GÊNERO E INTERGERACIONALIDADE: UM INVENTÁRIO FOTOGRÁFICO EM COMUNIDADES LITORÂNEAS

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1 1 GÊNERO E INTERGERACIONALIDADE: UM INVENTÁRIO FOTOGRÁFICO EM COMUNIDADES LITORÂNEAS Maria Natália Matias Rodrigues Adélia Augusta Souto de Oliveira Lívia Rocha Machado Levi Universidade Federal de Alagoas Resumo A constituição da subjetividade na intergeracionalidade em contextos comunitários por meio de estudos intergeracionais é foco de nossas investigações. Esse trabalho pretende focalizar as relações de gênero expressas por meio da produção de um inventário fotográfico do cotidiano do lugar e dos moradores mais antigos. O trabalho de análise das fotos visa identificar os aspectos fossilizados enquanto significados e os sentidos experienciados na intersubjetividade comunitária. Os resultados indicam uma predominância da presença masculina no espaço público. As atividades referentes à pesca e o mar delimita e define os papéis de gênero nas comunidades litorâneas estudadas. Os jovens retratam força e as garotas delicadeza. As meninas são retratadas em afazeres domésticos e em tornarem-se mãe e os meninos para serem pescadores, continuando a profissão de seus pais e avós. O inventário fotográfico possibilita ainda a constatação das mudanças geográficas no local e permite uma aproximação com a memória social do lugar. Palavras-chave: Gênero. Intergeracionalidade. Inventário fotográfico. Comunidades. Problemática A constituição da subjetividade em contextos comunitários por meio de estudos intergeracionais é foco de nossas investigações desde 1996 com um estudo exploratório da influência do turismo na vida dos moradores nativos, por meio da produção de histórias de vida. Estes estudos longitudinais (Oliveira, 1998; 2005; 2007) indicam que o contexto social estudado sofreu significativas rupturas de valores culturais e referenciais identitários devido à inserção da indústria do turismo de massa na localidade a partir do final da década de 70. A presente etapa da pesquisa deu continuidade a esta investigação por meio da produção de um inventário fotográfico do

2 2 cotidiano do lugar e dos moradores mais antigos, onde as questões de gênero e as relações intergeracionais presentes na comunidade se apresentaram de modo relevante e serão aqui apresentadas. Assim, acompanhar a história da localidade através da realização de um inventário fotográfico, aprofundando o conhecimento sobre a memória social, enquanto um referencial é fundamental, principalmente, quando se defende a constituição sóciohistórica do psiquismo (Vigotski, 1998), na qual as relações intersubjetivas (Pino, 1995), que ocorrem no cotidiano, são base da constituição de si e do outro, e, extensivamente, a construção de sua história e a história do lugar. Desse modo, objetiva-se conhecer e compreender a memória psicossocial que serve de sustentação aos sentidos experienciados aos moradores nativos de comunidades litorâneas. Especificamente, inventariar as fotos antigas da localidade e de seus moradores, analisar os aspectos fossilizados enquanto significados presentes nas fotos antigas da localidade, retratar os espaços relembrados e mantidos na memória intergeracional e identificar as lembranças significativas do modo de vida comunitário que permanecem na geração dos antigos moradores. Desenvolvimento O inventário por meio da fotografia é o recurso metodológico adotado. Nesse sentido, Lacerda destaca que (1994 apud Reznik & Araújo, 2007), a partir do século XX, quando a máquina fotográfica se tornou popular, a fotografia passou a se configurar como um documento comprovante de um acontecimento. A partir da década de 20, a fotografia passou a ser utilizada pela impressa escrita e também passou a figurar nos documentos de controle e identificação da sociedade, de acordo com Kossoy(1993) e Mauad (2004 apud Reznik & Araújo, 2007). Reznik e Araújo (2007) nos revelam que no Brasil, somente a partir da década de 80, a fotografia passou a ser utilizada no campo da pesquisa histórica, havendo então, o... reconhecimento do estatuto acadêmico da fotografia como documento. (...) Ela é indubitavelmente portadora de um grande

