CAPÍTULO 7 : CUIDADOS COM O RECÉM-NASCIDO COM INFECÇÃO



Documentos relacionados
Nota Técnica: Prevenção da infecção neonatal pelo Streptococcus agalactiae (Estreptococo Grupo B ou GBS)

Profilaxia intraparto para EGB. Importância para o RN. Profª Drª Roseli Calil Hospital da Mulher - CAISM/UNICAMP

Diretrizes Assistenciais PREVENÇÃO DA DOENÇA ESTREPTOCÓCICA NEONATAL

Diretrizes Assistenciais

ANTIBIÓTICOS EM SITUAÇÕES ESPECIAIS INFECÇÕES NO RN

ABORDAGEM DO RN COM FATOR DE RISCO PARA SEPSE PRECOCE

Gean Carlo da Rocha. Declaração de conflito de interesse

PLANO DE AÇÃO Prevenção da Disseminação de Enterobactérias Resistentes a Carbapenens (ERC) no HIAE. Serviço de Controle de Infecção Hospitalar

Perguntas e respostas sobre imunodeficiências primárias

ASSISTÊNCIA AO NEONATO EM ESTADO GRAVE. Renata Loretti Ribeiro Enfermeira COREN/42883

HIV no período neonatal prevenção e conduta

INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO

Hepatites Virais 27/07/2011

Cuidados simples são fundamentais para o sucesso desta fase de criação e muitas vezes são negligenciados pelo produtor. Saiba quais são eles.

INFECÇÃO DA CORRENTE SANGUÍNEA

VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA DAS DDA. Patrícia A.F. De Almeida Outubro

Relatório de Gestão da CCIH

Uso correcto dos antibióticos

Fique atento ao abuso de antibióticos na pediatria

Atenção ao Filho de Mãe com HIV

INFECÇÃO MATERNA x INFECÇÃO PERINATAL

PROTOCOLOS DE SEGURANÇA. Cícero Andrade DO PACIENTE

SCIH PREVENÇÃO DE INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO - ITU

PNEUMONIA. Internações por Pneumonia segundo regiões no Brasil, 2003

O QUE VOCÊ PRECISA SABER

A pneumonia é uma doença inflamatória do pulmão que afecta os alvéolos pulmonares (sacos de ar) que são preenchidos por líquido resultante da

ACIDENTES DE TRABALHO COM MATERIAL BIOLÓGICO E/OU PERFUROCORTANTES ENTRE OS PROFISSIONAIS DE SAÚDE

PROFILAXIA CIRÚRGICA. Valquíria Alves

NORMAS DE INCENTIVO AO ALEITAMENTO MATERNO BANCO DE LEITE HUMANO

Do nascimento até 28 dias de vida.

EXAMES MICROBIOLÓGICOS. Profa Dra Sandra Zeitoun

PROTOCOLO MÉDICO. Assunto: Infecção do Trato Urinário. Especialidade: Infectologia. Autor: Cláudio C Cotrim Neto-Médico Residente e Equipe Gipea

Sindrome respiratória felina. Rinotraquiete viral Clamidiose Calicivirose

Atenção ao Filho de Mãe com SífilisS

PNEUMONIA ASSOCIADA À VENTILAÇÃO MECÂNICA

Doença falciforme: Infecções

Hepatites B e C. são doenças silenciosas. VEJA COMO DEIXAR AS HEPATITES LONGE DO SEU SALÃO DE BELEZA.

CONTROLE DA INFECÇÃO HOSPITALAR É DEFICIENTE EM MAIS DE 90% DOS HOSPITAIS DE SÃO PAULO

Filosofia de trabalho e missões

Influenza. João Pedro Marins Brum Brito da Costa (Instituto ABEL) Orientador: André Assis (UFRJ Medicina)

Momento II. ASF Região Sul. Assistência integral à saúde do recém-nascido e da criança. Prof. Dra. Ana Cecília Lins Sucupira

Necessidades humanas básicas: oxigenação. Profª Ms. Ana Carolina L. Ottoni Gothardo

Bactérias Multirresistentes: Como eu controlo?

Estes artigos estão publicados no sítio do Consultório de Pediatria do Dr. Paulo Coutinho.

