FACULDADE SANT ANA FERNANDA PIMENTEL SANTOS LORENA FIUZA FERREIRA

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1 FACULDADE SANT ANA FERNANDA PIMENTEL SANTOS LORENA FIUZA FERREIRA ECONOMIA SOLIDÁRIA: Uma Experiência Coletiva em uma Sociedade Individualista - A Construção de uma Narrativa PONTA GROSSA 2014

2 FERNANDA PIMENTEL SANTOS LORENA FIUZA FERREIRA ECONOMIA SOLIDÁRIA: Uma Experiência Coletiva em uma Sociedade Individualista - A Construção de uma Narrativa Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade Sant Ana, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Psicologia. Orientadora: Profª. Ms. Glaucia Mayara Niedermeyer Orth. PONTA GROSSA 2014

3 Dedicamos este trabalho a todas as pessoas que acreditam em um modelo econômico solidário, que possa por suas ações lutar pelos excluídos.

4 AGRADECIMENTOS A vida passa a ter um sentido especial, quando nos debruçamos nos nossos sonhos e lutamos pelo nosso ideal. É claro que quando encontramos alguém que simbolize a amizade este caminho acaba ficando cada vez mais apaixonante e agradável, por isso não tem como começar os agradecimentos se não recordar a nossa amizade que se construiu no decorrer da graduação. Nosso percurso acadêmico foi permeado pelo apoio, incentivo e carinho dos nossos familiares, que apostaram nas nossas potencialidades e estiveram ao nosso lado nas maiores dificuldades. Agradecemos a oportunidade que tivemos de conhecer e vivenciar a Economia Solidária que nos foi apresentada com muito amor e sabedoria pela Dra. Manuela Salau Brasil, a qual inspirou a nossa trajetória e escolha do tema para este trabalho. Agradecemos também à equipe da Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESol) que nos acolheram e contribuíram para a realização desta pesquisa, construindo e fortalecendo os laços de solidariedade. Em especial agradecemos aos trabalhadores/as do empreendimento investigado por depositarem confiança em nosso trabalho ao compartilharem suas histórias de vida, pois a partir das suas narrações tivemos oportunidade de visualizar a prática da Economia Solidária. À nossa querida orientadora Glaucia Orth que soube nos guiar durante a estruturação deste trabalho, fomentando o nosso interesse em buscar formas de ressignificar e empoderar os marginalizados da sociedade. Para finalizar agradecemos de forma particular duas pessoas que tiveram um papel muito significativo na nossa história, não apenas acadêmica, mas que contribuíram motivando o nosso caminhar com as suas reflexões e capacidades de ouvir até mesmo o nosso silêncio. E a todos aqueles que de algum modo colaboraram para a realização deste trabalho, deixamos nosso muito obrigado!

5 A pobreza não é um acidente. Assim como a escravização e o Apartheid, a pobreza foi criada pelo homem e pode ser removida pelas ações dos seres humanos. (Nelson Mandela)

6 RESUMO O presente trabalho visa compreender a vivência pessoal das integrantes de um grupo que faz parte da Incubadora de Empreendimentos Solidários da Universidade Estadual de Ponta Grossa IESol, buscando perceber suas motivações para integrar uma experiência coletiva. Esta incubadora tem como metas promover em grupos de economia solidária a possibilidade de autogestão, a geração de trabalho e renda, a organização baseada no associativismo e cooperativismo, a sustentabilidade e autonomia nos empreendimentos. Dessa forma, a economia solidária enfatiza a importância de se criar caminhos de autonomia coletiva, sendo o oposto da visão tradicional do sistema capitalista. Utilizando como método a História Oral foi possível compreender como os princípios da Economia Solidária interferem na subjetividade dos sujeitos envolvidos nesta dinâmica, evidenciando por meio de entrevistas e discursos a subjetividade de cada entrevistada. Foram entrevistadas três mulheres integrantes de um empreendimento de Economia Solidária da cidade de Ponta Grossa. Após a realização das entrevistas, as mesmas foram transcritas e categorizadas conforme a sua pertinência ao objetivo da pesquisa. Com isso, foram construídas três categorias: A experiência de trabalho no capitalismo; Individual x Coletivo: motivações para integrar uma experiência de Economia Solidária; Significado do trabalho na Economia Solidária. Observou-se, ainda, que os valores narrados pelas participantes, construídos ao longo da sua vida, assemelham-se aos princípios da Economia Solidária, o que fortalece a sua participação nesse empreendimento. Palavras-chave: psicologia do trabalho, economia solidária, história oral.

