Visita à Serra do Marão



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Transcrição:

UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO Engenharia Florestal DESENVOLVIMENTO RURAL Prof. José Portela Visita à Serra do Marão Os Gaivotas Ana Furtado 27838 Carlos Marinho 27839 Célia Lemos 27841 Isabel Rebelo 32237 João Costa 32239 Vila Real, Março 2010 1

1. Subida ao alto da serra No dia 8 de Março de 2010, o curso de Engenharia Florestal da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro dirigiu-se à Serra do Marão no Distrito do Porto para aí, guiados pelo Engenheiro Luís Corte Real ficarem a conhecer melhor a realidade de alguns baldios da serra. Para começar, enquanto nos dirigíamos da Pousada do Marão, local de encontro para o Alto da Serra ficamos a saber que em 1985, um grande incêndio destruiu cerca de 2600 há de floresta, sendo que conseguiram ser preservadas as linhas de água. Posteriormente, efectuou-se uma reflorestação da serra em 1991 mas que foi executada com diversos erros, pois embora fosse dada preferência a folhosas como o carvalho, os viveiros de Amarante, na falta de exemplares desta espécie forneciam pinheiro-bravo, pelo que na actualidade muito pouco resta do que foi plantado. Alcançamos então a área que íamos observar, localizada entre os 1300 e 1400m de altitude, onde podemos observar, ao longe, junto à Ribeira do Ramalhoso, a existência de limites de parcelas de fogo controlado, com o intuito de poder combater os incêndios mais facilmente. Ficamos também a saber que, existiu um projecto de reflorestação chamado Bacia do Ramalhoso que teve que ser re-reflorestado numa extensão de 600ha, pois durante um incêndio as árvores foram confundidas com mato pelos bombeiros, que decidiram deixar arder. Soubemos também que o incêndio de 1985 foi causado por pastores de um rebanho comunitário e que um outro incêndio que ocorreu na serra do Marão foi causado pela queda de uma avioneta, tendo sido arborizados 300ha de floresta pelo estado e pela comissão de baldios. 2. Baldio de Ansiães De seguida o Prof. Miranda, Presidente do conselho directivo do baldio de Anciães, contou-nos que em 1903 foi criado o regime florestal e que em 1916 a Serra do Marão foi sujeita ao Regime de Baldios do Estado. Foi efectuado um projecto de arborização da Serra do Marão no ano de 1938 e, após o 25 de Abril de 1974 os Baldios 2

foram devolvidos às pessoas, criando-se depois assembleias de compartes (órgão deliberativo), um conjunto de habitantes que usufruem e são responsáveis pela gestão do espaço do baldio, podendo esta gestão ser realizada pela assembleia sozinha ou com o apoio do estado. Sendo que existem mais dois órgãos, o conselho directivo responsável pela gestão, e o conselho fiscal, responsável por fiscalizar as contas do baldio. Relativamente ao baldio de Anciães, conta com uma equipa de sapadores que funciona já à 10 anos, e cujas despesas anuais rondam os 70\75 mil, sendo comparticipados com cerca de 35 mil provenientes do estado, e que cobrem uma área de 2500ha. O Sr. Gonçalves, Presidente da Junta de Freguesia de Aboadela, alertou-nos para o facto de, algumas vezes as funções do conselho directivo são passadas para a Junta de Freguesia, mas que, toda e qualquer decisão que necessite de ser tomada, tem que ter parecer positivo por parte da Assembleia de Compartes, como no caso do baldio de Aboadela, cuja gestão foi passada para a junta de freguesia no ano de 1980. Embora que algumas vezes a gestão do baldio pela comunidade é substituído pela junta de freguesia, que no entanto nunca poderá misturar a contabilidade da junta com a contabilidade do baldio, facto que muitas vezes não se verifica. Aquando do Programa Regional de Ordenamento Florestal, a floresta do Marão foi considerada floresta modelo, sendo constituída por 6-8 baldios que no seu total perfaziam uma área contígua de 8000ha, guardadas por cerca de 10-12 casas de guarda florestais, e onde se tentou criar um agrupamento dos baldios, mas que não resultou pois não houve apoio do estado, que após irregularidades nas contas de alguns baldios deixou de pagar os subsídios. No baldio de Anciães podemos observar, operações de arborização com Pinus nigra, suportadas pelo Baldio de Ansiães e executadas pelos sapadores e por trabalhadoras da localidade (fig.1), que apesar do frio intenso que se fazia sentir trabalhavam arduamente, pois são pessoas que estavam desempregadas e que aproveitavam estes trabalhos para o baldio para ter alguma fonte de rendimento. A este propósito alertava-nos o Prof. Miranda, para a sua visão de que o Baldio deve funcionar como pólo de desenvolvimento da localidade, que pode actuar como fixador das pessoas na região que sofre com a desertificação. De forma a combater incêndios existem algumas equipas a vigiar constantemente os baldios e que em situação de incêndio, lançam o alerta e são os 3

