GRAMSCI E A PRÁTICA PEDAGÓGICA DO CENTRO DE TRABALHO E CULTURA



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Transcrição:

GRAMSCI E A PRÁTICA PEDAGÓGICA DO CENTRO DE TRABALHO E CULTURA SPINELLI, Mônica dos Santos IE/PPGE/UFMT RESUMO O texto apresenta resultados parciais da pesquisa teórica sobre categorias conceituais em Antônio Gramsci. No momento, busco relacioná-las a pesquisa de mestrado vinculada ao Programa de Pós-graduação do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso. Tem-se como objetivo geral compreender as práticas educativas desenvolvidas pelo Centro de Trabalho e Cultura, como fator de transformação. O Centro é uma instituição de ensino profissionalizante para jovens e adultos, fundada em 1966, em Recife-Pernambuco, que visa uma formação crítica e politizada de seus educandos, visando o alcance de uma sociedade mais igualitária e democrática, a partir de sujeitos autônomos e participativos socialmente. A práxis pedagógica da instituição se assenta no seguinte tripé: Criação do Saber metodologia de ensino; a Educação Política formação cidadã e política; e Cotidiano gestão compartilhada e democrática da escola. Ao fundamentá-la teoricamente, encontramos em categorias gramscianas aspectos que alicerçam tal práxis, conceitos como os de hegemonia, contra-hegemonia, intelectual orgânico e ideologia, presentes no legado do autor relacionam-se com a prática pedagógica da instituição estudada. Resumidamente, o autor ressalta a influência de aspectos da superestrutura, como a cultura, em âmbitos da estrutura da sociedade. Assim, a manutenção da hegemonia não se limita apenas à dimensão econômica, sendo também influenciada por questões culturais, passando a ressaltar a importância da educação e do intelectual como fator formador de ideologias, tanto hegemônica quanto contra-hegemônica, dependendo apenas do objetivo de sua formação. Palavras-chave: Educação, Hegemonia, Intelectual Orgânico. Este texto apresenta resultados parciais da pesquisa teórica sobre categorias conceituais em Antônio Gramsci. No momento, busco relacioná-las à pesquisa de mestrado vinculada ao Programa de Pós-graduação do Instituto de Educação da Universidade Federal de Mato Grosso. Esta proposta busca compreender a atuação pedagógica do Centro de Trabalho e Cultura (CTC), uma instituição de ensino profissionalizante a jovens e adultos de baixa renda da Região Metropolitana do Recife.

O Centro visa uma formação crítica e politizada para o alcance de transformações sociais, na perspectiva de uma sociedade mais justa e igualitária. O exercício da docência durante três anos, instigou-me a refletir sobre as bases teóricas dessa experiência. O objetivo geral da pesquisa é compreender as práticas educativas desenvolvidas pelo Centro, como fator de transformação. Fundado em 1966, originalmente, o Centro contou com uma equipe atuante em movimentos sociais e operários de diversas correntes políticas. Na década de 1970, o CTC investiu na formação profissional e política de trabalhadores para o setor industrial (ROSAS, s/d). O exercício da formação e o diálogo foram as bases para a reflexão e acúmulo produzindo uma práxis diferenciada no ensinar e aprender. Práxis, que se assenta no seguinte tripé: a Criação do Saber, a Educação Política e o Cotidiano. A Criação do Saber corresponde à metodologia de ensino que resgata o potencial de elaboração de conhecimentos dos educandos, valorizando as experiências pessoais, a construção coletiva de conhecimentos e habilidades, a gestão do poder compartilhado e a responsabilização do alunado (COSTA SALES, 2002). A segunda base é a Educação Política, pois além dos conteúdos técnicos de cunho prático e teórico, são realizadas discussões com conteúdos políticos. A terceira é o Cotidiano, nome dado à gestão compartilhada e coletiva da escola, com participação ativa dos educadores e educando, abordando questões administrativas, pedagógicas e do cotidiano da escola. Quanto ao levantamento teórico da pesquisa, Gramsci, sobre bases historicistas, mas indo além do determinismo econômico, deu nova interpretação a conceitos marxistas, proporcionando contribuições à análise do processo de desenvolvimento social. Consciente da relevância dos fatores econômicos, ressaltava a importância da cultura, afirmando sobre a transformação social: (...) uma reforma intelectual e moral não pode não estar ligada a um programa de reforma econômica. Pelo contrário, o programa de reforma econômica é exatamente a maneira concreta pela qual toda a reforma intelectual e moral se apresenta, ou seja, uma está interligada à outra - relacionando estrutura e superestrutura. (GRAMSCI apud SEMERARO, 2004, p.72) Gramsci foi um dos pensadores marxistas que refletiu sobre o papel da educação na formação social, concentrando-se no caráter transformador dessa atividade. Para o autor, a dominação de uma classe social sobre as demais não se resume exclusivamente à detenção de seu poderio econômico e/ou militar, há aspectos culturais e ideológicos