7 ABSTRACT This study aims to understand the personal experience of the members of a group that is part of the Cooperative Business Incubator of the State University of Ponta Grossa - IESol, trying to notice their motivations to join a collective experience. The incubator s goals are to promote, in groups of Solidarity Economy, the possibility of selfmanagement, the generation of employment and income, as well as organization based on association and cooperation, sustainability and autonomy in the businesses. Thus, Solidarity Economy emphasizes the importance of creating paths of collective autonomy, opposing the traditional view of the capitalist system. Using oral history as a method, it was possible to understand how the principles of Solidarity Economy interfere with the subjectivity of the subjects involved in this dynamic, showing through interviews and speeches the subjectivity of each interviewee. Three members from a Solidarity Economy business in the city of Ponta Grossa were interviewed. These interviews were transcribed and categorized according to their relevance to the research's objective. From that, three categories were divided: Work experience in capitalism; Individual vs. Collective: the motivations to integrate the experience of Solidarity Economy; The meaning of work in the Solidarity Economy. It was also observed that the values narrated by the participants, built throughout life, resemble the principles of Solidarity Economy, which strengthens their participation in this project. Keywords: labour psychology, solidarity economy, oral history.

8 SUMÁRIO 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO UMA ALTERNATIVA ECONÔMICA O capitalismo e suas contradições Capitalismo e realidade nacional: Conjuntura Política A Economia Solidária como enfrentamento da desigualdade social produzida pelo Capitalismo O TRABALHO COMO CONSTRUÇÃO DE SI Trabalho como categoria fundante do ser humano e produtor de consciência Quando o trabalho resulta em alienação Trabalho e Saúde Mental PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Caracterização da pesquisa Procedimentos da pesquisa e caracterização das participantes RESULTADOS E DISCUSSÃO A experiência de trabalho no capitalismo Individual X Coletivo: motivações para integrar uma experiência de Economia Solidária O significado do trabalho na Economia Solidária CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS APÊNDICE A AS NARRATIVAS DE VIDA DAS PARTICIPANTES DA PESQUISA APÊNDICE B - ROTEIRO DE QUESTÕES PARA A HISTÓRIA ORAL... 60

9 8 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A economia solidária é um tema que vem sendo discutido constantemente no meio acadêmico e social, por realizar uma forte crítica ao sistema econômico dominante e por propor um estilo de economia que luta contra as desigualdades sociais presentes no capitalismo. Segundo o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (2014), o documento da I Conferência Nacional de Economia Solidária que aconteceu em 2005 alega a necessidade de trabalhadores solidários atuarem na superação das contradições próprias do capitalismo, encontradas como dificuldade para o desenvolvimento do homem. A Economia Solidária na cidade de Ponta Grossa tem apoio de diversas entidades, sendo uma delas a Incubadora de Empreendimentos Solidários (IESol), que faz parte de um programa de extensão da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) que surgiu para articular, organizar e consolidar empreendimentos solidários, promovendo nos grupos de trabalhadores incubados os princípios da Economia Solidária. Singer (2002) comenta que a economia solidária compreende diferentes tipos de associações voluntárias com o fim de proporcionar a seus associados benefícios econômicos, e surgem como reações a carências, como a pobreza que o sistema econômico dominante se nega a resolver. De acordo com Singer (2002) a economia solidaria permite que todos os trabalhadores possam tomar as decisões do empreendimento, possuindo os mesmos direitos, afirmando que cada um [...] tem a mesma parte do capital, e portanto os mesmos direitos de decisão. Pratica-se a autogestão, que é administração da empresa por todos que trabalham nela democraticamente ( p. 11). Assim, o autor define a economia solidária como um modo de produção que se caracteriza pela igualdade de direitos, onde os meios de produção são de posse coletiva dos que trabalham com eles, favorecendo e incentivando a autonomia e autogestão. Por outro lado, a Economia Solidária inserida no capitalismo tem como resultado um sujeito que encontra mensagens contraditórias, pois os princípios da Economia Solidária, como autogestão e cooperação encontram dificuldades em uma cultura individualista e competitiva. Diante dessas considerações, o presente trabalho tem como objetivo principal compreender, por meio da história oral, a vivência pessoal das integrantes de um grupo