HOSPITAL DE CLÍNICAS UFPR

Febre Reumática Sociedade Brasileira de Reumatologia

BANCO DE LEITE HUMANO DO CHLC - MAC PERGUNTAS FREQUENTES

Informação pode ser o melhor remédio. Hepatite

Relatório de Gestão da CCIH

INALOTERAPIA. FUNDAÇÃO EDUCACIONAL MANOEL GUEDES Escola Técnica Dr. Gualter Nunes Habilitação Profissional de Técnico em Enfermagem

Drª Viviane Maria de Carvalho Hessel Dias Infectologista Presidente da Associação Paranaense de Controle de Infecção Hospitalar 27/09/2013

Dra Euzanete Maria Coser Infectopediatra Preceptora da Residência Médica em Pediatria e Infectologia Pediátrica do HEINSG Vitória-ES

GESTANTE HIV* ACOMPANHAMENTO NO TRABALHO DE PARTO E PARTO. Recomendações do Ministério da Saúde Profª.Marília da Glória Martins

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL DAS MENINGITES BACTERIANAS

Aspectos Microbiológicos das IRAS (infecções relacionadas à assistência a saúde) Infecções hospitalares Infecções nosocomiais

FUNDAMENTOS DA ENFERMAGEM ENFª MARÍLIA M. VARELA

INFORME TÉCNICO 001/2014 3ª Atualização

Boletim Epidemiológico Volume 01, Nº 2, 04 de Julho 2013.

Doenças que necessitam de Precaução Aérea. TB pulmonar ou laríngea bacilífera Varicela / Herpes Zoster Sarampo

ESTADO DE GOIÁS PREFEITURA MUNICIPAL DE CAVALCANTE SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE PROJETO ALEITAMENTO MATERNO

INDICAÇÕES BIOEASY. Segue em anexo algumas indicações e dicas quanto à utilização dos Kits de Diagnóstico Rápido Bioeasy Linha Veterinária

O papel da CCIH no Processamento de Roupas de Serviços de Saúde

Meningite Bacteriana

FUNDAÇÃO SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DO PARÁ. N 0 Recomendação REC - 003

Cuidando da Minha Criança com Aids

INFECÇÕES EM NEONATOLOGIA

8 passos da consulta da criança para o APE

PROTOCOLO MÉDICO. Assunto: Infecção do sítio cirúrgico. Especialidade: Infectologia. Autor: Cláudio de Cerqueira Cotrim Neto e Equipe GIPEA

Precauções Padrão. Precaução Padrão

Enfª Ms. Rosangela de Oliveira Serviço Estadual de Controle de Infecção/COVSAN/SVS/SES-MT

Boas práticas de atenção ao parto e ao nascimento

Página ORIGEM PULMONAR E EXTRAPULMONAR 01 de 05. Anexo 1. Figura 1: Características do frasco rígido com tampa rosca para a coleta de escarro

Precaução padrão e Isolamento

INSTRUÇÃO NORMATIVA REFERENTE AO CALENDÁRIO NACIONAL DE VACINAÇÃO POVOS INDÍGENAS

Profilaxia Pós-Exposição ao HIV. Alcyone Artioli Machado FMRP-USP

Medidas de Prevenção e Controlo em Meio Escolar. Informação para alunos e Pais

considerando a necessidade de diminuir o risco de infecção hospitalar, evitar as complicações maternas e do recém-nascido;

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

TIREÓIDE. O que é tireóide?

Mulheres grávidas ou a amamentar*

PARECER COREN-SP 021/2013 CT. PRCI n Ticket nº

CAPÍTULO 5 : CUIDADOS COM O RECÉM-NASCIDO DE BAIXO PESO

Diagnóstico Microbiológico

CARTILHA BEM-ESTAR PATROCÍNIO EXECUÇÃO

Otite média aguda em crianças Resumo de diretriz NHG M09 (segunda revisão, fevereiro 2013)

PNEUMONIAS COMUNITÁRIAS

Elsa Milheiras Mafalda Lucas Paula Borralho

Prof. Edison Barlem

CRIAÇÃO DE BEZERRAS EM ALEITAMENTO ARTIFICAL. Med. Vet. Eduardo Lopes de Oliveira.

