REVISTA pensata V.4 N.2 OUTUBRO DE 2015

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1 Ara Pyaú Haupei Kyringue Paola Correia Mallmann de Oliveira Este ensaio fotográfico é uma aproximação ao ara pyaú (tempo novo) e às kiringue (crianças) no nhanderekó, modo de ser tradicional entre os mbyá Guarani na Aldeia Boa Vista, Prumirim (SP). Nesta pesquisa, percebo a comunicação entre o Ará pyaú (tempo novo), conceito cosmológico mbyá Guarani na temporalidade cíclica, uma dentre as duas estações do ano, ao novo presente, ao verão e às crianças na vida cotidiana através da experimentação do olhar mediado por uma tecnologia visual, no qual uma reflexão sobre o futuro dos povos indígenas, especificamente mbyá Guarani, e das novas gerações é problematizado. São narrativas visuais sob o universo indígena realizada a partir de imagens que testemunhei e que tocam em interrogações antropológicas sobre a presença da linguagem fotográfica no trabalho etnográfico, a qual para Campos (2010) está imbuída de propósitos ficcionais, narrativos e estéticos e até mesmo documentais e científicos e, o sentido da visão, além da utilização desta mesma tecnologia para os mbyá Guarani, relacionado ao lugar das crianças e sua socialização na comunidade. Ângela Nunes (1999), como outros pesquisadores que estudaram as crianças indígenas em diferentes contextos de aprendizagem, pondera ser a fotografia um meio de pesquisa condizente diante a relevância do gesto das crianças. Em uma fração de tempo única e instantânea, os retratos revelam um prisma de construção de leituras possíveis sobre o ará pyaú e as kiringue, um período da vida sensível e lúdico de aprendizado do nhanderekó. Chego à comunidade Aldeia Boa Vista com uma câmera e a proposta de fazer uma fotoetnografia pensando-a como geradora de novos processos perceptivos de escritura e registro em campo, a mesma para Campos (2010) ocasionou profundas consequências na forma como concebemos e registramos visualmente aquilo que nos cerca, a metodologia visual de pesquisa é aqui escolhida também como forma de diálogo, traduzindo o que está ao redor, na realidade, em símbolos. Diante da câmera as crianças entre diversas facetas 207

2 brincam, encenam e a observam, querem ver cada fotografia que é tirada, riem das imagens. Zoom, enquadramento e foco, construímos a fotoetnografia deste tempo novo ou é ele que nos toca - uma imagem que remete ao passado e à memória, ao tempo velho e ao inverno; a fotografia passa a ser do sujeito que a possui ou que dela participou como referente, uma vez que altera a inserção do sujeito no mundo como expõe Koury (1996). Igualmente a câmera fotográfica mostra-se como um objeto de fluxo vivo que têm uma agência diferenciada e diferenciadora de discursos. Enquanto é manuseada pelos mbyá Guarani, o fotografar é ação de alteridade, um instrumento de transmissão de conhecimento e de ocupação do indígena como narrador de sua vida e história para a comunidade e para os não-indígenas, para as crianças também é brincadeira, neste ensaio pode ser também outro modo de perceber o diálogo da antropologia com a imagem. A terceira margem que sobrepõe a narrativa composta nas 10 fotografias, está na dimensão em que o conceito de ará pyaú e o nhanderekó se relacionam com a água e seus usos no território indígena, como recurso disponível na comunidade Aldeia Boa Vista, foi um elemento que crescentemente demandava atenção por sua presença na relação das crianças e da comunidade dentro da tekóa (lugar ocupado onde se realiza o modo de ser),é a água que ao ser fervida prepara o alimento do dia. Esta experiência visual é fruto de pesquisa de imagem junto aos mbyá Guarani do Rio Grande do Sul e das aulas do curso de mbyá Guarani na UFRGS, realizamos o percurso de Porto Alegre até a comunidade Aldeia Boa Vista em SP no começo de janeiro de 2014 e 2015 com o professor e fotógrafo Vherá Poty. No momento das primeiras permanências na aldeia, pude observar que os aprendizados e vivências das crianças são informais, íntimos e afetuosos com a natureza e os outros, ao passo em que cada vez mais cresce a presença dos meios midiáticos e da fotografia, integrando seu mundo infantil. A vivência na comunidade Aldeia Boa Vista com um professor de mbyá Guarani é uma experiência transformadora, Vherá Poty ensinou além de palavras iniciais do idioma, a própria sabedoria de fotografar. Ao observar um mesmo elemento da natureza, percebi-a sua outra abordagem ao fotografar, fazendo-me questionar quais são os sentidos da imagem para os mbyá Guarani (e os novos cineastas e fotógrafos indígenas), assim como para os antropólogos audiovisuais no Brasil. 208

3 Remeto ao tradicional jeguatá, caminhar guarani à Terra Sem Males, pela relação que venho construindo da fotografia enquanto categoria de olhar que integra a mobilidade da perspectiva. As imagens expostas foram confeccionadas no verão, o ara pyaú, quando a comunidade realiza o Nhemongarai, o batismo com erva-mate mbyá guarani e momento que ocorre a revelação dos nomes das kiringue. Qual a relação das kiringue com as imagens? Como as kiringue criam um tecido de significados sobre o que é posar para um retrato e fazem do gesto de fotografar uma visualidade de si, e a visibilidade dos outros? O que as kiringue ensinam? 209

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8 Referências bibliográficas CAMPOS, Ricardo. Imagem e tecnologias visuais em pesquisa social: tendências e desafios. Análise Social, vol. XLVI (199), 2010,p CAYUBI NOVAES, Silvia. et al. (orgs.). Escrituras da Imagem. São Paulo, Edusp.2004 NUNES, Angela (2011) A Sociedade das Crianças A uwe- Xavante:revisitando um estudo antropológico sobre a infância. Revista POIÉSIS. Universidade do Sul de Santa Catarina, Santa Catarina, ISSN NUNES, Angela & CARVALHO, Rosário. Questões metodológicas e epistemológicas sucitadas pela Antropologia da Infância. BIB/ANPOCS,São Paulo, nº68, p

9 FREIRE, Marcius, LOURDOU, Philippe. Descrever o visível: cinema documentário e antropologia fílmica. São Paulo: Estação Liberdade, FELDMAN-BIANCO, Bela, LEITE, Mirian L. Moreira (org). Desafios da Imagem. São Paulo: Papirus, KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Estado das artes nas Ciências Sociais do Visual do Brasil. Revista Política e Trabalho, n. 14 Setembro / 1998 pp

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