10 9 incubado pela IESol e suas motivações para integrar uma experiência coletiva. Para atingir esta finalidade, este trabalho contou com um levantamento da bibliografia que trata do assunto trabalho, capitalismo e economia solidária, além de pesquisa de campo, operacionalizada por meio das entrevistas de história oral, após a aprovação do conselho de ética e pesquisa da Faculdade Santana, conforme protocolo Este trabalho está organizado em quatro sessões, que serão a seguir apresentadas. Na primeira sessão é abordada a Economia Solidária como uma alternativa econômica, apontando a estrutura do capitalismo, suas contradições e crises e a realidade nacional dentro desse modelo econômico. Na segunda sessão é teorizado o trabalho como construção do homem, sendo uma categoria fundante do ser humano, capaz de produzir consciência ou alienar o homem frente à realidade do seu trabalho. Dessa forma, essa sessão apresenta que o trabalho pode ser tanto causador de sofrimento psíquico quanto gerador de saúde mental. Na próxima sessão apresentamos a metodologia na qual foi realizado este trabalho que surgiu por vinculação ao campo de estágio, o que facilitou a construção desse trabalho pelo vínculo estabelecido com aequipe da incubadora e com os sujeitos que compõem o empreendimento pesquisado. A construção metodológica dessa pesquisa foi realizada por meio de três etapas. Onde primeiramente foi dado início à pesquisa bibliográfica, em um segundo momento realizou-se o convite para os seis trabalhadores do empreendimento solidário, onde três feirantes concordaram em participar da História Oral, e em seguida as entrevistas foram transcritas e analisadas. Por fim, apresentamos na quarta sessão os resultados da pesquisa, com a finalidade de compreender como os princípios da Economia Solidária interferem na subjetividade dos sujeitos envolvidos nesta dinâmica, e qual a influência da estrutura capitalista imposta socialmente. Contemplamos, ainda, a motivação de trabalhadores no ingresso a um empreendimento coletivo através das narrativas construídas durante a história oral.

11 10 2 A ECONOMIA SOLIDÁRIA COMO UMA ALTERNATIVA ECONÔMICA 2.1 O capitalismo e suas contradições O capitalismo passou por um processo evolutivo que teve seu início no século XVI com as grandes navegações que buscavam a interligação marítima, domínio e exploração de territórios (SINGER, 1991). Singer (1991) realça que a estratégia de expansão deste período estava baseada na unificação do mercado nacional e dominação por meio do monopólio político, sendo organizado o modo de produção que fundamenta a era do mercantilismo. Paul Singer (1991) ainda destaca que o modo de produção capitalista acontece pela propriedade privada, desigualdade e competição entre as classes sociais, que teve sua origem com a economia de mercado existente na Idade Média. Dobb (1976 apud ROIZ, 2009) demarca o surgimento e desenvolvimento do capitalismo, a partir da crise estrutural do sistema feudal que deu origem à circulação de mercadorias. Posteriormente, no século XVIII com a Revolução Industrial que inicia na Grã Bretanha, os mercados locais e nacionais passaram a estabelecer competições livres. Paul Singer (1991) comenta que: No século XVIII sucessivas guerras resultam no triunfo da Grã- Bretanha sobre seu maior rival, a França. Em consequência, o capitalismo manufatureiro alcançou maior desenvolvimento na Grã-Bretanha, criando as condições para a Revolução Industrial que aconteceu logo a seguir (p. 12). Assim, o capitalismo desenvolveu-se como modelo econômico no século XIX, o qual representou a derrocada do feudalismo, estabelecendo a divisão de trabalho e a especialização da produção em diferentes cidades (MARX, 1985). Marx (1985) ainda destaca que essas transformações na produção foram fortalecidas à medida que as propriedades existentes foram modificadas em capital industrial ou comercial, resultando no desenvolvimento do capitalismo. Com as revoluções e invenções das máquinas, o capitalismo passou a prover parte das atividades econômicas da época. Dessa forma, Singer (1991) define que o avanço do capitalismo foi lento e gradual, se fazendo presente a partir do momento em que as máquinas industriais passaram a sobrepor o homem. Segundo Scholz (2009), a Revolução Industrial na Grã-Bretanha ocorreu junto com a expulsão em massa de camponeses dos domínios senhoriais na Europa, que se

