Exército adquire Gepard 1A2 Antiaéreo



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Transcrição:

Exército adquire Gepard 1A2 Antiaéreo Mais uma compra de ocasião e outro erro estratégico Conforme publicado no Boletim do Exército 11/2013, de 15 de março de 2013, o Exército Brasileiro através da Portaria n٥ 31, de 7 de março de 2013, aprovou a Diretriz para aquisição e implantação do Sistema Antiaéreo Gepard, dentro do Projeto Estratégico do Exército - Defesa Antiaérea, onde foi adquirido 34 viaturas antiaéreas Gepard 1A2, duas unidades de viatura socorro, três simuladores completos, um torre didática, ferramental e muito provavelmente mais algumas unidades para canibalização, como feito na compra dos Leopard 1 A5 que atualmente equipam nossas unidades de carros de combate. O motivo para esta aquisição se deve aos grandes eventos que ocorrerão no país como: Jornada Mundial da Juventude de 2013; a Copa das Confederações FIFA de 2013; a Copa do Mundo FIFA de 2014 e os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, e sua justificativa foi: (...) 1 - O Sistema AAe GEPARD integra o Sistema Operacional DA Ae para emprego na faixa de Bx Altu (até 3000 m), realizando a Defesa Antiaérea da Força Terrestre, bem como contribuir para a proteção das estruturas estratégicas terrestres brasileiras e áreas sensíveis, cuja ameaça aérea inclui, entre outros tipos de vetores, as aeronaves de ataque ao solo, caças-bombardeiros, helicópteros, veículos aéreos não-tripulados (VANT), mísseis (Msl) balísticos e de cruzeiro, foguetes e morteiros. (...) 4 - O Sistema AAe GEPARD 1A2, modernizado há cerca de três anos, dentro de um cenário que o manteria empregado até 2030, foi projetado para proteger as unidades LEOPARD. Um dos principais objetivos durante o desenvolvimento do GEPARD, além do seu desempenho em combater alvos aéreos, foi obter um ajuste perfeito com as tropas blindadas equipadas com o LEOPARD 1 e LEOPARD 2.

Cronograma publicado no BE 11/2013, pag. 19 para implantação do Projeto Gepard no Exército Na verdade trata-se de mais uma compra de ocasião, a qual deverá ser realizada nos mesmos moldes do contrato assinado entre a União (Governo Brasileiro) através do Comando Logístico e a Krauss Maffei-Wegman GmbH & KG da Alemanha, cujo valor ainda não foi divulgado. Sem dúvida um excelente negócio para os alemães que nos vendem por preços módicos seus equipamentos de segunda mão, fora de uso por lá, e fazem contratos de manutenção várias vezes superiores ao valor de compra por prazo renovável de cinco em cinco anos, criando desta forma a terrível dependência, visto que não nos agrega nenhuma transferência tecnológica de médio e longo prazo, tornandonos meros usuários destes equipamentos. Capa do catálogo da KMW mostrando do Gepard B-2 do Exército Alemão. (Crédito da foto: Coleção do autor)

O curioso é que em nosso passado não muito distante, existiu a possibilidade de produzirmos canhões antiaéreos Oerlikon nos calibres de 20 e 35 mm, num ritmo de sessenta unidades para o modelo 20 mm e 16 unidades para o modelo 35 mm por ano, além de seus sobressalentes, curiosamente o mesmo modelo 35 mm que equipa os Gepard que estão sendo adquiridos. As negociações para a instalação de uma empresa associada com a Oerlikon Italiana, no país, iniciaram-se em 1975 e o programa que previa a sua implantação surgiu em dezembro de 1978, visto que meses antes havíamos adquirido na Suíça, 18 canhões antiaéreos automáticos Oerlikon tipo 2 Zla/353, além dos equipamentos complementares como geradores elétricos, radares de busca LPD-20 e as unidades de tiro Super-Fledermaus, ao custo de três milhões de dólares para cada conjunto de canhões, os quais foram equipar unidades de artilharia antiaérea no Rio de Janeiro, São Paulo e Caxias do Sul. Estes canhões ainda se encontram operacionais na atualidade. Para isto, na época a empresa responsável pela produção e comercialização, que visava atender o mercado nacional (Exército e Marinha), bem como a exportação para países da América do Sul e Central, África Equatorial e países produtores de petróleo como Argélia, Iran, Iraque e Líbia, seria a Indústria Mecânica de Sistemas do Brasil (I.M.S. do Brasil), em parceria com a Fábrica de Artefatos Metálicos Ltda (FAM) que previa a construção de uma unidade fabril da IMS em Curitiba PR, gerando de imediato 172 empregos diretos. Participaria também desta associação a IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil), criada há pouco tempo, e um grupo de financiamento brasileiro, o qual não chegou a ser divulgado. Previa-se que o índice de nacionalização inicial seria de 30% e ao fim de quatro anos chegaria aos 100%, para os canhões e sua eletrônica na casa de 80% ao fim de oito anos, conforme consta dos documentos elaborados à época. Foto da maquete da futura IMS do Brasil em Curitiba, PR, onde seriam fabricados os canhões Oerlikon de 20 e 35 mm, conforme documentação apresentada em 1978. (Foto: Coleção autor)

Capa do catálogo da Oerlikon Italiana onde podemos ver os canhões de 20 e 35 mm em diversas versões, inclusive sobre o Gepard. (Coleção do autor) Cronograma da futura produção da IMS do Brasil, prevendo 300 canhões de 20mm e 50 baterias de 35mm além de sobressalentes. (Arquivo do autor)

Layout da linha de produção da futura fábrica da IMS do Brasil, e, Curitiba, PR. (Arquivo autor) Fica aqui o registro de que precisamos aprender e entender o nosso passado, pois ele pode nos mostrar como é importante desenvolvermos e mantermos uma indústria de material de defesa, evitando cometer erros reincidentes, os quais têm sido frequentes. Estas lições se bem compreendidas podem nos colocar em um patamar muito melhor do que termos ao adquirir material de segunda mão, ultrapassado, o que não nos dará uma independência quanto ao seu uso, emprego e deslocamentos em nosso vasto território, pois terão limitações impostas pelos contratos, o que é preocupante. Vale ainda ressaltar que em 1977, adquirimos da então República Federal da Alemanha (RFA), quatro baterias do sistema antiaéreo Marder Roland II, sendo o terceiro país a adquirir este sistema, os outros dois foram os França e a RFA, fabricantes do mesmo, e nos anos de 1990 foram abandonados, viraram alvos e peça de museu, sem qualquer transferência tecnológica, muito embora tenhamos tentado fazer um Shelter que usava sua torre, mas que redundou num grande fracasso.

Um país que chegou a possuir uma Indústria de Defesa, num passado não muito distante, que conseguiu desenvolver modelos de veículos blindados, sobre rodas, inclusive alguns para exportação, além de vários protótipos sobre lagartas, deveria investir mais em sua capacidade industrial e num projeto de médio e longo prazo para se desenvolver unidades antiaéreas, cuja criação data de 1938, visto que temos um knowhow numa área de artilharia de saturação de área, com capacidade para desenvolvermos um sistema antiaéreo com canhões ou mísseis, com empresas capacitadas a darem o resultado que tantos almejamos, mas, infelizmente compras de ocasião apenas nos distanciam cada vez mais em desenvolvermos produtos com alto grau de nacionalização, gerando empregos e conhecimento por aqui. Até quando?