primeiros a combater os fogos, sendo que o baldio de Anciães é capaz de assegurar um técnico que dá apoio à sua equipa. Figura 1 Durante parte da visita podemos observar que a gestão dos Baldios não é consensual, existindo por vezes discordâncias sobre alguns aspectos entre o Prof. José Portela e o Prof. Miranda e o Eng. Corte Real. Num caso em concreto, o Prof. Portela, dava como exemplo a decisão por parte dos baldios de permitirem os aerogeradores, sendo que este discordava que está decisão deve-se ter sido tomada apenas pelos Compartes dos Baldios, mas sim deveria também ser pedida opinião em referendo a nível nacional sobre a presença de aerogeradores na serra. Sendo de referir que o caso dos aerogeradores foi apenas um exemplo, que nos pareceu na nossa opinião, mais com o objectivo de questionar se, será correcto que determinadas decisões sejam tomadas apenas pelo grupo restrito que é composto pelos compartes ou se por outro lado certo tipo de decisões devam ser tomadas a nível nacional através por exemplo de um referendo. Para concluir está parte da visita, foi-nos deixada a ideia de que os baldios necessitam de se unir para poderem evoluir e que o estado tem abandonado muito os baldios, pois as suas principais receitas são contratos de venda e aluguer relativos a aerogeradores e torres de telecomunicações, e alguns casos, madeira, sendo que a venda é feita pelo estado e parte do valor da venda revertem para o estado. 4

3. Visita ao viveiro das trutas Em seguida descolamo-nos, para os viveiros das trutas do Marão, onde podemos observar as diferentes fases de crescimento das trutas, desde a fase da colecta dos ovos das trutas, até a fase juvenil e adulta, sendo que durante as diversas fases as trutas vão passando por diferentes tanques. Os viveiros têm grande importância para a região norte, pois é destes viveiros estatais que parte a maioria das trutas para repovoamentos, são utilizadas duas espécies de trutas a Truta Arco-íris, que é uma espécie exótica sem capacidade de reprodução nos nossos rios, cujo objectivo nos repovoamentos é fomentar a pesca e a Truta-Fário, que é uma espécie autóctone. Figura 2 Viveiro das trutas. 4. Minas de Volfrâmio Após a visita ao viveiro das trutas, deslocamo-nos cerca de 1,5 Km a pé, para observação da localização das antigas instalações dos mineiros, que em tempos acolheram mais de cem trabalhadores. Aí podemos observar uma bela queda de água rara por ali. Em tempos estas minas foram uma fonte de rendimento de grande importância para a região que tiveram o seu auge nos anos sessenta. 5

Figura 3- Ex-instalações dos trabalhores mineiros. 5. Casa do gelo Após a paragem para o almoço no parque de merendas, fizemos uma caminhada até à antiga casa do gelo. Neste local era armazenada a neve que era compactada para formar gelo. O gelo ali se mantinha até ser cortado e transportado em épocas mais quentes para outros locais. Figura 4 Casa do gelo 6

6. Regresso Após uma longa caminhada pela serra, voltamos ao local de encontro onde, após negociação do professor, conseguimos a entrada na pousada do Marão, onde podemos descansar um pouco e ouvir a engenheira Mafalda que nos explicou alguns dos problemas com que se depara no seu trabalho na Câmara Municipal de Amarante. Entre outras questões, foi-lhe perguntado como lidava com a situação dos jipes que invadem a serra, como lida com o pastoreio e os pastores. Em resposta a engenheira no caso dos jipes que invadem a serra contactou as autoridades (GNR) para o controlo deste problema tendo também alertado certos grupos amigos do ambiente, para vigiarem e alertarem essas pessoas para um uso ecológico do espaço da serra. Houve um pequeno debate sobre o não cumprimento de regras do baldio, como por exemplo o abate de árvores em que o professor Portela alertava para o facto de tem que se impor responsabilidades (coimas ou acção jurídica) sobre os infractores. 7