12 11 transformaram no proletariado moderno, ocasionando o êxodo rural e a exploração do trabalho nas fábricas pelo contingente de demanda de mão-de-obra. Essa excessiva exploração que os trabalhadores sofriam afetava diretamente sua saúde fisíca e psíquica, resultado das péssimas condições de trabalho e jornadas extensas que ocasionaram grande morbidade e mortalidade, impedindo que a produtividade do trabalho pudesse se elevar (SINGER, 2002). Frigotto (2000) cita que Marx em sua obra O Capital explora este modelo econômico como um modo social de organização que tem como objetivo central a maximização do acúmulo do capital, tendo como prioridade a concentração e centralização ampliada do capital da renda. Deste modo, Roiz (2009) aponta que a economia política do capitalismo produz desigualdades sociais que são apresentadas como circunstâncias constantes da luta de classes e intensificadas pelo modo de produção capitalista. O Donnell (1981) confirma: O capitalismo tem que engendrar o sujeito livre e igual ante o direito, o contrato e a moeda, sem que não poderiam existir sua ação seminal: compra e venda de força de trabalho e apropriação de valor. Essa liberdade implica como paralelo seu a igualdade própria da cidadania (p.74). Dessa forma, o autor pontua que o sujeito é livre e desamparado para vender a sua força de trabalho, pois a relação entre o trabalho e o poder do capital exercido sobre o trabalhador é estruturalmente desigual. Marx, em seus estudos sobre o capitalismo, demostra que esse sistema sobrevive da exploração do trabalho como forma de obter a dominação do capital. Assim, esta acumulação de capital deriva de relações desiguais. Marx (2011) traz como principal característica do capitalismo a circulação de mercadorias, tendo como ponto de partida o capital, que resulta no dinheiro. Logo, Marx (2011) diferencia o capital de dinheiro pela sua forma de circulação dentro da sociedade, sustentando como principal objetivo do capitalismo a apropriação crescente da riqueza, ou seja, do dinheiro. Dessa forma, o próprio trabalho é considerado mercadoria, cujo valor é estabelecido pelo mercado. Marx (2011) corrobora essa afirmação: Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos como o conjunto das faculdades físicas e mentais existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie (p.197). Portanto, a força que o trabalhador exerce na empresa capitalista é considerada como parte do processo, ou seja, uma mercadoria necessária para exceder a mais-valia,

13 12 seguindo a dinâmica de compra e venda. Na perspectiva de Marx (2011), o dinheiro é a forma necessária de se manifestar a medida do valor das mercadorias e do tempo de trabalho. O autor critica o sistema capitalista, no qual ocorre, constantemente, a transformação de mercadoria em dinheiro (venda) e dinheiro em mercadoria (compra). Assim, o produto excedente é vendido para gerar dinheiro e poder adquirir novas mercadorias (m1 d1 m2), passando a converter dinheiro em mercadoria e mercadorias em dinheiro (d1 m1 d2), esse processo de desenvolvimento tem como objetivo gerar e acumular riquezas sustentando a competição no mercado de trabalho, aumentando a desigualdade social (MARX, 2011). De acordo com Needleman (s/d apud KORTEN, 1996), no capitalismo o dinheiro passou a ser um determinante social: Em outros tempos e lugares, nem todos queriam o dinheiro acima de qualquer coisa; as pessoas desejavam a salvação, a beleza, o poder, o prazer, a propriedade, explicações, alimento, aventura, conquistas, conforto. Mas aqui e agora, o dinheiro não necessariamente as coisas que o dinheiro pode comprar, mas o dinheiro é o que todos querem. O gasto da energia da humanidade agora acontece no e através do dinheiro (p. 303). Para Marx (2011) o homem dentro da perspectiva do capitalismo é visto como personificação da força do trabalho, um objeto natural ou uma coisa, embora seja uma coisa viva e consciente, e o próprio trabalho é a manifestação externa, objetiva dessa força (p.238). Neste pensamento, o homem é apenas considerado um fator de produção, desconsiderando a sua subjetividade, não sendo visto como um indivíduo vivo, criativo, com metas, sonhos e potencialidades. O homem é um meio que serve para um fim maior, que é ganhar dinheiro. Ocorre uma espécie de alienação do trabalho e da vida do homem em decorrência dos princípios da valorização do capital. Altvater (2010) afirma que Marx compreende por capital uma relação social específica entre capitalistas, e aqueles que trabalham para eles são explorados nesta relação, cuja finalidade é gerar mais-valia, ou seja, lucro. Altvater (2010) ainda ressalta que o modo de produção capitalista é um sistema flexível, dinâmico, mas extremamente instável e contraditório, que provoca crises econômicas e políticas recorrentes. Assim a continuação do sistema capitalista no mundo, como afirma Altvater (2010), não apenas trará uma euforia impensada, que constrói o universo simbólico de que é uma sociedade democrática, que possui liberdade de escolha, economia de mercado e o bem-estar social, mas carregará a destruição do ser. O autor critica que o