3 3 potencial para os estudos históricos, já que pode, por meios diversos dos usualmente tratados pelos pesquisadores, comunicar uma atmosfera e exprimir sentimentos (Reznik & Araújo, 2007, p.1018). O uso de fotografias para estudar a memória social de um lugar tem acontecido em alguns estudos (Neiva-Silva & Koller, 2002; Reznik & Araujo, 2007; Gusmão & Souza, 2008). As imagens fotográficas têm uma ligação com a memória e se constituem em uma linguagem que possibilita inúmeras interpretações, sendo uma forma de contar a história de um lugar, como nos revela Gusmão e Souza (2008, p.25). Participaram desse estudo, cinco moradores da localidade, estes com idades entre 30 e 50 anos. Sendo dois nativos, dois filhos de nativos e um filho de morador com propriedade na localidade. Indiretamente outros moradores participaram das conversas sobre as fotos que ocorreram durante a fase de coleta de informações. Os critérios de inclusão foram à propriedade de fotos antigas da localidade, ser nativos e ter vivido parte de sua vida na localidade. A garimpagem das fotos foi realizada durante três meses de visita ao campo, de setembro a novembro de 2008, em nove encontros com os moradores. Na primeira visita as pesquisadoras apresentaram a pesquisa, solicitaram a colaboração e a obtenção da assinatura dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido. A seguir, solicitaram aos moradores que encontrassem fotos antigas do cotidiano dos moradores e do lugar. À medida que nos mostravam suas fotos, havia um momento de conversa sobre as mesmas, privilegiando a história do foto e do lugar. Escolhiam-se as fotos mais antigas e aquelas que retratassem o lugar. Solicitava-se a permissão para efetuar uma cópia e com a concordância realizava-se a fotocópia e na visita da semana seguinte, as fotos originais eram devolvidas. As conversas com os moradores foram registrados em diário de campo (Brandão, 1987), essas eram abertas e não-diretivas, apenas informava ao sujeito o desejo do pesquisador em encontrar fotos antigas do lugar e de seus moradores. A escolha dos sujeitos ocorreu por meio de contato inicial com os moradores mais antigos, e estes indicaram outras pessoas que tinham fotos antigas da localidade. Os encontros para esse fim foram seis, sendo quatro reuniões individuais com três

4 4 participantes, uma reunião grupal com uma participante e sua família, uma reunião com outra participante e uma jovem moradora do local. Após a obtenção das fotos, foi iniciada à análise das conversas registradas em diário de campo e das fotos garimpadas. Inicialmente as fotos foram classificadas quanto à data de registro da mesma, registro informado pelo participante ou impresso na mesma. Uma segunda classificação foi feita quanto ao conteúdo das fotos, nomeandoas, com o intuito de identificá-las. A análise das fotos é qualitativa (Minayo, 2008), buscando-se descrever e interpretar as unidades de significação temática evidenciadas nas fotos e no registro de diário de campo. A análise das informações das fotos evidencia situações da vida cotidiana da localidade, à vida e a movimentação no litoral, a relação com a pesca e com o mar, situações familiares e de amizade, momentos de festas e de brincadeiras. Ao todo foram coletadas 58 fotos com os sujeitos participantes, deste total apenas nove fotos aparecem registro de data junto à imagem de outubro de 1979 a agosto de 1984, registrando o início da inserção do turismo na localidade. Desse modo, estas fotos datadas até 1984 indicam pouca urbanização, com pequenas casas de moradores nativos apenas, poucos carros e o início da construção de loteamento na localidade. Na análise comparativa das fotos retratadas com as observações naturalísticas feitas podemos perceber que organização da localidade mudou completamente, hoje a localidade é bastante movimentada, principalmente no verão, havendo muitas pousadas, casas para alugar por temporada e muitos moradores que não são nativos do local, ficando as casas dos moradores nativos restritos a quatro pequenas ruas, diminuindo consideravelmente os espaços de livre circulação da população local. As fotos nos mostram o início das transformações que foram ocorrendo na localidade e, comparativamente com a atualidade verificamos uma grande mudança da paisagem local. A foto, datada de outubro de 1979, revela meninas jovens e crianças fazendo pose para a foto numa paisagem na praia com três pequenas casas ao fundo. Outras quatro fotografias, datadas entre 1981 a 1984, retratam crianças brincando, no estacionamento da localidade, uma idosa séria se destaca em meio a um grupo de pessoas, um jovem garoto e a praia ao fundo, um homem e duas mulheres. Todas essas