Uso de antibióticos no tratamento das feridas. Dra Tâmea Pôssa

Pneumonia e Derrame Pleural Protocolo Clínico de Pediatria

USO PRÁTICO DOS INDICADORES DE IRAS: SUBSIDIANDO O TRABALHO DA CCIH HOSPITAIS COM UTI

4. COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO MIELOIDE CRÔNICA (LMC)? E MONITORAMENTO DE LMC? É uma doença relativamente rara, que ocorre

As Assaduras das fraldas

Transcrição:

CAPÍTULO 7 : CUIDADOS COM O RECÉM-NASCIDO COM INFECÇÃO As infecções bacterianas nos RN podem agravar-se muito rápido. Os profissionais que prestam cuidados aos RN com risco de infecção neonatal têm por objetivo principal identificar rapidamente os casos suspeitos de doença bacteriana e iniciar o tratamento antibiótico o mais precoce possível. O RN tem peculiaridades anatômicas e fisiológicas que favorecem a infecção. Além disso, determinados fatores predisponentes da criança e da mãe, e fatores ambientais podem contribuir para determinar a probabilidade de infecção. Os sinais clínicos do RN não são específicos, por isso devem ser realizadas investigações hematológicas e bacteriológicas para ajudar a estabelecer o diagnóstico e o agente etiológico. 1. PECULIARIDADES ANATÔMICAS E FISIOLÓGICAS DO RN: pele fina e mucosas frágeis superfície cruenta do coto umbilical aspectos imunológicos ainda imaturos que devem ser complementados pelo aleitamento materno 2. FATORES PREDISPONENTES Da criança. asfixia perinatal hipotermia dificuldade na alimentação prematuridade baixo peso ao nascer Da mãe ruptura prolongada das membranas condições precárias de higiene doenças sexualmente transmissíveis falta de cobertura vacinal leucorréia, infecções do trato urinário, manuseio excessivo do canal de parto Do ambiente Estes fatores estão muito relacionados com falhas nas normas de assepsia

do pessoal médico e paramédico - manuseio inadequado da parturiente e/ou do RN aparelhagem utilizada - pouca higiene durante o parto 3. SINAIS DE PERIGO Há uma variedade de sinais clínicos que podem ocorrer nas infecções neonatais, os quais infelizmente não são específicos. A presença desses sinais, principalmente na fase inicial da doença, apenas indica que há um problema e que esta criança necessita de avaliações mais detalhadas. Os sinais de alerta para infecção são os seguintes: hipotermia ou febre diminuição da aceitação ou recusa alimentar hipoatividade, hipotonia ou irritabilidade regurgitações, vômitos ou diarréia, distensão abdominal pausa respiratória taquipnéia (> 60 rpm) batimentos de asa de nariz tiragem torácica palidez, icterícia 4. INVESTIGAÇÃO LABORATORIAL As culturas para isolamento de bactérias no sangue, líquor ou urina são os exames específicos para o diagnóstico de infecção severa no RN e deveriam ser realizados, sempre que fosse possível. Atualmente não existe qualquer exame laboratorial simples, rápido e confiável, que permita identificar precocemente os RN com sepsis. Foi desenvolvido e testado com sucesso um "screen" para diagnóstico, envolvendo 4 exames hematológicos, para diferenciar os RN com sepsis daqueles não infectados. Os exames hematológicos usados para "screen" são os seguintes: Leucócitos < 5.000 / mm 3 ou > 20.000 / mm 3 Índice Neutrofílico ( IN ) > 0,2 Índice Neutrofílico = percentual de formas imaturas percentual total de neutrófilos Proteína C reativa positiva (>0,8 mg/dl) Velocidade de eritrossedimentação(vsh) > 15mm

Este "screen" é considerado positivo quando 2 ou mais exames apresentam valores anormais. Pode ocorrer meningite em até 30% dos RN com sepsis neonatal. Os sintomas e sinais neurológicos são pouco específicos, sendo essencial a realização do LCR para estabelecer o diagnóstico de meningite e determinar a duração do tratamento. Quando não for possível fazer o LCR, tratar a criança como se tivesse meningite. 5. TRATAMENTO Deve ser iniciado quando o RN apresentar: sinais clínicos evidentes de infecção sinais prováveis de infecção com baixo peso ou asfixia sinais prováveis de infecção e bacteriologia e/ou "screen" positivo. O tratamento do RN com suspeita de sepsis ou meningite deverá ser iniciado logo após a coleta de sangue para hemocultura e LCR. Não se deve esperar os resultados dessas culturas para começar o tratamento, deve-se iniciá-lo com base em dados epidemiológicos. Os agentes etiológicos mais freqüentes nas infecções neonatais são: Bacilos entéricos Gram negativos (especialmente a Escherichia coli) Streptococcus do grupo B Lysteria monocytogenes A terapia deve incluir a combinação de antimicrobianos e cuidados de suporte (Quadro 1 e 2). Os antibióticos mais utilizados são penicilina e aminoglicosídeo. Quando há comprometimento meníngeo ou impossibilidade de se fazer LCR, usa-se ampicilina e aminoglicosídeo. O tratamento inicial das crianças com suspeita de infecção hospitalar deve cobrir os patógenos acima mencionados, juntamente com os adquiridos em hospitais. Os agentes etiológicos mais freqüentes são os germes gram negativos (Klebsiella e Pseudomonas) ou os Staphylococcus aureus. Quando o microorganismo for isolado nas culturas, a antibioticoterapia deverá ser ajustada de acordo com a sensibilidade do antibiograma e a evolução clínica do paciente.