14 13 capitalismo está tão enraizado na vida do homem contemporâneo tornando-se difícil refletir ou encontrar outra possibilidade de economia. A visão de outro mundo torna-se utopia, pois o fim do capitalismo é pensado como uma era apocalíptica, sendo reforçada a ideia de um sistema permanente (ALTVATER, 2010). 2.2 Capitalismo e realidade nacional: Conjuntura Política Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializaram em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder (Eduardo Galeano). O jornalista crítico Eduardo Galeano inicia sua obra As veias abertas da América Latina, destacando o quanto os países desse continente são marcados pela exploração, o que os levou à categoria de oprimidos especialistas. O autor ainda enfatiza que estes países possuem uma gama de recursos naturais, mas se limitam a sustentar as necessidades dos países desenvolvidos. Assim, Galeano (2010) entende que a América Latina é composta por países que foram explorados desde sua descoberta, tendo como resultado o trabalho excessivo da população para suprir outras necessidades que não são as suas, conforme cita: É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder (GALEANO, 2010, p.5). O autor ainda localiza esta exploração contínua com o desenvolvimento do capitalismo, que funciona a partir de ganhadores e perdedores, enfatizando que a miséria encontrada atualmente é resultado das vitórias de outros países. O Brasil, durante três séculos, foi colônia de exploração dos portugueses, colaborando para a constituição do capitalismo manufatureiro europeu. Apenas na metade do século XIX iniciou-se o processo de substituição industrial através das importações, estando subordinada aos interesses da agricultura (SINGER, 2002). A produção brasileira exportada em 1930 era predominantemente agrária, porém com a industrialização do país foram criadas condições para a acumulação capitalista, com interferência direta do Estado (SCHOLZ, 2009). Com a industrialização do Brasil na década de 1950 e 60, segundo Freitas (1979

15 14 apud FREIRE, 1996) o desemprego atingiu números assustadores, a inflação e o custo de vida tornaram-se insuportáveis para a classe trabalhadora e para a população em geral. De acordo com Beatriz (2012), neste período ocorreu a migração abundante da população rural para as cidades, acarretando o excesso de pessoas para uma infraestrutura pouco adequada às necessidades básicas da população. A população pobre do país, expulsa ontem do campo e hoje excluída do emprego urbano, gera a situação explosiva que constatamos na cidade e no campo neste início do século (DOWBOR, 2002 apud BEATRIZ, 2012, p. 37). A crise econômica da década de 30, recorrente nas décadas de 70 a 90, é explanada por Frigotto (2000) como uma problemática de ordem político-econômica que foi marcada pelos altos índices de desemprego e desigualdade social. De acordo com este autor a acumulação capitalista financiada pelo fundo público para manter o padrão de acumulação do capital solucionou a crise da década de 30, entretanto deu origem às crises econômicas das próximas décadas, tornando-se, portanto uma crise estrutural e não uma crise decorrente das intensas intervenções do Estado. Se na década de 30, período marcado pelo Estado Novo, o Brasil construiu as bases para o desenvolvimento do capitalismo, foi a partir da década de 60 que o Brasil firmou-se como um país capitalista. Numa conjuntura internacional configurada pela Guerra Fria, estabelecida entre Estados Unidos e União Soviética, mais precisamente marcada por uma guerra entre modelos econômicos distintos, a elite conservadora do país escolheu o rumo que o país adotaria (ORTH, 2013). Em decorrência dessa conjuntura, os Estados Unidos na tentativa de efetivar seu modelo econômico, realizou inúmeros investimentos na América Latina, contemplando o Brasil. Dessa forma, a autora afirma que a ditadura brasileira teve como base a efetivação do capitalismo como modelo econômico vigente, conforme segue: Em troca da extração das riquezas brasileiras, os estadunidenses deixaram aqui sua ideologia capitalista, sua supremacia econômica, a desvalorização da cultura nacional e a manutenção do país no submundo do desenvolvimento. A presença dos valores, da ideologia e da influência dos Estados Unidos no país é indiscutível, e a ditadura militar representou, apenas, mais uma etapa da intervenção daquele país no Brasil (ORTH, 2013, p. 62). Assim, o capitalismo ganha destaque no Brasil, apoiado pela ditadura militar com a propaganda de efetivar a democracia no país. De acordo com Freitas (1998), a repressão política, cultural, o aumento da pauperização e o acirramento das desigualdades sociais caracterizaram este período ditatorial. O governo ditador, a fim de garantir a hegemonia nas decisões tomadas, afastou

