática e/ou assertativa os candidatos habilitados e melhor classificados nas provas escritas (1ª fase) em até 3 (três) vezes o número de vagas de cada cargo. Ainda, considerando o item 1 do citado Edital que dispõe 3 (três) vagas para o cargo de nutricionista, conclui-se que somente 9 (nove) candidatos poderiam realizar a segunda fase do certame. Não obstante, mesmo após corrigir de ofício sua falha, eis que constatou que utilizou critério de correção diverso daquele previsto no item 8, letra d do Edital, a Ré republicou nova lista de classificação, permitindo porém, que participassem da prova escrita 11 (onze) candidatos, conforme comprova documento de fls. 35/37 e fls. 40. Portanto, desrespeitou o item 8 letra e, do edital, eis que o quantitativo de candidatos que deveriam ser classificados para a segunda fase já estava claramente definido: 3 (três) vezes o número de vagas. A republicação da nova lista de classificação dos candidatos não prejudicaria a lisura do certame se somente aos 9 (nove) primeiros classificados fosse permitido realizar a 2ª etapa. VI- Da Afronta aos Princípios Constitucionais Descabida qualquer alegação da ré no sentido de que o item 8, letra e do Edital foi contrariado para que não houvesse prejuízo aos candidatos que não constavam na primeira lista. 5

6 O princípio da impessoalidade, referido na Constituição Federal em seu art. 37, caput, impõe ao Administrador Público o dever de atuar objetivando o fim legal do ato a ser praticado. E o fim legal é unicamente aquele que a norma de direito indica como objetivo do ato, de forma impessoal. No caso em tela, o objetivo do certame é a seleção dos candidatos melhores qualificados. Assim, tendo a Universidade constatado erro na lista de classificação dos candidatos habilitados na 1ª fase, retificando posteriormente a ordem de classificação, somente aos 9 (nove) primeiros dessa última lista deveria ser permitido realizar a 2ª etapa. Não pode a Ré infringir os termos do Edital visando não prejudicar candidatos excluídos ou incluídos da primeira lista. Deve agir imparcialmente, de modo que não cause privilégios ou restrições descabidas a ninguém, vez que o seu norte sempre haverá de ser o interesse público. A dizer de outro modo, o princípio da impessoalidade determina que o agente público proceda com desprendimento, atuando desinteressada e desapegadamente, com isenção, sem perseguir nem favorecer, jamais movido por interesses subalternos. Vinculado ao princípio da impessoalidade está o princípio da isonomia, positivado nos arts. 5º e 37 da Constituição Federal, que justamente tem por escopo dar o direito de todos candidatos competirem em pé de igualdade, sem favorecimentos, a uma vaga no serviço público. Assim, sendo o concurso um meio de obter-se a moralidade, eficiência e aperfeiçoamento do serviço público, deve o mesmo ser realizado de maneira a propiciar igual oportunidade a todos os interessados que atendam aos requisitos legais e regulamentares. Ademais, não há espaço para suspeitas nos procedimentos públicos. A mera suspeita, aliás, desde que respaldada em índices mínimos, traduz ofensa objetiva ao princípio da moralidade. 6

7 O procedimento deve estar revestido de todas as garantias formais. A mera suspeição de fraude, mesmo inexistindo provas cabais para a responsabilização, deve ensejar, no mínimo, a nulidade do certame. Nesse sentido, o seguinte julgado do Superior Tribunal de Justiça: ADMINISTRATIVO E PROCESSO CIVIL-RECURSO ESPECIAL-MANDADO DE SEGURANÇA-CONCURSO PÚBLICO-EVIDÊNCIAS DE FRAUDE-ANULAÇÃO- DISSÍDIO PRETORIANO COMPROVADO E EXISTENTE (ART. 105, III. c, DA CF C/C ART. 255 E PARÁGRAFOS DO RISTJ)-INFRIGÊNCIA AO ART. 535, II DO CPC DESACOLHIDA-AUSÊNCIA DE OMISSÃO, OBSCURIDADE OU CONTRADIÇÃO. 1-(...) 2-(...) 3- Ante a evidência de fraude no concurso público, consoante documentação acostada aos autos, bem examinadas na r. sentença monocrática, deve a Administração Pública anulá-lo, em observância aos princípios da moralidade, legalidade e impessoalidade dos atos administrativos. Vislumbrada a lesão ao erário público, não podendo esses atos serem convalidados, diante da situação irregular dos candidatos aprovados e nomeados, o novo Chefe do Executivo Municipal tem o poder-dever de revê-los, posto que se o agente que o praticou buscou uma finalidade diversa da prescrita em lei, usando de seus poderes em benefício próprio ou de terceiros, tais atos são inválidos, uma vez que eivados de vícios de nulidade desde o nascedouro, não acarretando qualquer direito a seus beneficiários. (STJ- RESP , Processo , Quinta Turma) VII- Da antecipação da tutela Discute-se pela presente, ilegalidade no concurso público para o cargo de nutricionista da Universidade Federal de São Paulo, sendo que por referida irregularidade tem-se a ofensa aos princípios administrativos da moralidade, impessoalidade, isonomia, probidade, finalidade, indisponibilidade do interesse público e sua correta tutela. 7

8 O processo para combater referida ilegalidade tem uma possibilidade de resposta rápida e efetiva, legalmente prevista pelo artigo 273 do CPC. A fumaça do bom direito decorre dos argumentos lançados nos pontos acima desenvolvidos na presente petição inicial, todos apontando para a situação de ilegalidade do concurso em questão. O perigo da demora decorre da necessidade de se reverter de imediato os danos acima elencados, evitando-se que a ré publique no Diário Oficial a homologação do resultado final e por conseguinte emposse os candidatos aprovados. Assim, a tutela nos termos aqui propostos é justamente para atender às finalidades da ré, bem como dos candidatos, não havendo os mesmos que suportar qualquer prejuízo aos seus interesses primários, sequer secundários. VIII- Do pedido Pelo exposto, é a presente ação para se requerer: a) a antecipação da tutela, a fim de que sejam antecipados os efeitos da declaração de nulidade do resultado da 2ª fase do concurso público realizado pela UNIFESP, especificamente para o cargo de Nutricionista, determinando-se a ré nova divulgação de resultado a incluir apenas os candidatos classificados conforme os critérios constantes do Edital, quais sejam, item 8, letra d e e ; b) a citação da ré para que apresente sua defesa; c) ao final, a confirmação da antecipação da tutela, ou, indeferida esta, a declaração de nulidade do resultado da 2ª fase do concurso público realizado pela UNIFESP, especificamente para o cargo de Nutricionista, determinandose a ré nova divulgação de resultado a incluir apenas os 8

9 candidatos classificados conforme os critérios constantes do Edital, quais sejam, item 8, letra d e e. Provará o alegado por todos os meios em direito admitidos. Dá-se a causa o valor de R$ 1.000,00 (hum mil reais), para efeitos legais. São Paulo, 09 de junho de Márcio Schusterschitz da Silva Araújo Procurador da República 9

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