5 5 fotos evidenciam pessoas, grande extensão de terreno e a praia, ou seja, as casas não tinham sido construídas. Uma foto destaca o ambiente da praia relacionado à pescaria, com vários homens e suas redes de pesca. Outra forma que utilizamos para classificar as fotos foi à nomeação das fotos através do uso de legendas em cada uma delas. Essa nomeação intencionou destacar o elemento que se destaca pelo conteúdo. O uso de legendas em fotografias já foi utilizado em outras pesquisas em psicologia que trabalharam com fotos, como o trabalho de Combs & Ziller (1977 apud Neiva-Silva & Koller, 2002), visando clarificar as principais categorias de conteúdo presentes nas fotos. De uma forma geral, nas fotos aparecem principalmente pessoas, elementos da natureza e elementos que demonstram presença construtora do homem, como carros e casas. Há a predominância do elemento coqueiro que é retratado em 44 das 58 fotos, seguido pela predominância de 33 pessoas adultas e de 32 crianças. Podemos afirmar que as imagens revelam a abundância do elemento vinculado à natureza bem como a presença de adultos, sendo que 47 são homens e 26 são mulheres, havendo uma predominância masculina nas fotos, sejam eles adultos ou crianças. Como podemos observar em uma das fotos, nomeada Pescadores, onde aparecem cinco homens na praia com redes de pescar, podemos perceber a predominância masculina nas atividades referentes à pesca e sua forte ligação com o elemento da natureza, o mar. Por outro lado, é importante ressaltar que apenas no grupo dos jovens, as garotas aparecem mais que os garotos. Estas são retratadas fazendo poses com a mão à cintura, sorrindo e quando meninas seguram uma boneca à mão. Já os rapazes e os meninos destacam sua força, fazendo poses que destacam os músculos. A foto A família, demonstra uma riqueza de detalhes: os seus componentes são pai, mãe e filhos rodeados por inúmeros carros e de pessoas em um estacionamento. As pessoas estão em trajes de banho indicando serem turistas e as placas dos carros também evidenciam não pertencerem ao município. Quanto à posição verificamos que se encontram perfilados lado a lado e uma menina carrega outra pequena no colo. Essa posição indica o costume de as irmãs mais velhas também serem responsáveis pelo cuidado com os mais novos, assumindo desde criança os afazeres maternos. Outro

6 6 aspecto relevante em relação à família, é que as fotos retratam familiares e vizinhos. Uma delas mostra uma reunião de um grupo de pessoas nativas, onde nem todos pertencem à mesma família. Essa foto nos faz refletir sobre a existência de uma sociabilidade comunitária em que o cuidado e as relações sociais se estabelecem para além da família restrita. Com relação às crianças, elas aparecem nas fotos sempre sorrindo e brincando. Os meninos parecem assumir uma posição de continuidade na atividade da pesca, como demonstra uma foto denominada O menino e o barco. Essa foto recebe muita atenção por parte dos participantes. Uma delas afirma ter saudade dos tempos que se brincava dentro das canoas dos pais e avós. Os meninos quando rapazes, ainda hoje, se vinculam ocasionalmente à pesca ou ao surf. No entanto, as meninas se afastam das atividades vinculadas ao mar. Assim, as fotos coletadas retratam um ambiente com forte ligação com o mar, onde a população local vive da pesca e do turismo e relações sociais parecem se estabelecer com base na família e vizinhos. Nesse sentido, ratificamos a contribuição do uso da fotografia em pesquisa psicológica que, desde o século XIX, (Neiva-Silva & Koller (2002) vem demonstrando a universalidade da linguagem fotográfica enquanto uma das vantagens do método, uma vez que a imagem supera possíveis problemas de comunicação da linguagem verbal. O inventário fotográfico realizado nos revela alguns aspectos da vida na localidade em anos anteriores, possibilitando conhecer os modos de vida dos moradores nativos e antigos da localidade. Conclusões O inventário fotográfico possibilitou a constatação das mudanças geográficas no local. A possibilidade de realizar análise comparativa permite afirmar que as 58 fotos coletadas revelam poucas pessoas e casas, a imensidão do mar no horizonte, muitos coqueiros, grandes dunas que, aos poucos, serão substituídas por delimitação de ruas e de loteamentos, carros estacionados nas dunas próximas a praia, alguns bares. No entanto, as observações naturalísticas registradas em Diário de Campo indicam uma intensa mudança com a inserção do turismo na localidade. Os indícios mais reveladores