16 15 a população dos assuntos políticos, acarretando [...] uma despolitização em massa de grandes setores da sociedade que simplesmente diziam amém aos arbítrios políticos (ORTH, 2013, p 62). No início do Regime Militar, o Brasil vivenciou uma sensação de pleno desenvolvimento econômico, o que propiciou a urbanização do país. Vale lembrar, entretanto, que essa situação foi impulsionada pelo baixo preço do petróleo em âmbito internacional, matéria-prima que contribuiu para o desenvolvimento da infraestrutura do país, mas que seria, também, a responsável pela derrocada do Regime e pela imersão do país na grande crise econômica que viria na década de 1980 (GASPARI, 2003). Até a década de 1970, o Brasil não se preocupou em investir na exploração dos combustíveis fósseis no país, por conta da abundância dessa matéria-prima no mundo e pelo baixo preço de importação. Porém, com o aumento do preço do petróleo importado a economia brasileira não resistiu, provocando escassez de matéria-prima e aumento do preço dos produtos derivados do petróleo. O Regime, a fim de manter a sensação de pleno desenvolvimento e sustentar sua posição de poder, passou a subsidiar o petróleo importado, o que gerava um gasto de 150 milhões de dólares por mês (GASPARI, 2003). Dessa forma, o brasileiro passou a consumir mais, levando a um déficit na produção e inflação de preços (GASPARI, 2003). Não conseguindo mais dar conta desse prejuízo, principiando a crise dos anos 80, os militares iniciaram o longo processo de abertura democrática. Assim, a instabilidade econômica atingiu o regime político e toda a população, pois a crise econômica dos anos 1980 resultou no aumento da desigualdade social e na pobreza (GASPARI, 2003). Costa e Souza (2005) enfatizam que a pobreza é gerada por ações humanas, responsabilizando o Estado por toda a desigualdade social visualizada atualmente. As autoras, ainda, apontam que no Brasil a falta de políticas públicas para distribuição de renda e riquezas gerou uma sociedade desigual, decorrente de decisões humanas que seguem a lógica capitalista, ou seja, a incapacidade de inclusão no mercado de trabalho. A pobreza ainda é analisada pelas autoras como um fenômeno global, pois está vinculada a fatores que dificultam o desenvolvimento do ser humano, afetando o convívio social, padrão cultural, acesso a serviços básicos, à justiça, enfim interferindo integralmente na vida social do sujeito. Singer (1991) aponta que nas décadas de 1980 e 1990, as grandes empresas eram responsáveis por fornecer a maior parte do emprego e os custos trabalhistas eram repassados aos preços dos produtos, assim, quem pagava o salário eram os

17 16 consumidores. Neste momento, de acordo com Beatriz (2012), a abertura do mercado brasileiro a produtos importados e a modernização da tecnologia e indústrias acarretaram o aumento da competição e prejuízo das empresas do país, sendo obrigadas a cortar custos. Singer (2004) exemplifica este período comentando: [...] comunidades pobres podem ser classificadas pelo seu grau de integração ao mercado global. Há as excluídas desde há muito tempo e que vivem em economia de subsistência, de forma quase auto-suficiente. E há as recém excluídas, como o cinturão da ferrugem cujos moradores foram empregados de indústrias, que encolheram ou desapareceram em função da abertura do mercado interno e do progresso tecnológico (p.3). Segundo Serafim (2012), a década de 1980 foi marcada por altas taxas inflacionárias e baixas taxas de crescimento econômico, levando ao aumento do desemprego em massa e à precarização do mercado de trabalho. Nesse cenário econômico e político, Fernandes (2007) ressalta: A abertura nada tem de democrática : os governantes que assaltaram o Estado brasileiro e o amoldaram a seus fins políticos engendraram uma forma policial-militar de ditadura burguesa que pode oscilar, endurecendo ou liberalizando-se de acordo com a conjuntura econômica, social e política e com o volume de pressões contra a ordem ilegal estabelecida como institucional e revolucionária (p. 208). Galeano (2010) enfatiza o quanto as formas autoritárias construídas através das ditaduras são disseminadas como ordem e paz social (p.8), sustentando a proibição de greves, extinguindo sindicatos trabalhistas, com o objetivo de impossibilitar qualquer ato de liberdade do sujeito. No Brasil, a industrialização, acompanhada da Guerra Fria e depois da ditadura implantada a partir da ideologia política, trouxe o capitalismo como opção democrática de modelo econômico (GALEANO, 2010). Assim, frente à alienação da mídia que fortalece o sistema capitalista e aos problemas da conjuntura socioeconômica do Brasil, começa-se a valorizar e consolidar o embasamento para se pensar em alternativas de solidarismo popular (SINGER, 2002). 2.3 A Economia Solidária como enfrentamento da desigualdade social produzida pelo Capitalismo A economia solidária nasce pelo resultado das desigualdades sociais produzidas pelo capitalismo, em decorrência da Revolução industrial nos séculos XVII e XIX (RANGEL e MANOLESCU, 2012), conjuntura trabalhista preenchida pelos baixos