Em caso de infecção comprovada o tratamento deverá ser mantido por 10 a 14 dias nos RN sem meningite e 14 a 21 dias quando houver comprometimento meníngeo. Quadro 1. Tratamento antibiótico ANTIBIOTICOTERAPIA SEM MENINGITE COM MENINGITE PENICILINA CRISTALINA AMPICILINA (100.000 U/kg/dia IV ou IM de 6/6 ou 8/8 h)* (200 mg/kg/dia IV 6/6 ou 8/8h)**** GENTAMICINA GENTAMICINA 5 mg/kg/dia IM ou IV cada 12 h** (5 mg/kg/dia IV cada 12 h) CEFALOTINA OU AMPICILINA (100 mg/kg/dia cada 6-8 h)* (200mg/kg/dia IV 6-8 h) AMICACINA CEFOTAXIMA (15 mg/kg/dia cada 8-12 h)*** (100mg/kg/dia 6/6 h) * Cada 12 horas na primeira semana de vida ** 3 mg/kg/dia para < 2 Kg a cada 24 horas na primeira semana de vida *** 10 mg/kg/dia para < 2 Kg cada 24 horas na primeira semana de vida **** 100 mg/kg/dia para < 2 Kg cada 12 horas na primeira semana de vida Quadro 2. Cuidados de suporte - SUPORTE NUTRICIONAL - AMBIENTE AQUECIDO - MONITORAMENTO DAS CONDIÇÕES CLÍNICAS - OXIGENIOTERAPIA

6. PREVENÇÃO DE INFECÇÃO PERINATAL Sabendo-se que os RN adquirem facilmente infecção, rotinas rigorosas de higiene deverão ser estabelecidas e praticadas nos alojamentos conjuntos e nas unidades neonatais. A FONTE MAIS PERIGOSA DE INFECÇÃO PARA O RN SÃO AS MÃOS DOS PROFISSIONAIS. A lavagem das mãos é o método mais importante na prevenção das infecções. Os profissionais devem lavar as mãos antes e após a execução de cada tarefa, seja ela suja ou limpa. A SEPARAÇÃO MÃE-FILHO NUNCA DEVE SER INDICADA COM OBJETIVO DE EVITAR INFECÇÃO. Apenas uma criança deverá ser colocada na incubadora ou berço, para evitar a infecção cruzada. O alojamento conjunto ou o método Canguru, mantendo mãe-filho juntos, são os mais indicados ao invés de mantê-los separados. O ciclo entero mamário da amamentação permite a formação pela mãe de anticorpos contra as bactérias do meio ambiente. Estes anticorpos vão ser fornecidos ao RN que está recebendo o leite da sua mãe. Evitar métodos invasivos: evitar aspiradores ou nebulizadores, a menos que seja necessário. Quando usá-los fazer aspiração cuidadosamente e por curtos períodos. Mantê-los limpos com troca de sondas e limpeza dos recipientes pelo menos a cada 24 horas. não usar tubo endotraqueal sem necessidade - usar capacetes, máscaras, CPAP nasal. não usar catéter endovenoso ou intra-arterial sem necessidade. O sistema de umidificação das incubadoras implica em risco de contaminação. Por isso a água deve ser retirada e substituída com regularidade. As incubadoras devem ser limpas com água e sabão, a cada 3 dias de uso. Os instrumentos usados, tais como pinças, tesouras, tubos e máscaras devem ser lavados cuidadosamente, colocados em solução degermante ou esterilizados em auto-clave. Na ausência de autoclave esterilizar dentro da água fervente durante 30 minutos após a ebulição, antes de usar.

Algumas práticas tradicionais, tais como embrulhar o bebê como um rolo, comum em alguns países, devem ser evitadas porque aumenta o risco de infecção, reduz a estimulação do bebê e limita seus movimentos. Além disso, aumenta o risco da "Síndrome de Morte Súbita" em crianças embrulhadas dormindo em decúbito ventral. Com estas regras simples, muitas infecções perinatais podem ser evitadas.