7 7 são o aumento do número de barracas na praia, a grande presença de carros, a estrada asfaltada, muitas pessoas circulam na localidade. Quanto aos aspectos fossilizados enquanto significados presentes nas fotos antigas da localidade podemos afirmar a permanência da forte ligação com o mar, onde a população local vive da pesca e do turismo, da sociabilidade comunitária nas imediações do povoado, da extensão dos cuidados as crianças a família e aos vizinhos, chamados de família por consideração. Os rapazes e meninos utilizam o mar e a praia como espaço para brincadeiras e para a sobrevivência enquanto as meninas fazem o mesmo até tornarem mocinhas quando devem circunscrever seu espaço a casa e suas proximidades calçadas nas quais conversam e cuidam das crianças. O uso do espaço público é reservado aos homens e aos jovens como pescadores e as moças fazendo poses do tipo miss. Os idosos, as mulheres e as crianças são pouco fotografadas. Quando aparecem estão em família ou em grupo extenso de familiares e vizinhos. A intergeracionalidade evidencia-se nas fotos que revelam como se constituem as famílias na localidade. Muitas fotos aparecem mãe com filhos, avó com netos, avô e jovem, indicando que o elo intergeracional é bastante forte na localidade. As fotografias também indicam que muitas vezes a família se estende ao grupo de pessoas nativas da localidade. O método nos permitiu uma aproximação maior com a memória social do lugar e com os moradores, as lembranças significativas do modo de vida comunitário que permanecem na geração dos antigos moradores estão relacionadas com o ambiente da pescaria e de união entre os moradores nativos. Os momentos de conversas sobre as fotos proporcionaram uma imersão na memória do morador, resgatando sentimentos, imagens e relatos emocionados.

8 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRANDÃO, Carlos. Repensando a pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense GUSMAO, Denise S. e SOUZA, Solange J. A estética da delicadeza nas roças de Minas: sobre a memória e a fotografia como estratégia de pesquisa-intervenção. Psicologia e Sociedade, Porto Alegre, v. 20, LEITÃO, Heliane de A. L., OLIVEIRA, Adélia A. S. de., MELO, Ariana C. e CORREIA, Rômulo M. S. As mulheres impulsionando a mudança: gênero nas relações familiares de uma comunidade litorânea. Trabalho apresentado no V Congresso Norte/Nordeste de Psicologia, Maceió, MARTINS, Elizabeth. C. Turismo e impactos sócio-ambientais na Praia do Francês-Al f. Dissertação (Mestrado em desenvolvimento e meio ambiente) Universidade Federal de Alagoas. Maceió, AL. MINAYO, Maria Cecília de S. (org.). Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade. São Paulo, Vozes, NEIVA-SILVA, Lucas & KOLLER, Silvia H. O uso da fotografia na pesquisa em psicologia. Estudos de Psicologia. Vol.7, n.002. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, p OLIVEIRA, Adélia A. S. de, Memória psicossocial da comunidade da Praia do Francês. Maceió: Edufal, OLIVEIRA, Adélia. A. S. de Turismo de massa e segregação psicossocial em uma comunidade litorânea no Nordeste brasileiro: uma análise a partir da experiência de resistência e submissão das crianças f. Tese (Doutorado em Psicologia Social) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, SP. OLIVEIRA, Adélia. A. S. de. Turismo e comunidade: a configuração do sofrimento psicossocial em um povoado de pescadores f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. PINO, Angel. A questão da significação, perspectiva sociocultural. Revista Temas em Neurologia, Campinas: FEA/UNICAMP, v. 4, REZNIK, Luís; ARAUJO, Marcelo da S. Imagens constituindo narrativas: fotografia, saúde coletiva e construção da memória na escrita da história local. História e ciências saúde-manguinhos, Rio de Janeiro, v. 14, n. 3, set VIGOTSKI, Lev. S. Psicologia da arte. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

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