18 17 salários, esgotamento físico, inúmeros acidentes, jornadas de trabalho exorbitantes e uma classe de produção industrial que inclui crianças, sustentando um modelo de produção dominante com condições precárias (DEJOURS, 1992). Diante deste cenário, nasce o movimento nomeado como cooperativismo, explanado por Santos (2005 apud RANGEL e MANOLESCU, 2012) como um movimento que inicia novas práticas, baseadas em princípios solidários. Rangel e Manolescu (2012) descrevem que este movimento cooperativista é apreciado por alguns pensadores, entre eles o britânico Robert Owen denominado como socialista utópico. Singer (1998) explica que este pensador participou das primeiras experiências no cooperativismo, construindo colônias cooperativas perto das fábricas com o objetivo de tornar esses trabalhadores autônomos. De acordo com Singer (2002), no capitalismo é produzida desigualdade crescente e constante competição, tendo como princípios o direito à propriedade individual aplicado ao capital que acaba dividindo a sociedade em proprietários e a classe que vende sua força de trabalho. Durante as décadas de 40 e 50 o Brasil passou por mudanças no seu modelo de produção, Freitas (1988) destaca que a mudança do sistema agropecuário para o agroindustrial produz consequências intensas, como a rápida necessidade de mão-deobra qualificada, com jornadas de trabalhos desgastantes e baixos salários. Assim, a Economia Solidária surge em vários países como um movimento amplo e profundo, que tem como origem a luta dos trabalhadores marginalizados desse novo modelo econômico (BRASIL, 2007). Na década de 1960, segundo Freitas (1996), o Brasil passou por fortes confrontos entre o Estado, as forças capitalistas e as necessidades básicas da população, a qual sofria com o desemprego e reivindicava direito à saúde e à educação. Freire (1979) ressalta que este período foi marcado pelos cinturões de pobreza e miséria que íam crescendo ao redor dos pólos industriais e centros de riqueza. Em decorrência da crise da década de 1980 e 1990 o Brasil enfrenta altos índices de desemprego. Durão (2003) caracteriza essas décadas pelo alto grau de desigualdade de renda, resultando em uma exacerbada desigualdade social. Dessa forma, reivindicações por melhoria nas condições de trabalho, direito à saúde e educação foram ganhando destaque, dando abertura aos movimentos sociais que ascenderam durante a ditadura militar, enfrentando repressão, mas que promoveu a maior participação da população dando lugar à democracia.