que legitimam essa relação. Segundo o autor, as orientações ideológicas e culturais influenciam diretamente na forma de pensar e agir de uma sociedade. Para tanto, Jesus (1989, p.32), ao abordar o conceito gramsciano de hegemonia, esclarece que há nele dimensões que abrangem poder e direção integrados mutuamente com dimensões de dominação e consenso. Portanto, hegemonia é um conceito relacional, pois o domínio/governo/direcionamento de uma sociedade implica que exista a concessão dos dominados, ou seja, para que haja dominação é preciso que se deixem dominar. Nas palavras de Jesus, A hegemonia, se é capacidade de direção cultural ou ideológica de uma classe sobre o conjunto da sociedade, é também uma relação de dominação entre dirigentes e dirigidos, responsável pela formação de um grupo orgânico e coeso em torno de princípios e necessidades defendidos pela classe dominante. (JESUS, 1989, p.18). Constata-se que aspectos da superestrutura, como os culturais, influenciam na estrutura organizacional da sociedade. Gramsci discute como a visão da classe dominante é expandida às demais classes, firmando e fortalecendo a sua posição social privilegiada de forma pacífica e orgânica. Assim, relações desiguais são reproduzidas e aceitas sem necessidade de coerção, baseando-se na concessão da classe dominada. O papel do intelectual, segundo o autor, está intimamente ligado a essa concepção. De acordo com Gramsci, cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no político (GRAMSCI, 1968, p.03) Assim, o intelectual contribui para a formação da consciência social e política do grupo ao qual pertence, indo de encontro à concepção de autonomia e independência que essa categoria tem de si. Gramsci identifica diversos tipos de intelectuais (urbanos, industriais, rurais, técnicos, acadêmicos, entre outros), porém a sua grande contribuição foi de identificar que a condição de pertencimento a uma dada classe social, pode significar a defesa de diferentes projetos políticos de sociedade. (SEMERARO, 2004, p.70) O autor considera que todos os homens são intelectuais, uma vez que em qualquer trabalho físico, mesmo no mais mecânico e degradado, existe um mínimo de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora. Porém, alerta

que Todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais (GRAMSCI, 1968, p.7). Todos os homens exercitam seus intelectos, sendo esta uma capacidade universal, no entanto, o intelectual (...) é todo aquele que cumpre uma função organizadora na sociedade e é elaborado por uma classe em seu desenvolvimento histórico (desde um tecnólogo ou um administrador de empresas até um dirigente sindical ou partidário) (SECCO, s/d). Gramsci considera dois tipos principais de intelectuais: o intelectual tradicional e o orgânico. O primeiro ligado à classe dominante, independente de sua origem (urbana, rural, tecnicista, etc), mas contribui para a ideologia da classe dominante, legitimando a sua hegemonia. O orgânico, como afirma Semeraro (2004 p.xx), definindo-o como sendo: intelectual orgânico da burguesia e o intelectual orgânico das classes populares. Acrescenta, (...) os primeiros revelam-se preocupados com a centralização do poder, a mistificação da ideologia, a coerção direta ou indireta, enquanto os intelectuais populares dedicam-se a criar uma filosofia da práxis que por um lado subverte a concepção de dominação, de autoritarismo, de burocratismo, de nacionalismo estreito e, por outro, cria uma nova concepção de política fundada sobre o novo conceito de hegemonia, de democracia, de dirigente (SEMERARO, 2003, p.270-271), de projeto nacional-internacional-popular (BARATTA apud SEMERARO 2004, p.73) A origem do intelectual pode ser diversa, mas aquele classificado como orgânico das classes populares encontra-se atrelado a essa classe e a sua causa, fortalecendo a construção de uma proposta contra-hegemônica de sociedade realmente democrática e popular. É consciente de sua condição social, possui capacidade organizativa de sua classe, porém de forma crítica, poderá contribuir para a superação do senso comum, abrindo perspectivas para novas dimensões ético-políticas, no sentido da transformação intelectual e moral da sociedade. Dentro desse contexto, a educação é classificada como aparelho ideológico que contribui para a formação cultural e ideológica da sociedade. Podendo, assim, estar ligada a projetos políticos de sociedade que fortalecem a ideologia dominante hegemônica - ou a projetos alternativos, que vislumbrem a construção de uma contrahegemônica, justificando a afirmação de Jesus: toda relação pedagógica é hegemônica (1989, p.18).

O papel da educação, para Gramsci, tem destaque ao fortalecer diretamente a formação da ideologia contra-hegemônica, indo além de uma mera qualificação, mas sim, de uma formação crítica dos dominados, contribuindo com o projeto de humanização, gerando não apenas cidadãos, mas, governantes. Mas a tendência democrática, intrinsecamente, não pode consistir apenas em que um operário manual se torne qualificado, mas em que cada cidadão possa se tornar governante e que a sociedade o coloque, ainda que abstratamente nas condições gerais de poder fazê-lo: a democracia política tende a fazer coincidir governantes e governados, (...) assegurando a cada governado a aprendizagem gratuita das capacidades e da preparação técnica geral necessárias ao fim de governar. (GRAMSCI, 1968, p.137) Diante do exposto, constata-se a relação entre as categorias teóricas apresentadas com a prática pedagógica desenvolvida pelo CTC. Senão vejamos, a instituição possui uma proposta que procura, através da construção coletiva de conhecimentos Criação do Saber, da gestão coletiva da escola - Cotidiano e da Educação Política, a formação de sujeitos críticos e ativos na sociedade. Gera, assim, uma prática pedagógica política, que busca, como afirma Semeraro (2004, p.76) sobre os intelectuais orgânicos da classe dominada, romper com a concepção de poder-dominação e se dedica a elevar intelectual e socialmente as camadas populares conduzindo à hegemonia de uma efetiva democracia. Assim, o CTC se enquadra nesse contexto não apenas teorizando questões marxistas e gramiscianas, mas procurando colocá-las em prática no dia a dia da escola, caracterizando um trabalho pedagógico e político, mantendo acesa e viva a figura do educador-político (SEMERARO, 2004). REFERÊNCIAS COSTA SALES, Ivandro da. 35 Anos Criando o Saberes. Recife: COMUNIGRAF, 2002. GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S.A. 1968. JESUS, A.T. Educação e Hegemonia: no pensamento de Antonio Gramsci. São Paulo: Cortez, 1989 ROSAS, Margarida Costa. Viver hoje na prática o mundo que queremos: uma experiência com adolescente no Brasil. s/d. SEMERARO, G. O educador político e o político educador. In: SEMERARO, G. (org.). Filosofia e política na formação do educador. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2004. SEMERARO, G. Para uma teoria do conhecimento em Gramsci. Disponível em: http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=284

SECCO, L. Intelectuais. Disponível em: http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=648