19 18 Os trabalhadores passaram a buscar outros meios de renda, os empregos informais, como cooperativas, associações, ressurgindo 1 a Economia Solidária no Brasil que traz como base o ser humano e o trabalho coletivo, sobrepondo o individualismo e a competitividade, fomentando a horizontalidade (SINGER, 2002). Dentro deste contexto a psicologia demarcou a sua participação na atuação com os marginalizados, sendo desenvolvida na década de 1980 a Psicologia Social Comunitária, caracterizada pela construção de uma psicologia social crítica, histórica e comprometida com a realidade concreta da população brasileira (FREITAS, 1996). De acordo com Veronese (2008), esta psicologia passa a ser uma ciência transformadora por visar o empoderamento social das comunidades. Segundo Freitas (1996), a psicologia passa a atuar junto de diversos setores da população enfatizando práticas emancipatórias, autogestão e empoderamento dos sujeitos. A economia solidária e a psicologia comunitária passam a desenvolver suas teorias baseadas nas desigualdades sociais, realizando uma forte crítica à economia dominante que produz desemprego, destruição do meio ambiente e a possibilidade de crescimento para poucos, colocando o lucro em primeiro lugar. Singer (2002) comenta que a Economia Solidária reage à crise do desemprego em massa, caminhando na direção oposta ao capitalismo e priorizando os trabalhadores com princípios e valores que promovem a autogestão, democracia, cooperação, emancipação, reivindicando melhorias e autonomia da população brasileira. Segundo Veronese (2004): Com a crise social das duas décadas perdidas (80 e 90), a economia solidária renasce no Brasil; após algumas experiências isoladas nos anos 80, em 1991 a empresa calçadista Makerli, em Franca (SP) ressuscitou como cooperativa, inaugurando uma série de eventos semelhantes nos anos 90. Ainda nos anos 80, a Cáritas, entidade ligada à CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), financiou milhares de pequenos projetos, os PACs (Projetos Alternativos Comunitários), a princípio para gerar renda para as populações de periferia. Alguns deram origem a empreendimentos autogestionários, outros dependem mais de ajuda externa (p. 121). Assim, a Economia Solidária, através do trabalho coletivo, envolve as demandas econômicas e sociais dos sujeitos marginalizados, possibilitanto consolidar um movimento social, afirmação que é corroborada por Paul Singer (2002): [...] a economia solidária hoje é uma opção adotada por movimentos sociais e importantes entidades da sociedade civil, como Igreja, sindicatos, universidades e partidos políticos. Na passagem do século, políticas públicas 1 Não existe uma data específica para o surgimento da Economia Solidária no Brasil, porém considera-se que o movimento ganhou destaque significamente na década de 1980.

20 19 de fomento e apoio à economia solidária foram adotadas por muitas municipalidades e alguns governos estaduais (p. 3). Dessa forma, a Economia Solidária cria a possibilidade de dar voz aos marginalizados, consolidar a luta pela desigualdade social e fortalecer alguns movimentos sociais. De acordo com Scholz (2009), a economia solidária é uma resposta ao capitalismo, ao desemprego e à exclusão social, sendo uma alternativa de inclusão do marginalizado no mercado de trabalho. Singer (2002) afirma que o desemprego é um dos principais fatores para a exclusão social e econômica, necessitando dar oportunidades e espaços de trabalhos que se organizem coletivamente. A economia solidária busca enfrentar as desigualdades sociais, como sustenta Icaza (2004, p. 22), visto que a economia solidária é um campo de construção de alternativas econômicas ao modelo dominante, alicerçado em um discurso crítico transformador e em práticas solidárias e autogestionárias muito próximas dos movimentos sociais. Tornando-se uma nova economia que tem como princípios: autogestão, democracia, cooperação, centralidade do ser humano, valorização da diversidade (igualitarismo), emancipação, reconhecer o saber local (cultura e tecnologia popular) e responsabilidade social (BRASIL, 2007). Singer (2002) destaca que a autogestão é a principal característica dos empreendimentos de economia solidária, exigindo um esforço adicional desses trabalhadores, pois além de terem sua ocupação dentro do empreendimento, devem preocupar-se com os problemas gerais da mesma, envolvendo decisões democráticas e informações que procedem dos próprios trabalhadores. Dessa forma, os princípios da Economia Solidária vão contra o modelo vigente, apresentando dificuldades em sua efetiva prática. Segundo Veronese (2008), a Economia Solidária nega a base do capitalismo que separa o trabalho da posse dos meios de produção. A autora enfatiza que as formas de trabalhar nesta economia não estão ligadas apenas à produção e distribuição de produtos e serviços, mas contribuem na criação e recriação da vida em sociedade. A economia solidária reconhece o papel ativo da mulher dentro dos empreendimentos, promoção da cidadania, valorizando a criatividade tecnológica e o respeito ao meio ambiente, conforme o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (2014): A Economia Solidária constitui o fundamento de uma globalização humanizadora, de um desenvolvimento sustentável, socialmente justo e voltado para a satisfação racional das necessidades de cada um e de todos os cidadãos da Terra seguindo um caminho intergeracional de desenvolvimento sustentável na qualidade de sua vida (p.4).

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